Não existe separação da arte da história da humanidade. Segundo Vigotski (1999,
p.321), “Não é por acaso que, desde a remota Antiguidade, a arte tem sido considerada como
um meio e um recurso da educação, isto é, como certa modificação duradoura do nosso comportamento e do nosso organismo”. Por impelir a um prolongado sentimento social das relações mais complexas, a Arte abriga potencialmente a quebra de regras, levando a transformar, como em uma metamorfose que sai do invólucro, contestando, rompendo e transformando-se a partir do que foi imposto.
Na realização do segundo trabalho em audiovisual na escola Castelo Branco, os estudantes do coletivo EMdiálogo elaboraram o vídeo performance “Consciência negra46”, iniciando com a pergunta: “Onde você guarda o seu preconceito?” Os jovens saíram da escola e cruzaram a avenida do bairro para realizar a intervenção artística que planejaram no coletivo CB. O trabalho foi comentado pelos estudantes que participaram do vídeo no grupo interativo do facebook, em 22 de novembro de 2013, levantando a discussão de que os jovens negros empobrecidos tendem a ser estigmatizados:
Quando se trata de jovens pobres, ainda mais se forem negros, há uma vinculação à idéia do risco e da violência, tornando-os uma “classe perigosa”, diante dessas representações e estigmas, o jovem tende a ser visto na perspectiva da falta, da incompletude, da irresponsabilidade, da desconfiança DAYRELL (2005, p. 9)
Com 0:13:28 de vídeo, a experiência de montagem audiovisual utilizou o áudio da escola. Se ouvia os grupos de jovens que eram surpreeendidos com a intervenção. O tema aborda o preconceito no país que vivemos. A escola é o cenário central, antes dos personagens
saírem para a avenida. Assim, a discussão se estende no papel da escola, na observação da influência da mídia nas desigualdades raciais e políticas de inclusão.
A ulilização do recurso do corpo, das mensagens que questionavam o preconceito, nas folhas de caderno coladas nas roupas, sem usarem uma palavra, na invasão dos espaços, a exposição nos ambientes da escola, provocou a atenção e curiosidade dos outros alunos, dos estudantes que estavam nos ambientes da escola. Os integrantes do grupo EMdiálogo também escolheram os lugares para se posicionar, de modo que fossem notados, iniciando a intervenção no palco e aos poucos, passando pelos corredores e sala dos professores, antes de sair pela porta da escola. O exercício revelava a identificar as diferenças físicas e culturais que se tornam desigualdades. Alex Silva, um dos jovens EMdiálogo, publicou em 22 de novembro de 2013, as 16h31min, que a intervenção foi uma experiência muito incrível, recordando que passaram por diversos lugares da escola e depois foram para a rua, abordando diversas pessoas:
Essa performance foi uma experiencia (sic) muito incrível (sic), passamos por vários (sic) lugares, e abordamos todos os tipos de pessoas, e o melhor de tudo foi ver que todas as pessoas entenderam a mensagem que queriamos (sic) passar sem precisarmos dizer uma só palavra, nosso corpo e nossas expressões nessa performance foi nossa Voz! (Publicação do estudante Alex Silva, integrante do grupo EMdiálogo CB, em postagem realizada no grupo fechado do CCB no facebook)
Sobretudo, o jovem destacou que conseguiram passar a ideia sem dizer uma única palavra, significando que o corpo e as expressões do rosto traduziram a forma de comunicação da expressão criativa, que para ele, utilizaram com muita força a intervenção na escola e na rua. Já o estudante Gustavo Pedrosa, no mesmo dia, às 16h33min, também fez um
comentário sobre o vídeo “Consciência Negra”, descrevendo que entraram nas salas de aula,
na sala dos professores, coordenação e outros espaços da escola. Gustavo declarou ainda que entravam nas salas, assim como o preconceito, sem pedir licença. O jovem destacou que algumas pessoas ficaram incomodadas e não gostaram da intervenção. O estudante questionou sobre o fato que ninguém gosta de receber visitas quando não são esperadas, como aquelas que chegam sem ser convidadas: “Entramos nas salas como o preconceito entra nas nossas vidas, sem pedir licença... algumas pessoas não gostaram, afinal, quem é que gosta de receber "visitas" sem as convidá-las?”
Figura 7: “Onde você guarda o seu preconceito?”
Referência: Portal EMdiálogo
A estudante Nilzinha fez uma publicação em 22 de novembro de 2013, no grupo do
facebook, afirmando que o tema do vídeo “Consciência Negra” era muito interessante, pois o preconceito racial é um assunto grave na sociedade. A aluna disse ter percebido por parte de algumas pessoas, que no momento da gravação, sentiu uma determinada indiferença ao trabalho que estava sendo realizado pelos jovens. No mesmo dia, o jovem Virgílio Maciel publicou na rede social sobre sentir-se feliz com a realização de propor uma discussão contra o preconceito racial. No fim da postagem, o estudante parabenizou a monitora Mírian Rocha pelas práticas desenvolvidas em experiências nas oficinas.
Essa performance começou com a seguinte pergunta: “Onde você guarda o seu
preconceito?”. A pergunta surgiu quando começamos a pontuar as piadas, frases,
atitudes racialmente discriminatórias. Resolvemos então sair pela escola e pela avenida com essas frases que infelizmente escutamos, pensamos e dizemos com maior ou menor freqüência. O dia da consciência negra é marcado pela luta contra o preconceito racial, contra a inferioridade da classe perante a sociedade e também sobre o respeito enquanto pessoas humanas. É um dia para se discutir e trabalhar para conscientizar as pessoas da importância do negro e de sua cultura na formação do povo brasileiro e da cultura do nosso país. Na época da escravidão os negros não
tinham direito ao estudo ou a aprender outros tipos de trabalho que não fossem os braçais, ficando presos a esse tipo de tarefa. Muitos deles, estando libertos, continuou na mesma vida por não terem condições de se sustentar. Hoje temos várias leis que defendem esses direitos, como a de cotas nas universidades, pois se acredita que em razão dos negros terem sido marginalizados após o período de escravidão, não conseguiram conquistar os mesmos espaços de trabalho que o homem branco. (Mirian, comentário postado na comunidade Nossas Cores- Portal Ensino Médio EMdiálogo)
A prática educativa da cultura visual viria a enfatizar a moldura sociocultural da imagem e sua leitura, encarada como um mosaico de significados que se aglutinam para formar um sentido conciso e demarcado pelas fronteiras do símbolo, em uma rede complexa.
Para Lagny (2012, p.26): “Em particular, a filmagem imprime ao testemunho oral, fonte
favorita da história do tempo presente, uma visibilidade que o registro sonoro, que deve ser
transcrito, não permitia”.
Ferraz & Fusari (2010) indicam que um curso de arte contempla o conhecimento estético e a crítica na interpretação da arte, fomentando o diálogo do fazer com o pensar. Assim é que a história da arte e os signos que a compõem as imagens e suas leituras fazem parte de um mundo diversificado como o da própria história do homem, por isso se faz necessário a reflexão sobre o estudo imagético da cultura visual como tarefa educadora. Porque há muitos códigos para ler a arte e, também, porque a fantasia (e o inconsciente) se objetiva nas formas artísticas.
Figura 8: “Aquele de cor, aquele moreninho, aquele negrinho”.
Referência: Portal EMdiálogo
O momento da sintonia inspiração e a criatividade desperta a emoção da experiência estética (a estesia), na qual a dimensão poética está presente, criando sua palavra-aberta, seu novo sentir e pensar. Rossi (2009) observava que a arte vai além dos significados que o artista pretende comunicar, para além da vida da obra, pois no encontro estético, estando em posse de habilidades da cognição, em um nível avançado de interpretação, é possível refletir sobre si próprio.
A aprendizagem em arte, desse modo, por ser prática sensível, promove o estado criativo de certo modo: indiciador de cruzamentos e intercruzamentos, incertezas e, de repente, o inusitado. Trabalhos criativos são envolventes e trazem ecos de liberdade. Goleman, Kaufman e Ray (2003, p.38), observam que a criatividade pode ser exercida em várias atividades ao mesmo tempo, o que dinamiza a produção, mas a imaginação que se diz na arte é diversa da que utiliza a racionalidade científica – utilizam simbolismos diversos, e devem dialogar no caminho do conhecimento do mundo.
Figura 9: Consciência negra além dos muros da escola
Referência: Portal EMdiálogo Figura 10: Coletivo EMdiálogo CB
No exercício criativo, como vimos, os jovens transbordavam em ideias e imaginação, daí construindo o pensamento intuitivo. E porque criar é necessário em todas as nossas realizações, na construção de uma ordem menos rígida, com conexões abertas ao belo, mas também ao maravilhoso, ao grotesco, ao bizarro; em uma experimentação que implica em uma opção, uma escolha em aceitar participar do novo, animando o desejo de explorar e transformar, com possibilidades de romper os moldes antigos.