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Rosário Congro, considerado por alguns estudiosos como o primeiro historiador de Campo Grande, seguramente externou com bastante clareza a origem de Campo Grande e, ao fazer isso, corroborou para mostrar a importância das fazendas pastoris para o desenvolvimento da cidade que, por sua vez, passou a receber inúmeras benfeitorias materiais em razão da evolução da economia pastoril.121

Observermos então o relato de Congro sobre os primórdios da cidade de Campo Grande, não propriamente para constatarmos os primódios em si de Campo Grande, mas sim para que se possa compreender melhor como se deu de forma geral a conquista, a posse pelo território. Ou seja, como as pessoas apossaram-se de uma área, tornando-se proprietárias da mesma.

Em 1872, a quase deserta região meridional da então província de Mato Grosso compreendia, apenas na vastidão dos seus trezentos mil quilômetros quadrados, aproximadamente, as vilas de Miranda, outrora presídio do mesmo nome, fundado em 1797, e Santana do Paranaíba, além das povoações de Nioaque e Coxim.

A invasão paraguaia, levando às poucas e longínquas fazendas, como por toda parte, o saque, o incêndio, a morte, os horrores da guerra, em fúria selvagem, devastara grande parte do imenso distrito de Miranda, dando lugar a que nas suas planícies e nos seus montes e nos seus rios, se realizasse a dolorosa trajetória da coluna de heróis e de mártires comandada pelo coronel Camisão e, nos Dourados, o sacrifício homérico de Antônio João.

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MELO E SILVA, José de. Canaã do Oeste: sul de Mato Grosso. Campo Grande: Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, 1989, p. 92. Idéia contida na obra de RICARDO, Cassiano. O Brasil no original. 2. ed. São Paulo: Cultural da Bandeira, 1937, da qual Melo e Silva utilizou-se para elaborar parte das reflexões contidas no seu texto.

121 PEREIRA, Eurípedes Barsanulfo. Rosário Congro: o primeiro historiador de Campo Grande. In: CONGRO,

Rosário. O Município de Campo Grande. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2003, p. 11-20.

46 Expulso o invasor do solo sagrado da pátria, morto Solano Lopez, o tirano, acuado nas cordilheiras de Aquidabã, voltaram, para a reconstrução dos seus penates os que, conseguindo escapar à sanha do inimigo sanguissedento, se haviam refugiado nas alturas da serra de Maracaju. Foi então que José Antônio Pereira, velho sertanista mineiro, já sexagenário122, deixando o seu arraial de Monte Alegre, nas proximidades de Uberaba, se fez com destino a Mato Grosso com seus filhos Antônio Luiz e Joaquim e quatro “camaradas”, em busca de terras devolutas para lavoura e criação.

Pelo entardecer de 21 de junho de 1872, chegava a pequena comitiva à confluência dos córregos mais tarde denominados Prosa e Segredo, no lugar onde está situado hoje (1919) o matadouro municipal, ponto escolhido para o pouso daquele dia e depois definitivamente adotado. [...]

No ano seguinte, José Antônio Pereira regressou a Monte Alegre, deixando o seu rancho e a sua lavoura incipiente entregues a João Nepomuceno, com quem se associara. [...]

Só em 1875 voltou José Antônio, trazendo sua família composta de sua mulher Maria Carolina de Oliveira, seus filhos Antônio Luiz, Joaquim Antônio, Francisca, Persiliana, Constança, Anna, Rita, Maria Nazareth e três tutelados, e mais as de Manuel Gonçalves Martins, João Pereira Martins, Antônio Ferreira e Joaquim Olivério de Souza, além de muitos agregados. [...]

Compunha-se ela de 62 pessoas ao todo, com seis123 pesados “carros mineiros”, nos quais vinha não pequena provisão de tudo quanto pudessem necessitar, além de sementes diversas e mudas de cana-de-açúcar, café e outras plantas, devidamente acondicionadas.124

O relato de Congro evidencia, dentre muitas outras coisas, que alguns territórios da Serra de Maracaju eram, logo após a Guerra contra o Paraguai (1864-70), um “espaço vazio”. Mesmo já existindo pessoas afazendadas desde a década de 1820 na Serra de Maracaju, havia terras “sem dono”. Portanto, o sujeito que chegasse primeiro podia muito bem apossar-se do lugar. Para ser bem direto, foi isso que ocorreu no caso de Pereira.

Com o término da Guerra contra o Paraguai e o regresso dos soldados para as Províncias do Rio Grande do Sul, do Paraná, de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro foi divulgada a notícia de que no sul de Mato Grosso existiam terras ainda não ocupadas pelo homem branco. Isso contribuiu decisivamente para a vinda de migrantes de todos os locais do Brasil.

122 José Antônio Pereira estava com 47 anos de idade quando empreendeu sua primeira viagem para o “Campo

Grande da Vacaria”. (Nota do editor).

123 Antônio Luiz Pereira afirmava aos seus descendentes que foram onze

“carros mineiros”. (Nota do editor).

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CONGRO, Rosário. O Município de Campo Grande. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2003, p. 23-25. Essa obra foi publicada inicialmente em 1920: CONGRO, Rosário. O Município de Campo Grande. Cuiabá: Imprensa Oficial, 1920. No material, o autor fez um balanço político-administrativo da sua atuação como autoridade máxima do executivo municipal entre 1918-19.

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Imagem 4. Área do Município de Campo Grande.125

Na concepção dos pioneiros, as terras não tinham donos, bastava chegar e ocupar. E foi isso que fizeram. Muitas famílias afazendaram-se de imensas áreas, geralmente as próximas de cabeceiras e leitos de rios perenes dos Campos da Vacaria. O surgimento do povoado de Campo Grande, atual capital política e administrativa de Mato Grosso do Sul, é fruto, em certa medida, desta ação.126

125 Em 1922, o território ocupado pelo Município de Campo Grande era superior aos 100 mil km2. Nessa época, a

municipalidade ainda fazia divisa com o Estado de São Paulo. GOMES, Arlindo de Andrade. O Município de Campo Grande em 1922. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2004, p. 23.

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Alcir Lenharo mostrou em seu estudo que não havia propriamente terras “sem donos” ou “espaços vazios” no Oeste do Brasil, pois os indígenas nunca se fizeram ausentes deste território. LENHARO, Alcir. Colonização e trabalho no Brasil: Amazônia, Nordeste, Centro-Oeste: anos 30. Campinas: UNICAMP, 1985. Estudos mais recentes, como o de Lúcia Salsa Corrêa, também confirmaram e ampliaram esta análise. “Na Historiografia tradicional sobre a região mato-grossense foi bastante comum o uso dos conceitos desbravamento e vazios territoriais e populacionais, com o intuito de justificar o processo efetivo de ocupação do sertão que ocorreu nesse período. A idéia de um deserto de homens difundida por CORRÊA FILHO, menospreza o papel desempenhado pelas comunidades indígenas e pelas tentativas anteriores de fixação de espanhóis, sertanistas do século XVI e XVII e jesuítas, das quais restaram apenas vestígios após as investidas dos bandeirantes paulistas.” CORRÊA, Lúcia Salsa. História e fronteira. O sul de Mato Grosso (1870-1920). Campo Grande: UCDB, 1999, p. 92. A autora citou as seguintes obras de Virgílio Corrêa Filho: Ervais do Brasil e ervateiros, Fazendas de gado no Pantanal Mato-Grossense, História de Mato Grosso, Notas á margem, Pantanais Mato- Grossenses e A proposito do boi pantaneiro. Essa questão da conquista e ocupação dos “espaços vazios”, por sua vez, não ocorreu apenas no Brasil, tendo em vista que é algo recorrente em várias regiões da América no século XIX, época de ampliação do capitalismo monocultor e imperialista. Na Argentina, a expansão territorial que incorporou grandes áreas de terras férteis se deu especialmente através de duas campanhas, uma em 1874 e a outra em 1878, “sendo que ambas tiveram o claro objetivo de resgatar o vasto território (o deserto) ocupado pelos indígenas e povoa-lo.” LENZ, Maria Heloisa. O papel de La Conquista del Desierto na construção do Estado argentino, no século XIX. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 27, n. 2, p. 543-560, out. 2006, p. 543.

CAMPO GRANDE

Divisa com o Estado de São Paulo

Divisa com o Estado do Paraná

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No entender de Paulo Coelho Machado, escritor de inúmeras e largamente publicadas e divulgadas obras sobre a cidade de Campo Grande, de 1875 – chegada dos pioneiros – até o final do século XIX não ocorreram “fatos relevantes a anotar”. “Os anos que seguiram até 1889 representam a noite da história campo-grandense. Não há, dentro desses quatorze anos, fatos relevantes a anotar.”127

Todavia, mesmo afirmando isso, Machado explicitou que havia inúmeras pessoas nos arredores do pequeno povoado. “Algumas famílias, deixando provisoriamente o núcleo primitivo, alojaram-se em sítios próximos, fundando as primeiras fazendas do grupo. Já existiam outras, um pouco distantes.”128 Depois, afirmou que os

[...] novos fazendeiros iniciaram o penoso trabalho de recrutamento do gado bravio ou bagual. Em local mais distante compravam de João Mota algumas cabeças de gado bovino a 12 e 15 mil-réis.

Criava-se a maior riqueza sul-mato-grossense, que representa até os dias atuais o grande lastro de nossa economia: a pecuária.

As mesmas pessoas trabalhavam igualmente no povoado. Melhoravam as habitações, todas de pau-a-pique e taipa. Capinavam os caminhos e pátios. Plantavam pomares e hortas. Criavam pequenos animais e domesticavam as vacas para o consumo de leite. As habitações reuniam-se numa única rua, a futura 26 de Agosto, nas imediações das margens do córrego, que eram alagadiças e cheias de espinhos.129

No decorrer desses parágrafos fica nítido que os sujeitos do campo não viviam apenas na zona rural, mas que eles interferiam também na parte urbana da então freguesia, para utilizar um termo da época.

Se por um lado é um tanto quanto estranho referir-se a tais pessoas como elite e chamar o espaço do povoado de área urbana, por outro é incontestável afirmar que estas mesmas pessoas tinham sim um expressivo poder local, independente de ser esse local um espaço rural ou um espaço urbano.

Para Paulo Coelho Machado, parte desses sujeitos formava a “elite condutora” de Campo Grande.130 No final do século XIX, as decisões mais relevantes do povoado de Campo Grande eram tomadas por uma “comissão”, “como de cotio eram solucionados os problemas mais importantes da cidade, por falta de um corpo permanente de representantes municipais.”131

127

MACHADO, op. cit., 1990, p. 19. De uma família tradicional na cidade e região, Paulo era advogado e pecuarista. Atuou também em diversos cargos públicos. Era extremamente favorável à divisão de Mato Grosso. Suas obras sobre a “história de Mato Grosso do Sul” foram, todas elas, publicadas com o apoio institucional de órgãos públicos municipais e/ou estaduais.

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MACHADO, op. cit., 1990, p. 19.

129 MACHADO, op. cit., 1990, p. 20. 130

MACHADO, op. cit., 1990, p. 57.

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Tendo em vista o relato de Machado, é adequado pensar as origens do povoado de Campo Grande como um território em que inicialmente predominou a presença e as ordens dos pioneiros. Nesse sentido, a lei deles era a obrigação dos demais. Por volta do final da década de 1880, de acordo com Machado, existia “completa obediência aos padrões desejados, através do exemplarismo dos mais velhos. [...] Os costumes antigos imperaram por muito tempo.”132

Voltemos agora a observar a importância que Rosário Congro conferiu às fazendas pastoris para a evolução de Campo Grande e, então, vejamos como a realidade de “completa obediência aos padrões desejados” foi alterada e que sujeitos fizeram isso, num primeiro momento.

Com a formação das fazendas, essencialmente pastoris, o povoado desenvolveu-se, tornando-se em pouco o centro comercial da riquíssima região, para ele afluindo gente de toda a casta, agenciadores de múltiplos negócios e comerciantes em todos os ramos, que se localizaram, estabelecendo-se uma considerável corrente comercial com o Triângulo Mineiro, principalmente com a importante praça de Uberaba.

Como disse o Dr. Trajano Balduíno de Souza em primoroso artigo, “tornou- se o lugar preferido dos boiadeiros, dos viajantes, dos negociantes de toda a espécie, pela sua colocação próxima aos centros produtores do gado, pela amenidade do seu clima, pela sua surpreendente fertilidade, e daí a grande fama de riqueza que irradiou-se por todo o país, tornando-se o lugar quase fantástico, onde, dizia-se, o dinheiro corria a rodos, tendo havido de fato grande acúmulo de capitais trazidos pelos boiadeiros.

Essa fama de riqueza atraiu além de grande número de homens prestimosos que vieram se consagrar ao trabalho honesto, também um grande número de bandidos e desocupados que se exercitavam na prática dos mais hediondos crimes, por contarem com a impunidade, vista não haver aqui uma organização regular de autoridades que pudessem reprimi- los.

De muito sangue humano está esta terra saturada, mortos uns para se experimentar uma arma comprada de novo, outros para serem roubados e outros pelo desenfreio das mais violentas e desordenadas paixões brutais.”133

Agora, tendo em pauta não apenas o relato de Machado, mas também o de Congro, pode-se então constatar e observar o surgimento de conflitos nas origens do povoado de Campo Grande. Com base nessas fontes escritas sobretudo por memorialistas, pode-se dizer que Campo Grande era um território em que inicialmente predominou a presença dos pioneiros e, com o passar do tempo, houve também uma relativa, embora não pacífica, pluralidade de sujeitos, pois pessoas de vários ramos e de diversas atividades chegaram no povoado.134

132 MACHADO, op. cit., 1990, p. 30. 133 CONGRO, op. cit., 2003, p. 28-29.

134 Um exemplo disso é a vinda de integrantes da família dos Vieira. Em meados da década de 1880 já não havia mais tantas glebas devolutas de terras de boa qualidade sem afazendados. Segundo carta de João Honório Vieira ao seu irmão, datada de 1886, era complicado achar terras com qualidade na região de Campo Grande. Nas palavras de Vieira: “não podemos ser morador no Campo Grande, não achei fazenda que me satisfizesse, as melhores já estão tomadas, as que nos informaram lá como a do Motta e outras que tão bem corri, não nos serve porque são pequenas campinas cortadas de serradão péssimo.” VIEIRA, João Honório. Carta de 6 jun. 1886. In: CAMPOS, Peri Alves. Do 1o. rancho à locomotiva 44: achegas para a história de Campo-Grande. In: ______. 1939 – Album de Campo-Grande. Campo Grande: [s.n.], 1939, p. 4.

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Ora, mas qual é a importância dessa pluralidade de sujeitos para pensarmos a formação da elite urbana de Campo Grande?

Ela é, sem dúvida, fundamental. Até o momento em que fontes memorialistas ou oficiais apresentam um relato linear e sem conflitos da evolução histórica de Campo Grande, tem-se então, na verdade, um território ocupado por sujeitos de um mesmo grupo, de uma mesma elite.

Todavia, no momento em que essas mesmas fontes, entenda-se oficiais, sinalizam a existência de outros sujeitos no espaço do vilarejo, já por volta do final do século XIX e primeiros anos do século XX, ora chamados no primeiro jornal de Campo Grande, O Estado de Matto Grosso, de gente “de toda casta”135, ou pelos memorialistas como “marginais”136 ou “criminosos foragidos”137, pode-se começar a pensar o posicionamento dos demais sujeitos, que eram a elite, sobre tais pessoas, portanto, pode-se começar a pensar e delimitar melhor quem era e como atuava a elite urbana de Campo Grande, elite essa que era composta em boa parte por sujeitos proprietários das fazendas e por imigrantes que atuavam notadamente em atividades comerciais.

Depois da criação do juizado de paz, segundo afirmou Machado, o crescimento do povoado acelerou-se. Caras novas foram chegando e ficando. Alguns vinham à procura de terras, outros montavam seus negócios, pequenos ou grandes para a proporção do lugar.

No final de 1898, a população urbana andava perto de trezentas pessoas, todas praticamente morando na mesma Rua 26 de Agosto. Modificava-se a fisionomia do antigo arraial, não apenas fisicamente, pela substituição dos ranchos pelas casas de taipa e de alvenaria cobertas de telhas-canoa, como na sua parte anímica; já se preludiava a feição cosmopolita que caracteriza a cidade hodierna. Gente de toda parte começava a procurar a vila sedutora e atraente. Eram os chamados mudanceiros: italianos, espanhóis, portugueses, árabes, brasileiros de todos os rincões e da própria campanha sul-mato-grossense fixavam-se em Campo Grande. A comunidade, que a princípio era dotada de autonomia existencial e até certo ponto permanecia incomunicada com outros grupos sociais, uma espécie de mundo autárquico, isolado, independente, de inopino passou a receber o contato de pessoas oriundas de diferentes espaços geográficos, com formações diversas, que passaram a exercer sua influência sobre a sociedade nascente.138

135

OS TRILHOS DA NOROESTE CHEGAM A CAMPO GRANDE. O Estado de Matto Grosso, Campo Grande, 1 jun. 1914, p. 1.

136

MACHADO, op. cit., 1990, p. 30.

137 MACHADO, op. cit., 1990, p. 31. José Barbosa Rodrigues também sinaliza a existência do fato, mencionado a

reflexão como sendo originária de um escrito de Balduino de Souza, que foi transcrito por Rosário Congro. RODRIGUES, op. cit., 1980, p. 50-51 e 55. Contudo, em oposição a estes, havia “os homens de bem que vieram de longe e procuravam consagrar seu tempo ao trabalho e à grandeza da terra.” RODRIGUES, op. cit., 1980, p. 50. Os “homens de bem” já estavam no lugar, sendo, portanto, os pioneiros na ocupação da terra.

138

MACHADO, op. cit., 1990, p. 52-53. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), em funcionamento a partir de 1914, foi essencial para a chegada de adventícios na cidade de Campo Grande.

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Machado, por meio de seu texto, evidenciou que Campo Grande tinha, mesmo no século XIX, sinificativa pluralidade social, pois indivíduos de várias partes compunham o povoado e sobre tal território imprimiam diversas práticas sociais. Para quem se interessa pelo movimento, pela diversidade de povos em um mesmo espaço, seguramente esse relato é de vital relevância, mas para o historiador social não se trata propriamente de observar apenas isso.

Mais do que externar uma pluralidade de povos, o relato em questão torna patente a presença não mais apenas dos sujeitos pioneiros existentes nos idos 1875, mas também de pessoas de outras plagas, tanto nacionais como estrangeiros. Portanto, outra fonte crucial para se pensar a formação da elite urbana.

Embora o grupo mais expressivo da elite urbana de Campo Grande fosse mesmo proveniente da elite rural, sobretudo dos sujeitos que eram fazendeiros, os adventícios também contribuíram para a formação da elite urbana campo-grandense, tal como demonstrou Machado.

Boa parcela das casas comerciais da cidade de Campo Grande era comandada por migrantes e/ou imigrantes que, com o passar do tempo, foram cada vez mais ocupando espaço no ambiente da cidade e interferiram nos rumos da mesma e nas ações dos demais sujeitos que nela estavam.139

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Os sírios controlavam a maior parte das casas comerciais no sul de Mato Grosso no início do século XX. Muitos comerciantes, diante do enfraquecimento do comércio na cidade de Corumbá e proximidades após a década de 1920, passaram a atuar também ou com mais intensidade em Campo Grande, que nesse período se consolidava como uma cidade economicamente importante no cenário estadual. Data do mês de janeiro de 1905 um embate de forças entre a elite local de comerciantes e os mascates. Historicamente a presença dos mascateadores já era visível no período do Brasil Colônia, quando alguns grupos se deslocavam da região de São Paulo para mascatear em Cuiabá e proximidades e, para lá chegarem, também passavam pelo sul de Mato Grosso. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. Outra parte dos mascates aportava na cidade de Corumbá e a partir deste local estendiam as atividades comerciais para o interior do território, abastecendo as fazendas com remédios, perfumes, tecidos e louças. Encomendas a pedido também eram feitas. O trabalho dos mascates, até então realizado muito mais em espaços rurais do que urbanos, não acarretava desacordos e prejuízos expressivos para determinados comerciantes das cidades. Parte dos comerciantes de Corumbá eram eles próprios também os mascateadores que se embrenhavam a percorrer as fazendas. Outra parcela provinha dos Estados de São Paulo, de Minas Gerais e inclusive do Paraguai. Já na cidade de Campo Grande, a situação era outra. Até o momento em que a cidade, na verdade povoado, carrecia de mantimentos e demais produtos, quase sempre entregues pelos mascates, estes não foram retralhados pelo poder público nos seus trabalhos. No momento em que comerciantes locais fixaram atividades, abrindo estabelecimentos comerciais, alguns embates se fizeram mais nítidos. O pagamento aos mascates era feito a base de câmbio. O comprador adquiria a mercadoria e, como moeda da troca, entregava uma ou mais cabeças