Durante as experiências de ilusão e de amamentação, os processos de integração, personalização e realização acontecem continua e concomitantemente. Da mesma maneira, esses processos do desenvolvimento emocional ocorrem durante o desmame, uma vez que dizem respeito à continuidade do desenvolvimento emocional primitivo do bebê. Assim, enfatizamos que a desilusão só pode ocorrer se primeiro ocorreu a ilusão, como o desmame só pode ocorrer se houve um vínculo durante a amamentação. Essas afirmações podem parecer óbvias, mas não o são, pois a ilusão não é algo que ocorre sem um movimento ou esforço da mãe-ambiente. A ilusão só existe se a mãe pôde, inicialmente, disponibilizar-se e investir psiquicamente em seu bebê. O mesmo pode ser dito a respeito da amamentação: oferecer o seio ao bebê não o conecta automaticamente à mãe a não ser que a mãe esteja disponível para esse vínculo, além de viva e ativa nesta relação.
Para Winnicott (1989[1969]/2007), o bebê necessita da sustentação que a mãe oferece para experienciar a ilusão de que os objetos são magicamente criados por ele mesmo. Apenas assim o bebê pode ter contato construtivo com a realidade sem sentir- se invadido, destruído ou afastado de seu verdadeiro self. A apresentação da realidade ao bebê deve ocorrer de forma gradual, com a mãe respeitando o ritmo do bebê, suas vivências de ilusão e suas capacidades de lidar com a frustração e a realidade. Winnicott (1989[1969]/2007) ressalta a importância desta função da mãe em desiludir gradualmente o bebê e afirma que “o comportamento adaptativo da mãe torna possível ao bebê encontrar fora do self aquilo que é necessário e esperado” (p. 197), ou seja, poder encontrar fora de si mesmo aquilo que pode enriquecê-lo. Para o autor, o bebê terá segurança em poder procurar fora do self e de suas vivências de
onipotência sua continuidade na relação com a mãe a fim de poder mantê-la viva e respirando.
Portanto, para que a realidade externa não seja discrepante para o bebê é função da mãe protegê-lo de complicações do mundo externo que ele ainda não possui capacidade para compreender, deste modo, ela suaviza essa discrepância de maneira a oferecer “continuamente aquele pedacinho simplificado do mundo” que o bebê por meio dela passa a conhecer (Winnicott, 1958[1945]/2000, p. 228). A mãe apresenta esses pedacinhos do mundo de forma gradual e de maneira especial a ponto de oferecer a experiência de ilusão de que esses pedacinhos apresentados por ela são, na verdade, criações dele próprio (Winnicott, 1958[1945]/2000).
Winnicott (1988d/1990) ao explicar seu modelo da primeira mamada teórica faz referência à transicionalidade e aos objetos transicionais como um período intermediário do processo da passagem da ilusão para a desilusão. Esses objetos, de acordo com Winnicott, auxiliam o bebê a relacionar-se com os objetos do mundo externo de forma gradual. Para este autor a realidade não é algo que surge repentinamente para o indivíduo, mas sim como algo que deve ser apresentado aos poucos pela mãe-ambiente. Assim, o autor continua, a realidade é uma experiência construída no campo intersubjetivo e encontra-se num espaço potencial entre o eu e o outro, entre o sujeito e o objeto, sendo a realidade ao mesmo tempo aquilo que ele cria e aquilo que ele percebe.
Como ressalta Gurfinkel (2001) a mãe, de forma gradual e ao longo do tempo, não mais provê a coincidência absoluta e introduz assim um diferencial entre a concepção e a percepção. Para o autor, a ilusão e a desilusão proporcionadas pela mãe ocorrem em um movimento de ir e vir sendo um “perpétuo jogo de ilusão e desilusão” (p. 169). A passagem para a percepção da realidade ocorre de forma gradual e
Gurfinkel ressalta que “com o tempo – e no seu devido tempo – certas falhas podem ser absorvidas pelo Eu incipiente” (p. 156). Isso significa dizer que com o tempo e o desenvolvimento gradual do ego do bebê, ele se tornará cada vez mais capaz de lidar com as falhas do ambiente sem a necessidade de reagir a tais falhas. Isso significa que aos poucos as falhas ambientais que seriam desastrosas no início da vida do bebê, depois de certo período podem ser vivenciadas como pequenas falhas. Entretanto, isso só pode ocorrer se inicialmente o bebê pôde vivenciar adequadamente a relação de onipotência com a mãe-ambiente. Gressler (2005) fala que a mãe tem que falhar para o bebê passar da ilusão para a desilusão e é por meio desta falha que o bebê descobre a mãe como um ser diferente dele. A mãe falha quando não mais coincide o objeto que o bebê fantasiou e o objeto que ela mostra para ele, há um distanciamento entre a fantasia e a criação do objeto.
Gurfinkel (2001) explica a desilusão em termos de percepção da realidade e confiabilidade materna. O autor ressalta que a percepção da realidade que o indivíduo tem em sua vida adulta tem seus primórdios na relação de confiança vivenciada com sua mãe. Ele observa que para Winnicott a crença na realidade e nos objetos do mundo compartilhado surge a partir dos cuidados (holding, handling, apresentação de objetos) que são oferecidos por sua mãe-ambiente. Se a mãe cuidou do bebê de maneira confiável (confiabilidade materna) então o bebê poderá crer na confiança da mãe. Assim, neste estágio ainda não há um outro que seja o objeto da crença do bebê, mas há uma crença na própria confiabilidade do outro, da figura materna. Gurfinkel observa que não podemos concluir que há falta de comunicação entre a díade somente pelo fato da ausência de objeto correlata à ausência de um eu constituído, pois a comunicação do bebê é a própria experiência de continuar existindo.
A confiabilidade da figura materna é essencial tanto na fase de dependência absoluta quanto na fase de dependência relativa em que o mundo começa a ser reconhecido e percebido pelo bebê a partir das graduais falhas de sua mãe suficientemente boa. A mãe mostra-se confiável quando ela cuida do bebê de forma confiável por meio de suas funções maternas suficientemente bem exercidas. Além disso, a mãe precisa mostrar-se sobrevivente aos ataques do bebê, mostrar que sobrevive mesmo que o bebê a destrua internamente:
(...) 'o sujeito destrói o objeto' (quando se torna externo) e, então, podemos ter 'o objeto sobrevive à destruição pelo sujeito'. Porque pode haver ou não sobrevivência. (...) O sujeito diz ao objeto: 'Eu te destruí" e o objeto está ali, recebendo a comunicação. Dai por diante, o sujeito diz: 'Eu te destruí. Eu te amo. Tua sobrevivência à destruição que te fiz sofrer, confere valor à tua existência, para mim. Enquanto estou te amando, estou permanentemente te destruindo na fantasia' (inconsciente). Aqui começa a fantasia para o indivíduo (Winnicott, 1969/1971, p. 126).
Apenas a sobrevivência a essa destruição pode fazer com que o bebê possa perceber a mãe como real e fora de seu controle onipotente e não como um objeto interno e fantasiado (Winnicott, 1969/1971). Essa mudança da relação objetal com a mãe só pode acontecer por meio da destruição e sobrevivência do objeto.
Winnicott (1964e/2008) cita o desmame como um dos processos em que a mãe não mais provê essa coincidência absoluta entre a fantasia do bebê e a realidade que ela propicia. O autor afirma que o desmame é um processo de desilusão que por sua vez auxilia o bebê a passar para a realidade compartilhada pelos outros.