a) Conservadorismo
O termo conservadorismo, utilizado nesta pesquisa como sinônimo de tradicionalismo, deriva, enfim, da necessidade de sobrevivência do grupo por meio da promoção e preservação da sua identidade. Todas as sociedades desenvolvem usos, costumes, práticas e símbolos que representam o seu destino e a sua experiência comum. A tradição é algo que brota da comuni- dade e que se transforma em símbolo da sua própria sobrevivência (DURKHEIM, 1954). A meta motivacional dos valores relativos à tradição é o respeito e a aceitação dos ideais e cos- tumes da sua sociedade (TAMAYO; SCHWARTZ, 1993, p.331-332; SCHWARTZ, 1994, p.22).
O fator “Conservadorismo” induz indivíduos e organizações a efetuarem uma extensa comunicação oral de fatos, lendas, ritos, usos, costumes etc. de geração para geração. São
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Spinoffstermo em utilizado para descrever uma nova empresa que nasce a partir de um grupo de pesquisa de uma empresa, universidade ou centro de pesquisa público ou privado, normalmente com o objetivo de explorar um novo produto ou serviço de alta tecnologia.
inclusos neste fator os seguintes valores: preservação; continuidade; conformismo; aceita-
ção; culto ao herói e, por vezes, passividade e resistência a mudanças.
No Estatuto dos Militares (Lei no 6.880), o culto das tradições históricas e aos Símbolos Nacionais, bem como a disciplina e o respeito à hierarquia, constituem-se em manifestação essencial do valor militar. Entende-se que conservar tradições seja interessante para o aparato militar, especialmente no que tange a conservação de valores, contudo, isto não pode servir de empecilho às ideias novas. O próprio Marechal Castelo Branco, reverenciado pelos militares e patrono da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) afirmava que “ao chefe não cabe ter medo das ideias, nem mesmo das ideias novas”.
Há uma riqueza de artefatos observados e depoimentos que indicam a presença deste fa- tor no sistema de inovação do setor de Defesa. Por exemplo, em uma pesquisa produzida, em 1971, o General Casales44 já havia identificado uma atitude conformista do Exército Brasilei- ro que persiste até os dias atuais e afetam o processo de inovações:
[...] A história militar nos mostra que não foram os experientes que vence- ram. Foram, sim, os inventivos, os que criaram e renovaram, A criatividade foi, en- tretanto, complementada por ensaios e testes (experimentação). No dizer dos soció- logos, o Exército é uma instituição arcaica que sobreviveu pela necessidade até os nossos dias. Baseado na hierarquia e na disciplina, ele tende a rejeitar as ideias no- vas, é conservador e desconfiado. A revolução industrial e tecnológica que o Brasil atravessa é um desafio à nossa capacidade de evolução. Não podemos deixar sur- preender pelo gap entre desenvolvimento e segurança. [...] O conformismo com as deficiências do passado não pode prejudicar a construção de uma Força Terrestre que responda às necessidades da realidade que se nos apresenta (Casales, 1971).
Durante os trabalhos de campo, especialmente nas entrevistas e observações, notou-se que as Forças Armadas, utilizam ideias-força para transmitir princípios e valores. Tais ideais são comunicadas, dentre outras formas, por via oral ou visual, em formaturas, com bustos de patronos; em comemorações que homenageiam os patronos; por meio do ensino de história militar; ou mesmo por intermédio de lemas e jargões. Neste sentido, constatou-se que existem algumas frases, lemas e jargões, frequentemente empregados na caserna, que são indutores de uma atitude conservadora. Dentre eles, destacam-se:
- O “I”nvento“R” começa com “I” e termina com “R”, nunca chega a “MB”.
- No Exército nada se cria, tudo se copia. Boa parte dos manuais das Forças Armadas são cópias dos manuais americanos e da OTAN.
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Luciano Phaelante Casales, era Major do Exército Brasileiro em 1971, quando escreveu seu trabalho monográfico. Como General de Brigada, comandou a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército no início dos anos 90.
- O Exército de ontem é o Exército de sempre. - Dito pelo não dito, vale o que está escrito.
A frase “O InventoR começa com “I” e termina com “R”, nunca chega a “MB” é muito empregada nas instruções (treinamento) ou aulas militares, com o objetivo de fazer o aluno assimilar a importância de se seguir as normas, de acatar a ordens superiores, de não realizar nada que não esteja em sua esfera de atribuições sem ordem ou sem comunicar aos superiores imediatos.
Vale lembrar que, nas Forças, as menções ou conceitos recebidos nos cursos são: exce- lente (E); muito bom (MB); bom (B); regular (R); e insuficiente (I). O significado desta frase, portanto, induz o militar a não ser inovador, já que, caso ele se torne um inventor, ele não terá um conceito / menção “MB” e, muito menos, o obterá o conceito “E”.
O entrevistado P23 expressa essa preocupação em seu depoimento:
P23: Em minha opinião, a instituição (Exército) não tem uma cultura organizacional
que favoreça a inovação. Muito pelo contrário. Toda a nossa cultura é diametralmente oposta ao que seria ideal para uma organização inovadora. Eu tenho até um exemplo um pouco prosaico. Você lembra da nossa escola de formação (AMAN), onde nós apren- demos uma frase bastante boba: O inventor começa com I e termina com R. Esta frase faz parte da cultura da instituição e a gente tem que aceitar, pois ela é uma frase boa pa- ra ser dita para o soldado, para o aluno da escola de formação, ou seja, para aqueles que não podem fugir às regras, sob pena de causar sérios riscos e até matar incidental- mente alguém. O problema é que o militar de carreira acaba ficando com isso arraigado. [...] Infelizmente, na cultura da instituição, ser inventor é ruim, mas na cultura da inova- ção, quanto mais a organização possuir pessoas inovadoras, melhor será. Maior proba- bilidade a organização vai ter de gerar inovações.
No mesmo sentido, o entrevistado P17 insere o seguinte comentário:
P17: Dentro da nossa Força, há uma zona de conforto que quer fazer acreditar que ‘o
Exercito de ontem é o Exército de sempre’. Não vai ser, como não é. Por isso que eu
comentei sobre o momento de transformação que estamos vivendo. Os desafios que nós tínhamos na época da bipolaridade da Guerra Fria são completamente diferentes dos de- safios que nós enfrentaremos no século XXI. Nós precisamos gerar as capacidades pon- tuais para nos prepararmos para tais desafios. Nós não podemos ser, nunca, o Exército de ontem. É preciso olhar para o futuro e inovar. (Grifo do autor).
Outro caso em que se pode observar bem a presença do FVI “Conservadorismo” é a questão da resistência à criação de um polo de ciência e tecnologia do Exército na região de Guaratiba (PCTEG). Segundo o Gen Minicelli, do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT): “O Exército Brasileiro visualizou como sendo de suma importância a implementação
nâmica ao Sistema de Ciência e Tecnologia da Força, aumentando-lhe a capacidade de inte- ragir com as empresas brasileiras, de modo a atender aos seus interesses mútuos”.
No entanto, de acordo com vários entrevistados (P3, P18, P19 e P24), percebe-se certa resistência por parte do público interno do Exército. O Entrevistado P3, por exemplo, afir- mou:
P3: Então, quer dizer, nós somos uma instituição pequena e, é difícil a gente dizer: va-
mos crescer. A gente não tem mais pra onde crescer. O espaço aqui no IME é limitado. A gente só tem como aumentar o dimensionamento do Instituto se a gente sair daqui (Praia
Vermelha) ou se a gente criar novos campus. Mas mesmo aqui (se referindo ao IME), é
muito difícil a gente quebrar esse paradigma (grifo do autor)
O mesmo entrevistado compara a infraestrutura do Exército com a da Aeronáutica e conclui que há necessidade de concentrar as organizações de C&T, que compõem a Força Terrestre, à semelhança do que ocorre com a Força Aérea:
P3: Permita-me falar mais uma coisa indiretamente, o Exército tem uma excelente infra-
estrutura, a gente tem o IME, o CTEx, mas eu vejo ainda uma deficiência do sistema de ciência e tecnologia do Exército, que é o fato de que as nossas organizações estão des- centralizadas, diferente do que ocorre com Aeronáutica, lá em São José dos Campos. E lá deu bastante certo. Por quê? Porque lá eles têm o ensino, a pesquisa, e a indústria gi- rando num polo só. O sujeito da aula, vamos dizer, no ITA, e ao mesmo tempo está traba- lhando no órgão de pesquisa e, ao mesmo tempo, está com um pé na indústria, partici- pando do desenvolvimento. Sem contar a existência da EMBRAER né. [...] então, eu vejo que seria importante o Exército tomar algumas medidas no sentido de aproximar o ensi- no, a pesquisa e o desenvolvimento.
Por outro lado, o entrevistado P19, embora concorde com a criação de um polo de C,T&I para o Exército, não acredita que a região de Guaratiba seja o melhor local, como a Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro:
P19: Eu acredito que seria interessante sim a criação do PCTEG (Polo de Ciência e
Tecnologia do Exército em Guaratiba). Esta iniciativa iria aglutinar os três atores pri- mordiais do processo de inovação (governo, universidade e indústrias). Mas porque em Guaratiba? Há 20 anos ou mais se espera que as indústrias se instalem na região. O que faz pensar que elas vão pra lá agora? Por que não na Ilha do Fundão, por exemplo? Lá tem a Petrobrás, outras universidades, é melhor localizado, O polo em Guaratiba pode ser um “tiro no pé”. O IME poderá perder alunos e professores. As indústrias cariocas, aparentemente, estão buscando o Norte do Estado e não o Sul, onde está o CTEx. E, com isso, teremos um belo camelo no deserto.
Em harmonia com o depoimento anterior, o entrevistado P24 afirma:
P3: O CTEx está distante do IME, mas será que se colocarmos o IME lá em Guaratiba
ao lado do CTEx, buscando a formação de um polo tecnológico de Defesa como o de São José dos Campos, seria uma boa solução? Talvez não, pois estaria faltando a indústria lá. [...] Aqui no Rio de Janeiro nós temos a Petrobras, com quem temos alguns projetos
como: monitoramento de dutos, mecânica , computação. Talvez, lá no Fundão, fosse o local ideal para este polo.
Já o entrevistado P18, quando inquerido sobre o tema afirmou que, embora a ideia seja boa, tem receio de que tal medida contrarie interesses de professores e futuros alunos:
P18: Acho muito importante a criação de um polo de C&T, mas precisamos ter foco. Não
se pode afirmar, por exemplo, que a transferência do IME para Guaratiba é a falta de área para treinamento militar. O foco dever ser a inovação. O IME não é uma AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras). Os oficiais do IME não estão acreditando muito nisso não. Mas, assim, esta descrença ao mesmo tempo gera uma insatisfação porque o IME não tem como crescer. Então, fica todo mundo parado, reclamando de falta de in- fraestrutura, já que não espaço para mais laboratórios, mas reagindo com a possível transferência do IME para lá. Fica tudo cômodo, achando que é melhor ficar como está.
No mesmo sentido, o CMG Pelegrini, que tem uma vasta experiência junto à USP (Uni- versidade de São Paulo), argumenta que tal medida poderá ser ruim para o IME, já que pode significar dificuldades no processo de seleção de recursos humanos:
CMG Pelegrini: É aquela região Guaratiba é industrial não é? Tem a Casa da Moeda, a NUCLEP, as empresas ligadas à siderurgia, a Thyssenkrupp, o Porto de Sepetiba. A criação do pólo naquela região é interessante, mas pode trazer alguns problemas para o IME e para a retenção de pesquisadores. Por exemplo, no caso do projeto Aramar em Iperó. Vou te dizer viu (risos). Não é simples morar lá. Quem quer ir para lá? Há um tempo atrás deram ordem para a gente (CTMSP) sair daqui da USP e levar tudo pra lá para Aramar(Iperó). A gente teria perdido muito, especialmente o convívio com os pes- quisadores daqui. A gente não foi por que faltou dinheiro na época (ainda bem...risos). Agora olha só, a USP abriu um campus da universidade lá em Santos, com apoio da Pe- trobras e os alunos não querem ir para lá. O CTMSP doou para USP uma área em IPE- RÓ, para a ela fazer um Campus avançado lá. Nós deixamos todo o parque nuclear dis- ponível aos alunos. Foi dado um prazo de 7 (sete) anos para que ela implante o campus lá. É tentador, mas não sei se ela vai fazer, por que ela está postergando a assinatura do contrato. Vão aparecer alunos com interesse de estudar lá das cidades satélites de lá, mas será que a educação é boa? Nesse sentido, talvez o IME vá perder indo para Gua- ratiba, especialmente os cursos de graduação.
Outra iniciativa que ajuda a compreender um pouco mais sobre o espírito conservador que reina no segmento militar do setor de Defesa é criação do PGED (Programa de Pós- graduação em Engenharia de Defesa), no IME. A fala comum de todos os entrevistados, so- bre a criação do referido curso, pode ser sintetizada no depoimento do entrevistado P15:
P15: Como eu disse, o PGED é um curso guarda chuva né, ou seja, nós quería-
mos reformular toda a pós-graduação, criando um curso que fosse abrangente, que reunisse todos os professores produtivos e, futuramente, encerrar os cursos que só tinham mestrado. Isso gerou muita polêmica, discussões. A gente observou que, em muitos casos, os professores que iriam participar deste novo curso não tinham muito interesse, pois já atuavam em seus cursos disciplinares e não gosta-