3. Ebussuûd Efendi’nin Hayatı ve Eserleri
3.3. Tarihsel Araçlar (Esbab-ı Nüzul)
COMUNIDADE DE SÃO GONÇALO
O homem é, por natureza, um animal social destinado a viver em comunidades (ARISTÓTELES, Política, 1278 B 19, apud SANTOS, 2005, p. 14).
Dando continuidade ao estudo das ações sociais e seus atores, passemos a discorrer brevemente acerca do conceito de comunidade, analisando as atividades comunitárias dos trabalhadores da Cia Usina São João e moradores da comunidade de São Gonçalo. Segundo Santos (2005), o termo comunidade vem do latim comunitas, de
cum mais unitas, ou seja, quando muitos formam uma unidade. Apesar do termo
31 Trabalhadores estáveis são aqueles que, a partir da Constituição Federal de 1988, já tinham mais de dez
anos de registro funcional na empresa e não eram optantes pelo regime do FGTS, de forma que se tiverem o contrato de trabalho rescindido, receberão uma indenização em dobro pelo período trabalhado entre a data de admissão e o tempo que antecede os dez anos antes de 1988.
“comunidade” ter um emprego muito amplo e vários estudiosos virem procurando dar- lhe uma conotação mais exata, há um consenso geral entre os estudos sobre o significado de comunidade em relação a seu conceito mais preciso. Os sociólogos, de modo geral, concordam que uma comunidade é um grupo de pessoas que ocupa um território definido, com o qual se identificam e em que há um determinado grau de solidariedade. Assim, “a comunidade é o locus da interação humana. A comunidade é o lugar onde acontece a relação face a face, em que todas as pessoas se conhecem e partilham de um entendimento comum” (BERGER; LUCKMANN, 2000, p. 47).
Consoante Tonnies,
É nas comunidades onde predominam as relações comunitárias, ou seja, na comunidade as pessoas se encontram unidas por laços naturais e espontâneos, bem como por objetivos comuns que transcenderiam os interesses particulares de cada um [...] É na comunidade onde se desenvolvem as ações coletivas e onde se constituem identidades, laços de reciprocidade e objetivam-se interesses ora comuns àqueles que constituem as ações desenvolvidas (TONNIES, 1942, p. 54).
Bauman ressalta que,
Viver em comunidade facilita o entendimento comum. Esse entendimento é que faz com que as pessoas se unam apesar de suas diferenças. O tipo de entendimento em que a comunidade se baseia precede todos os acordos e desacordos. Tal entendimento não é uma linha de chegada, mas o ponto de partida de toda união. É um “sentimento recíproco e vinculante”, e é graças a esse entendimento, e somente a esse entendimento, que, na comunidade, as pessoas “permanecem essencialmente unidas a despeito de todos os fatores que as separam” (BAUMAN, 2003, p. 16-17).
Outros sociólogos, porém, preferem limitar a sua compreensão às aldeias ou a certos setores de uma cidade, afirmando que as relações de intimidade, uma característica essencial das comunidades, apenas prevalecem em áreas pequenas. A maioria dos estudiosos do assunto32, entretanto, chama essas áreas de “vizinhança”. Este, aliás, é outro termo que os sociólogos têm procurado definir com precisão. Uma vizinhança é semelhante à comunidade, mas tem área menor e as relações tendem a ser primárias, ou mais ou menos íntimas. A vizinhança, em outras palavras, é um setor ou agrupamento no qual vive um certo número de famílias que mantêm relações estreitas entre si, sendo um grupo no qual não é necessário fazer-se mais apresentações (SANTOS, 2005, p. 42).
32 Os principais estudiosos sobre comunidade foram: Émile Durkheim, Ferdinand Tönnies, Martin Buber,
Peter Berger, Anthony Giddens, Zigmunt Bauman, e Georg Simmel. Tais autores entendiam o aparecimento de movimentos comunitários como uma reação ou resistência ao individualismo moderno e como um espaço que as pessoas buscavam para se sentirem mais seguras.
Como se deu o desenvolvimento das comunidades é algo bastante questionado pelos estudiosos. Sobre o assunto, sabemos que o homem sempre viveu em grupos; as comunidades, no entanto, somente apareceram quando os grupos humanos começaram a levar uma vida relativamente sedentária. As aldeias surgiram com a ascensão das economias agrícolas. O historiador econômico N. S. B. Gras (1943) apresentou a teoria de que a comunidade aldeã foi precedida de uma economia nômade, e esta de uma economia coletora, a mais primitiva. As aldeias transformaram-se em pequenas cidades quando uma classe de comerciantes se estabeleceu definitivamente nessas aldeias e começou a fazer intercâmbios comerciais. Finalmente, quando as condições se tornaram mais favoráveis, as pequenas cidades desenvolveram-se em metrópoles ou cidades grandes que, para Gras, apareceram com a ascensão dos impérios e Estados nacionais.
Quanto aos tipos de comunidades, Samuel Koenig lembra que:
comunidades geralmente dividem-se em dois tipos: a rural e a urbana. A linha divisória entre esses dois tipos não é muito clara, e os especialistas não concordam muito no emprego de critérios para defini-las. O critério mais comum é arbitrário, segundo o qual uma localidade é designada como rural ou urbana, em relação a sua população. O critério numérico é hoje empregado quase universalmente, embora um mínimo de população para uma comunidade rural varie muito (KOENIG, 1985, p. 73).
Tal critério numérico, embora conveniente, tem sido considerado muito arbitrário e destituído de significados. Existem ainda outros critérios empregados para este tipo de definição, tais como: densidade da população, limites legais, status legal, isto é, se a localidade recebeu o status de comunidade urbana ou rural. Os critérios mais significativos talvez sejam os relativos a ocupações predominantes e organização social, ou seja, os tipos de instituições econômicas e sociais resultantes. Cada um desses critérios tem seus defensores. Alguns não se contentam com o uso exclusivo de apenas um critério e sustentam que dois ou mais critérios devem ser utilizados para uma definição satisfatória de comunidade (SANTOS, 2005, p. 53).
Além das diferenças em tamanho da população, distribuição espacial e ocupações, as comunidades rurais e urbanas têm um padrão de vida mais ou menos distinto, expressando-se em diferentes atitudes e valores – em resumo, em diferentes filosofias de vida. O sociólogo Louis Wirth (apud VELHO, 1987) referiu-se às comunidades como “um estilo de vida” distinto. As principais características que distinguem o modo de vida urbano do rural são um alto grau de interdependência de urbanidades, vida social segmentada, sofisticação e maior apego aos comportamentos racionalmente planejados. Naturalmente que essas diferenças entre as comunidades
rurais e urbanas estão diminuindo, graças à difusão da urbanização e intensificação dos contatos entre as populações urbanas e rurais e devido ao aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações.
Georg Simmel, um dos maiores estudiosos sobre o assunto sustentou que,
[...] enquanto a estrutura social das comunidades urbanas se baseia em grupos de interesse, a das comunidades rurais se baseia em grupos de parentesco. Os círculos de contatos sociais nas cidades são maiores do que no campo. Esse fato torna a vida nas cidades mais complexa e variada (SIMMEL, apud VELHO, 1987, p. 49).
Para o autor, é por isso que nas cidades a participação social do indivíduo é também mais superficial do que no interior. Os contatos primários dos habitantes das cidades, mesmo na família, tendem a ser de natureza menos íntima. Os habitantes das cidades tendem a seguir um curso mais racional de comportamentos e a serem guiados mais pelos seus próprios interesses do que o homem do campo. A pessoa urbana, acreditava Simmel, é também mais livre em seu comportamento, menos limitada, mais individualista, mais formal e menos conformista do que o homem do interior (SIMMEL, apud VELHO, 1987, p. 49-50).
Sawaia lembra que Simmel é considerado o Freud da sociedade por seus estudos das relações inconscientes da organização social, pois
[...] denunciou a objetivação crescente da cultura moderna e a conseqüente impessoalidade das relações, a ponto de anular a totalidade da subjetividade humana. Esse contexto favorece o surgimento de um tipo de comunidade, que ele denominou sociedade secreta, criada para separar o indivíduo alienado da sociedade impessoal, e dar-lhe um sentimento de pertencimento, portanto, conjunto de identidades e de valores associados à comunidade (SAWAIA, 2000, p.41).
Sorokin e Zimmerman (1929) chegaram a conclusões semelhantes às de Simmel. Acentuaram uma maior amplitude de contatos sociais na cidade, com um menor número de relações íntimas de um lado e uma maior impessoalidade, de outro. Porém, a maior parte dessas características são simples suposições, que requerem verificação pelo empirismo.
A comunidade é, há muito tempo, reconhecida como uma unidade adequada ao estudo da sociedade humana e de seus problemas. Platão e Aristóteles analisaram os problemas do homem do ponto de vista da comunidade e Santo Agostinho, e mil anos depois Campanella, também descreveu a cidade como o lugar mais apropriado para o alcance da boa sociedade e da vida ideal. Embora essas opiniões sejam utópicas e reflitam as aspirações da época, elas indicam, entretanto, um reconhecimento da importância das comunidades como uma unidade de estudo (SANTOS, 2005, p. 53).
Porém, foi somente no final do século XIX que se fizeram os primeiros esforços para estudar sistematicamente as comunidades. Foi com a sociologia, ciência emergente no início do século XIX, que comunidade elevou-se à categoria analítica central do pensamento social e se estabeleceu a antítese de comunidade e sociedade como expressão dos valores comunitários e não comunitários (SANTOS, 2005, p. 53).
O debate sobre comunidade e sociedade foi expresso na sociologia alemã por Tonnies (1942), através dos termos Gemeinschaft33 e Gesellschaft34, vigentes desde o final do século XIX, que criou uma estrutura tipológica da idéia de comunidade, onde sistematizou a noção de comunidade esboçada no início do mesmo século, tanto pelos conservadores como pelos revolucionários, recolocando-a como critério de oposição entre modernização e tradição, apesar de afirmar que comunidade faz parte da sociedade.
O termo Gemeinschaft está baseado em três eixos: o sangue, o lugar e o espírito ou o parentesco, a vizinhança e a amizade, respectivamente, sendo o sangue o seu elemento constitutivo principal e o trabalho e a crença comum, a sua base de construção. Todos os sentimentos nobres como o amor, a lealdade, a honra e a amizade são emoções de Gemeinschaf. Na Gesellschaft não há nada de positivo do ponto de vista moral. Nela, os homens não estão vinculados, mas divididos. Ela aparece na atividade aquisitiva e na ciência racional e sua base é o mercado, a troca e o dinheiro. Em resumo, para Tonnies, comunidade não é uma variável ou um espaço, mas uma realidade e a causa para outros fenômenos (TÖNNIES, 1942, apud SANTOS, 2005, p. 42).
Essa mesma idéia permeia as reflexões sociológicas desde seus fundadores até hoje, associada a diferentes fenômenos e objetivada em diferentes oposições. Weber (apud VELHO, 1987), considerado o sociólogo da ação social, em suas reflexões sobre as relações sociais solidárias, distinguiu dois tipos que, segundo ele, recordam a classificação feita por Tonnies: a comunitária e a associativa, tendo como critérios de distinção o processo de racionalização. Ambas podem ser fechadas ou abertas em direção ao exterior e se combinarem de diferentes formas nas relações entre os homens.
Portanto, comunalização refere-se à relação baseada no sentimento subjetivo do pertencer, estar implicado na existência do outro, como a família e grupos unidos pela camaradagem, vizinhança e fraternidade religiosa. A relação pode ser afetiva (piedade,
33 Gemeinschaft é um termo em alemão que significa comunidade, sociedade.
34Gesellschaft é um termo em alemão que significa sociedade, associação, companhia, reunião.
amizade), ou erótica e amorosa; enfim, baseada em qualquer espécie de fundamentos, emocional ou tradicional. Já sociação é uma relação cuja atividade se funda sobre um compromisso de interesse motivado racionalmente, em valores ou finalidades, e resultantes da vontade ou opção racional, mais do que na identificação afetiva (SIMMEL, apud VELHO, 1987).
Segundo Giddens (1991), nas sociedades tradicionais, principalmente as agrárias, sociedade e comunidade se confundem numa interação intensa, pois as pessoas se conhecem, possuem um conhecimento comum, com base em quatro contextos: o parentesco, a comunidade local, a religião e a tradição. Dessa maneira, o lugar onde as pessoas nascem e vivem tem grande significado para elas, é a sua terra. Comunidade tornou-se referencial de análise que permite olhar a sociedade do ponto de vista do vivido, sem cair no psicologismo reducionista e pesquisar segundo procedimentos até então próprios da antropologia, nos seus estudos sobre “comunidades indígenas”.
Nisbet, citado por Sawaia, baliza de forma admirável as idéias anteriormente apresentadas sobre comunidade, dizendo que:
comunidade abrange todas as formas de relacionamento, caracterizado por um grau elevado de intimidade pessoal, profundeza emocional, engajamento moral [...] e continuado no tempo. Ela encontra seu fundamento no homem visto em sua totalidade, e não neste ou naquele papel que possa desempenhar na ordem social. Sua força psicológica deriva duma motivação profunda e realiza-se na fusão das vontades individuais, o que seria impossível numa união que se fundamentasse apenas na mera conveniência ou em elementos de racionalidade. A comunidade é a fusão do sentimento e do pensamento, da tradição e da ligação intencional, da participação e da volição (SAWAIA, 2000, p.50).
Contudo, consoante Bauman,
Na sociedade moderna, a comunidade não é mais a sociedade. Esse distanciamento provocado pela nova relação de trabalho em que “as massas” tiradas da velha e rígida rotina (a rede de interação comunitária governada pelo hábito) para serem espremidas na nova e rígida rotina (o chão de fábrica governado pelo desempenho de tarefas), influenciou bastante para o fim da vida comunitária (BAUMAN, 2003, p. 30).
E acrescenta que “A relação de parentesco já não promove tanta segurança; as coisas tampouco parecem mais sólidas dentro da casa da família do que na rua [...] as chances de que a família sobreviva a qualquer de seus membros diminui a cada ano que passa (BAUMAN, 2003, p. 47). Como diria Max Weber (1991), “o homem é encarcerado numa jaula de ferro pela racionalidade moderna. Assim, a comunidade, a vida comunitária, vai se exaurindo”.
as estratégias de ação coletiva possuem três propósitos fundamentais: melhorar os ingressos ou outra dimensão do bem estar material imediato aos grupos envolvidos; modificar as relações sociais no interior da população rural específica e, particularmente, as relações de poder – por exemplo, as relações de gênero; e influenciar sobre as políticas públicas, para as oportunidades de desenvolvimento e enfraquecer ou superar os sistemas de exclusão e discriminação. Outros objetivos da ação coletiva seriam o desenvolvimento das capacidades dos indivíduos (capital humano); fortalecimento organizacional; construção de redes e alianças sociais; aprofundamento de normas e valores (tais como solidariedade, reciprocidade e confiança) que contribuem para o alcance do bem estar comum (capital social).
Cumpre agora confrontar esse embasamento teórico com as atividades comunitárias desenvolvidas entre os trabalhadores da Cia Usina São João e residentes na Comunidade de São Gonçalo ora estudados.
A Usina tem mais de um século de existência e sua origem foi num engenho de açúcar (Fazenda Central), cercado de pequenas vilas em torno do engenho, com trabalhadores e moradores cuidando da cana, a qual era transportada em burros ou de locomotiva, por falta de outros tipos de transportes. Hoje em dia, os moradores dessas vilas, que já são da 2ª e 3ª gerações, estão totalmente entremeados nos seus elementos constitutivos por laços de sangue com relações de parentescos próximas e distantes, formando, assim, diversas comunidades, dentre as quais a de São Gonçalo, objeto do presente estudo.
Os laços de parentescos existentes perpassam de uma residência a outra e são perpetuados através de casamentos consangüíneos, sendo ainda alongados nas relações sociais desenvolvidas nos ambientes de trabalho, lazer, na escola e na igreja, de acordo com a opção religiosa de cada morador.
A todo o momento esta relação afetiva aflora, porque começou na infância e nos folguedos em volta da casa grande e se alongou através dos tempos, de acordo com cada faixa etária e interesse social. Os laços sociais também permaneceram através dos bailes comunitários, das festas religiosas, dos nascimentos, batizados, falecimentos, formaturas, casamentos, em que o interesse social e coletivo se faz presente, representando atitudes de amor, respeito, amizade, lealdade e honra para com os vizinhos ou parentes próximos caracterizando, também, as relações de pertencimento tão comuns em comunidades com interesses coletivos próximos.
Cada fazenda da empresa tem um administrador e um líder de turma para cada sessenta homens, a fim de distribuir tarefas, cobrar responsabilidades e organizar o trabalho. Geralmente, os problemas fora do trabalho e que envolvam a comunidade em caráter coletivo são levados à empresa para solução por esse administrador. No entanto,
os problemas sociais que envolvam as famílias não são levados ao conhecimento da empresa, sendo resolvidos pelas lideranças locais, cada um atuando numa área específica – igreja, vilas, lazer, esporte, escola e trabalho.
A comunidade tem orgulho de resolver seus problemas no seio do próprio ambiente comunitário, evitando que comentários externos ao meio ou problemas graves dos moradores sejam levados à direção da empresa ou cheguem aos ouvidos das comunidades vizinhas, para não expor os comunitários ou colocar em risco o emprego dos moradores. Para isso, existe um consenso entre as famílias de não tolerarem intromissões que venham a afetar a estabilidade da comunidade. É comum, através de um consenso familiar, que as pessoas ou mesmo famílias com desvios de ordem moral, social ou profissional e que causem problemas à comunidade – mesmo após terem sido orientados e acompanhados pela comunidade –, sejam enviados a São Paulo, se mudem para outra cidade ou peçam demissão da empresa para não macular os valores estabelecidos para a comunidade, pelos antepassados vivos ou mortos.
Existe um código de honra e de conduta não escrito, que regula as relações sociais das fazendas e das comunidades, em virtude de num passado mais distante, quando imperava a dominação, os faltosos serem punidos com muito rigor pela empresa. Hoje, quando a relação de parceria está mais presente, a cultura que se estabeleceu foi a de que as lideranças comunitárias ainda mantêm e fazem respeitar determinados princípios. Lê-se nas entrelinhas que “viver aqui é um privilégio que está em extinção, é para poucos, portanto, não podemos apressar ou contrariar outras mudanças, por problemas causados pela comunidade”.35
Para não romper a rotina comunitária, nem colocar em risco os benefícios ou valores tradicionais, as famílias reunidas encontram soluções para os casos considerados de honra, alcoolismo, desinteresse pelo trabalho ou pelos estudos, furtos, gravidez indesejada, pessoas maldosas ou violentas. Inicialmente estas são aconselhadas e observadas e, se não mudam seu comportamento, a comunidade, em comum acordo, os afasta do convívio social, às vezes, por uma safra ou por um ou mais anos.
A comunidade se organiza através de ações coletivas e iniciativas das lideranças locais, que começaram escolhendo as pessoas para representá-las perante a empresa, junto aos órgãos públicos e, depois, frente a toda a comunidade. As decisões que envolvem todos os interesses da comunidade e das pessoas são tomadas pelos lideres
35 Essa fala representa a ideologia difundida na comunidade pelos principais líderes comunitários nos
comunitários, que são escolhidos entre os próprios moradores mais antigos, sendo pessoas de conduta ilibada, respeitados pelos exemplos coletivos, com experiência, sabedoria e capacidade de discernimento.
Outra faceta da comunidade de São Gonçalo é a competição para ser o melhor exemplo. A comunidade tem o orgulho e o sentimento de pertencer, de participar, de vivenciar o ambiente e de buscar ser o melhor eticamente, em relação às outras comunidades vizinhas. Torneios de futebol, desfiles escolares, festas de padroeiros, cursos de qualificação, torneios de corte de cana e passeios sociais são oportunidades em que a competição aflora e é quando se verifica o quanto cada comunidade se prepara e se organiza para ter um desempenho diferente dos demais. O incentivo e a participação de cada competidor e a preocupação constante em saber de sua classificação aumentam a motivação para buscar um melhor desempenho, de acordo com o resultado das demais comunidades participantes. Nesse sentido, a empresa busca trabalhar esses desafios com orientação para que todos saibam que podem dar o melhor de si, que a comunidade espera muito deles e que vencer e se destacar se mostra importante também no trabalho, no estudo e na busca do sucesso profissional.
Essas competições também chegam às escolas, aos cursos ministrados e às áreas de trabalho. Todos os trabalhadores da empresa têm acesso a informações – através de cartazes, faixas, jornal de circulação interna e quadro de avisos – de quais fazendas são as turmas mais produtivas no corte de cana, bem como sabem de onde são as turmas jovens e com mais escolaridade, selecionadas para os cursos de tratorista, e quais escolas de fazendas têm mais alunos nos cursos noturnos e apresentam os melhores