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Dokuz Eylül Üniversitesi, T›p Fakültesi Ortopedi ve Travmatoloji AB Dal›, ‹zmir

Em seu recente livro Cartografias de la diáspora: identidades en cuestión (2011), com base na sua abordagem das diferenças, Avtar Brah propõe o conceito de espaço da diáspora como um lugar habitado não somente por sujeitos que se movem, mas por aqueles que são construídos e representados como autóctones.

Nesse lugar, as múltiplas modalidades de poder (classe social, gênero, raça, etnia, sexualidade, geração, origem nacional etc.) se enredam na experiência concreta e local dos sujeitos. Transitoriedade e mobilidade questionam análises binárias da realidade e das identidades. Brah propôs o conceito de espaço da diáspora também desafiada a encontrar caminhos teóricos que aportem novas contribuições para o debate das chamadas interseccionalidades.

Uma das questões que mobilizam o debate teórico sobre interseccionalidades é como ir além do mero reconhecimento da importância e da necessidade de relacionar gênero, classe, raça, etnia, orientação sexual, geração, nacionalidade etc. e avançar em abordagens que possibilitem captar e compreender a existência ou não de interações entre essas categoriais nos diferentes contextos.

Esse esforço está comprometido também em ir além da ideia da sobreposição de discriminações, presente em determinadas abordagens feministas, que se traduzem muitas vezes na simples adição dos efeitos isolados das discriminações sofridas por parcelas da população em decorrência do sexismo, do racismo, da lesbofobia/homofobia/transfobia, da xenofobia e de outras desigualdades e discriminações.

Em diálogos na disciplina ministrada na Faculdade de Educação da USP, a professora Marília de Carvalho4 apontou que, em determinadas situações e realidades,

talvez não se trate nem da mera sobreposição, mas da possibilidade de reconhecer a prevalênciai de uma delas (classe, gênero, raça, etc.) em um momento, situação ou

contexto vivido pelo sujeito. Em outro momento/contexto, a prevalência – o que há

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A professora Marília Pinto de Carvalho fez essa afirmação quando questionada por mim em aula da disciplina “Relações de Gênero e Educação Escolar”, ministrada por ela, no segundo semestre de 2011, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

67 mais em evidência no jogo das relações de poder – poderia ser outra. Entendo também que a prevalência poderia ser pensada tanto no que se refere ao fenômeno da discriminação negativa como também a algo no sentido positivo, vinculado às possibilidades para a agência do sujeito em realidades marcadas por relações desiguais de poder.

Essa compreensão dialoga com o conceito de não sincronia, que antecede à emergência, nos anos 1990, do debate sobre interseccionalidades e categorias de articulação. O conceito de não sincronia foi proposto pela feminista Emily Hicks (1981) e adotado em diversas análises pela pesquisadora Fúlvia Rosemberg.

No texto “Educação formal, mulheres e gênero no Brasil contemporâneo”, Rosemberg afirmou que o conceito de não sincronia vem contribuir para a superação de uma visão cumulativa das desigualdades e permite compreender o processo de não sincronia tanto entre elas como dos processos históricos de luta pela igualdade e pela superação de desigualdades, sejam elas de classe, gênero, raça, etnia, orientação sexual etc., ou seja, parte do entendimento de que essas lutas podem se encontrar em diferentes “estágios” de reconhecimento no plano social (ROSEMBERG, 2011). No plano da história de vida, possibilitaria compreender que as diferentes formas de desigualdades sociais não atingem as pessoas durante sua trajetória de vida da mesma forma e com a mesma intensidade, podendo variar ao longo do tempo. Em textos anteriores sobre educação infantil (ROSEMBERG, 1996) e ação afirmativa no ensino superior (ROSEMBERG, ANDRADE, 2008), Rosemberg já chamava a atenção para a possibilidade que o conceito de não sincronia abria de uma melhor apreensão do jogo de conflitos, tensões e contradições inter e intrainstitucionais observados entre hierarquias de gênero, raça e idade. A autora cita Emily Hicks: “Indivíduos (ou grupos), em suas relações com os sistemas políticos e econômicos, não compartilham da mesma consciência ou das mesmas necessidades no mesmo momento” (ROSEMBERG, 1996, p. 10; ROSEMBERG, ANDRADE, 2008, p. 434).

Rosemberg observou que a intersecção dessas relações pode levar a interrupções, descontinuidades, alterações ou incrementos do impacto original das dinâmicas de raça, classe ou gênero em determinado contexto social ou institucional. Alertou ainda que a busca pela superação de uma determinada desigualdade pode – muitas vezes – se apoiar na manutenção ou no acirramento de outras subordinações. Com base em muitas preocupações similares, vamos abordar a seguir o debate sobre interseccionalidades.

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2.3. Interseccionalidades

Em instigante artigo sobre as migrantes brasileiras no continente europeu, Adriana Piscitelli (2008) analisou o contexto e apresentou as principais perspectivas teóricas que marcaram o debate sobre interseccionalidades e categorias de articulação, denominações que são assumidas como sinônimas por determinadas autoras ou diferentes por outras, conforme as perspectivas teóricas. Ambas representam o esforço de captar as interações entre diferenças no marco das desigualdades.

A autora localizou nos anos 1990 a emergência do debate sobre interseccionalidade que “desaguaria” no lugar-chave que o conceito adquiriu nas discussões e nos documentos da Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em 2001 em Durban, África do Sul (BLACKWELL, NABER, 2002). Esse lugar-chave foi conquistado graças – sobretudo – à atuação de pesquisadoras feministas negras.

Na década de 1990, várias teóricas feministas, entre elas, Joan Scott e Judith Butler, com base nas diferentes perspectivas, avançaram na leitura crítica do conceito de gênero, problematizando modelos teóricos totalizantes e a compreensão da diferença que tem como referência um Outro exógeno, externo (PISCITELLI, 2008). Os trabalhos dessas teóricas apostaram em uma visão pulverizada de poder (constelações dispersas de relações desiguais, segundo Joan Scott), substituindo a ideia de um poder social unificado, coerente e centralizador.

Piscitelli observou, entretanto, que esses avanços teóricos em relação à abordagem do poder e das diferenças não chegaram a propor ferramentas analíticas que possibilitassem a compreensão das interações entre múltiplas diferenças. No máximo, a reflexão chegou a tratar da relação entre duas delas, sobretudo “gênero e classe” ou “gênero e sexualidade”.

Ao mesmo tempo, nos anos 1980 e 1990, a luta de movimentos de mulheres negras, mulheres lésbicas e de grupos feministas de países do Hemisfério Sul ganhou espaço nos movimentos feministas, trazendo novas agendas, denunciando omissões e vieses racistas, classistas e heteronormativos no feminismo, problematizando referências, apontando insuficiências teóricas e colocando a necessidade de novos olhares que captassem a complexidade da interação entre as diferenças em contextos específicos (HOOKS, 2004). Com base nesse caldo de acúmulos, pressões,

69 contradições e disputas, os debates sobre o conceito de interseccionalidade avançaram.

Piscitelli identificou a existência de diferentes perspectivas que utilizam o conceito de interseccionalidade para se referir à articulação entre diferenciações, variando em função de como são pensados a diferença, o poder e a margem de agência dos sujeitos diante de suas realidades.

A primeira abordagem foi a da teórica feminista negra Kimberlé Crenshaw, professora da Universidade da Califórnia, Estados Unidos. Nessa perspectiva, as interseccionalidades começaram a ser compreendidas como forma de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação. Tratariam também das formas como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo do tempo nesses eixos de discriminação, confluindo entre si e contribuindo para o desempoderamento dos sujeitos.

É importante destacar que a abordagem de Crenshaw retoma a ideia de patriarcado e de subordinação, mas por meio da compreensão de que gênero não é o único fator de discriminação. A autora se mostra mais preocupada com a situação das mulheres mais vulneráveis, mas aponta uma compreensão de gênero em que cabem as discriminações sofridas por homens, sobretudo aqueles que vivenciam os impactos das discriminações interseccionais.

No texto “Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero” (2002), observo que Crenshaw abordou o conceito de interseccionalidade do lugar de feminista negra e de ativista de direitos humanos, preocupada em ampliar as fronteiras do campo dos direitos humanos em relação às discriminações de gênero e raça. Para ela, nas décadas de 1980 e 1990, a questão de gênero havia conquistado avanços importantes na agenda de direitos humanos em função da luta feminista, pondo em questão uma agenda tradicionalmente centrada em violações a uma humanidade referenciada em um “homem universal”. Esses avanços se materializaram, sobretudo, nos documentos e nas recomendações da Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena, 1993), da Conferência Mundial das Mulheres (Pequim, 1995) e da Conferência Mundial sobre População e Desenvolvimento (Cairo, 1994).

Contudo, às vésperas da Conferência Mundial contra o Racismo, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas (Durban, 2011), Crenshaw avaliava que a agenda racial ainda sofria de grande resistência no campo de direitos humanos. Sobretudo as problemáticas que articulavam gênero, raça e outras intolerâncias correlatas,

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condenadas ao que ela denominou de “invisibilidade interseccional” ou, no máximo, subsumidas em uma agenda ampla de discriminação de gênero ou de discriminação racial.

Crenshaw também chamou a atenção para o fato de que todo esse quadro de invisibilidade se relaciona à ainda predominância de um enfoque de direitos humanos que privilegia os direitos civis e econômicos em detrimento dos direitos econômicos, sociais e culturais, mais sensíveis a captar violações invisibilizadas de gênero e raça. Com esse entendimento, não é à toa que o primeiro desafio colocado por Crenshaw em sua proposição de caminhos para a concretização de ferramentas analíticas de interseccionalidade foi a criação de um protocolo interseccional com base na produção sistemática de informações quantitativas e qualitativas que permitissem romper essa invisibilidade.

A autora enfatizou ainda que a análise contextual deve ser feita num movimento de baixo para cima (ou seja, partindo do cotidiano concreto dos sujeitos discriminados), mobilizando conhecimentos multidisciplinares. Crenshaw indicou também a proposta metodológica da teórica feminista Mari Matsuda como caminho para análise interseccional, baseada na ideia de “fazer outras perguntas” a problemáticas tradicionalmente abordadas por meio de perspectivas que privilegiam somente um fator de discriminação.

A autora concluiu o seu texto apresentando uma agenda de ação internacional para os movimentos feministas e os movimentos negros visando gerar avanços concretos na abordagem de gênero e raça e estimular a criação de instrumentos de direitos humanos que problematizem e incidam nas problemáticas interseccionais.

Um destaque da proposição da autora foi que toda a problemática interseccional deve ser vista não somente em relação às hierarquias internas dos contextos locais e nacionais, mas também com base nas relações desiguais de poder entre países do norte e países do sul. Uma determinada realidade que tenha como foco um ou mais fatores de discriminação, quando analisada com base nas relações entre norte e sul, pode permitir a identificação de outros fatores que incidem em determinadas realidades locais ou nacionais.

Com base na análise crítica realizada por Baukje Prins (2006), uma das limitações identificadas por Piscitelli na abordagem de interseccionalidade realizada por Crenshaw foi a fusão da ideia de diferença com a de desigualdade. Prins questiona o fato de gênero, raça e classe serem vistos somente como sistemas de dominação, opressão e marginalização que determinam identidades.

71 Vinculada a isso, a visão de poder alterna uma perspectiva foucaultiana, pulverizada nas relações sociais, e outra perspectiva que o toma como estrutura, sistema e propriedade de uns, e não como relação. Apesar da preocupação explícita com os processos de empoderamento dos grupos subordinados, o poder seria visto por Crenshaw mais em seu sentido repressivo do que como produtor de sujeitos. Dessa forma, a abordagem seria pouco sensível aos processos de resistência.

Já na abordagem construcionista do conceito de interseccionalidade, identificada por Prins (apud PISCITELLI), são destacados os aspectos dinâmicos e relacionais da identidade social. Com base na visão de poder de Gramsci, a noção de articulação é entendida como prática que estabelece uma relação entre elementos, de maneira que sua identidade se modifica como resultado da prática articulatória. Nessa abordagem, há uma distinção explícita entre categorias de diferenciação e sistemas de discriminação. As diferenças construídas socialmente não aparecem somente como fatores limitantes, mas como “algo a mais”, que oferece aos sujeitos recursos que possibilitam a ação.

Duas autoras se destacam nessa abordagem: a pesquisadora estadunidense Anne McKlintock e Avtar Brah, a teórica indiana abordada anteriormente. Sobre McKlintock:

(...) raça, gênero e classe não são âmbitos diferentes de experiência que existem isoladamente uns dos outros, nem podem ser simplesmente montados em conjunto como se fosse um lego. Essas categorias existem em e por meio das relações entre elas. Por esse motivo, são categorias articuladas. As categorias de diferenciação não são idênticas entre si, mas existem em relações íntimas, recíprocas e contraditórias. Nas encruzilhadas dessas contradições, é possível encontrar estratégias para a mudança (PRINS apud PISCITELLI, 2008).

Ao destacar, em sua proposta teórica, que as estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não podem ser tratadas como “variáveis independentes”, porque a opressão de cada uma está inscrita uma na outra, Brah (2006) propõe que as interconexões sejam abordadas mais como relações contextuais e contingentes a um determinado momento histórico. Uma das grandes inovações teóricas da autora é a proposição de abordar as interseccionalidades com base na categoria analítica de diferença, apresentada anteriormente.

Para Piscitelli, as diferenças entre as perspectivas teóricas que abordam a interseccionalidade e as categorias de articulação estão menos nos termos e mais nas

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concepções de diferença, poder e agencia que mobilizam. A experiência está no centro de todas elas, inclusive a de Avtar Brah, questionada por incluir outros eixos classificatórios da diferença para além da experiência dos sujeitos concretos em suas análises sobre as interseccionalidades.

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Benzer Belgeler