O papel da arte no projeto com as juventudes EMdiálogo na cidade de Fortaleza com direcionamento para o trabalho no Festival de Imagens, buscava estabelecer o sentido e a escuta, a expressão e a reflexão dos estudantes sobre suas experiências e experimentações do dizer através de imagens. Essa ideia era o ponto de partida, sensibilizar os jovens e levar a eles o que pode ser diferente do que conhecem, através dessa saliência de estranhamentos. Simplesmente, não é uma tarefa fácil.
Recordo-me de ouvir algumas críticas de uma integrante do EMdiálogo que atuava na coordenação financeira do projeto. Ela me questionou sobre um dos vídeos produzidos sobre a questão do namoro na juventude, pois segundo ela, o tema não era relevante, parecia uma abordagem superficial. No entanto, era preciso entender que a ideia precisava partir dos jovens, sendo que essa questão veio deles. Era sim muito significativa, sobretudo, do modo como foi construída e trabalhada por eles. Lembro que quando atuei como técnica na Secretaria Municipal da Educação – SME, responsável pelo acompanhamento das práticas da Arte nas escolas municipais, ouvi o relato de uma professora de dança, Claudia Pires, a atual diretora da Vila das Artes. Atualmente, a cidade conta com um equipamento cultural, a Vila das Artes, que atende a escola de audiovisual47. A Cláudia na época era responsável pelo acompanhamento junto a Secretaria de Cultura de Fortaleza - SECULTFOR, enquanto eu atuava no acompanhamento pedagógico do Programa Dançando na escola, que acontecia em parceria com a SME. Em uma conversa sobre o projeto de dança, ela me disse que era preciso sim, deixar que o que faz parte da vida do estudante chegasse primeiro. Não adiantava chegar impondo, mas era preciso ouvir aqueles corpos, deixar entrar as músicas que eles dançavam.
Pelo menos, no começo. Era preciso dançar a música deles, para depois, passar outro som, trazer os corpos que se moldavam para novos sentidos.
Desse modo, também percebia a relação dos jovens EMdiálogo com o projeto. Não era simplesmente impor um tema, uma ideia amadurecida para ser discutida. Era preciso partir do olhar deles, deixar que se encantassem com certas formas na medida em que fossem absorvidos por outros olhares. Isso não é um processo simples, não é rápido, é uma conquista que investe em ouvir. Ora, sabíamos que o tempo era sempre pouco e que o que seria possível era semear, ou seja, jogar uma semente do olhar.
É que na arte não lidamos com uma emoção comum, mas implicada em uma reflexão sobre as imagens que ela traz. Assim estava a ser trabalhada a produção de vídeo no meio das juventudes do Ensino Médio, partindo da própria criação em uma composição que se revelava em produtos digitais. O processo de criação envolvia a prática artística na fruição, interpretação e composição de imagens que necessitavam dos educadores, do mínimo de orientação técnica e de elementos para sua contextualização no ambiente dessa produção audiovisual.
O vídeo produzido depois de uma conversa sobre juventudes e suas escolhas, como experimento audiovisual, o curta-metragem “Ficar ou Namorar, a escolha é sua”48, foi publicado em 03 de julho de 2013. Para os estudantes, alguns temas eram considerados relevantes nas relações que se estabeleciam na escola. Uma das ideias que surgiu na incubadora de imaginação - um tipo de mural de depósito de tirinhas com as sugestões temáticas - foi discutindo sobre juventudes e suas escolhas, o que promoveu o debate do ficar e namorar, tendo como resultado o vídeo “Ficar ou Namorar, a escolha é sua”. Publicado em 03 de julho de 2013, produzido depois e uma conversa sobre juventudes e suas escolhas.
Com a aproximação do dia dos namorados, os estudantes começaram a conversar
informalmente sobre o assunto de namorar sério ou só “ficar”. Também comentaram sobre o
que significa namorar na escola. A partir dessa discussão, a monitora Mírian Rocha mediou a sugestão dos estudantes produzir um Painel EMdiálogo com as seguintes perguntas: “Namorar? Vantagens e Desvantagens / Ficar? Vantagens e Desvantagens”. Os jovens deixaram um espaço para que todos os alunos da escola pudessem escrever as suas opiniões. A ideia era que a partir que essas perguntas recebiam respostas, teriam material para criar um vídeo, com personagens fictícios, a partir das falas que apareceram no painel. Os estudantes também espalharam frases românticas pela escola. A monitora Mírian Rocha comentou o
sucesso da prática, dizendo que durante o intervalo de recreio, percebeu muitos alunos lendo as frases e outras vezes, copiando os textos.
Perguntamos-nos às vezes sobre o interesse dessas imagens, às quais se atribui muito frequentemente uma função apenas ilustrativa, já que até hoje o cinema foi pouco utilizado em trabalhos históricos. Entretanto, suas funções oferecem possibilidades bastante vastas enquanto documentos de base para os historiadores do presente (LAGNY, p. 28, 2012).
Figura 11: Grupo EMdiálogo nas discussões
Referência: Grupo fechado – Coletivo Castelo Branco no facebook
Um aluno da escola, que escrevia poemas, viu as frases e procurou a equipe EMdiálogo do CB, visando participar da atividade divulgando as produções dele. Os articuladores na divulgação das frases foram os jovens Gabi Melo e Anthonyo Ferreyra. Os responsáveis pelo painel foram Alex Castro, Beatriz Oliveira e os outros integrantes. A monitora sentiu falta da participação da Jessica Albuquerque, do Luís Fernando Viana e do Gabriel João.
Uma das personagens do vídeo “Ficar ou Namorar”, interpretou uma cartomante. O
curta-metragem contou com a participação de um grupo de jovens para as entrevistas, dramatizações, filmagens, edição e roteiro do trabalho. Em uma das cenas o estudante Virgílio Maciel entrevista uma jovem estudante do colégio Castelo Branco. Compondo o elenco da produção, estava os jovens Alex Oliveira, Emanuelle Bezerra, Gabi Melo, Gabriela Sousa,
Jeferson Ramon, João Gabriel, Jonas, Luis Fernando como a cartomante e Mateus Emanuel.
Figura 12: Vídeo Ficar ou namorar
Referência: Imagens do vídeo - Ficar ou Namorar
A música que os estudantes escolheram para a abertura do curta-metragem foi Open Year Eyes. Com o uso das imagens editadas com legendas de palavras ou frases do texto, as filmagens passam poruma jovem que consulta uma cartomante para saber sobre o amor romântico. Entre os recortes da edição, está a abertura do vídeo, com uma foto do EMdiálogo após a realização da oficina de scrapbook na escola.
As cenas do vídeo “Ficar ou Namorar, a escolha é sua” foram realizadas na escola,
em espaços do pátio, corredores e salas de aula. O deslocamento acontece na edição das imagens, que passam por vários cenários e situações. Na entrevista com a jovem Érica estudante do segundo ano E – tarde, sobre o ficar e namorar, ela diz que prefere namorar.
Ficar é aquela curtição... disse a jovem na entrevista que já deveria estar combinada sobre as perguntas, das vantagens e desvantagens de ficar ou namorar. Você está com quem quiser, na hora que quiser... diz a jovem, sobre o ficar. A jovem conta que quando namora pode contar com a pessoa todos os dias, isso é namorar. A desvantagem é não poder sempre sair com os amigos. O fundo do mural no vídeo Ficar ou Namorar é a incubadora de ideias na sala em que o EMdiálogo realizava as oficinas na Escola Castelo Branco.
No vídeo com 14:33 minutos de filme, entre imagens fotográficas e desenhos, os estudantes dramatizaram personagens, promovendo alguns diálogos. O vídeo também utilizou algumas legendas editadas, com as principais frases dos personagens.
Figura 13: Filmagem com uso de balões e legendas na edição.
Referência: Imagem do vídeo – Ficar ou Namorar.
Um dos roteiros é o de uma estudante que sai da escola com uma colega para consultar uma cartomante sobre assuntos de relacionamentos, que se desdobram no ficar ou namorar. Os personagens fazem questinamentos das vantagens e desvantagens, colocando em exposicão os exemplos retratados em pequenos diálogos que são desenrolados no segmento do vídeo.
Hoje, (20-06-2013) gravamos um vídeo com o tema "Fica ou namorar? A escolha é sua?". Discutimos EM_Diálogo sobre o tema e depois propus que cada um criasse um personagem para expressar a sua opinião sobre o tema. No decorrer do diálogo começou a surgir um enredo sobre o tema. Foi muuito legal gravar com/ essa galera!!! Coletivo CB (postado pela monitora Mírian Rocha, no grupo fechado do CCB no facebook)
Na composição da produção audiovisual na escola Castelo Branco, foi explorada a diversidade de temas na amplitude das sensações que os jovens estavam discutindo. Na esfera
física, as trocas de carícias ou carinhos e relação psicológica de envolvimento do corpo e das questões que são vivenciadas pelos jovens, são flagrantes da necessidade que os leva tomados pelo impulso de discutir um relacionamento afetivo ou sexual.
O posicionamento do olhar masculino no “ficar” feminino é uma das narrativas que marcam o vídeo. Em uma dramatização de uma rodinha no pátio, entre um grupo de jovens, uma das meninas admite que “prefere ficar e ficar falada”. Para ela, seria ainda melhor do que namorar. O ficar falada relata uma denúncia feita apenas as jovens, que passam por garotas
“rodadas”. Por fim, o vídeo “Ficar ou Namorar” passa a ideia que existem diferentes formas
de se relacionar, que o ficar de vez em quando com alguém é uma descoberta tão grande quanto o namoro para alguns, como por outro lado, “ficar” é um meio de ter vária experiências em tempos rápidos e flexiveis. Podemos indicar que o processo de produção audiovisual do vídeo “Ficar ou Namorar”, sugere questões de formas de se relacionar afetiva e sexualmente, traçando um diálogo para novos olhares que podem levar a discutir o preconceito e a discriminazação de gênero e orientação sexual.
O vídeo “Ficar ou Namorar” traz à discussão da desigualdade de gênero. Quando observamos os avatares dos jovens no facebook nos deparamos com questões que envolvem temas sobre a sexualidade. A proposta audiovisual “Ficar ou Namorar” salienta temas que indicam discussões de como os jovens vivenciam a sexualidade, considerada como dimensão humana, como saúde e prevenção nas escolas, já que podem promover conhecimentos sobre métodos contraceptivos e possibilidades de trocas e experiências que colaborem para refletir sobre o processo de decisão da sexualidade.
Na arena transitória do século XXI, determinada pelos padrões de consumo e da competividade, no que se refere às juventudes, temos em maioria uma visão publicística da arte, voltada para o consumo. Se faz necessário interpretar o que se vê, não apenas decodificando, mas fazendo interpretações que fazem perguntas à imagem. E mais: ocupando espaços com suas produções e inaugurando novas sensibilidades no campo social. Desse modo, o olhar sobre as imagens pode evoluir conceitualmente no desenvolvimento da percepção estética, da leitura de imagens, acordando as possibilidades potenciais críticas do universo que chega a si, mas também as da imaginação simbólica.