Em maio de 2005, explodiu na mídia o chamado Mensalão, escândalo de corrupção política com base em denúncias de compra de votos de parlamentares da
175 base aliada do governo federal no Congresso Nacional. Em 11 de abril de 2006, a Procuradoria Geral da República apresentou denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) acusando integrantes do governo, do Partido dos Trabalhadores e de outros partidos por crimes como formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta e evasão de divisas. O STF acolheu a denúncia, e assim tiveram início a apreciação e o julgamento da Ação Penal 470. O Mensalão abalou profundamente o governo federal, levando o ministro Tarso Genro40 a deixar o
MEC e também impactou a equipe da Secad.
Num certo momento da crise, eu me lembro que houve uma reunião com o staff lá da Secad, e ficou muito claro que a gente tinha que fazer uma determinada defesa (do governo). Por outro lado, a alfabetização virou o grande programa da Secad. Então, toda aquela dinâmica interna de discussão, de sentar, por exemplo, de ficar debatendo, de brigar um com o outro ali, entre aspas, para a estruturação da polírica interna, isso foi se perdendo, e eu acho que com isso você teve uma coisa meio monstruosa. Na verdade, você tinha um desenho muito interessante para fazer a política. Durante algum tempo, houve uma sensibilidade forte no interior do Ministério, especialmente do ministro e do gabinete, para a importância da política, mas eu acho que a conjuntura política fez com que houvesse mudanças no encaminhamento que vinha sendo dado (depoimento de Valter Silvério).
Com o agravamento da crise do Mensalão, o PT e o governo tiveram que correr atrás do PMDB. Aí, as nossas agendas começam a sofrer. É aquela coisa de ter que entrar todo mundo, qualquer coisa... Então, crescem agendas totalmente contraditórias nos Ministérios (depoimento de Rogério Junqueira, pesquisador do Inep e ex-coordenador do Programa Brasil Sem Homofobia no MEC).
Em 2005, o Ministério da Educação mais do que triplicou a dotação orçamentária do Programa Brasil Alfabetizado, constituindo-se o maior programa da Secad. Um ano depois, no contexto de debate eleitoral, foram divulgadas na imprensa denúncias de irregularidades referentes ao Programa, que chamaram atenção para a existência de salas “fantasmas” de alfabetização e para a falta de pagamentos de
40 Em 2005, Tarso Genro deixou o MEC e assumiu a presidência nacional do PT, defendendo um
processo de refundação do Partido após as denúncias do Mensalão. Com outras lideranças do Partido, fundou o campo partidário Mensagem ao Partido, que reúne integrantes de tendências internas e petistas independentes. O último ato do ministro antes de sair do MEC foi o envio ao Congresso do anteprojeto de lei da Reforma Universitária.
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educadores vinculados a determinadas organizações não governamentais que executavam as ações nos municípios.
Criado em 2003 e assumido pela Secad, quando esta incorporou as ações da Secretaria de Erradicação do Analfabetismo, o Programa Brasil Alfabetizado era implementado, na época, por meio de parcerias do governo federal com organizações não governamentais e prefeituras, responsáveis por criar salas de alfabetização com professores leigos ou vinculados às redes de ensino. Parte dessas organizações já integrava há anos os movimentos de alfabetização, que passavam a ser reconhecidos e apoiados como parte de uma política pública educacional.
É importante observar que o desenvolvimento de parcerias com organizações da sociedade civil, como parte de uma política descentralizada que alcançasse os segmentos da população excluídos das políticas educacionais, marcou a atuação da Secad nessa primeira fase de sua instituição, não somente no que se refere às políticas da EJA, mas também em relação aos demais eixos de trabalho.
Em 2006, o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública para denunciar irregularidades em um convênio de 491 mil reais assinado em 2005 pelo Ministério da Educação com a ONG Central Nacional Democrática Sindical (CNDS). Outras denúncias envolvendo repasses para organizações não governamentais e igrejas ganharam destaque e levaram o Ministério da Educação a abrir processo de sindicância interna e de auditoria, intensificar a fiscalização nos Estados e aperfeiçoar normativas e procedimentos de apresentação e apuração de denúncias.
Em 2007, em decorrência das investigações, o Programa Brasil Alfabetizado sofreu grande corte de recursos, passando à metade da verba de 2006. Somente 362,3 milhões de reais foram autorizados em orçamento, dos quais menos de 15% foram efetivamente aplicados. Com o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação, em maio de 2007, o Programa sofreu uma profunda alteração, passando a exigir que os professores estivessem vinculados às redes de ensino e suspendendo os convênios com organizações não governamentais.
Desde esse período, o Ministério da Educação suspendeu os seus convênios com organizações não governamentais em todas as áreas, organizações que enfrentaram – em seu conjunto – forte questionamento e desqualificação pública nos
177 meios de comunicação41, incluindo aquelas que há anos lutavam pela criação de um
marco legal das organizações da sociedade civil que contribuísse para a transparência da relação com o Estado e o fortalecimento dessas organizações, aquelas que pressionaram para que o marco legal fosse um compromisso de campanha eleitoral assumido por Lula em 2002. A partir de 2007, o Ministério da Educação passou a restringir suas parcerias quase exclusivamente a editais e convênios com prefeituras e universidades federais.
Apesar de alguns esforços de articulação interna, os documentos e as entrevistas realizadas para este estudo indicam que o grande investimento no Brasil Alfabetizado a partir de 2005 não foi desenvolvido na perspectiva de potencializar a natureza interseccional da Educação de Jovens e Adultos e mobilizar os vários eixos de atuação da Secad para uma abordagem integrada do desafio. Como se sabe, a EJA é um “lugar de encontro” de desigualdades, em que cerca de 70% do atendimento e da demanda potencial é constituída por pessoas negras. Essa modalidade atende a um público composto de jovens e adultos com deficiências, população LGBT, pessoas encarceradas, mulheres e homens de baixa renda, trabalhadoras e trabalhadores do campo, moradoras e moradores das grandes periferias e outros muitos excluídos e excluídas do sistema educacional (CARREIRA, 2014).
A importância de ter um departamento na Secad, e não mais uma coordenação perdida na Secretaria de Ensino Fundamental, na Secretaria de Educação Básica, foi uma conquista enorme. Na SEB, a EJA seria sempre uma coisa marginal. A Secad permitiu mais espaço para pensar, para construir uma política, para tentar articular a EJA aos seus públicos, aos seus segmentos (...). Em termos de proposta, a estratégia era brilhante, mas a implementação era muito mais complicada, considerando as dificuldades que há em estruturas burocráticas para se criar um diálogo real (...). A gente criou o curso “A EJA na diversidade” e convidou as outras diretorias para participar, mas, como cada diretoria tinha tantas pressões, tantas urgências, acho que a articulação maior entre as diretorias acabou se perdendo (...) (depoimento de Timothy Ireland, professor da Universidade Federal da Paraíba e diretor de Educação de Jovens e Adultos da Secad entre 2004 e 2007).
41 Depois de mais de duas décadas de discussões, a Lei n. 13.019, que estabelece o Marco Regulatório
das Organizações da Sociedade Civil, foi aprovada em julho de 2014 pelo Congresso Nacional e sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff. Sobre a história da construção do Marco Regulatório, que contou com o forte protagonismo da Abong, ver publicações Um novo Marco Legal para as ONGs no
Brasil: fortalecendo a cidadania e a participação democrática (2009) e Construindo uma sociedade civil autônoma e transparente (2014), disponíveis no site da Abong.
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1.9. Características do tempo de organização de agendas e fomento de campos