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B. Serahsî’ye Göre İstihsân ve Maslahat

2. Serahsî’ye Göre İstihsânın Çeşitleri

A instituição do júri no Brasil pavimentou uma base democrática que, desde

cedo, sofreu severas críticas. Talvez a mais ácida tenha ocorrido pelo fato de que a

sociedade brasileira da época não tivesse preparo suficiente para assimilar a forma

de julgamento no qual os juízes da causa fossem pessoas leigas, desprovidas de

conhecimento jurídico

503

.

O advento do Código do Processo Criminal em si representou uma

substancial alteração no pensamento jurídico, o qual na época das Ordenações era

conservador, rude e reservava menor atenção aos direitos do acusado

504

. Após 1830

emergiram diversos levantes revolucionários que, por si só, geraram a reação da

monarquia conservadora

505

.

O panorama que vigorou no Brasil até 1841, importante época para a

manutenção e o desenvolvimento do ordenamento jurídico nacional, evidenciou a

produção legislativa com acentuado teor anti-inquisitorial, afastando o processo

502 Cf. ALMEIDA JÚNIOR, 1911, v. I, p. 222-223.

503 “As condições sociais do Brasil nessa época não eram propícias ao bom funcionamento do júri. A lei tinha,

na prática, de ser frustrada: o legislador não levara em linha de conta a instrução e a moralidade do país; tratara de aplicar uma teoria e, em lugar de o fazer por parte, praticara-a logo em toda a sua generalidade. O instituto, que muitos filósofos e publicistas do século elogiavam, sofreu, por isso, em nosso meio, críticas razoáveis, no parlamento, nas assembléias provinciais, no foro” (ALMEIDA, Joaquim Canuto Mendes de. Processo penal, ação e jurisdição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1975, p. 138).

504 “Fôra grande o salto do Livro V das Ordenações do Reino, para o liberalíssimo regime do Código de

Processo Criminal, o que levou o próprio autor dêste – o Senador ALVES BRANCO, – em setembro de

1835, a propor reforma parcial da legislação em vigor, sobretudo em relação aos juízes de paz e ao Júri” (MARQUES, 1963, v. I, p. 18).

505 O Senador ALVES BRANCO, autor do Código do Processo Criminal, na Sessão do dia 9 de setembro de

1835, assinalava que a saída provável para a falta de segurança pública e os desvios da aplicação da justiça seria uma ampla revisão da legislação criminal e de processo. Em relação ao júri sua proposta era de extinção do conselho de acusação e da escolha dos jurados mediante um critério econômico, uma vez que os mais abastados deveriam ser intelectualmente mais preparados para o exercício da função. Nesse sentido: ALMEIDA JÚNIOR, 1911, v. I, p. 169-170.

penal dos laivos absolutistas, estes que notadamente ainda eram identificados no

âmbito de boa parte da legislação européia

506

.

E isso se deu com a edição da Lei n. 261, de 03 de dezembro de 1841

507

, a

qual alterava o Código do Processo Criminal e, em especial, a organização

judiciária

508

e o júri

509

, pontos considerados frágeis em sua disciplina

510

. Com o

advento da citada lei tem início a sistemática almejando a redução da ampla

competência ofertada ao júri

511

.

A referida lei de 03 de dezembro

512

, em mais um ato de reação monárquico-

conservadora, introduziu o policialismo judiciário no Brasil

513

. Criou o cargo de Chefe

de Polícia, para atuar no município da Corte e em cada província, e os cargos de

Delegados e Subdelegados distritais

514

. Competia aos Chefes de Polícia e aos

Delegados as atribuições conferidas aos juízes de paz pelo Código do Processo

Criminal, dentre outras

515

. Infere-se daí a competência judicial que seria exercida,

juntamente com as atribuições repressivas, pelas autoridades policiais

516

.

506Cf. GRINOVER, 1982, p. 41.

507 A Lei n. 261, de 3 de dezembro de 1841 –Reformando o Código do Processo Criminal – continha 124 artigos

divididos no Título I – Disposições Criminaes – e Título II – Disposições Civis – e foi publicada em 11 de

dezembro de 1841 e regulada pelo Decreto n. 120, de 31 de janeiro de 1842.

508 A Lei n. 261/1841 e o Decreto n. 120/1842 “poucas alterações trouxeram ao regime inquisitório do

Código de Processo. Suas inovações foram sobretudo de organização judiciária e política do país, tendentes a garantir a força do poder nacional contra as exageradas prerrogativas dos elementos regionais” (ALMEIDA, 1973, p. 131).

509 “A despeito das transformações operadas pela Lei n. 261, referida, não sofreu a instituição do Júri

modificações nos seus caracteres intrínsecos” (MARQUES, 1963, v. I, p. 19). Cf. PIERANGELLI, 1983, p. 136.

510 Cf. MARQUES, 1965, v. I, p. 97.

511“Essa instituição, ante a qual recuou a própria reação de 1841, atravessando incólume a história imperial e

a ditadura revolucionária, não encontrou nos legisladores republicanos a veneração, a que aliás tinha mais direito neste regime do que no outro, cuja constituição era, a êste respeito, mais suscetível de brecha” (BARBOSA, 1950, p. 58).

512 Acerca dos objetivos estabelecidos na lei de 3 de dezembro é certo que “seu policialismo exagerado, foi

além do que realmente exigia a situação do país, fortalecendo, com isto, o reacionarismo político. Sob o aspecto puramente processual, no entanto, não apresenta, a malsinada lei, qualquer espírito de odioso antiliberalismo” (MARQUES, 1965, v. I, p. 98).

513Cf. GRINOVER, 1982, p. 41.

514 O Título I (Disposições Criminaes), Capítulo I (Da policia), estabelecia a criação de tais cargos na redação

ofertada ao artigo 1.º. O artigo 2.º disciplinava que ao cargo de Chefe de Polícia somente poderiam concorrer Desembargadores e Juízes de Direito, enquanto que aos cargos de Delegado e Subdelegados poderiam ser aceitos quaisquer juízes e cidadãos.

515 Na disciplina disposta no artigo 4.º, § 1.º da Lei n. 261/1841.

516 Acerca das alterações propostas pela Lei n. 261/1841, é certo que a mesma “restringiu todas attribuições

dos Juizes de Paz conferindo ás autoridades policiaes funcções não só policiaes, como judiciarias” (ALMEIDA JÚNIOR, 1911, v. I, p. 183).

A atividade investigatória continuava a cargo dessas autoridades, as quais

tomavam todas as providências necessárias no sentido de obter a materialidade e

autoria delitiva para a formação da culpa

517

para, dependendo da complexidade do

caso, facultativamente

518

, pronunciar o indiciado

519

. Nota-se, especificamente, o

alargamento quanto à competência para a sentença de pronúncia

520

, com a edição da

citada legislação reformadora

521

.

Ainda no âmbito da Lei de 03 de dezembro, operou o Regulamento n. 120,

editado em 31 de janeiro de 1842

522

, mantendo a atribuição aos Subdelegados e

Delegados de Polícia para a pronúncia do acusado

523

e acrescentando outra

referente à obrigatoriedade de remeter os autos com o acusado pronunciado ao

juízo municipal

524

, este que realizaria o controle da admissibilidade acusatória

procedida pela autoridade policial, sustentando ou revogando a pronúncia

525

.

Dessa forma, com a edição do supracitado diploma regulamentador do juízo

instrutório se aplicava a seguinte regra: quando a pronúncia fosse realizada pelo

Chefe de Polícia ou pelo juiz municipal os seus efeitos eram automaticamente

517 A formação da culpa estava prevista ao longo da disciplina dos artigos 47 a 53, insertos no Título I

(Disposições Criminaes), Capítulo VIII (Da formação da culpa).

518 Na disciplina disposta no artigo 4.º, § 9.º, da Lei n. 261/1841

519 Artigo 49 da Lei n. 261/1841. Os Delegados, e Subdelegados, que tiverem pronunciado, ou não

pronunciado algum réo, remetteráõ o processo ao Juiz Municipal para sustentar, ou revogar a pronuncia, ou despronuncia; no caso de não pronuncia, e de estar o réo preso, não será solto antes da decisão do Juiz Municipal.

520 Artigo 54 da Lei n. 261/1841. As sentenças de pronuncia nos crimes individuaes proferidas pelos Chefes

de Policia, Juizes Municipaes, e as dos Delegados e Subdelegados, que forem confirmadas pelos Juizes Municipaes, sujeitão os réos á accusação, e a serem julgados pelo Jury, procedendo-se na fórma indicada no art. 254 e seguintes do Codigo do Processo Criminal.

521 Quanto às modificações introduzidas pela Lei n. 261/1841, tem-se por certo que a mesma “extinguiu o

Júri de acusação, e a formação da culpa e a sentença de pronúncia foram atribuídas às autoridades policiais já referidas e aos juízes municipais, dependendo a pronúncia dos delegados e subdelegados de confirmação dos juízes municipais” (MARQUES, 1963, v. I, p. 18).

522 O Decreto n. 120, de 31 de janeiro de 1842, foi editado para regulamentar a execução das partes policial e

criminal previstas na Lei n. 261/1841.

523 A formação da culpa quando o réu fosse delegado, subdelegado ou outro funcionário da polícia, competia

ao Chefe de Polícia, na constância do artigo 198, inciso 5.º, do Regulamento n. 120/1842.

As atribuições criminais afetas a delegados e subdelegados estavam compreendidas no âmbito do artigo 212, do Regulamento n 120/1842.

524Cf. RAMALHO, Joaquim Ignácio (Barão de Ramalho). Elementos do processo criminal: para uso das faculdades de

direito do Imperio. São Paulo: Dous de Dezembro, 1856, p. 68-69.

525 A pronúncia estava disciplinada na locução do artigo 285 do Decreto n. 120, de 31 de janeiro de 1842. Tal

diploma inseriu-a no contexto do Capítulo IX –Da pronuncia, de sua sustentação, e da ratificação do processo da formação da culpa – ao longo dos artigos 285 a 296.

produzidos

526

, ao passo que, a pronúncia quando elaborada pelos delegados ou

subdelegados ficava vinculada à ratificação ou revogação pelo juiz municipal, este

que realizava o expediente de depuração da decisão da autoridade policial

527

.

Desempenhando esse papel, o juiz municipal realizava as funções de controle

da admissibilidade da acusação antes designadas ao júri de acusação

528

. Sua

manifestação, nesse sentido, se dava em despacho

ex officio

529

. Também ficou

resguardada a ele a competência para a formação da culpa e, originariamente,

pronunciar o acusado.

A citada legislação inovou também no sentido de abolir as Juntas de Paz e o

primeiro Conselho de Jurados

530

Jury de Accusação – regulamentado pelo Código do

Processo Criminal de Primeira Instância. Com isso, novas e maiores atribuições

foram concedidas aos juízes de direito

531

. Permaneceu, portanto, somente o segundo

Conselho de Jurados –Jury de Julgação – composto de quarenta e oito membros

532

.

A atribuição de organização da lista contendo o nome dos jurados passou

para o Delegado de Polícia, o qual fazia remessa dela para o Juiz de Direito. Uma

junta, composta do próprio Juiz de Direito, do promotor e do presidente da Câmara

Municipal, realizava a lista geral dos jurados

533

. A convocação do júri era, então,

realizada pelo magistrado.

As modificações operadas no âmbito da Lei n. 261/1841 foram, de certo

modo, complementadas por dois decretos imperiais, quais sejam: Decreto n. 562, de

526 Artigo 94 da Lei n. 261/1841. A pronuncia não suspende o exercicio dos direitos politicos, senão depois

de sustentada competentemente.

Vide, ainda, o artigo 54 da Lei n. 261/1841.

527 Na disciplina disposta no artigo 49 da Lei n. 261/1841. 528Cf. ALMEIDA, 1973, p. 132.

529 Na disciplina disposta no artigo 17, § 3.º, da Lei n. 261/1841.

530 Artigo 95 da Lei n. 261/1841. Ficão abolidas as Juntas de Paz, e o 1º Conselho dos Jurados. As suas

attribuições serão exercidas pelas Autoridades Policiaes creadas por esta Lei, e na forma por ella determinada.

531Cf. ALMEIDA JÚNIOR, 1911, v. I, p. 183.

532 Artigo 107 da Lei n. 261/1841. O Conselho de Jurados constará de quarenta e oito membros, e tantos

serão os sorteados na fórma do art. 320 do Codigo do Processo; todavia poderá haver sessão, uma vez que compareção trinta e seis membros.

02 de julho de 1850

534

e Decreto n. 707, de 09 de outubro de 1850

535

. Ambos

alteraram a competência do júri no Brasil.

O Decreto n. 562/1850 estabelecia que determinados crimes

536

deveriam ser,

a partir de então, processados pelos juízes municipais e julgados pelos Juízes de

Direito. Logo, a competência para a pronúncia nesses casos seria do juiz municipal

exclusivamente e o julgamento dos mesmos não ocorreria mais em Plenário do Júri,

mas seria analisado o mérito por um Juiz de Direito, subtraindo assim a

competência do Tribunal Popular para determinados crimes

537

.

Por seu turno, o Decreto n. 707/1850 regulamentava o procedimento que

deveria ser observado no caso dos crimes ditados no Decreto n. 562/1850.

Disciplinou que da pronúncia ou impronúncia o juiz municipal deveria recorrer de

ofício para o Juiz de Direito, o qual analisaria o aspecto formal, existência de

nulidades, e material da decisão que julgava a admissibilidade acusatória

538

. O Juiz de

Direito poderia empreender qualquer diligência necessária para sanar a pronúncia ou

impronúncia

539

.

Nos casos em que o próprio magistrado fosse responsável pela pronúncia,

após proferi-la, encaminhava os autos ao Promotor Público para as providências no

sentido de elaboração do libelo-crime

540

, para posterior julgamento, atendendo ao

princípio da titularidade da ação penal. O movimento reformador, no entanto, ainda

enfrentaria uma nova fase

541

. Políticos incomodados com as atribuições das

534 Decreto n. 562, de 2 de julho de 1850 –Marca os crimes que devem ser processados pelos Juizes Municipaes, e julgados

pelos Juizes de Direito – assinado pelo Ministro EUSEBIO DE QUEIROZ COITINHO MATTOSO.

535 Decreto n. 707, de 9 de outubro de 1850 –Regula o modo por que devem ser processados pelos Juizes Municipaes, e

julgados pelos de Direito os crimes de que trata a Lei N. 562 de 2 de julho deste anno – assinado pelo Ministro

EUSEBIO DE QUEIROZ COITINHO MATTOSO.

536 O Decreto n. 562/1850, nos parágrafos do seu artigo 1.º e no corpo do artigo 2.º, retirava da competência

do júri os seguintes crimes: moeda falsa, roubo e homicídio cometidos nos municípios de fronteira do Império, resistência, tirada de presos e banca-rota.

537 Na disciplina disposta no artigo 1.º do Decreto n. 562/1850. 538 Na disciplina disposta no artigo 2.º do Decreto n. 707/1850. 539 Na disciplina disposta nos artigo 3.º e 4.º do Decreto n. 707/1850. 540 Na disciplina disposta no artigo 5.º do Decreto n. 707/1850.

541 “Apesar do caráter autoritarista de que vinha revestida, a lei de 3 de dezembro não conseguiu atender aos

reclamos da defesa social na luta contra o crime e a impunidade dos delinqüentes” (MARQUES, 1965, v. I, p. 99-100).

autoridades policiais, as quais acumulavam competência judicial, e o

enfraquecimento dos Juízes de Direito, iniciaram, a partir de 1845, debates no

sentido de reformar a Lei n. 261/1841, quando vários projetos foram

apresentados

542

.

Em decorrência disso, a nova reforma surgiu com o Decreto n. 2.033, de 20

de setembro de 1871

543

, regulamentado pelo Decreto n. 4.824, de 22 de novembro

de 1871

544

, separando a competência para o exercício das atividades policiais –

atividade investigatória – e judiciais – atividade acusatória judicial

545

. Novamente a

organização judiciária e o júri foram alterados nessa reforma que perdurou até o

período republicano

546

.

Aludido decreto imperial manteve a divisão territorial brasileira em distritos

de Relação, comarcas, termos e distritos de paz, dividindo as comarcas em gerais e

especiais

547

. Foram suprimidas das atribuições das autoridades policiais a formação

da culpa e a pronúncia nos crimes comuns

548

, exceto nos casos de crime que por sua

peculiaridade fossem considerados de excepcional gravidade ou quando houvesse no

crime envolvimento de pessoa influente na sociedade

549

. Conseguintemente, tornou-

se a pronúncia um ato eminentemente de cunho judicial.

542 O projeto do Ministro Sinimbú, em 1862, foi a base inspiradora para a Lei n. 2033/1871. Nesse sentido:

ALMEIDA JÚNIOR, 1911, v. I, p. 185.

Acerca dessa nova reforma, a qual representou “uma reação de liberalismo contra as disposições da lei de 3 de dezembro e seu primeiro ato foi determinar que, nas Capitais que fossem sede de Relação e nas comarcas de um só termo a ela ligadas por tão fácil comunicação que no mesmo dia se pudesse ir e voltar, a jurisdição de primeira instância passasse a ser exclusivamente exercida pelos juízes de direito” (ALMEIDA, 1973, p. 134).

543 Decreto n. 2.033, de 20 de setembro de 1871 –Altera differentes disposições da Legislação Judiciaria.

Cf. PIERANGELLI, 1983, p. 150.

544 Decreto n. 4.824, de 22 de novembro de 1871 –Regula a execução da Lei n. 2033 de 24 de Setembro do corrente

anno, que alterou differentes disposições da Legislação Judiciaria.

545 Na disciplina disposta no artigo 9.º, da Lei n. 2.033/1871.

Cf. GRECO FILHO, 2009, p. 67.

546 A reforma realizada em 1871 “além de pôr côbro ao policialismo reacionário da lei de 3 de dezembro,

serparando Justiça e Polícia, ainda trouxe algumas inovações que até hoje perduram, como v. gratia, a criação

do ‘inquérito policial’, uma das instituições mais benéficas de nosso sistema processual, apesar de críticas infundadas contra êle feita ou pela demagogia forense, ou pelo juízo apressado de alguns que não conhecem bem o problema da investidura criminal” (MARQUES, 1965, v. I, p. 101, grifo do autor).

547 Cf. MARQUES, 1963, v. I, p. 19.

548 Na disciplina disposta no artigo 10, § 1.º, do Decreto n. 2.033/1871. No mesmo sentido: artigo 10, § 1.º,

do Decreto n. 4.824/1871.

Como decorrência desses dois citados diplomas priorizou-se a instrução

contraditória, encerrando a aplicação inquisitorial das Ordenações do Reino

550

.

Também se observou que a formação da culpa e a pronúncia regressaram para a

competência dos Juízes de Direito das comarcas especiais

551

.

Quando a pronúncia fosse realizada pelos juízes municipais, seria obrigatória

a remessa do recurso necessário para o magistrado – juiz de direito – competente.

Esse procedimento servia como uma forma de fazer valer o mecanismo de controle

interno da decisão do juiz local, este mais suscetível às pressões

552

.

A competência do júri para os julgamentos dos crimes que o Decreto n.

562/1850 havia suprimido, foi restabelecida

553

. Também, pela primeira vez

permitiu-se ao magistrado responsável pela formação da culpa absolver

sumariamente o acusado, evitando com isso sua remessa para o julgamento pelo

Tribunal do Júri

554

.

Ainda no âmbito de alterações relacionadas ao júri, cumpre destacar o

Decreto n. 4.992, de 03 de julho de 1872

555

, o qual disciplinou a presidência do júri.

A nova disciplina foi no sentido de que o júri nas comarcas especiais seria presidido

por um desembargador da Relação do distrito, de acordo com o critério de

antiguidade. No mais, não foram alteradas as regras então vigentes para a pronúncia.

Em síntese apertada percebe-se que o processo criminal no período do Brasil

Império teve como singular característica a existência de duas fases muito distintas.

A primeira dessas fases consubstanciava a formação da culpa, a qual tinha como

marco derradeiro a pronúncia do acusado. O julgamento do mérito da causa pelo

Tribunal Popular era a tônica da segunda fase do processo criminal.

550Cf. SILVA, Adhemar Raymundo da. Estudos de Direito Processual Penal. Salvador: Livraria Progresso, 1957, p.

10-11.

551 Na disciplina disposta no artigo 13, § 1.º, do Decreto n. 4.824/1871. 552 Na disciplina disposta no artigo 17, § 2.º, do Decreto n. 4.824/1871 553 Cf. MARQUES, 1963, v. I, p. 19-20.

554 Na disciplina disposta no artigo 20 do Decreto n. 2.033/1871.

555 Decreto n. 4.992, de 3 de julho de 1872 –Altera algumas disposições do Decreto n. 4.824, de 22de novembro de