3. Ebussuûd Efendi’nin Hayatı ve Eserleri
2.6. Nesh
Após discorrermos acerca da polivalência funcional como um novo mecanismo de organização do trabalho, passemos a analisar os processos de sociabilidade entre os trabalhadores rurais. A sociabilidade é uma categoria social de interação que possibilita estabelecer relações entre esferas da vida cotidiana e do trabalho, considerando que a sua compreensão abrange, simultaneamente, tanto as suas formas (redes de indicação, equipes de convivência no trabalho e na rua, por exemplo) quanto o conteúdo (interesses, finalidades e desejos dos indivíduos). Mas para Simmel (1983), a sociabilidade é abordada pela ótica do prazer que a socialização proporciona entre membros de uma mesma classe social.
No geral, o conceito de sociabilidade está construído como um conjunto de relações tecidas pelos indivíduos e as formas como estas relações são estabelecidas:
O termo sociabilidade tomou tal vulto que foi preciso distinguir as relações estabelecidas entre dois indivíduos – ditas primárias ou informais – das relações coletivas, designadas como secundárias ou formais. Se estas sociabilidades diferem na forma, seu traço comum é sempre a relação face a face, a interação com o outro ou os outros (PEIXOTO, 2000, p. 46 apud MOTA, 2003, p. 59).
Para esse autor, podem-se focalizar dois tipos de sociabilidades: as primárias e as secundárias. As sociabilidades primárias são “sistemas de regras que ligam diretamente os membros de um grupo a partir de seu pertencimento familiar, da vizinhança, do trabalho, e que tecem redes de interdependência sem a mediação de instituições específicas” (CASTEL, 1998, p. 48 apud MOTA, 2003, p. 60). Seria datada e própria das sociedades denominadas de camponesas. A sociabilidade secundária, no entanto, vem preencher as lacunas abertas pela complexidade da sociedade na sociabilidade primária. É uma intervenção orquestrada como função protetora, integradora e preventiva. É uma intervenção da sociedade sobre si mesma, diferentemente das instituições que existem em nome da tradição e do costume (CASTEL, 1998, p. 57 apud MOTA, 2003, p. 60).
A forma de ocupação do espaço e as dinâmicas cotidianas de interação são referências importantes para a construção da sociabilidade local e permitem estabelecer relações simples e amistosas entre os lugares de residências e tipos e pontos de encontros, variáveis segundo os diferentes interesses dos moradores, tendo como lugares privilegiados para essa interação, as ruas, praças, calçadas e casas onde se atualizam as relações de parentesco, vizinhança e amizade que dão sustentação a uma sociedade local, constituída predominantemente a partir do interconhecimento e que tem ajudado os trabalhadores a conviverem com as incertezas do seu dia-a-dia.
Já o trabalho constitui elemento central da sociologia desde os seus primórdios, como atestam os estudos clássicos de Durkheim (1984a, 1984b) e Weber (1976, 1994). Muito embora se reconheça a importância desses teóricos para o estudo do tema, as suas análises já não são suficientes para explicar as transformações do mundo do trabalho no contexto global em que a sociedade industrial, base das suas reflexões, entra em crise. Mas, importa reter que, apesar dos limites empíricos de suas teorias, as questões discutidas por estes teóricos continuam a iluminar e influenciar as discussões atuais (MOTA, 2003, p. 38).
O trabalho como elemento central de integração do indivíduo à sociedade foi objeto de análise de Durkheim, para quem a antinomia entre individualismo e solidariedade na sociedade moderna se equacionaria através da divisão social do trabalho. “Sob essa perspectiva, o trabalho é um meio de manutenção da ordem social
pela intercomplementaridade entre os que pensam, os que fazem e entre os produtores de diferentes mercadorias” (DURKHEIM, 1984a, p. 49). Mas também o trabalho – ou a sua falta – é capaz de provocar o conflito e a sua transformação social.
A divisão social do trabalho seria um fenômeno de solidariedade, sistematicamente organizado e coordenado para garantia da ordem social. Mas não foi alheia a Durkheim a premissa de que a divisão do trabalho nas sociedades industriais diminuiria a coesão social, em vez de aumentá-la, pelo excesso de especialização e pelo fato de as pessoas não escolherem livremente as suas ocupações (DURKHEIM, 1984b, p. 64).
Em outra abordagem da sociologia clássica, o trabalho “é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza” (MARX, 1984a, p. 202). Já Durkheim (1984a, 1984b) considera que o processo de acumulação do capital provoca o surgimento da solidariedade orgânica na qual a divisão do trabalho é fonte de solidariedade social.
Com base nas considerações teóricas acima expostas, passemos a aplicar o conceito de sociabilidades nas práticas de trabalho e nos processos da vida cotidiana dos trabalhadores, através do caso concreto dos cortadores de cana, considerando que as evidências empíricas na moderna agricultura apontam para o entrelaçamento dessas categorias nas estratégias individuais e coletivas dos trabalhadores. Analisemos, também, o trabalho e a sociabilidade sob os ângulos dos tempos, lugares e pertencimentos.
As colheitas de cada fundo agrícola21 numa comunidade são realizadas sob a forma de mutirões, que reúnem pessoas do mesmo círculo de pertencimento, com o intuito de realizar uma grande tarefa em limitado tempo e espaço. Dessa maneira, realizam-se colheitas de milho, feijão e outras culturas, que se caracterizam pela solidariedade. Esses eventos, tempos atrás, quando as usinas ainda eram engenhos, criavam situações que favoreciam o encontro de pessoas que habitavam em diferentes áreas, constituindo instâncias de comunicação, permitindo e favorecendo a troca de informações e o reforço de laços de reciprocidade dos moradores, uns em relação aos outros. A oferta de bebidas, comidas e música nessas ocasiões era estímulo instituído para agradecer a colaboração e os serviços prestados, criando-se em todos, no entanto, a
obrigatoriedade de ir ajudar o seu vizinho ou colega de trabalho, quando este estivesse necessitando.
As motivações individuais são consideradas por Simmel como a alavanca da sociabilidade, já que o prazer de interagir é a mola propulsora da sociabilidade, muito embora o conteúdo social da motivação só tenha se sobressaído a partir das abordagens mais empíricas dos trabalhos da Escola de Chicago sobre as relações de vizinhança, familiares, dentre outras (BIDART, 1988, p. 621).
Contam os moradores mais antigos que, quando a usina ainda era engenho e dividida em propriedades, membros da família dos senhores também participavam de festas de casamento, batizados e festejos religiosos. Nessas ocasiões comemorativas, a vida girava em torno dos povoados e das propriedades e as festas de encerramento das colheitas tinham sempre a organização e o patrocínio de alguns familiares dos proprietários.
Outro costume da época, que reunia cotidianamente pessoas de diferentes origens sociais nas diversas áreas ou nas fazendas, eram as brincadeiras dos filhos de moradores e de proprietários nas margens do rio Paraíba, nos períodos das férias ou em qualquer dia da semana, que envolviam os pequenos, pois as famílias, na sua maioria, residiam na fazenda. O mesmo lugar de residência e de brincadeiras partilhadas permitia a igualdade no lazer e o reconhecimento do outro como par, capaz do mesmo fazer, pela existência do contato sem segregação.
Esses contatos intensos na infância rareavam entre os adolescentes e inexistiam para os adultos, que geralmente iniciavam a vida profissional nos centros urbanos, pois eram enviados para estudar fora (ricos), ou para começar a trabalhar e ganhar a vida cedo (pobres). A quebra da socialização entre pessoas de origem e classe social diferentes e a inserção em grupos sociais distintos, com práticas sociais particulares e distanciadas do mundo rural, exacerbavam as diferenças escamoteadas pelo prazer da infância.
No tocante ao comportamento dos trabalhadores, verifica-se o alto grau de sociabilidade e laços de pertencimento entre eles, que se reflete num ambiente em que predominam as conversas informais, piadas, gracejos, comentários e brincadeiras. A usina não costuma questionar sobre as conseqüências desse comportamento no ambiente de trabalho, pois mesmo no corte de cana a conversa não atrapalha a produção, visto que as equipes são compostas por pessoas jovens e bem treinadas e a
interação, o companheirismo e as brincadeiras são benéficos para o bom relacionamento social e para o desenvolvimento do trabalho em geral.
Numa atividade em que o agrupamento é intenso – uma frente de corte de cana tem cerca de trezentos trabalhadores – e o trabalho é exaustivo, torna-se positivo que as pessoas tenham motivação para conversar e se divertir no seu ambiente de trabalho. Essas conversas praticamente fazem parte do cotidiano das pessoas e se estendem até com mais expansividade nos intervalos de refeições, nos deslocamentos para o trabalho e nos alojamentos.
Essas diversidades de formas de interação observadas no desenrolar dos processos de trabalho também são exercitadas nas ruas, áreas de lazer e residências com mais intensidade entre aqueles que ali vivem, que fazem das comunidades a extensão do seu trabalho, em decorrência dos laços de sangue e pertencimento existentes em cada vila da empresa. Como expressam Berger e Luckmann,
a identidade é então consideravelmente delineada, no sentido de representar plenamente a realidade objetiva na qual está localizada. Dizendo em palavras simples, cada pessoa é mais ou menos aquilo que se supõe que seja. Em tal sociedade as identidades são facilmente reconhecíveis, objetiva e subjetivamente. Todo mundo sabe quem é todo mundo e quem a própria pessoa é (BERGER e LUCKMANN, 2000, p. 258, apud MEDEIROS, 2004, p. 79).
São essas redes de interações que preservam elementos essenciais do sistema social vivenciado anteriormente à generalização do assalariamento, como o inter- conhecimento, a lógica da reciprocidade e o respeito à hierarquia. Se estes elementos reforçam a inserção, dificultam a mobilização política para a defesa dos interesses trabalhistas já que, diante da interconexão entre as relações pessoais, profissionais e sindicais, os trabalhadores têm se mantido mais fiéis às primeiras.
No tocante à luta dos trabalhadores por seus direitos, pode-se vislumbrar que as correlações de força que se estabelecem entre trabalhadores e as usinas têm sido fragilizadas pela forte pressão por empregos, mas também pela dificuldade de diálogo entre os sindicatos locais e os seus filiados para a construção de uma pauta de atuação comum. Esta dificuldade tem raízes históricas em um contexto em que os assalariados eram e ainda são ausentes do movimento sindical, tanto pela falta de mobilidade espacial a que estiveram sujeitos, quanto pelo medo de que as represálias patronais pesassem sobre cada um, herança de experiências em que as relações pessoais atavam senhores e trabalhadores.
1.10. O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO, QUALIFICAÇÃO,