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3. Tar›msal Faaliyetlerin Muhasebe- Muhasebe-lefltirilmesi
A concepção de educação sobre a qual está pautada esta tese tem como principal
referência a proposta realizada por Paulo Freire, de uma educação com base no diálogo
e compreendida enquanto prática de liberdade. A proposta de uma educação dialógica
foi apresentada inicialmente na obra Educação como prática de liberdade (FREIRE,
1967) e aprofundada nos estudos posteriores do autor durante sua vida.
Diferente das práticas autoritárias, a prática educativa dialógica se manifesta na
curiosidade, na indagação e na nossa compreensão como seres da pergunta, condição
que nos encaminha para a possibilidade de conhecer, não apenas de memorizar
conteúdos (FREIRE, 2004, p.76). O autor se refere à dialogicidade não como um
instrumento da prática pedagógica, mas como essencial à comunicação, uma exigência
da natureza humana e parte da opção democrática de educadoras e educadores.
Quanto à relação entre autoridade e a prática educativa, Freire (2004) indica que,
para educadoras e educadores democráticos, a prática educativa é séria e alegre,
promove o contentamento, contempla a satisfação e propõe uma autoridade que não
desrespeita as liberdades individuais e precisamente por isso se estabelece e se afirma.
A autoridade de educadoras e educadores se constitui a partir da coerência que
demonstram entre o que falam e o que fazem, cuja atitude respeita e assim é respeitada.
O autoritarismo do educador não se manifesta apenas no uso repressivo da autoridade, que restringe arbitrariamente os movimentos dos educandos. Manifesta-se igualmente num sem-número de oportunidades. Na vigilância doentia sobre os educandos, na falta de respeito à sua criatividade, à sua identidade cultural. Na falta de acatamento à maneira de estar sendo dos alunos das classes populares, na maneira como os adverte ou censura (FREIRE, 2004, p. 73).
Para Freire (2004, p.23), ―Somos seres da transformação e não da adaptação‖, o
que nos impulsiona para a transformação de nossas realidades e para a assunção do
papel de sujeitos da história, que se apresenta não determinada, mas como possibilidade.
De acordo com Freire (2004), a acomodação é a desistência da luta pela mudança, pela
transformação do mundo. Os que se acomodam não querem correr riscos e julgam
impossível brigar permanentemente por justiça e ética. Então, deixam-se dominar por
quem vê nessa acomodação mais uma oportunidade de manter suas vantagens.
Assim, o papel do educador progressista é de impedir que essa situação perdure.
Dessa forma, uma das finalidades da Educação, apontada pelo autor, é estimular no
sujeito a compreensão de que sua presença no mundo é sempre um fator de risco, e isso
não é ruim. É por meio da Educação que o sujeito, ao invés de negar o risco, assume-o
para assim poder lutar eficazmente pelo que acredita e tornar-se cada vez mais
consciente de sua capacidade de intervenção no mundo. É a Educação que concebe o
sujeito conhecedor de que a mudança faz parte das experiências culturais.
O autor se refere à possibilidade de, enquanto sujeitos e objetos da história,
sermos capazes de lutar pelas mudanças no mundo, ainda que conscientes das
dificuldades que a tarefa impõe. Para tanto, sugere que é necessário ter sonhos,
identificados como ―projetos pelos quais se luta‖ (FREIRE, 2000, p.26). Não podemos
nos sujeitar a aceitar a realidade tal qual ela nos é imposta e faz parte da prática
educativa aprender que somos dotados das capacidades de pensar, indagar, escolher,
comparar, e, sobretudo, decidir. Nessa perspectiva, a Educação, que nunca é neutra,
[...] tanto pode estar a serviço da decisão, da transformação do mundo, da inserção crítica nele, quanto a serviço da imobilização, da permanência possível das estruturas injustas, da acomodação dos seres humanos à realidade tida como intocável (FREIRE, 2000, p.27).
Freire (1997) afirma que a educação como prática transformadora exige que
educandas e educandos não sejam submetidos à manipulação ideológica presente no
sistema escolar, onde educadoras e educadores progressistas precisam ser coerentes com
seu sonho democrático. Dessa forma, sugere a atenção às posturas de tolerância,
humildade, transparência e criticidade necessárias à prática docente, a fim de que ela
não se consume na mera transmissão de conhecimentos ou memorização de conteúdos,
mas que permita que educandas e educandos se apropriem das significações profundas
do que lhes é ensinado.
Daí, a vigilância com que devem atuar, com que devem viver intensamente sua prática educativa; daí seus olhos devendo estar sempre abertos, seus ouvidos, também, seu corpo inteiro aberto às armadilhas de que o chamado ―currículo oculto‖ anda cheio. Daí a exigência que se devem impor de ir tornando-se cada vez mais tolerantes, de ir pondo-se cada vez mais transparentes, de ir virando
cada vez mais críticos, de ir fazendo-se cada vez mais curiosos (FREIRE, 1997, p.81).
Em referência ao contexto da educação brasileira, Freire (1997) afirma a
urgência da democratização da escola pública, a partir da construção de uma postura
dialógica que implica na oposição ao autoritarismo e ao posicionamento hierarquizado
entre os saberes, no qual educadoras e educadores se estabelecem como as pessoas que
sabem mais nas relações com educandas e educandos. Nesse sentido, aponta para a
necessidade de que, na prática pedagógica, existam a escuta, o reconhecimento e a
valorização do saber de experiência feito. Freire (1997) utiliza essa expressão para
identificar e propor o reconhecimento dos saberes produzidos por todas as pessoas no
cotidiano. O saber de experiência feito é o saber de todos nós a partir de nosso corpo-
próprio ao mundo.
A postura de valorização desses saberes é uma exigência da práxis proposta no
sentido em que busca desmistificar a ideia de hierarquização dos saberes que, propagada
pelo cientificismo, situa os conhecimentos provenientes das culturas populares como
inferiores aos que são produzidos pela cultura dominante. Para Freire (1994, p.46), não
pode haver diálogo sem o reconhecimento de que ―[...] não há ignorantes absolutos,
nem sábios absolutos [...]‖, sem a compreensão de que todas as pessoas têm saberes
importantes de acordo com sua atuação no mundo. O reconhecimento desses saberes, no
entanto, não é o ponto final da ação educativa, mas o ponto de partida para a aquisição
de novos conhecimentos, como afirma Freire (2014, p.381):
O ponto de partida de um projeto educacional está na identidade cultural dos educandos e não na dos educadores. Está na compreensão do mundo dos educandos. Está na sabedoria de que os educandos estão molhados, ensopados. Não importa que seja saber de experiência feita, portanto senso comum. Ninguém supera o senso comum a não ser partindo dele. [...] Eu tenho primeiro que assumir a ingenuidade do educando, me empapar dela também, depois, dar o braço ao educando e partir para superá-la. Isto não se faz! A escola admite que o educando é tábua rasa para ela. Não traz nada do mundo e depois que vem para ela continua não recebendo nada do mundo.
Vale ressaltar que, na proposta de superação do senso comum, está a
consideração de que nem todo saber de experiência feito é positivo, pois são saberes
construídos na vivência de uma sociedade exposta a relações desumanizadoras, como as
sexistas, classistas ou racistas. As marcas dessas experiências não podem ser ignoradas
nem tampouco podem ser apagadas. Em uma perspectiva freireana o importante é a
compreensão do que podemos fazer com e a partir dessas experiências.
A articulação entre os contextos educacionais apresentados a seguir, nos quais se
estabelecem as sociedades brasileira e moçambicana, tem como pano de fundo para a
discussão o caráter plural e multicultural que constitui as duas sociedades e a
perspectiva intercultural em que se localizam, no mundo atual.
As discussões
estabelecidas no contexto social de um país podem não ser relevantes para o outro. Em
contrapartida, é possível considerar a existência de temas, ações e diálogos que se
afinam e podem contribuir para se pensar a Educação, cuja problematização surge das
demandas sociais, na realidade de cada sociedade, mas que, inevitavelmente, passa pelo
exercício de compreender o contexto histórico, político e social de cada uma delas.
No que diz respeito ao campo educacional, ambos os países, Brasil e
Moçambique, travam suas lutas por estratégias de sobrevivência em sociedades
multiculturais inseridas no contexto da globalização e pela construção de uma sociedade
com relações mais igualitárias na consideração da diversidade.
Tal postura é
fundamental se adotamos a posição política de transformação de realidades opressoras,
não apenas no âmbito educacional, mas nas mais diversas instâncias sociais, sejam estas
ligadas às relações econômicas ou interpessoais.
Atualmente, o sistema de ensino brasileiro vive um momento de implementação
da lei federal n˚. 10.639 de 2003 (BRASIL, 2004), que trata da obrigatoriedade do
ensino da história e cultura africana e afro-brasileira, posteriormente complementada
pela lei nº. 11.465 de 2008 (BRASIL, 2008), que inclui a obrigatoriedade do ensino da
história e cultura indígena em todas as escolas do país. O momento requer que
educadoras e educadores se prepararem não apenas para a abordagem dessas temáticas
no ambiente escolar, mas antes que compreendam as possíveis diferenças entre as
maneiras de ver o mundo e as relações humanas próprias dos povos indígenas e
descendentes de africanos e as estabelecidas no projeto de sociedade em que se insere a
escola.
Pesquisas na área da Educação, como as realizadas por Constantino (2014),
Silva (2009b) e Bergamaschi (2005), oferecem argumentos que indicam a relevância de
ressaltar as influências culturais indígenas e africanas no momento atual da sociedade
brasileira, momento de luta pela afirmação da identidade de mulheres e homens
indígenas, negras e negros, de luta pela consolidação de ações afirmativas, pelo combate
ao racismo e, principalmente, pelo fim da violência contra populações indígenas em
todo o território nacional e contra jovens negros nas periferias das cidades brasileiras,
que constitui um verdadeiro genocídio. Vale ressaltar que a educação para as relações
étnico-raciais não se limita aos interesses de grupos específicos, mas representa a
construção de relações mais justas para todas as pessoas que fazem parte de uma
sociedade plural.
Na sociedade moçambicana, o grande desafio para uma Educação que vise
atender aos interesses de todas as pessoas se estabelece, de acordo com Castiano e
Ngoenha (2013), na formação de pessoas capazes de se inserirem criticamente no
mundo global sem se submeter ao imperialismo cultural. Nesse sentido, os autores
apontam para a necessidade de articulação entre o global e o local e sugerem algumas
ações para esse intento. Entre elas, a busca de paradigmas para a Educação que sejam
resultantes da própria experiência africana e o debate sobre a unidade na diversidade
para a constituição de uma identidade moçambicana.
Propondo a ocorrência de um diálogo intercultural no continente africano,
Castiano e Ngoenha (2013) utilizam o termo intersubjetivação para representar o
processo em que os sujeitos do conhecimento entram em diálogo. A opção pelo uso do
termo é justificada pelos autores por considerarem que não são as culturas, mas os
sujeitos epistêmicos destas culturas que se colocam em ação para o diálogo
(NGOENHA; CASTIANO, 2011). Na convergência com a concepção freireana de
Educação, adotada neste estudo, em uma perspectiva filosófica, Castiano (2010) afirma
que
O processo da intersubjetivação da filosofia africana passa necessariamente pela criação de valores e atitudes que levem ao reconhecimento do outro como um interlocutor válido, como um sujeito com dignidade e conhecimento. Há intersubjetivação quando o Eu reconhece o Outro e está predisposto a escutar, a argumentar com este Outro. Por isso vejamos antes quem é esse Outro no contexto do pensamento africano. O discurso que dá conta da luta pelo auto- reconhecimento do Eu é elaborado em torno de um eixo único: a sua liberdade. Por isso que Ngoenha e outros filósofos africanos não hesitam em reconhecer a busca da liberdade como a essência do pensamento político filosófico africano (CASTIANO, 2010, p. 190).
Nesse sentido, Ngoenha e Castiano (2011) afirmam que, embora a Educação
tenha um papel fundamental na legitimação de padrões culturais dominantes de uma
sociedade, ela também se apresenta como o espaço privilegiado e por excelência de
intersubjetivação.
O que se tem buscado atualmente em Moçambique é a valorização dos saberes e
conhecimentos locais na escola como uma estratégia de reconhecimento das identidades
e de mudança de paradigmas monoculturais, sobretudo o eurocêntrico, para o
fortalecimento de um pensamento na perspectiva africana. Não se trata de inverter ou
substituir o centro de referências epistemológicas, mas de promover a equidade entre as
diferentes maneiras de ser e estar ao mundo presentes na sociedade. A equiparação de
valores atribuídos aos diferentes saberes, hábitos e costumes, ou seja, às culturas dos
povos, é uma maneira de buscar a mudança de padrões etnocêntricos ou sociocêntricos
de subjugo de uma cultura à outra.
Ressalto que da mesma maneira que uma luta só faz sentido em dado contexto,
de acordo com seu processo histórico e social, pensar a Educação nesses dois países
igualmente só faz sentido se considerarmos seus processos, ou seja, a identificação de
seus valores e a partir da sua demanda social. No entanto, isso não significa que as
articulações internas não possam ajudar a pensar cada qual o contexto do outro. Muito
ao contrário, ao partirmos das semelhanças, de algumas afinidades e situando os
diferentes contextos, considerando as diferentes realidades, olhar de um lugar para o
outro pode nos ajudar a pensar de fora para dentro e de dentro para fora.
No plano nacional moçambicano de educação, o Plano Curricular do Ensino
Básico (PCEB), apresenta uma inovação que implementa o chamado Currículo Local.
Essa proposta curricular consiste na consideração dos saberes locais das comunidades
onde as escolas se situam e prevê a utilização de uma carga horária de 20% do tempo
total de cada disciplina para sua aplicação (MOÇAMBIQUE, 1999).
De acordo com o PCEB, o objetivo da inserção do Currículo Local é, partindo
da consideração dos saberes locais ―[...] formar cidadãos capazes de contribuir para a
melhoria da sua vida, a vida da sua família, da comunidade e do país [...]‖
(MOÇAMBIQUE, 1999, p.27).
Para Ngoenha e Castiano (2011), a proposta do Currículo Local é uma
possibilidade de interculturalidade, no sentido em que propõe o aprofundamento do
diálogo entre as culturas e a educação. Para estes:
[...] o currículo local representa uma oportunidade ímpar do sistema de educação fazer com que os alunos se confrontem criticamente com os conteúdos locais, tradicionais e culturais do seu meio; é a oportunidade que o conhecimento local e tradicional tem de revelar as suas potencialidades de, de forma argumentativa, mostrar soluções alternativas para os problemas modernos. Quando falo de problemas modernos refiro-me à pobreza, ao SIDA, à nossa configuração democrática representativa, ao nosso sistema de eleições, à nossa medicina, ao desenvolvimento da música e arte, às formas de
interpretação dos fenômenos sociais, naturais e políticos de Moçambique, à nossa própria educação, enfim, para todas as áreas da vida social, econômica e política (NGOENHA; CASTIANO, 2011, p.235).
Como é possível observar nessa citação, a discussão que se estabelece no
contexto educacional moçambicano acerca dos saberes locais engloba os conhecimentos
de todas as áreas da vida, valendo ressaltar os saberes das danças tradicionais. Em
pesquisas realizadas nesse país junto a educadoras e educadores, nota-se que na
descrição das danças tradicionais:
[...] há pouca informação relevante para a elaboração de um texto didáctico que possa servir de base para transmitir às novas gerações este momento cultural importantíssimo na vida cultural das diferentes comunidades; exemplos de informações que faltam são: em que ocasião se dança? Qual o sentido das danças? Qual o vestuário específico? Qual é a letra das canções? Há festividades regulares de manifestações culturais, quando se realizam? (NGOENHA; CASTIANO, 2011, p.239).