Na segunda metade dos anos 1990, o processo preparatório de Durban no Brasil foi precedido de importantes conquistas do movimento negro brasileiro, em que se destacou a realização, em 1995, da Marcha Nacional Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida. Entre outros pontos de uma agenda ampliada de cobrança de políticas públicas antirracistas, a Marcha destacou a importância das ações afirmativas e de mudanças curriculares na educação brasileira considerando a história e a cultura afro-brasileiras. Essas propostas retomavam muitos dos conteúdos dos projetos não aprovados do deputado federal negro Abdias do Nascimento, apresentados no começo da década de 1980 no Congresso Nacional (MOHELECKE, 2002).
Como decorrência da Marcha, o Presidente Fernando Henrique Cardoso instituiu, em 1995, o Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra, ligado ao Ministério da Justiça, com o objetivo de realizar pesquisas sobre as desigualdades raciais no Brasil e propor medidas de enfrentamento do problema, incluindo a implementação de políticas de ações afirmativas.
Na segunda metade dos anos 1990, um conjunto de documentos oficiais e de medidas governamentais ampliou o reconhecimento oficial do racismo institucionalizado no Estado e na sociedade brasileira. Entre eles, destacam-se o Programa Nacional de Direitos Humanos I (1995) e II (2002), a ratificação da Convenção n. 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da Discriminação no Emprego e na Profissão, a criação de programas de ação afirmativa para contratação de profissionais negros para o quadro de funcionários de diversos ministérios e para o Supremo Tribunal Federal, a criação de bolsas de estudos para estudantes negros e a criação do Programa Nacional de Ações Afirmativas (2002), destinado a ampliar a participação de negros, mulheres e pessoas com deficiência na administração federal.
125 Nesse período, vários projetos de lei que visavam tornar lei as ações afirmativas foram propostos e rejeitados no Congresso Nacional. Em decorrência de sua posição contrária às ações afirmativas, o Ministério da Educação – sob gestão de Paulo Renato, ex-reitor da Unicamp – não integrou o Plano Nacional de Ações Afirmativas.
Em abril de 2000, teve início o processo de preparação da Conferência de Durban no Brasil por parte de organizações da sociedade civil com a constituição de um Comitê Impulsor Pró-Conferência formado por lideranças do movimento negro e do movimento sindical, com o protagonismo forte de organizações de mulheres negras. Em 25 de abril daquele ano, essa instância apresentou ao Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial das Nações Unidas uma denúncia contra o Estado brasileiro pelo descumprimento e pela violação sistemática da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1967), resultante de ações diretas e de omissões na implementação de políticas públicas de combate ao racismo e à discriminação e de promoção da igualdade racial (CARNEIRO, 2005).
O Comitê também teve um papel fundamental na articulação com redes da sociedade civil de outros países e foi responsável pela constituição do Fórum Nacional de Entidades Negras para a III Conferência contra o Racismo, a partir do qual foi elaborado um documento das entidades negras sobre os efeitos do racismo no Brasil e foram formadas delegações para a participação no processo da Conferência Internacional.
Paralelamente, em setembro de 2000, foi instituído pela Presidência da República um Comitê Nacional13 para preparar a participação brasileira na
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Comitê Nacional Preparatório, estabelecido por Decreto Presidencial de 8/9/2000, foi presidido pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos, embaixador Gilberto Saboia, e teve a seguinte composição: I – Representantes do governo: a) Assessoria Especial do Gabinete da Presidência, Vilmar Evangelista Faria; b) Ministério das Relações Exteriores, ministro Hildebrando Tadeu Nascimento Valadares; c) Ministério da Educação, Carlos Alberto Ribeiro de Xavier; d) Ministério da Saúde, Cláudio Duarte da Fonseca; e) Ministério do Trabalho e Emprego, Maria Helena Gomes dos Santos; f) Ministério do Desenvolvimento Agrário, Sebastião Azevedo; g) Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, Ricardo Paes de Barros; h) Secretaria de Estado da Assistência Social, Maria Albanita Roberta de Lima, i) Conselho do Programa Comunidade Solidária, Teresa Lobo; j) Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Borges Martins; k) Instituto de Pesquisa em Relações Internacionais (Ipri), Conselho, Carlos Henrique Cardim; l) Fundação Cultural Palmares, Carlos Moura; l) Fundação Nacional do Índio, Glênio da Costa Alvarez. II – Representantes da sociedade civil: a) Reverendo Antonio Olimpio de Sant’Ana, Conselho Mundial de Igrejas; b) Azelene Inácio Kaingang, Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoibe); c) Benedita da Silva, vice-governadora do Estado do Rio de Janeiro; d) Cláudio Nascimento, diretor de Direitos Humanos da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis; e) Dom Gílio Felício, bispo auxiliar de Salvador; f) Hélio de Souza Santos, professor universitário e economista; g) Rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista; h) Ivete Alves do Sacramento, reitora da Universidade do Estado da Bahia; i) Ivanir dos Santos, presidente do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap); j) Roque de Barros Laraia, professor universitário e antropólogo; k) Sebastião Alves Rodríguez Manchinery, Coordenação das
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Conferência de Durban. Formado paritariamente por representantes do governo e da sociedade civil e coordenado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, o Comitê reuniu lideranças de organizações negras, indígenas, LGBT e defensoras da liberdade religiosa.
Como parte do processo de preparação, foram realizados três seminários regionais patrocinados pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e pelo Instituto de Pesquisa em Relações Internacionais, do Ministério das Relações Exteriores, e um programa de conferências temáticas, promovido pela Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura. O processo de preparação culminou com a realização da I Conferência Nacional contra o Racismo e a Intolerância, realizada no Rio de Janeiro entre 6 e 8 de julho de 2001. Participaram do evento cerca de 1.700 delegados e delegadas das várias regiões do país, que aprovaram um documento intilulado “Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Intolerância – Carta ao Rio”.
Como fruto dessas atividades, o Comitê Nacional elaborou um relatório com informações diagnósticas e propostas oficiais a serem defendidas pela delegação oficial brasileira na Conferência de Durban. As propostas vinculadas a seis segmentos da população foram: (1) Comunidades negras; (2) Povos indígenas; (3) Ciganos; (4) Homossexuais, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais; (5) Portadores de deficiência; (6) Migrantes e (7) Comunidade judaica. Além das propostas destinadas a melhorar as condições de vida da população negra, o documento reuniu demandas e propostas importantes de outros movimentos sociais do campo das diversidades e da sustentabilidade socioambiental, estimulando uma perspectiva interseccional com outras desigualdades e discriminações.
Como destacam Nina Almeida e Mariana Paladino (2012, p. 31), a Conferência Nacional preparatória para a de Durban proporcionou um espaço formal de identificação de pontos em comum de agendas de vários movimentos, entre eles: a condenação de todas as formas de discriminações que marcam a sociedade brasileira, o reconhecimento da existência do racismo como fenômeno com origem histórica, o papel fundamental do sistema de ensino em todos os níveis e da mídia na reprodução
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). III – Representante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, deputado Nelson Pellegrino. IV – Representante da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias da Câmara dos Deputados, deputada Ana Catarina. V – Representante do Ministério Público Federal, Maria Eliane Menezes de Faria. Os membros da sociedade civil Hédio Silva Junior (professor universitário e advogado) e Maria Stella de Azevedo Santos (ialorixá) solicitaram seu desligamento do Comitê.
127 das discriminações e a necessidade da adoção de políticas afirmativas que possibilitem a superação das práticas e das políticas socialmente discriminatórias.