• Sonuç bulunamadı

3. Ebussuûd Efendi’nin Hayatı ve Eserleri

2.5. Takyid

[...] o trabalho aparece como fio condutor da biografia de cada sujeito, fazendo-se presente em sua vida antes mesmo do seu nascimento. Muitas histórias de vida começam assim: “Quando eu nasci, meu pai já trabalhava no corte de cana...”. E segue o trabalho permeando a vida do camponês desde a infância, ocupando quase todo o seu tempo, numa luta incessante e dolorosa na busca de prover sua existência biológica. [...] Mesmo assim, o camponês pobre vê, de geração em geração, que o trabalho se mostra insuficiente para garantir-lhe condições positivas de vida a si e à sua família. Assim, suas experiências parecem confirmar e conformar em sua mente a representação de trabalho como uma predestinação (SÁ, 2002, p. 54).

Nas usinas de açúcar, as atividades das diferentes ocupações são acompanhadas pelos técnicos agrícolas e líderes de turma. Cada atividade está associada a padrões e exigências de qualidade. No corte da cana, a quantidade de trabalho, medida por

unidade de tempo ou de braças linear16, o cuidado no manuseio do facão, as exigências do toco baixo17 e palhas afastadas dos montes, a manutenção dos equipamentos de trabalho, o relacionamento do trabalhador com os colegas e com os chefes imediatos, o cumprimento do horário e a assiduidade são requisitos de avaliações objetivas e subjetivas nos novos tempos da agricultura, e que podem assegurar a permanência, retorno ou exclusão do trabalhador da empresa.

De maneira geral, existe uma compreensão entre trabalhadores e responsáveis pelos processos de produção de que a pessoa originária de famílias que lidam com a agricultura está mais capacitada para realizar esse trabalho, porque sabe manejar diferentes ferramentas, observar os fenômenos naturais e discernir espécies vegetais. Também, porque é capaz de oferecer sugestões ao manejo de diferentes culturas e à solução de problemas. Em outras palavras, é um sujeito que acumula um conhecimento adquirido no dia-a-dia.

O trabalho no corte de cana é exaustivo, por exigir do homem um esforço de permanecer em pé e deslocar-se permanentemente, bem como se abaixar, levantar, virar, mover braços e pernas, jogar a cana e arrumar os montes ou esteiras de cana, de forma contínua, durante oito horas por dia. O trabalho pesado imprime suas marcas em mãos, pés, pele e corpo no seu todo. O conjunto formado pela resistência física ao esforço e a habilidade para executar rapidamente essas operações serão fatores determinantes para o bom desempenho do trabalho. A adaptação do homem que sempre trabalhou de enxada, para passar a usar o facão de cortar cana, é lenta, embora seja progressiva.

Além de disposição para o trabalho pesado, outras características particulares são exigidas dos trabalhadores originários da agricultura, e se concentram na questão da adaptação dos corpos ao trabalho a céu aberto. O trabalho é realizado “quer chova ou faça sol”. Roupas e corpos molhados e suor escorrendo pelo rosto e corpo são manifestações físicas do contato com a natureza diariamente. Ademais, o contato com o solo, com as plantas daninhas, com pequenos insetos (mosquitos, moscas) que pousam

16 É a medida padrão para calcular as braças de cana cortadas por cada trabalhador e corresponde a uma

área de 2.20 metros. É medida com uma vara de madeira ou alumínio com estas dimensões.

17 Consiste em realizar o corte da cana-de-açúcar rente ao solo, a fim de evitar a perda da sacarose

(açúcar) que se encontra concentrada na parte inferior da cana, predominantemente nos 10 centímetros iniciais, a partir do pé da cana. Se o trabalhador não for treinado para realizar o corte rente ao solo – toco baixo –, o açúcar vai ficar no toco da cana não cortada no campo e o toco alto ainda prejudicará a rebrotação – nascimento das canas novas.

insistentemente nos corpos, além dos riscos inerentes à saúde física pelo manuseio de ferramentas perigosas e aplicação de defensivos agrícolas é uma realidade permanente.

Os líderes de turmas acreditam que os trabalhadores originários da agricultura não se comportam e nem se adaptam de forma igual frente ao trabalho na agricultura irrigada, porque os procedimentos são muito diferentes dos da agricultura de sequeiro18. Ser trabalhador proveniente da agricultura familiar ou mesmo assalariado significa a possibilidade de fazer com maior competência esta ou aquela tarefa. Tudo isso influencia os tipos de relações que se tecem entre os trabalhadores e os líderes dos processos produtivos que, apesar de pertencerem a uma mesma classe, têm atribuições e sensos de pertencimentos diferentes. “[...] a sociabilidade entre membros de classes sociais muito diferentes é amiúde, inconsistente e dolorosa” (SIMMEL, 1983, p. 172).

Experiências negativas já acumuladas pela contratação de trabalhadores de origem urbana para trabalhos tradicionalmente agrícolas – plantio, colheita, irrigação, por exemplo – demonstram que tais trabalhadores não apresentam bons resultados pela falta de uma habilidade específica, mesmo que os trabalhadores, sujeitos a esta associação, sejam provenientes de diferentes experiências.

Contrapõem-se a estas interpretações, no entanto, os interesses pessoais, que refutam todos estes conceitos acerca das diferentes capacidades. Assim, ser da zona urbana pode ser apenas um distintivo, mas que não impede de se aprender a fazer um bom trabalho, principalmente em um contexto em que a velocidade das mudanças tecnológicas exige continuamente novas habilidades e conhecimentos. Mesmo assim, para adquirir novas habilidades é necessário tempo, e entre um trabalhador que já acumula saberes na atividade agrícola e um que não sabe realizar essa atividade, o primeiro é o preferido, em decorrência do saber-fazer. Ademais, se ele aliar conhecimentos e experiências, com uma boa escolaridade, melhor ainda, pois estará aumentando a sua empregabilidade e se preparando melhor para o futuro.

Para realizar o acompanhamento dos trabalhos, a usina tem que colocar não apenas alguém que tenha autoridade e que esteja designado para aquela atividade, mas que tenha também conhecimento técnico para se fazer respeitar pelos trabalhadores que já têm vivências na agricultura. Portanto, a supervisão dos trabalhadores originários da agricultura se dá pelos líderes de turma que, além de terem conhecimento e autoridade,

18 São culturas de subsistência e de ciclo rápido como o feijão, o milho, a mandioca, geralmente plantadas

são também filhos de agricultores e, por já terem sido trabalhadores rurais anteriormente, conhecem perfeitamente como orientar a execução dessas atribuições.

Passemos agora a discorrer acerca de uma característica apresentada apenas por alguns trabalhadores: a polivalência funcional.