Do ponto de vista da atuação de movimentos, fóruns e organizações da sociedade civil brasileira, podemos identificar duas grandes perspectivas de ação, duas grandes frentes que visam às políticas públicas e à melhoria da qualidade educacional. Às vezes, essas perspectivas se mostram conflitantes e, muitas vezes, se combinam na atuação política de coletivos, movimentos e organizações da sociedade civil, partindo de uma mesma constatação: o não reconhecimento pleno no país do direito humano à educação para todos e todas. As duas perspectivas são:
a luta pela estruturação de políticas universais de educação como políticas de Estado, que quebrem a lógica da descontinuidade, com metas de médio e longo prazo, com financiamento adequado por meio do Custo Aluno-Qualidade (CAQ). Vinculada ao desafio da política de Estado, está a valorização efetiva dos profissionais de educação, envolvendo melhoria das condições salariais, das condições de trabalho e das condições de vida. Também estão: a criação do Sistema Nacional de Educação; a existência de um regime efetivo de colaboração entre os entes federados; o fortalecimento mais estrutural e revitalizante na gestão democrática (da escola às políticas, para que as vozes sejam ouvidas, para que a participação em seu sentido plural seja exercida); entre outras ações, como o maior investimento em formação e em políticas de avaliação para além das de alta escala. Em um país marcado pela descontinuidade e pelo insuficiente controle social das políticas sociais, por desigualdades estruturais, avançar rumo à política de Estado de educação significa um grande passo;
a segunda linha de atuação dos movimentos está pautada no lugar da diferença como desigualdade na educação. Essa agenda ascende com mais força no debate educacional a partir dos anos 2000 e vem sendo impulsionada por movimentos negros, indígenas, LGBT, mulheres, pessoas com deficiência, ambientalistas e outros vinculados a temas de fronteira do direito à educação. Esses movimentos apontam as insuficiências das atuais políticas universalistas quanto a dar conta dos desafios das múltiplas desigualdades. A situação educacional da população negra brasileira exemplifica esse limite ao revelar que, apesar da melhoria dos indicadores educacionais de brancos e negros
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nos últimos anos, o hiato racial no país se mantém estável (THEODORO, 2008; IPEA, 2011). Segundo Roseli Fischmann, esse hiato se ancora no “contrato racial”, como denunciado por Charles Mills, reiterado de forma tácita em sociedades que viveram a escravização de africanos:
Parte do contrato racial apela a argumentos universalistas para negar o reconhecimento de direitos aos que têm sido excluídos pelo racismo, invisibilizando sua presença com o manto da homogeneização, que nega a igualdade de todos; de fato, a igualdade deverá reconhecer cada um em sua singularidade, para compor de forma efetiva a pluralidade humana, base da democracia (FISCHMANN, 2008, p. 2).
Esses movimentos sociais também questionam os modelos hegemônicos de escolarização ainda referenciados na hegemonia do patriarcado, do eurocentrismo, da heteronormatividade etc. Eles tensionam as políticas de inclusão escolar como aquelas que preveem a inclusão dos diferentes em um modelo de escola que não reconhece e não valoriza a diversidade existente em um país multirracial, multiétnico, multicultural. Denunciam que tanto as políticas públicas como as escolas são espaços de reprodução, de acirramento, de resistência à mudança, mas também de transformação e de enfrentamento das desigualdades e das discriminações exercidas no ambiente escolar. Do ponto de vista das ações, buscam alargar e pluralizar o currículo e defendem ações afirmativas articuladas às políticas universais, visando à diminuição das desigualdades entre grupos da população.
Esses questionamentos disputam e reconfiguram a noção de qualidade na educação e vão além da ideia de criação de programas “específicos” para grupos discriminados, exigindo uma abordagem transversal que mexa nas concepções do que se entende por função social da escola, do que se entende por aprendizagens, por políticas destinadas à melhoria do desempenho escolar, por diagnóstico das causas dos diversos problemas e desafios educacionais, por políticas de formação e avaliação dos profissionais de educação e, entre outros, na forma como as políticas educacionais entendem as desigualdades e a diversidade na escola, conforme observa Nilma Lino Gomes:
O foco central são os sujeitos sociais, entendidos como cidadãos e sujeitos de direitos. Essa interpretação tem sido adensada do ponto de vista político e epistemológico pelos movimentos sociais ao enfatizarem que os sujeitos de direitos são também diversos em raça, etnia, credo, gênero, orientação sexual e idade, entre outros. Enfatizam, também, que essa diversidade tem sido
107 tratada de forma desigual e discriminatória ao longo dos séculos e ainda não foi devidamente equacionada pelas políticas de Estado, pelas escolas e seus currículos. Dessa forma, devido às pressões sociais, o entendimento da diversidade como construção social constituinte dos processos históricos, culturais, político, econômicos e educacionais e não mais vista como um “problema” começa a ter mais espaço na sociedade, nos fóruns políticos, nas teorias sociais e educacionais (GOMES, 2012, p. 688).
Muitos desses movimentos sociais tiveram ou têm a produção de diretrizes nacionais pelo Conselho Nacional de Educação, como marcos normativos nacionais para os sistemas educacionais, ponto importante de suas agendas, assim como a tramitação do novo Plano Nacional de Educação no Congresso Nacional como possibilidade de institucionalização de programas e planos de governo conquistados na última década, durante o primeiro e o segundo mandatos do governo Lula.
Com base nas reflexões sobre o contexto geral e educacional expostas aqui, visando responder ao que Bob Jessop (2009) destacou como condição para análise de políticas públicas – a necessidade de entender quais são os projetos em disputa no Estado –, entraremos a seguir com mais foco no debate sobre as políticas de diversidade na educação.