diz Geraldo Grützmann no hino municipal de Santa Maria de Jetibá. Sendo as famílias numerosas, todos trabalhavam desde muito pequenos, o que garantia o aprendizado da vocação para o trab
dizerem que o Povo Tradicional Pomerano é muito trabalhador.
As famílias pomeranas são predominantemente camponesas. Na Pomerânia, trabalhavam para os senhores feudais nos latifúndios e no Brasil também foram destinados a terras em que deveriam desenvolver a pequena agricultura e a produção de alimentos. Dispondo ou não de tecnologias, os pomeranos não hesitam em acordar cedo para iniciar as atividades e trabalham até o anoitecer. Afinal, a terra ou Land, na língua pomerana, é o aspecto mais importante para as famílias pomeranas.
A transmissão da terra como herança para os filhos confirma a importância da Land para as famílias. Exemplo disso foi dado por um senhor que relatou com orgulho as dificuldades pelas quais passou quando era criança, destacando que com o fruto do seu trabalho, seu pai comprou terras e depois dividiu entre os filhos, que, por sua vez, os s meus filhos tendo um pedaço de terra para dar para meus netos e saber que isso foi
era uma das maiores preocupações de uma família, que queria dar condições para que seus filhos pudessem trabalhar e construir a sua própria Land.
As palavras colônia ou Land, conforme Bahia (2011, p. 47) refere-se à terra e ao seu conjunto, incluindo as residências, os animais domésticos, as benfeitorias, as plantações, os objetos e seus valores que constituem o seu modo de vida. Inclui toda a unidade familiar como unidade de produção e consumo, juntamente com a propriedade
social, ou seja, imigrante campon
Inicialmente as principais produções dos descendentes de pomeranos no Brasil eram de café, milho, feijão e aipim. Os homens se ocupavam principalmente do trabalho agrícola, das relações comerciais e auxiliavam as mulheres no cuidado com os animais.
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Com uma grande quantidade de filhos, as mulheres tinham como funções principais zelar pela educação e cuidado dos mesmos, preparar as refeições e fazer as atividades domésticas, além de cuidar do quintal e dos animais domésticos.
Esta diferenciação de trabalho entre homens e mulheres também é explicitada em um importante ritual pomerano nas vésperas do casamento. Trata-se do Quebra- Louças em que uma senhora que têm laços de parentesco ou amizade com os noivos faz um discursos antes de jogar louças ao chão, e parte do conteúdo diz o seguinte:
trabalha para não faltar alimentação .
Outra prova das construções de gênero diferenciadas nas famílias pomeranas é o sistema utilizado no passado para divisão de herança. No início, somente os homens recebiam terras como herança, pois as mulheres se casariam e iriam morar nas terras do marido. Com o passar dos anos as mulheres também passaram a ganhar herança, sendo esta uma máquina de costura, uma novilha e algumas galinhas.
Isto mostra que a diferenciação de trabalho e gênero fazia parte dos valores pomeranos. Carneiro (2001, p. 2) escreve que apesar do Código Civil estabelecer a igualdade de condições entre todos os filhos no que se refere ao direito à herança, as regras culturais modificam a lei de acordo com os "interesses" de um ator coletivo: a família. Para a autora a transmissão do patrimônio e as demais regras de acesso a terra refletem não somente as condições sociais e econômicas das famílias, mas também a sua hierarquia interna que consolida relações desiguais entre os indivíduos no interior do grupo familiar e na sociedade, reforçando posições diferenciadas entre os sexos.
Com a diminuição do número de filhos, maior abertura comercial para os produtos agrícolas e melhoras nas condições de vida dos pomeranos, a mulher passou a ocupar mais espaço nos trabalhos fora do âmbito doméstico. Assim, se a mulher ocupava os mesmos espaços que os homens, teriam também o mesmo direito a herança, foi quando as mulheres também passaram a receber terras de seus pais, pois as transformações sociais e econômicas ocorridas no cotidiano dos pomeranos refletiam na hierarquia interna das famílias e nos padrões de transmissão do patrimônio familiar.
A ligação dos pomeranos com a terra virou tradição e com a força do trabalho familiar, o município de Santa Maria de Jetibá transformou-se em um dos maiores produtores de hortifrutigranjeiros do Espírito Santo, destacando-se também na produção de café, na fruticultura e na produção de alimentos orgânicos. É um dos maiores
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produtores brasileiros de gengibre, contribuindo para que o Espírito Santo se tornasse o maior produtor e exportar de gengibre do Brasil e também se destacasse como o segundo maior produtor de ovos do país. O município de Itarana também possui tradição agrícola e dentre outras produções em menor escala, destaca-se a produção de café por suas condições climáticas favoráveis para desenvolver a atividade.
Apesar de muitas pessoas ocuparem outras funções no âmbito laboral, grande parte das famílias pomeranas trabalha com a agricultura familiar e o fazem com muita dedicação, como bem colocou Eduardo (24 anos, agricultor)
o pomerano faz ele tem que fazer bem feito, ele não faz uma coisa mal feita ou com
Esta característica pomerana é notada por pessoas não pomeranas desde quando chegam à casa de uma família camponesa. Alguns profissionais que passavam na região, a trabalho,
com todas as outras coisas e a sua determinação para o trabalho, além da variedade de plantas, a maioria das vezes todas misturadas, remetem às múltiplas atividades desenvolvidas. Uma das participantes da pesquisa disse:
Outra coisa que eu percebo também no pomerano é a força de vontade dele, que nem quando dá um feriado, em outras culturas as pessoas vão descansar, assistir televisão, o pomerano não, ele aproveita o tempo dele até no escurinho[nas últimas horas do dia]. Há, eu não tenho mais nada pra fazer, não tem problema, eu vou lá plantar uma flor, e assim vai (Augusta, 33 anos, professora).
Nesse sentido, todo o cuidado que se tem com o quintal da sua casa também se mostra na forma de trabalhar a terra. Além dos quintais bem cuidados, a beleza das plantações forma bonitas paisagens que chamam a atenção de quem visita a região.
Além do trabalho agrícola, destaca-se o trabalho doméstico. As moças pomeranas são conhecidas como boas bordadeiras e fazem muitos trabalhos em bordado livre e ponto cruz, além da brólia para o acabamento das peças, tudo com muita perfeição. Segundo informação concedida por Johanna (60 anos, agricultora), as mulheres e moças sentam-se aos domingos para fazerem este tipo de trabalho. Esta senhora também me permitiu que eu tirasse fotografias dos trabalhos feitos por sua tia, guardados com muito cuidado e carinho, que podem ser vistos nas imagens abaixo:
136 Figura 25: Colcha de cama bordada em 1946
Foto: Adriele Schmidt, 2014
Figura 26: Embornal para levar hinários para a Igreja
Foto: Adriele Schmidt, 2014
Além desses bordados, as mulheres faziam enfeites para a casa e para ornamentar a árvore de Natal todos os anos. Os homens também desempenhavam atividades artesanais, dedicando-se à cestaria aos domingos e dias de chuva. Fazia-se cestas, peneiras, balaios e outros artefatos para uso no trabalho cotidiano.
Estes tipos de artesanato praticamente não são feitos mais pelos descendentes de pomeranos, sendo necessário realizar trabalhos de valorização e preservação destes saberes. Uma importante iniciativa foi desenvolvida pela Escola Estadual de Ensino Fundamental Fazenda Emílio Schroeder, que em 2014 criou um projeto que ensinou os bordados pomeranos a alguns alunos da escola que estavam interessados em aprender. Estes foram apresentados na Feira Cientifica municipal de Santa Maria de Jetibá de
Em função de uma vida tão ligada à valorização do trabalho, os pomeranos são caracterizados como sendo um povo tradicional
liga m Durante a participação do Encontro do Povo Tradicional Pomerano: Cultura, Língua e Educação, realizado na Universidade Federal do Espírito Santo em setembro de 2014, a fala de Mariane Berger32, mostra muitas características que marcam a identidade dos pomeranos ao sintetizar o que ela aprendeu em sua convivência com os pomeranos. Ela diz o seguinte:
Eu aprendi a simplicidade e um jeito autêntico de viver que não se envergonha de fazer história. Aprendi que chique é ser autêntico e estar na moda é coisa de quem não enxergou a base. Aprendi que um aperto de mão é costume que se preserva e que afirma estar aberto a dar e receber. Aprendi que é preciso dar valor ao dinheiro sim, conquistado com esforço. Que quem se esforça e luta valoriza mais o que tem. Aprendi que ao fazer festa em comunidade cada um
32 Mariane Berger é gerente de Educação do Campo e representante da Secretaria de Estado de Educação
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contribui com o seu muito. Aprendi a comer brote, a se orgulhar de prestigiar os amigos com essa culinária. Aprendi a inventar jeitos e feitos e não se importar com as etiquetas ou valores. Aprendi a ter orgulho de fazer parte da cultura pomerana.
Esta fala mostra o modo de ser simples e autêntico dos descendentes de pomeranos, suas prioridades na vida, a ajuda mútua e a dedicação ao trabalho. Entretanto, a reciprocidade faz parte do cotidiano de todos os pomeranos desde crianças, assunto este que será abordado a seguir.