Esta subseção tratará de alguns tipos de contratos de balcão não organizados que não possuem registro em órgãos autorizados e nem na BBM. É importante esclarecer que existe uma vasta gama destes contratos e que neste estudo tratar-se-á apenas daqueles mais utilizados, isso porque existe uma grande dificuldade de se encontrar detalhes sobre contratos de balcão não organizados, já que eles são firmados entre as partes e na grande maioria das vezes suas informações não são divulgadas.
Geralmente, os contratos de balcão não organizado que não possuem registro na BBM, são aqueles firmados entres os produtores e as traders ou grandes empresas fornecedoras de insumos e são registrados em cartório, para que o contrato prevaleça contra terceiros, o que não garante o direito ao juízo arbitral, como no caso do registro na BBM. Neste tipo de contrato, se faz presente um risco inerente que advém do fato de não se ter nenhuma garantia formal atrelada ao negócio, o que obriga as partes, em caso de descumprimento do acordo, a recorrerem à justiça comum.
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Este sistema de registro tem a mesma natureza da Lei sancionada pela presidenta Dilma Roussef, que cria o Cadastro Positivo. Esta lei que entra em vigor em 1º de janeiro de 2013, regulamenta a criação de bancos de dados com informações dos consumidores bons pagadores, logo, quando uma empresa for conceder crédito a tal consumidor, ela pode consultar este cadastro. E as pessoas que estiverem com suas contas em dia, podem solicitar taxas de juros mais baratas.
Uma forma das traders ou empresas que realizam estas transações se protegerem é colher uma CPR de gaveta como contragarantia, porque em posse da mesma, em caso de não cumprimento do contrato por parte do produtor, pode-se fazer a penhora do produto. Lembrando que esta CPR também é registrada em cartório para prevalecer o penhor ou a hipoteca se for o caso. A maioria dos contratos de balcão não organizado é feita desta forma, excetuando os contratos de compra e venda de algodão em pluma que em sua maioria são registrados na BBM, como já foi visto. Segundo Machado (2012), existem grandes produtores que não aceitam entregar uma CPR como contragarantia, neste caso, uma forma de proteger ambas as partes seria registrar o contrato na BBM para se valer do juízo arbitral, mesmo porque a CPR utilizada como contragarantia só protege a trader.
Os produtores que firmam contratos de balcão não organizado de venda com traders ou outras empresas do setor agropecuário, utilizando uma CPR de gaveta como contra garantia, a fim de financiar sua produção, acabam comprometendo esta última para entrega futura. Porém, mesmo com sua produção vendida antecipadamente, ele ainda pode fazer contratos de cessões de crédito atrelados ao contrato de balcão não organizado realizado inicialmente. Segundo Machado (2012), estas cessões de crédito também são consideradas contratos de balcão não organizado, elas são utilizadas em sua maioria para obter insumos, como por exemplo, fertilizantes. Para isso o produtor cede para a empresa de insumos o direito de receber parte do dinheiro/crédito do contrato de balcão efetuado, por exemplo, com a trader, através da cessão de crédito de tal contrato, que também pode usar uma CPR de gaveta como contragarantia. Ainda segundo Machado (2012) pode existir mais de uma cessão de crédito para o mesmo contrato de balcão, isto porque o produtor pode necessitar de insumos em diferentes momentos da produção.
Também existem contratos de balcão não organizado que não são registrados na BBM e nem são vinculados à CPR de gaveta como forma de proteção, mas que utilizam como garantia hipoteca ou notas promissórias. Ainda de acordo com Machado (2012), dentre estas três modalidades de contrato de balcão não organizado, os contratos de soja, mais conhecidos como contratos de “soja verde” (estudados na subseção 4.1.2) são a maioria dentre aqueles que possuem uma CPR de gaveta como contragarantia. Já no que tange aos contratos de balcão não organizados de algodão em pluma, a maioria é registrada na BBM.
Contudo, viu-se aqui uma pequena explanação sobre como são estruturados os contratos de balcão não organizado que não possuem registro, além do realizado em cartório. Mostrou-se que as partes tentam se proteger, fazendo registro em cartórios, hipotecas, utilizando CPR’s de gaveta como contragarantia, ou notas promissórias como forma de se
resguardarem. Logo, tenta-se suprir a falta de um mecanismo mais seguro que mitigue o risco de crédito, com arranjos que não estão sob a supervisão da CVM.
5 DIFERENÇAS ENTRE OS ASPECTOS REGULATÓRIOS DO MERCADO
FUTURO AGROPECUÁRIO E DO MERCADO DE BALCÃO NÃO ORGANIZADO AGROPECUÁRIO
Neste capítulo serão apresentadas inicialmente as normas existentes dentro do mercado futuro agropecuário, a fim de salientar as estruturas dentro deste mercado que buscam dar uma maior regulamentação para seus contratos. Neste estudo, o tema mercado futuro já foi abordado no capítulo dois, quando se falou sobre o mercado de bolsas e mais especificamente na subseção 2.2.2 que tratou da bolsa de mercadorias e futuros, bem como de seus componentes e suas operações. Agora o foco será nos procedimentos existentes no mercado futuro que buscam garantir uma maior regulamentação, e, por conseguinte, uma maior transparência nas suas negociações.
Após este enfoque inicial, será feita uma comparação do que foi exposto sobre o mercado futuro com o conteúdo do capítulo quatro, que se refere ao mercado de balcão não organizado agropecuário. O intuito deste comparativo é deixar evidente os pontos existentes ou não nestes mercados, que contribuem para transparência e a redução de risco dos seus contratos.