Diverge a doutrina francesa acerca da aplicação da teoria do fato do príncipe.153 Parte dos autores entende que o fato do príncipe engloba todo e qualquer poder de alteração unilateral do contrato pela Administração Pública, seja por medidas de ordem geral ou por medidas que digam respeito ao próprio contrato. Em ambos os casos, as alterações verificadas na execução do contrato autorizam o particular a pleitear indenização pelos prejuízos a ele causados.154
No Brasil, nessa linha, Caio Tácito afirma que a teoria do fato do príncipe resguarda o equilíbrio econômico-financeiro do contrato, sendo irrelevante se a ofensa decorre de modificação direta de uma estipulação contratual, ou da incidência de ato administrativo que atinja indiretamente as condições de execução do contrato. Para esse fim, impende que o desequilíbrio seja gerado por um ato oriundo da mesma autoridade que é parte na concessão.
Contudo, para os adeptos da outra corrente, o fato do príncipe abrange apenas as medidas de ordem geral tomadas pela Administração Pública contratante, exteriores ao contrato, mas que nele repercutam, tornando mais onerosa a execução de seu objeto, alterando o equilíbrio econômico-financeiro inicialmente estabelecido. Sustentam que o direito do concessionário pleitear indenização em virtude de alterações unilaterais feitas pela Administração Pública não pode ser enquadrado no conceito de fato do príncipe. Isto porque a alteração unilateral influi diretamente no
152 BANDEIRA DE MELLO. Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 26. ed., São Paulo: Malheiros,
2007, p. 732.
153 Celso Antônio Bandeira de Mello aponta essa divergência entre os doutrinadores franceses. Segundo o autor,
Laubadère, Waline e Rivero entendem que a teoria do fato do príncipe aplica-se tanto quando os prejuízos resultarem da modificação unilateral das cláusulas da concessão quanto as que provenham de medidas tomadas com base em competência diversa daquela que o concedente exercitou ao praticar o ato concessivo. De outro lado, Vedel e Benoit consideram que apenas nessa última hipótese tem aplicação a teoria do fato do principie, Para esses autores a indenização devida em razão da utilização pelo concedente do poder de alteração unilateral das cláusulas contratuais funda-se na própria relação específica da concessão e não no exercício de um poder genérico ao qual se deve ligar o fato do príncipe. (BANDEIRA DE MELLO. Celso Antônio. Curso
de direito administrativo. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 734, nota de rodapé n. 37).
154 Marçal Justen Filho aponta Rivero e Waline como autores adeptos dessa 2 corrente. (JUSTEN FILHO,
contrato, produzindo alterações nas prestações das partes, o que torna a responsabilidade do Poder Público pela recomposição da equação econômico- financeira contratual. O mesmo não ocorre nas hipóteses de fato do príncipe. Nesses casos, a atuação do Poder Público não se refere especifica e diretamente ao contrato, nele repercutindo apenas de maneira reflexa. A responsabilidade do Poder Público, nessa hipótese, é extracontratual.
Esposando o entendimento doutrinário dessa corrente, o fato do príncipe pode ser caracterizado como uma determinação geral, jurídica ou material da própria Administração, que atinge o contrato apenas reflexamente, sendo imprevisível às partes quando da celebração do acordo.155
Para a caracterização do fato do príncipe, o ato que altera o equilíbrio econômico-financeiro do contrato deve ser praticado pela própria autoridade contratante, não podendo advir de pessoa diversa. Dessa forma, o ato geral de uma autoridade federal que cause ônus a uma concessão pactuada entre um particular e uma autoridade municipal ou estadual não poderia ser caracterizado como fato do príncipe.
De se ressaltar que foi apenas a partir de 1949 que o Conselho de Estado francês limitou a aplicação da teoria do fato do príncipe aos casos de medidas gerais tomadas pela própria Administração concedente, remetendo para a teoria da imprevisão as hipóteses em que o prejuízo do contratado é oriundo de ato de autoridade estranha ao contrato de concessão.156 O direito brasileiro adota esse
entendimento, como mostra Maria Sylvia Zanella Di Pietro:
No direito brasileiro, de regime federativo, a teoria do fato do príncipe somente se aplica se a autoridade responsável pelo fato do príncipe for da mesma esfera de governo em que se celebrou o contrato (União, Estados e Municípios); se for de outra esfera, aplica-se a teoria da imprevisão.157
155 ARAGÃO. Alexandre Santos de. Direito dos serviços públicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 643. 156 TÁCITO, Caio. O equilíbrio econômico financeiro nas concessões de serviços públicos. In: Temas de direito
público (estudo e pareceres). Rio de Janeiro: Renovar, 1997, p. 199-255, p. 207.
157 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 22 ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 279. Cumpre
ressaltar, contudo a opinião de Celso Antônio Bandeira de Mello:”agravos resultantes de medidas tomadas sob
titulação jurídica diversa da contratual, isto é, no exercício de outra competência, cujo desempenho vem ater
repercussão direta na economia contratual estabelecida na avença. É o chamado ‘fato do príncipe’, tomada a expressão com o âmbito específico a que se reporta Francis-Paul Bénoît, ao dizer: ‘ Convém entender por ‘fato do príncipe’ os atos jurídicos e operações materiais, tendo repercussão sobre o contrato, e que foram efetuados pela coletividade que celebrou o contrato, mas agindo em qualidade diversa da de contratante.’ [...] O fato do
príncipe não se confunde com aquilo que alguns autores denominam de ‘fato da Administração’ [...].
9BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 6380.
O ressarcimento pelos encargos nos casos de fato do príncipe deve ser integral e será suportado pela Administração Pública que foi a causadora, ainda que de maneira indireta, do desequilíbrio contratual. Deve-se ressaltar, que há uma tendência jurisprudencial de reconhecer a aplicação dessa teoria apenas se as medidas do Poder Público atingirem o concessionário de modo especialmente oneroso em relação aos demais cidadãos.158