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Em 1987, quando minha irmã mais nova completou 18 anos, decidi retomar os estudos. Tinha então 23 anos e me sentia desobrigado com a família, moral e economicamente falando, parti para a cidade de Campinas para fazer o curso de filosofia na Universidade Católica desta cidade. Apesar da proximidade com a cidade de Americana, decidi mudar com "mala e cuia" para poder me dedicar ao curso universitário. Me ajudou muito ter conseguido bolsa de estudo quando me tornei funcionário da própria PUC-Campinas logo no início do curso de filosofia em março de 1987. A bolsa me deu tranqüilidade para poder me manter economicamente na cidade, já que não conhecia ninguém na cidade. Os anos em que fui aluno do curso de filosofia abriram novas perspectivas e novos horizontes para a minha vida. Foram anos de intensas buscas no âmbito afetivo, intelectual e profissional. A filosofia me "virou de ponta cabeça", me fez repensar os valores que trazia, principalmente os valores de minha formação religiosa. A filosofia me filtrou,

me purificou, me batizou para outro estilo de vida. Vivi intensamente os anos em que estudei filosofia na graduação na Puc-Campinas. Nasci de novo.

Em 1990 eu completaria 27 anos e terminaria em dezembro o curso de filosofia. A questão que se apresentava naquele momento era o que fazer após o término do curso. Iria direto para a pós-graduação ou faria outra faculdade? Ao final do curso eu tinha a sensação de que era preciso me aprofundar nos aspectos pedagógicos da minha futura profissão de professor de filosofia, pois o que se discutia na academia era não só à volta da filosofia para o colegial, mas também o que e como ensinar filosofia nas aulas de filosofia. Decidi então fazer o curso de Pedagogia na própria PUC-Campinas entre os anos de 1991 a 1994.

Terminado o curso de filosofia, comecei minha carreira como educador na Escola Salesiana São José em 1991 como professor de Ensino Religioso Escolar nos cursos técnicos da ETEC. Procurei modificar as aulas de E.R. dando um caráter mais filosófico aos conteúdos, o que agradou aos alunos e à coordenação da escola. Fui professor de E.R. de 1991 a 2001, período de grande aprendizagem para a minha vida de educador. De 1994 em diante, acumulei o trabalho como professor do Ensino Médio e do Ensino Superior, tendo então que pensar em fazer o Mestrado, exigência legal para o trabalho pedagógico em nível superior.

Quando freqüentava o último ano do curso de Pedagogia em 1994 surgiu a oportunidade de iniciar o trabalho pedagógico como professor em nível superior na ainda Faculdade Salesiana de Tecnologia de Campinas.

Fato marcante em minha vida acadêmica ocorreu no ano de 1993, quando fui procurado pela coordenadora do Ensino Fundamental da Escola Salesiana São José que me propunha iniciar um novo projeto com os alunos de 1ª a 4ª séries. O projeto era de Filosofia para Crianças, algo absolutamente novo para mim e para as escolas de Campinas e região na época. Fiz a formação de monitor no Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC) na cidade de São Paulo em janeiro de 1994 e no mesmo ano montei um curso de formação para os professores da Escola Salesiana São José. Depois de um ano de estudos intensos, implantamos o programa em 1995 nas primeiras séries do Ensino Fundamental, sendo que atualmente, a filosofia (Educação para o Pensar) está presente da pré-escola ao ensino técnico. O trabalho tem repercussão e a escola passa a ser assediada por pessoas interessadas pelo projeto. Organizei então nos anos de 1997, 1998, 1999 encontros para refletir teoricamente o que fazíamos na escola e ao mesmo tempo,

apresentar oficinas práticas para os interessados, com amostragem do que acontecia nas aulas de filosofia para crianças. No ano de 2000 o encontro foi acampado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo/Unidade de Campinas e se torna um Encontro de Educação. Neste mesmo ano, incentivado pela UNISAL e pelo meu trabalho como educador no Ensino Médio, aproximo o projeto de Filosofia para Crianças/Educação para o Pensar ao projeto de Educação Social da UNISAL/Campinas e estes dois projetos passam a ser o eixo dos encontros desde então. No ano de 2001 tivemos a presença de 1.200 educadores de Campinas e região presentes no evento, boa parte deles vindos das escolas públicas. Até hoje, foram realizados 14 eventos para educadores, totalizando a participação de sete mil professores.

Em 1995 começo uma Especialização em Educação para o Pensar (filosofia para crianças) na PUC-SP onde outro fato é marcante na minha trajetória como educador: A morte de Paulo Freire. Eu estava na PUC no dia em que ele morreu (2 de maio de l997) e vivenciei as repercussões de sua morte de dentro daquelas paredes e daquele prédio em que ele tanto dignificou com sua presença e com seu trabalho. Além de sua morte, o que me causou forte impacto foi seus últimos escritos em vida, escritos à mão e que nos foi lido pelo professor Lorieri no mesmo dia 2 de maio. Era um comentário sobre a morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos que cito aqui dos trechos:

"que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer"

"não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor"

O texto lido pelo prof. Lorieri foi publicado depois no livro Pedagogia da Indignação pela editora da UNESP.

Estas palavras de Paulo Freire caíram como uma bomba na minha cabeça, pois se eu estava tão preocupado com as crianças num projeto de uma Educação para o Pensar, tendo como objetivos a emancipação intelectual, a construção coletiva do conhecimento e a formação da cidadania, era necessário também um projeto que estivesse dirigido aos alunos do Ensino Médio. Me senti desafiado em

fazer alguma coisa, não poderia ficar sem fazer nada diante do comentário de Paulo Freire. Foi então que nasceu o projeto Ética e Cidadania, preocupado de um lado com a formação do professor e de outro com a formação do aluno. De 1997 em diante, as relações entre a ética e a educação tem sido o foco de minhas leituras, estudos e pesquisas. E foi com o projeto Ecopedagogia: os fundamentos filosóficos, éticos e políticos da prática pedagógica para a sustentabilidade, que cheguei ao Programa de Pós-Graduação em Educação (currículo) na PUC-SP.