OTURUMLAR 29 KASIM 2013
SAVİCKAS’IN KARİYER YAPILANDIRMA KURAMINA DAYALI ÖRNEK BİR KARİYER GRUP DANIŞMANLIĞI ÇALIŞMASI
Na primeira metade dos anos 1920, Bakhtin escrevia os rascunhos de um texto filosófico que mais tarde seria intitulado por seus editores de Para uma filosofia do ato. Selecionamos, principalmente, os eixos temáticos: (i) da crítica ao pensamento teórico que se desvincula do mundo da eventicidade (mundo dos atos responsáveis onde não há álibi no ser), (ii) do componente axiológico e emotivo-volitivo próprio a qualquer ato concreto, e (iii) da correlação do eu e do outro, produtora de sentido e instauradora de sujeitos, visto que tais eixos temáticos se encontram esboçados neste texto filosófico de Bakhtin e correspondem ao alicerce de vários conceitos posteriormente desenvolvidos pelo Círculo, muitos dos quais serão acionados nas nossas análises das inscrições em latim consideradas em sua inserção na vida (ética) de sujeitos reais.
Comecemos destacando que, conforme Sobral (2009a, p. 118), “a articulação entre o repetível e o irrepetível, a atividade em geral e os atos específicos dessa atividade, presentes na concepção do ato, percorrem toda a obra do Círculo – do dialogismo ao gênero”.
Na época em que Bakhtin escreveu Para uma filosofia do ato, ele era ainda muito ligado a Kant (em termos de pensamento), porém com pretensões de destranscendentalizá-lo produzindo uma filosofia que desse conta também de entender um “conteúdo-sentido”, que é
“eterno em sua validade de sentido, mas não na realidade e no real vivido” (BAKHTIN, 2010a, p. 120), incorporado ao ato concreto no ser-como-evento, este que é único, singular e irrepetível.
Segundo Faraco (2009b, p. 99), “Bakhtin destinou parte de seu manuscrito „Para uma filosofia do ato‟ para pensar filosoficamente a questão do agir humano no grande mundo da vida e de criticar uma cognição (uma ciência) afastada dele”. E este é mesmo um dos pontos centrais abordados em Para uma filosofia do ato, posto que para Bakhtin (2010a, p. 42):
A característica que é comum ao pensamento teórico discursivo (nas ciências naturais e na filosofia), à representação-descrição histórica e à percepção estética e que é particularmente importante para a nossa análise, é esta: todas essas atividades estabelecem uma separação de princípio entre o conteúdo- sentido de um determinado ato-atividade e a realidade histórica do seu existir, sua vivência realmente irrepetível.
Separação que o pensador russo caracteriza de perniciosa, considerando que, na realidade, todo ato responsável da vida (até mesmo o meu pensamento) condensa em si “seu conteúdo-sentido” e “a historicidade concreta de sua realização” (BAKHTIN, 2010a, p. 44).
Tezza (2003, p. 184) resume com propriedade essa questão da seguinte forma:
A questão filosófica central discutida nesta obra (aqui didaticamente sintetizada em apenas um ponto) é o problema da cisão entre o sentido (significado) de um ato e a sua realidade histórica única (que Bakhtin chamará, na tradição filosófica alemã, “ser-evento”), promovida pela abstração do pensamento teórico-discursivo. Para Bakhtin, essa cisão só pode ser superada se o sentido está em comunhão com o ser-evento, isto é, se o sentido se torna um momento constitutivo dele.
Esse raciocínio já se prenunciava desde 1919, em Arte e responsabilidade (BAKHTIN, 2011a), e estava na base da pretensão bakhtiniana de superar um objetivismo, um imanentismo ou teoricismo reinante na filosofia, nas artes e nas ciências (objetivismo mais propenso a trabalhar o plano das ideias e a considerar bons os aspectos abstratos, gerais e universais em vez dos aspectos reais e histórico-individuais, considerados ruins, como objeto de estudo) e trazer à discussão filosófica também tudo aquilo que, por ser inconcluso, irrepetível e eventivo, quase nunca era considerado próprio às postulações sérias, tais como um ato concreto, que incorpora uma ideia ou conceito (um conteúdo-sentido) em um tempo e espaço singular e irrepetível. Bakhtin reforça tal raciocínio tratando do binômio istina (a verdade universal, teórica, abstrata) vs. pravda (a verdade situacional, singular, viva) e cujos
ecos podem ser percebidos também em significação vs. tema, oração vs. enunciado, artefato e objeto estético, entre outras distinções desenvolvidas mais tarde pelo Círculo.
No fragmentado Para uma filosofia do ato, Bakhtin não pretendia elaborar uma prima philosophia como mais uma filosofia que trabalhasse apenas segundo as suas próprias fronteiras do conhecimento teórico-abstrato, “característica específica da época moderna, dos séculos XIX e XX em especial” (BAKHTIN, 2010a, p. 50); pelo contrário, ele pretendia uma prima philosophia orientada sobre o ser-evento vivo, sobre o ato participativo e responsável, singular e historicamente localizado. Vemos essa posição defendida por Bakhtin (2010a, p. 79) com as seguintes palavras:
Reconhecemos, então, como infundados e essencialmente sem esperança todas as tentativas de orientar uma filosofia primeira, a filosofia do existir- evento uno e único, em relação ao aspecto do conteúdo-sentido, de produto objetivado, fazendo abstração da ação-ato singular e do seu autor – aquele que pensa teoricamente, contempla esteticamente e age eticamente. Somente do interior do ato real, singular – único na sua responsabilidade – é possível uma aproximação também singular e única ao existir na sua realidade concreta; somente em relação a isso pode orientar-se uma filosofia primeira. É que vivemos, agimos e morremos realmente no mundo da práxis, na vida do ato e não no mundo teórico, este que “permanece igual e idêntico a si mesmo no próprio sentido e significado, exista eu ou não” (BAKHTIN, 2010a, p. 52); por isso Bakhtin defende que, no mundo da vida, no mundo dos atos éticos, não temos álibi no ser, porque
neste preciso ponto singular no qual agora me encontro, nenhuma outra pessoa jamais esteve no tempo singular e no espaço singular de um existir único. E é ao redor deste ponto singular que se dispõe todo o existir singular de modo singular e irrepetível. Tudo o que pode ser feito por mim não poderá nunca ser feito por ninguém mais, nunca. (BAKHTIN, 2010a, p. 96). Assim, em Para uma filosofia do ato, Bakhtin contrapõe ao teoricismo a teoria do ato ético e a uma prima philosophia ontológica, uma prima philosophia axiológica.
Para Bakhtin, é a responsabilidade do ato que une conteúdo-sentido à sua execução factual, histórica e individual, envoltos em um tom emotivo-volitivo. O ato aqui é tratado como o passar da possibilidade para a concretização, conforme vemos nestas palavras de Bakhtin (2010a, p. 80-81, grifo do autor):
Somente o ato responsável supera toda hipótese, porque ele é – de um jeito inevitável, irremediável e irrevogável – a realização de uma decisão; o ato é o resultado final, uma consumada conclusão definitiva; concentra,
correlaciona e resolve em um contexto único e singular e já final o sentido e o fato, o universal e o individual, o real e o ideal, porque tudo entra na composição de sua motivação responsável; o ato constitui o desabrochar da mera possibilidade na singularidade da escolha uma vez por todas.
Desde os primeiros esboços filosóficos de Bakhtin, entrevemos uma tendência, que se estende de modo geral a todo o Círculo, que é a valorização do contexto axiológico singular e real frente a um pensamento geral e autossuficiente:
O tom emotivo-volitivo interrompe o isolamento e a autossuficiência do conteúdo possível do pensamento, incorpora-o no existir-evento unitário e singular. Cada valor que apresente validade geral se torna realmente válido somente em um contexto singular. (BAKHTIN, 2010a, p. 90).
A concepção do ato como o passar da possibilidade para a concretização sempre carregado de tom emotivo-volitivo e do componente axiológico, sem dúvida nenhuma, permeia as concepções volochinovianas de entoação e de significação presentes em Discurso na vida e discurso na arte e também em Marxismo e filosofia da linguagem, bem como a distinção que faz Medvedev entreinstrumento de produção e objeto ideológico, em O método formal nos estudos literários.
Para Bakhtin (2010a, p. 99) ainda “é apenas o não-álibi no existir que transforma a possibilidade vazia em ato responsável real (através da referência emotivo-volitiva a mim como aquele que é ativo)”, de modo que “o princípio arquitetônico supremo do mundo real do ato é a contraposição concreta, arquitetonicamente válida, entre eu e outro” (BAKHTIN, 2010a, p. 142). Contraposição esta que já traz em si os bosquejos da noção de excedente de visão que posteriormente entraria para a tradição dos estudos bakhtinianos como exotopia, conceito altamente produtivo para a compreensão da constituição do sujeito na intersubjetividade e do qual trataremos mais adiante, em seção distinta, como um posicionamento heurístico do pesquisador das Ciências Humanas em relação a seu objeto de análise.
Como diz Amorim (2009, p. 35, grifo da autora), “o ato singular ou a realização da minha singularidade é também algo que completa o ser do outro. A não-coincidência com o outro, com o seu lugar, é também lugar produtor de sentido que, mais uma vez, se dá na articulação de diferenças”. Este fundamento é sobremaneira relevante dentro da teoria dialógica, pois destaca a necessária correlação entre o eu e o outro para a construção de sentido, que é sempre dialógica e responsiva, e para a instauração de sujeitos, que nunca têm
uma visão completa no eu-para-mim (autoconsciência) e que necessitam do olhar do outro- para-mim (juízo de valor externo ao eu) a fim de lhes dar acabamento.
Enfim, a filosofia do ato comunga com a concepção de linguagem do Círculo o fato de não se restringirem a um “mundo autônomo teórico, abstrato, alheio por princípio à historicidade viva singular” (BAKHTIN, 2010a, p. 50). Entendemos que o pensamento do Círculo de Bakhtin assenta-se sobre uma tentativa dialética de unir (nunca cindir): o abstrato e o concreto, o universal e o singular, o teórico e o histórico, o interior e o exterior, estes que correspondem às duas direções opostas para onde olha o Jano bifronte, tanto faz se este Jano for o ato ético, a verdade singular (pravda), o signo ideológico ou o enunciado concreto: eles incorporam em si constituintes duradouros e eventivos, estão sempre situados entre o eu e o outro, são atravessados por componentes axiológicos e possuem tons emotivo-volitivos.