No início de 2004, Tarso Genro e Fernando Haddad participaram de uma reunião de movimentos sociais do campo e de movimentos negros, temerosos de perder o espaço conquistado na gestão de Cristovam Buarque e demandantes de um lugar de maior poder no MEC, para além da Secretaria de Inclusão Educacional e do Programa Diversidade na Universidade (PDU). É proposta a criação de uma nova Secretaria.
Tarso e Haddad sentaram e ouviram os movimentos. Os movimentos colocaram que a agenda não avançaria em uma Secretaria genérica, universalista, de inclusão. O MEC estava sendo questionado pelos movimentos até que ponto suas agendas cabiam ou não cabiam na estrutura do Ministério. Fruto da reunião, Tarso aceitou criar uma nova Secretaria (depoimento de Miguel Arroyo, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais).
A formulação e a coordenação da nova unidade administrativa couberam a Ricardo Henriques23, economista e pesquisador da Universidade Federal Fluminense
22 O ministro Cristovam Buarque foi demitido pelo Presidente Lula em 23 de janeiro de 2004. Segundo a
imprensa e os diálogos com integrantes da equipe do MEC decorrentes da minha atuação junto ao Ministério a partir do lugar de coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a decisão presidencial decorreu da avaliação de que o então ministro apresentava dificuldades para gerir o Ministério e do entendimento de que a Reforma Universitária demandava uma liderança não vinculada ao mundo acadêmico.
23 Especialista em economia social, Ricardo Henriques foi pesquisador do Ipea entre 1997 e 2002 e
coordenador de Desenvolvimento Humano do governo Benedita da Silva (PT) em 2002. Integrou a delegação oficial do governo brasileiro na III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em 2001, em Durban, África do Sul. Em 2003, no primeiro ano do governo Lula, assumiu a Secretaria Executiva do Ministério de Assistência e Promoção Social a convite da ministra Benedita da Silva. Em 2004, participou da equipe de formulação e assumiu a coordenação da Secad/MEC. Entre 2007 e 2010, foi assessor da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em 2010, assumiu a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, a Presidência do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. Atualmente, é superintendente do Instituto Unibanco.
151 (UFF), referência em pesquisas sobre desigualdades raciais na educação e que, na condição de pesquisador do Ipea, integrou a delegação brasileira para a Conferência de Durban. Ricardo permaneceria na liderança da Secad até julho de 2007, sendo sucedido por André Lázaro24, então secretário executivo adjunto do MEC. Ex-pró-reitor
de extensão da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Lázaro foi grande parceiro de Ricardo Henriques na criação da Secad, da qual exerceu a direção de Desenvolvimento e Articulação Institucional entre 2004 e 2006.
Nas discussões com movimentos sociais para a criação da nova Secretaria – que envolviam também a busca do convencimento desses movimentos de que valia à pena a aposta em uma nova Secretaria com todas essas agendas juntas como fator de fortalecimento no MEC –, a noção de inclusão educacional voltou a ser duramente criticada pelos movimentos de educação indígena. Naquele momento, a agenda de educação indígena se localizava na Secretaria de Ensino Fundamental.
Nas últimas duas décadas, de um modo assim muito particular, muito forte, muito consistente, com bons argumentos conceituais e políticos, os povos indígenas expressaram que não há interesse nessa ideia de inclusão. Trabalhamos com a ideia de reconhecimento dos nossos direitos de sermos diferentes, do nosso direito a uma educação diferenciada. (...) No começo da Secad, isso foi bem compreendido, como fruto de um diálogo, de uma discussão (...). Nos últimos anos, se a gente pega os programas que existem, muito pouco trata disso concretamente. As políticas têm ido à direção da inclusão (...) e, para nós, a inclusão é entendida como enquadramento (depoimento de Gersem Baniwa, ativista e pesquisador indígena, professor da Universidade Federal do Amazonas, coordenador de educação indígena da Secad entre 2006 e 2011).
Naquela semana, em 2004, estava havendo uma reunião da Educação Escolar Indígena. Fomos eu e o Ricardo para essa reunião com lideranças indígenas. (...) E aí uma liderança indígena disse: “Olha, primeiro essa Secretaria está meio estranha, porque é muita coisa diferente dentro; segundo, se for inclusão educacional, nós estamos fora, porque nós não queremos ser incluídos”.
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André Lázaro é graduado em letras e mestre e doutor em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi pró-reitor de Extensão da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Entre 2004 e 2006, foi diretor de Articulação Institucional da Secad. Em março de 2006, assumiu a Secretaria Executiva Adjunta do MEC na gestão do ministro Tarso Genro. Entre 2007 e 2010, exerceu a direção da Secad. Em janeiro de 2011, assume a Secretaria Executiva da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, vinculada à Presidência da República. Em junho de 2011, pede demissão após a revelação na imprensa de erros em materiais didáticos destinados a escolas do campo, impressos na época de sua gestão na Secad/MEC. Atualmente, é professor da Uerj e pesquisador internacional da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
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Foi muito interessante esse enfrentamento político, porque mostrou a complexidade daquele processo, o que ele anunciava e a delicadeza que ele exigia de nós. E que não adiantava vir com aquele entusiasmo messiânico, que qualquer um que passa a vida envolvido com a educação, quando chega a um cargo de governo federal, com mais condições de trabalho, é inevitável você achar que agora vai, agora vamos. (...) Então, a gente criou esse conceito ao perceber que não podia falar de inclusão. O próprio Ricardo sugeriu a ideia de diversidade como um termo para a Secretaria, e a gente acabou criando assim (depoimento de André Lázaro, coordenador de desenvolvimento e articulação institucional da Secad entre 2004 e 2006 e dirigente da Secad entre 2007e 2010).
É importante lembrar que a noção de “diversidade”25 já vinha sendo usada no
MEC pelo Programa Diversidade na Universidade, criado em 2002, durante o governo FHC, como desdobramento da Conferência de Durban, como abordamos no capítulo anterior. Contudo, o uso desse termo estava circunscrito às questões étnico-raciais, ligadas à atuação dos movimentos negros e indígenas. A inovação que a Secad trazia naquele momento era o uso da noção de “diversidade” em um sentido amplo, como um grande “guarda-chuva”, envolvendo nove agendas que se relacionavam com a ideia de diversidade sob diferentes perspectivas e conflitos, como veremos a seguir.