BİRİNCİ BÖLÜM LYNCH MESELESİ
1.2. LYNCH MESELESİ’NE İLİŞKİN TARTIŞMALAR
1.2.3. Lynch Meselesi’nde Yabancı Etkisi Olup Olmadığına İlişkin Tartışmalar
Um pouco antes do incêndio do galpão da Pontilhão, foi constituída uma entidade chamada de Associação dos Carroceiros e Catadores de Gravataí. A coordenação desta entidade participou ativamente da fundação de uma outra instituição de segundo grau para qual buscava-se congregar todas associações de reciclagem do Estado. Com este intuito foi constituída a Federação das Associações de Recicladores do Estado do Rio Grande do Sul (FARRGS). Em meio a todos esses processos, mantive uma relação de solidariedade ativa com os catadores, relação que entraria em uma outra etapa quando G., então secretário da FARRGS no ano de 2000, indicou meu nome para exercer a função de educador na formação dos catadores através de cursos firmados por convênio entre o então governo do estado e esta entidade. Com isso, pude atuar em ações de caráter formativo voltados à capacitação dos catadores em processos de autogestão junto à Unidade de Triagem e Compostagem (UTC) do bairro Lomba do Pinheiro e à Unidade de Triagem (UT) do Hospital São Pedro, ambas entidades localizadas em Porto Alegre.
Neste mesmo ano de 2001 o MNCR era fundado durante o Primeiro Congresso de Catadores de Materiais Recicláveis e da População de Rua ocorrido entre os dias 4 a 7 de junho deste ano em Brasília, atividade da qual, infelizmente, não pude participar. Como forma de ilustrar este início de construção do movimento, cito aqui a primeira demonstração pública feita pelo MNCR neste estado, esta foi a primeira vigília do MNCR/RS no Largo Glênio Perez no dia 6 dezembro de 2001, em referência ao aniversário dos 53 anos da promulgação da Declaração dos Direitos Humanos. Na ocasião recordo-me que estava junto com dois amigos estudantes e resolvemos improvisar, para esta vigília, uma esquete teatral sobre a interferência do Fundo Monetário Internacional (FMI) na política econômica nacional. Ensaiamos no mesmo dia, e a mim coube representar o “papel de FMI”. Representação, esta que me rendera, durante algum tempo, o apelido de “Tio Sam” entre alguns catadores que participavam desta atividade. A referida vigília foi de muita importância para meu processo de engajamento neste movimento, pois, a partir dela pude perceber melhor as possibilidades de mobilização e de fortalecimento identitário desta categoria.
Considerando estas possibilidades de engajamento no que diz respeito às problemáticas sociopolíticas dos catadores, acabei vindo a questionar minha própria condição de “formador” deste setor de trabalhadores da reciclagem. Questionamento motivado pela dificuldade em planejar momentos de formação para estes sujeitos sem saber ao certo o que seria trabalhar e viver nas mesmas condições que os catadores. Comecei, em função deste
questionamento, a cogitar a opção de ingresso numa organização de catadores com a finalidade de trabalhar e viver como um deles. Finalmente, em agosto de 2002, após ter terminado minha graduação em licenciatura em Ciências Sociais na UFRGS, aproveitei alguns contatos e a relação que o MNCR/RS tinha com a Associação dos Trabalhadores Urbanos pela Ação Ecológica do bairro Restinga. E, motivado em poder conhecer melhor esta condição e de quebra poder contribuir na produção, gestão e estruturação dos grupos de catadores, decidi-me, resolutamente, aprender como funcionava uma organização de catadores por experiência própria. Fui, então, morar naquela comunidade e acabei me tornando catador no galpão de reciclagem daquele bairro. Sendo a partir dessa nova vivência que pude perceber melhor o que me diferenciava dos catadores. A cada dia estas diferenças entre eu e os catadores se tornavam cada vez mais nítidas. Nesse sentido, recordo-me quando uma catadora, ex-aluna minha da UTC, me disse, quando soube que havia me tornado um catador, que o que eu havia feito era o mesmo que ela tentar lecionar sem nunca ter sido professora. E de fato, foi uma conversão muito árdua. Custei muito para aprender a trabalhar com o peso dos materiais recicláveis, tanto no manuseio de bombonas cheias de material já classificado pelas mulheres nas mesas de triagem, quanto no enfardamento e no deslocamento daqueles pesados fardos de diversos tipos de materiais, como os de plásticos filme e plásticos rígidos como PET, PE, PVC, PP entre outros tipos de polímeros. Mas os piores fardos eram os de aparas de papel branco que eram muito pesados e se desfaziam com facilidade. Porém para mim, o que realmente era mais difícil era o estranhamento quase que cotidiano nutrido pelos catadores em relação àquela figura “sem calo nas mãos” que proferia palavras complicadas, difíceis de entender em meio àquele trabalho duro, repetitivo e rotineiro deste grupo vinculado, desde o seu início, ao sistema formal de coleta seletiva de Porto Alegre. Foi uma experiência um tanto “pesada”, pois pude experimentar na pele o que era ser catador, além de ter que viver com uma renda de aproximadamente 250 reais por mês. Recordo-me que eu ficava profundamente irritado quando muitas pessoas sentiam pena de minha condição ou quando tratavam com ironia o fato d’eu trabalhar na associação de reciclagem, chamada de “lixão” por moradores de comunidades do entorno do galpão, tais como a Quinta Unidade e a Vila Castelo. Mas o que mais me aborrecia era ter de enfrentar o perfil autoritário de certas pessoas que ocupavam cargos na diretoria nesta associação, as quais buscavam favorecer uma facção em detrimento da outra dentro do galpão. Confesso que estabelecer uma interlocução entre as facções rivais foi uma tarefa muito difícil, pois devia ter-se muita cautela para não romper com ambos os grupos rivais a fim de conseguir manter um nível de estabilidade política interna como forma de construir o MNCR naquela associação.
Hoje, estou convencido de que a estratégia de atuação por mim adotada naquela ocasião se mostrou errônea, pois tanto o grupo que detinha a presidência e a tesouraria (e por isso comandava literalmente a associação) quanto o grupo que se mantinha fora desses cargos, mas que exercia sempre forte pressão sobre os catadores que ocupavam essas posições, ambos buscavam barganhar a sua adesão ao MNCR/RS em troca da manutenção do acesso aos benefícios do Programa Frentes Emergenciais de Trabalho (PFET), o qual garantia a distribuição de cestas básicas e uma complementação de renda no valor de aproximadamente 200 reais por associado. A periodicidade de recebimento destes benefícios deveria ser mensal, no entanto demorava até quatro meses para ser liberada pela então administração de Germano Rigotto do governo do estado5. Os militantes do MNCR/RS, entre os quais me incluía, estávamos cansados desta eterna barganha pela participação desta associação no movimento e também nos encontrávamos fartos da “política de facções” neste galpão, cuja força era maior que os apelos de unidade. Foi então que se deu o início do processo de retirada do MNCR do galpão da Restinga. Tal processo teve início logo que alguns militantes do MNCR/Base Cavalhada juntaram documentos que comprovavam as já antigas suspeitas de corrupção da diretoria desta associação6. Este evento possibilitou que a então facção dominante do galpão fosse neutralizada, no entanto, ainda restava a outra facção que em nossa avaliação também deveria ser neutralizada para que outras relações políticas pudessem se desenvolver no interior daquele grupo. Com este objetivo os militantes do MNCR/Base Cavalhada, apoiados por mim, pois ainda estava vinculado àquela base, reivindicamos a saída (expulsão) de dois nomes da outra facção. No entanto, nossa reivindicação foi reiteradas vezes recusada pela assembléia na qual foi debatida esta pauta. Tal recusa fez, então, que as lideranças do movimento presentes se pronunciassem pelo “nós ou eles” e frente à outra recusa do grupo em expulsá-los, então, os representantes do movimento se retiraram da associação, juntamente com a minha adesão, encerrando-se, de modo um tanto traumático, o envolvimento do MNCR/RS com aquele grupo e vice-versa nos últimos meses do ano de 2004.
5 Essa administração governou o RS entre 2002 e 2006 e inicialmente era composta pela coligação dos seguintes partidos: PMDB, PSDB, PFL, PPS, PP, PTB e PDT. O processo que envolveu a execução do PFET foi uma das motivações que me levou inclusive a querer entender melhor os processos de articulação dos catadores para a consecução desse tipo de programa.
6 Tais comprovações foram obtidas pelo fato de muitos compradores serem comuns entre as associações. E nesse caso, um comprador comentou os recorrentes pedidos de empréstimo, aos quais o pagamento seria efetivado com o envio de cargas futuras provenientes da produção dos catadores do galpão da Restinga. Os militantes do MNCR/Base Cavalhada solicitaram, tão logo, os recibos e os apresentaram em uma assembléia geral da Associação da Restinga. A assembléia deliberou, então, por unanimidade, a destituição imediata da então presidente e da tesoureira da referida entidade.
Em meio a esta experiência de quase dois anos de trabalho, lutas e algumas poucas conquistas na então Base Restinga do MNCR, o atendimento de uma reivindicação destes catadores foi a construção de uma creche voltada ao acolhimento das crianças do galpão de catadores e da comunidade da Quinta Unidade da Restinga. Logo que tiveram início as obras da creche, abriu-se um debate, no interior da associação de catadores sobre quem seria o coordenador desta iniciativa pautada e reivindicada há uns cinco anos antes por esta associação. O processo de seleção ocorreu em uma assembléia geral, e fui escolhido para assumir a função de coordenador pedagógico da referida creche. Creio que o que pesou nesta decisão foi minha inadequação ao trabalho com as prensas e bombonas. Nesta mesma instância também foi escolhido o nome desta creche: Escola de Educação Infantil Comunitária Ecos da Infância. No mês de fevereiro de 2004, eu saí da minha condição de catador no galpão para assumir temporariamente a coordenação pedagógica daquela escola comunitária. Sendo que o acordo estabelecido junto à coordenação da associação consistia na minha permanência na creche até que alguém da própria comunidade assumisse esta função. O que veio a ocorrer através de um processo de formação construído de modo coletivo entre a equipe operacional da escolinha. Após a referida formação que durou uns nove meses, a, então, professora do jardim de infância assumiu a coordenação. Isso me liberou, enfim, para atender, ao final daquele ano, uma convocatória do MNCR/RS de atuação em outro projeto de formação de abrangência nos três estados da região sul. Acredito que o trabalho neste projeto de formação, cuja duração foi de aproximadamente uns dez meses entre os anos de 2005 e 2006, credenciou-me para trabalhar em um outro projeto, o “Projeto Cadeia Produtiva da Reciclagem”7. Neste projeto trabalhei até o ingresso no PPGCS da PUCRS em 2008.
No interior de todas as ações acima rememoradas o sentido de engajamento para mim era como uma ferramenta de defesa e promoção destes sujeitos, cuja valorização seria o elemento capaz de transformar as condições de vida destes trabalhadores em situação de precariedade. Entretanto, conforme será visto no decorrer deste estudo, programas que estimulam o assistencialismo como o PEFT, o qual efetivamente serviu para distribuir cestas básicas e uma renda de emergência aos catadores. E projetos que objetivam a concretização do êxito de mercado, como o Cadeia Produtiva da Reciclagem, o qual tinha como objetivo geral a implantação de uma central de comercialização de materiais recicláveis, por si só
7 O projeto Cadeia Produtiva da Reciclagem foi um projeto de estruturação de entrepostos e centrais de comercialização no Rio Grande do Sul que foi financiado com recursos da Petrobras e teve duração de dois anos entre 2005 e 2007.
representam ações de cunho mercadológico e assistencialista para o encaminhamento político da questão social abordada neste estudo.
Constatações que pude formular somente através do estudo e da pesquisa dos sentidos construídos em meio às ações dos catadores enquanto atores societários. Todavia, pelo fato de estar profundamente inserido dentro destas mesmas ações não me era possível perceber de modo mais apurado os processos dentro dos quais o MNCR/RS se introduzia. No meio destes mesmos processos, cheguei a pensar em me bandear para os lados da Pedagogia, pois, fiquei um tanto impressionado com as atividades de formação dos catadores, ocorridas neste período. Entretanto, o movimento crescia, e com ele cresciam os desafios e os problemas. Somente a ação pela ação, ou a formação pela formação não trariam as respostas necessárias para os catadores enfrentarem suas problemáticas sociais, políticas e econômicas. Estas experiências de engajamento sociopolítico foram os fatores fundamentais que me levaram à retomada de minha trajetória acadêmica e ao meu empenho em atividades de estudo e pesquisa sociológica acerca dos rumos coletivos que eram consubstanciados em meio às ações deste movimento. A partir daí, inaugurava-se outro trecho desta mesma trajetória.