1.5. Amerikan DıĢ Politikasında Kullanılan Güç Unsurları
1.5.1. DıĢ Politika Aracı Olarak YumuĢak Güç
Zwart (2015) sugere, ao falar do início da psicanálise, que o pensamento freudiano era o de que a sexualidade é um fator-chave na determinação de quem o sujeito é e de quem aspira ser. O autor observa que na contemporaneidade a comida tomou posição semelhante, para muitos indivíduos a forma de se alimentar tornou-se parte de sua própria identidade e as escolhas alimentares permitem ao indivíduo tomar posição em muitas frentes da sociedade atual.
Herrman e Minerbo (1998) sugerem que enquanto instrumento de moralidade, o discurso social voltou-se da sexualidade para a dietética. Os autores falam que o discurso dietético conserva características do discurso sexual tais como a culpa e o
pecado, características relacionadas principalmente à gula desde a antiguidade feita principalmente pela Igreja Católica, como mostra Quellier (2010).
Fischler, em uma entrevista a Goldenberg (2011) constatou o mesmo fato: sexo e comida sempre amedrontaram a sociedade. Fischler afirma que o sexo é menos amedrontador para a sociedade porque possui instituições que o controlam como as leis governamentais, o casamento, as igrejas e as regras sociais. Todavia, a comida não possui tais leis ou regras que regulam o que o sujeito deve ou não comer. Além disso, Fischler aponta que a sociedade possui a teoria básica de que as pessoas devem compartilhar a comida. Portanto, o comer não é um ato realizado em ambiente privado, como o sexo, mas um ato praticado publicamente e como parte importante das interações sociais cotidianas.
Vigarello (2012) afirma que a imposição da cultura da alimentação saudável acentua o olhar sobre o gordo, movimento denominado pelo autor como “agudização do olhar” (p. 13) em que há uma acentuação de normas nas sociedade em que as exigências são cada vez mais precisas sobre a aparência corporal e a apresentação pessoal, taxando a pessoa gorda como fracassada que não consegue emagrecer e acompanhar os ditames sociais sobre o corpo e a alimentação.
Coupry (1989/1990) traz as características atribuídas pela sociedade ocidental à obesidade evidenciando a atmosfera tensa que existe em torno do comer e dos sentimentos que são envolvidos neste ato. A fala de um dos personagens do livro de Coupry ilustra este clima:
Porque desde então vivo com medo de engordar. É um sentimento doloroso e enervante. Esse frêmito na garganta que me prende à simples ideia de uma boa refeição, esse regozijo das mãos que se apodera de mim diante de um suntuoso prato de massas, essa leve bulimia, não a reprimi de modo algum. Mas por preocupação com minha imagem, fico atento. Somos milhões a ficar atentos assim.
faço sem cessar para continuar esguio, ou para ter essa ilusão (p. 14- 15).
A fala do personagem remete ao medo de engordar pela simples alusão à comida e à preocupação com o corpo e com a imagem que ele passa aos outros. Parece que a preocupação é de qualquer pessoa, sendo gorda ou não, como se fosse um mal estar constante sentido por todos (Neves e Lazzarini, 2013). Coupry (1989/1990) traz a ideia de que é preciso conter-se a qualquer sinal de vontade de comer e de comida à disposição. Ele questiona, por meio do personagem, se é mesmo o esforço incessante contra a vontade de comer que o mantém esguio ou se isso apenas o mantém na ilusão de estar em forma.
A psicanálise freudiana que se propôs, desde sua fundação, a investigar as influências da cultura sobre o psiquismo dos indivíduos, consequentemente, refletiu sobre o mal estar causado por certas restrições impostas pela sociedade, como podemos ver em Freud quando escreve O mal estar na civilização. Nesta obra Freud (1930) investiga as consequências da organização civilizatória sobre o psiquismo do indivíduo e percebe que o sujeito teve de renunciar sua liberdade pulsional em detrimento à vida em civilização. O contexto cultural em que Freud viveu e escreveu suas obras, principalmente no período de 1908 a 1930, mostra o sofrimento e o mal estar dos indivíduos ocasionados por esta renúncia.
O contexto em que Freud (1895) iniciou suas publicações foi marcado por uma transformação social que favorecia o surgimento de sofrimentos relacionados à essa renúncia das vivências pulsionais pelo sujeito. Em Estudos sobre a histeria Freud descreve casos de pacientes que vivenciavam conflitos referentes à sexualidade infantil “que se mostravam inadequadas à moral social vigente e à realidade” (Lazzarini, Batista e Viana, 2013, p. 86), portanto remetiam à pulsões sexuais que
Freud interessou-se principalmente pela forma de expressão dos sintomas destas pacientes os quais tinham o corpo como lugar privilegiado para sua manifestação. O autor observou em suas pacientes histéricas que os desejos infantis proibidos que não poderiam ser expostos na realidade de alguma forma encontravam um meio para sua expressão, ou seja, por meio de seus próprios corpos. O corpo, então, para Freud, deixa seu estatuto puramente orgânico e passa a ser considerado um lugar privilegiado da expressão de inscrições pulsionais, além de ser significado pelo tratamento interpretativo estabelecendo a importância de dar voz ao corpo, pois este possui uma linguagem. O corpo é visto por Freud como um lugar de expressão de conflitos inconscientes e o autor passa a estabelecer a relação existente entre o corpo e o sintoma. Assim, em sua primeira tópica Freud desenvolve o conceito de inconsciente e propõe a construção do aparelho psíquico a partir do corpo. Freud (1905) traz o conceito de pulsão que explica a dinâmica na qual psiquismo e corpo encontram-se conectados. É na relação com o outro, por meio dos cuidados oferecidos pelas figuras que cuidam do bebê, que o corpo tornará passível de erogeneização, e assim um órgão deixa de ter a função puramente orgânica para se transformar em uma zona erógena. Por meio do conceito de pulsão Freud defende que o corpo é fonte e também meio de descarga e de satisfação libidinal.
Em sua segunda tópica, Freud (1923) propõe a constituição do Eu do sujeito a partir de suas experiências corporais, ou seja, o Eu do bebê se constitui a partir de suas sensações corporais vindas tanto do interior quanto do exterior, e principalmente, vivenciadas na relação com o outro que cuida e investe emocionalmente neste corpo e neste Eu em construção. Freud estabelece que “o eu, é acima de tudo, um eu corporal” (p. 39) estabelecendo que a origem do eu encontra-se no corpo, assim desde os
também, suas vivências mais primitivas com o ambiente. Desta forma, para escutar e compreender a subjetividade do sujeito é preciso escutar a linguagem do corpo e sua história, além das marcas dos encontros que vivenciou com suas figuras parentais desde o início da vida precoce do bebê. Freud estabeleceu que a escuta do corpo é a escuta do psiquismo postulando o estatuto simbólico do corpo. Portanto, escutar o corpo do sujeito obeso é fundamental para a compreensão de seu funcionamento psíquico e do significado de sua obesidade.