• Sonuç bulunamadı

O Estatuto do idoso, Lei N. 10.741, considera como pessoas idosas aquelas que possuem idade superior a 60 anos (BRASIL, 2003). Um dos fatores marcantes deste período é a aposentadoria, período em que estes indivíduos são considerados inativos perante a sociedade, o que pode não ser real, dependendo das escolhas do próprio idoso, uma vez que muitos continuam trabalhando ou desempenhando outras atividades.

Pela suposta inatividade dos idosos, socialmente é lhes atribuído a função de lembrar. A memória é interpretada como a capacidade da mente humana fixar, evocar, reter e reconhecer impressões ou fatos do passado (FERNANDES et al, 2009, p. 53). Para Simson (2003, p. 14), a memória é a capacidade do ser humano de reter fatos e experiências do passado e retransmiti-las às novas gerações através de diferentes suportes empíricos, como a voz, textos, música e imagens.

Algumas classificações são feitas com relação à memória, sendo uma delas a existência de uma memória individual e outra coletiva. A princípio, poderíamos inferir que a memória é algo próprio de cada pessoa, pois cada indivíduo tem as suas próprias lembranças de vida. Porém, Maurice Halbwachs entende que as lembranças dos indivíduos sempre são construídas a partir de sua relação de pertencimento a um grupo. Assim, a memória deve ser percebida também como um fenômeno social, construído coletivamente e submetido a mudanças constantes (POLLAK, 1992, p.202).

Nesse sentido, a memória é construída na sua relação com o outro, mas nem por isso deixa de ser também uma memória individual. Simson (2003, p.14) esclarece que a memória individual é aquela guardada pelo indivíduo e se refere as suas próprias

151

vivências e experiências, mas que contém também aspectos da memória do grupo social no qual foi socializado.

Nascimento et al (2011, p. 255) interpreta as contribuições de Ecleá Bosi ao assunto, colocando a ideia de memória individual sintonizada com os grupos sociais aos quais o indivíduo pertence, como a família, a escola, a igreja, os quais ajudam a delinear as lembranças que figurarão como referências do sujeito. Em complemento, Schmidt et al (1993, p. 291) aborda que a memória individual é um ponto de convergência de diferentes influências sociais e uma forma particular de articulação das mesmas.

A memória coletiva é o trabalho que os grupos sociais realizam, localizando e articulando as lembranças em quadros sociais comuns. Este processo resulta em um acervo de lembranças compartilhadas que compõe o conteúdo da memória coletiva (SCHMIDT et al, 1993, p. 291). Simson (2003, p. 14) complementa que a memória coletiva é aquela formada pelos fatos e aspectos julgados como relevantes pelos grupos dominantes e que são guardados como memória oficial da sociedade mais ampla.

Para compreenção das relações e diferenças entre a memória individual e coletiva, Pollak (1992, p. 202-204) diz que a memória possui características flutuantes e mutáveis, e também que existem marcos ou pontos da memória relativamente invariantes e imutáveis. Isto por que a memória também é seletiva, nem tudo fica registrado e uma parte é herdada, não se referindo apenas a vida física da pessoa.

Além disso, a memória pode sofrer flutuações dependendo do momento em que é articulada e expressa e também sofre influências das preocupações do momento, que tendem a ressaltar mais alguns acontecimentos do que outros. Não podemos manter na memória todas as experiências vivenciadas ou que tomamos conhecimento. Por isso, comumente o indivíduo seleciona e mantêm aquelas informações que possuem significados para as tomadas de decisão futuras (SIMSOM, 2006, p. 15).

Ao falar das organizações necessárias para coordenar a memória coletiva, Pollak (1992, p. 204) cita como exemplo as datas oficiais de comemorações nacionais, aprendidas por todos os cidadãos. Isso mostra que a memória é um fenômeno construído. Em nível individual, estes modos de construção da memória podem ser conscientes ou inconscientes, sendo que o que a memória grava, exclui, relembra ou recalca é resultado de um trabalho de organização.

É importante destacar também que, por meio de uma inter-relação dinâmica, a história e a memória dão suportes para as identidades individuais e coletivas, uma vez

152

que é impossível uma sociedade sem que se acione a memória, sem que ela fertilize cada possibilidade de realização no presente e no futuro (NEVES, 2000, p. 109).

Pela trajetória de vida das pessoas que já viveram mais de 60 anos, é inegável

com Fernandes et al (2009, p. 53), o resgate da memória do idoso permite reconstruir vivências do passado, com olhares do presente, sendo de grande importância para compreender e enfrentar problemas atuais, além de favorecer as trocas inter-geracionais. Reconstruir estas memórias é importante para a preservação e retenção dos acontecimentos passados, para a manutenção da cultura e o estabelecimento de vínculos entre as gerações. Além disso, auxilia no fortalecimento da autoestima dos idosos, ao valorizar os seus saberes e reforçar o sentimento de pertencimento a um grupo.

A memória é um importante meio de se estudar a identidade cultural de diferentes povos, pois é por meio dela que definimos o que é comum a um grupo e o que os diferencia. O próximo tópico trata da importância da memória na preservação da cultura e na permanente construção da identidade cultural.

1.1. Memória, tradição e identidade cultural

Em todas as sociedades, o homem sempre buscou as suas referências e os seus laços identificadores. Pollak (1992, p. 205) defende que o sentimento de identidade corresponde a

que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria corresponde à forma como ela acredita ser e gostaria de ser percebida pelos outros.

A memória tem um papel importante na reconstrução da identidade individual e coletiva nas sociedades. Pollak (1992, p. 205) considera que a memória é fundamental para o sentimento de continuidade e coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. Entretanto, a memória e a identidade não devem ser fenômenos compreendidos como essências de uma pessoa ou grupo, pois elas podem ser negociadas no contexto das interações sociais.

Nascimento et al (2011, p. 453) defende que o estudo da memória se torna relevante quando o pesquisador investiga aspectos da vida em comunidade e da cultura popular, atentando para suas tradições, religiões, costumes, dentre outros aspectos que constituem sua identidade.

153

Para Da Matta (1987, p. 49-50), cada cultura tem suas tradições, o que significa vivenciar as regras da comunidade de modo consciente, colocando-as dentro de uma

serem vivenciadas [...] pelo grupo que a inventou e adotou, de tal modo que, numa sociedade humana seus membros acabam por receber a sua tradição como algo

Nesse sentido, a tradição se relaciona com a memória, principalmente com a memória coletiva no sentido abordado por Halbwachs, ao entender que a memória coletiva encontra seu lugar na tradição, dinamizando-as ao mesmo tempo. Esta memória tende a constituir uma continuidade entre o que é passado e o que é presente, restabelecendo a unidade primitiva de tudo aquilo que representou ruptura no processo histórico (SCHMIDT et al, 1993, p. 293).

Para Halbwachs, a memória coletiva desempenha importante papel nos processos históricos, dando vitalidade aos objetos culturais e sublinhando momentos históricos significativos. Ela atua como a guardiã dos objetos culturais que atravessam os tempos e que podem vir a ser fontes de pesquisa histórica no futuro (SCHMIDT et al, 1993, p. 293-294). Iuri Lotman afirma que a cultura é memória, pois é a cultura de uma sociedade que fornece os filtros por meio dos quais as pessoas que nela vivem podem exercer o seu poder de seleção, determinando o que precisa ser guardado ou retido na memória, bem como determina o que será descartado. Por a memória ser operacional, ela poderá servir como experiência válida ou informação importante para tomada de decisões futuras (SIMSON, 2006, p. 15-16).

Ao estudar a memória, as tradições e a cultura, compreendermos que existe uma relação entre memória e história. Neves (2000, p. 111) defende que a história pode ser identificada como alimento da memória. A memória, por sua vez, pode ser tomada como uma das fontes de informação para a construção do saber histórico. No contexto de uma comunidade tradicional, os principais atores dotados de histórias e memórias são os idosos, cabendo a eles a transmissão dos valores e significados de uma dada cultura para as gerações mais novas.

Ao escrever sobre a Identidade Social do Idoso, Freitas e Costa (2011, p. 203) relatam que na antiguidade, a cultura era transmitida de geração a geração apenas por sendo a memória humana que conservava as histórias, as crenças, os costumes das pessoas, de indivíduos que viveram, participaram dessa esfera cultural

154

m-se das transformações ocorridas na sociedade brasileira devido ao processo de industrialização e os avanços tecnológicos, enfatizando que a humanidade tem buscado novas conquistas e descobertas que trazem facilidades que as pessoas que viveram no passado não tiveram acesso.

Simson (2003, p. 15) faz uma análise da memória durante as gerações e defende que existem as sociedades da memória e as sociedades do esquecimento. A autora destaca que os avanços tecnológicos disponibilizaram à sociedade uma carga muito grande de acontecimentos e informações que são consumidas pelos cidadãos em uma velocidade muito grande. Este fator diminui a disposição das pessoas de selecionar as informações importantes daquelas que podem ser descartadas, o que leva a perda de muitos fatos importantes da sociedade, que antes eram guardados pelos idosos e transmitidos para as novas gerações. A autora define as sociedades que apresentam estas características, como sociedades do esquecimento.

Já as sociedades da memória a autora classifica como sendo aquelas que vivem em locais isolados, nos quais o volume de informações é mais restrito. Nessas sociedades, as informações são organizadas e retidas pelo conjunto de seus membros, os quais se incubem de transmiti-las as novas gerações. Este importante papel de

novas gerações de seu grupo social os fatos e vivências que foram retidos como fundamentais para a sobrevivência do grupo (SIMSON, 2003 p. 16).

Atualmente as sociedades da memória são raras em seu estado original33, porém ainda é possível encontrar sociedades em que a tradição e os costumes são repassados às gerações mais novas por meio dos pais. Um exemplo disso é a cultura pomerana no Brasil, que mesmo depois de mais de 150 anos de imigração, os descendentes de imigrantes pomeranos continuam mantendo um modo de vida peculiar, manifesto nos costumes, nas festas, na religiosidade e na língua, cuja escrita foi reconstituída somente a partir dos anos 2000. Certamente a cultura pomerana não foi transmitida entre as gerações em seu estado original, mas foi ressignificada conforme as mudanças que ocorreram no contexto da sociedade em que se inseriram.

33A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) acredita que existam pelo menos 77 grupos de índios isolados

na parte brasileira da floresta amazônica. Fonte: http://www.survivalinternational.org/povos/indios- isolados-brasil. Acesso em 11/11/2014.

155

Analisando os contextos das comunidades de pomeranos pesquisadas, podemos dizer que ambas se encontram entre a sociedade da memória e a sociedade do esquecimento, dependendo da geração que é analisada. Mesmo com as mudanças inseridas com o passar dos anos nas comunidades, muitos idosos se mantiveram apegados a sua tradição e não se deixaram influenciar pelos meios de comunicação e outros avanços tecnológicos, tanto quanto outros idosos, adultos e jovens. Estes podem ser considerados membros da sociedade de memória, pois selecionam as informações importantes e as organizam para serem transmitidas às novas gerações, caso estas tenham interesse em ouvi-las.

Por outro lado, jovens e adultos tenderam a acompanhar as mudanças e com novas preocupações, novas formas de viver e de trabalhar e acesso aos meios de comunicação podem ser classificados como pertencentes à sociedade do esquecimento, o que leva a um conflito de interesses entre as gerações, quando muitos jovens não colocam mais em prática costumes tradicionais como por exemplo o aperto de mão ao cumprimentar e se despedir das pessoas, alguns modos de se comportar em momentos religiosos, dentre outros.

Fernandes et al (2009, p. 59) aborda este conflito dizendo que em sociedades em que a memória dos velhos não é mais valorizada e difícil de ser comunicada, cresce a

que impede que a experiência vivida por jovens e idosos possa ser compartilhada, reduzindo, portanto a função social da memória.

2. Memórias dos idosos quanto à cultura pomerana e perspectivas