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Os núcleos de significação (AGUIAR e OZELLA, 2006; 2013) constituem um procedimento teórico-metodológico para a apreensão das significações que os participantes da pesquisa revelam em suas enunciações.

Este procedimento está ancorado nas mesmas categorias e pressupostos já discutidos na fundamentação teórica e auxiliam o pesquisador, a partir das transcrições do material empírico (entrevistas, reuniões e eventos), na tarefa de apreensão do real com toda a complexidade que lhe é peculiar, para além de sua aparência, entendida como enganosa, na perspectiva da psicologia sócio-histórica.

Recorremos novamente a palavras de Vigotski, para explicitar claramente seu objetivo em relação à investigação da psique e ao que poderia ser apreendido do marxismo:

O que pode ser buscado nos mestres do marxismo não é a solução da questão, e nem mesmo uma hipótese de trabalho (porque estas são obtidas sobre a base da própria ciência), mas o método de construção. [...] o que desejo é aprender, na globalidade do método de Marx, como construir uma ciência, como conduzir a investigação da mente (VIGOTSKI, 1927/2004, p. 395, grifos do autor).

Entendemos que o que orientou Vigotski era a necessidade de compreender como a singularidade revela a totalidade, mediada pela particularidade. Assim, no intuito de construir sua ciência para “investigar a mente”, entendida esta como sempre sócio-historicamente constituída, buscava por um método que revelasse as propriedades do todo que pretendia analisar. Discutindo a psicologia como a ciência que estuda “unidades complexas”, observa:

Deve encontrar essas propriedades que não se decompõem e se conservam, são inerentes a uma dada totalidade enquanto unidade, e descobrir aquelas unidades em que essas propriedades estão representadas num aspecto contrário para, através dessa análise, tentar resolver as questões que se lhe apresentam. Que unidade é essa que

não se deixa decompor e contém propriedades inerentes ao pensamento verbalizado como uma totalidade? Achamos que essa unidade pode ser encontrada no aspecto interno da palavra: no

seu significado (VIGOTSKI, 1934/2001, p. 8. Grifos nossos).

Entendemos que essa expressão é a palavra com significado, ou seja, uma palavra qualificada / adjetivada pelo sujeito que fala, à qual ele atribui uma “propriedade” específica e que, para ele, se constitui como “palavra própria”, ainda que fluida, inconstante e mutável. Como já apontado neste estudo, o pensamento se expressa na palavra e nela se realiza; é um processo mediado, no qual o significado é, ao mesmo tempo, linguagem e pensamento, carregando os sentidos e significados historicamente constituídos.

Para que possamos apreender, num primeiro movimento de abstração, essa palavra reveladora de aspectos da experiência do sujeito particular, focamos e destacamos um pequeno conjunto de palavras articuladas ou, melhor dizendo, uma unidade de significação. Tal unidade contém os significados sociais e os sentidos constituídos na dimensão subjetiva, sendo, assim, uma unidade do sujeito particular.

É esse o caminho que a análise vai perseguir: apreender o processo constitutivo dos sentidos, bem como os elementos que engendram esse processo, para nos apropriarmos daquilo que diz respeito ao sujeito, daquilo que representa o novo, que, mesmo quando não colocado explícita ou intencionalmente, é expressão do sujeito social e histórico (AGUIAR & OZELLA, 2013).

Para dar conta dessa empreitada, o recurso metodológico adotado contempla os seguintes movimentos, dialeticamente articulados:

1) leituras do material transcrito (flutuante e recorrente )

2) identificação da(s) palavra(s) com significado, ou seja, da(s) palavra(s) inserida(s) em um contexto, que será(ão) chamada(s) de pré-indicador(es); 3) agrupamento dos pré-indicadores em indicadores; e

4) reunião dos indicadores em núcleos de significação.

A constituição do núcleo de significação já corresponde a uma abstração maior, pois é um momento em que os conteúdos dos indicadores se articulam dialeticamente, sendo que, nesse processo, são trazidos também elementos oriundos das produções acadêmicas e teóricas disponíveis na sociedade, no intuito de construirmos explicações que saiam da aparência e alcancem o concreto (AGUIAR & OZELLA, 2013; AGUIAR, SOARES & MACHADO, 2014).

Figura 2: Movimento ascendente de constituição dos núcleos de significação

A figura acima é apenas didática, pois entendemos que em cada um desses momentos (leitura flutuante do material transcrito, identificação dos pré-indicadores, produção dos indicadores e constituição dos núcleos de significação) deve-se e precisa- se, muitas e muitas vezes, voltar ao momento anterior.

3.8. A leitura flutuante – apropriação do material produzido e suas características nesta pesquisa

De posse do material completo47, fizemos uma exaustiva e recorrente leitura do material, ou seja, das transcrições dos eventos constitutivos do corpus (reuniões, entrevistas, encontros de formação). É o que se chama de “leitura flutuante”. Nesse primeiro momento (embora não se possa descartar que já tínhamos um objetivo), a leitura foi realizada sem a preocupação de encontrar aspectos específicos ou de categorizar, mas, sim, de aprofundar o conhecimento do material. Esse é, pois, o momento em que todo pesquisador deve estar aberto também para ser surpreendido.

A seguir, voltamos à leitura, porém já com o objetivo de destacar aspectos que despertaram interesse ou chamaram a atenção pela característica do relatado (por exemplo, relacionar-se ao objetivo da pesquisa), ou pela frequência, reiteração, acento apreciativo, ou pela importância enfatizada nas falas dos informantes, pela carga

47 No caso desta pesquisa, como já apontamos, transcrições foram realizadas por terceiros e a maioria delas

foram entregues durante o processo de pesquisa, ainda que sem regularidade na frequência. E não é possível desconsiderar que essas leituras, mesmo sendo material ainda parcial e fragmentado, permitindo uma leitura assistemática e circunstancial, foram muito importantes e, de certa forma, constituintes de como olhamos o material posteriormente.

Leitura com preocupação de categorizar Identificação dos pré- indicadores Produção dos indicadores Constituição dos núcleos de significação

emocional presente, pelas insinuações não concretizadas, ou, ainda, pela qualidade da reflexão (AGUIAR & OZELLA, 2006; 2013).