ARAS MORKOÇ 17*
4. ENGELLİ BİREYLER, İSTİHDAM VE İŞSİZLİK
Segundo Fiorin (1990, p. 26) numa formação social, temos dois níveis de realidade: um de essência e um de aparência, ou seja, um profundo e um superficial, um não visível e um fenomênico. Vale acrescentar que numa formação social, existem tantas visões de mundo quantas forem as classes sociais .
Uma formação ideológica (IBID, p.32) deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social, isto é, um conjunto de representações, de ideias que revelam a
19“Fumer passivement n’est pas un choix”.
20“Le tabagisme des parents augmente les risques que leurs enfants soient atteints d’infection respiratoire et
compreensão que uma dada classe tem do mundo. Como não existem ideias fora dos quadros da linguagem, entendida no seu sentido amplo de instrumento de comunicação verbal ou não- verbal, essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem.
O lugar do sujeito no discurso é governado por regras anônimas que definem o que pode e deve ser dito. É nesse lugar que o discurso vai ter um dado efeito de sentido. Por isso que, para a AD, todo discurso é dominado por uma formação discursiva que é “o que pode e deve ser dito a partir de um lugar social e historicamente determinado” (BRANDÃO, 2004, p. 48). Consideramos básica a compreensão dessa categoria da AD, pois, através dela podemos compreender o processo de produção de sentidos e a sua relação com a ideologia.
Essa formação discursiva ensinada a cada um dos membros de uma sociedade ao longo do processo de aprendizagem linguística e assimilada pelo homem, reage linguisticamente aos acontecimentos e constrói seus discursos. Por isso, diz Fiorin (1990, p.32) “o discurso, mais do que lugar da reprodução, é da criação. Assim como uma formação ideológica impõe o que pensar, uma formação discursiva determina o que dizer”.
Não devemos esquecer-nos de que assim como a ideologia dominante pertence à classe dominante, o discurso dominante caracteriza também a classe dominante. Sobre este prisma, todo discurso ideológico decorre de certas condições sócio-históricas de produção do dizer, mas há certos tipos de discurso cuja conformação se revela “marcadamente ideológica”, a exemplo do discurso político, religioso, jurídico, entre outros. No discurso religioso, por exemplo, o cristão acredita que, depois da morte, existe a ressurreição, enquanto o espiritista acredita na reencarnação.
O discurso, por sua vez, também se apresenta determinado por coerções ideológicas. Ora, se a consciência se constitui a partir dos discursos assimilados por cada membro de um grupo social e se o homem se vê limitado por relações sociais, nele não há uma individualidade de espírito nem uma individualidade discursiva absoluta. O enunciador se revela o suporte da ideologia, vale dizer, de discursos, que constituem a matéria-prima com que elabora seu discurso. Seu dizer representa a reprodução inconsciente do dizer de seu grupo social. Ele não tem liberdade para falar, mas se vê coagido a dizer o que seu grupo diz.
Conforme Pêcheux (1988, p. 160):
as formações ideológicas [...] comportam necessariamente como um de seus componentes uma ou mais formações discursivas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, um sermão, um panfleto, uma exposição, um programa etc.) a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada.
A linguística imanente concebe as línguas naturais como estruturas abstratas formais, não pode dar conta da língua como um todo, pois não se apercebe do papel da ideologia e da subjetividade (fundamentais para a compreensão dos mecanismos de produção de sentidos) como constitutiva de seu objeto. Segundo Brandão (1998), é nessa distância, no interstício entre a coisa e sua representação sígnica que reside o ideológico para identificar os funcionamentos discursivos que promovem a ilusão do sentido único.
A materialidade discursiva é, ao mesmo tempo, linguística e ideológica. Linguística porque se realiza no plano da enunciação, e ideológica porque está sempre vinculada aos processos de representação entre o real e o imaginário discursivos (INDURSKY, 1997). Ao mesmo tempo em que o discurso representa efeitos da luta ideológica de classes dentro do funcionamento da língua, manifesta no interior do ideológico a existência da materialidade linguístico-discursiva.
Pêcheux coloca duas noções fundamentais e opositivas: a noção de base linguística (o próprio sistema linguístico, enquanto conjunto de estruturas morfo-sintáticas regido por leis internas) e a noção de processo discursivo-ideológico. Diz ele:
[...] o sistema da língua é, de fato, o mesmo para o materialista e para o idealista, para o revolucionário e para o reacionário, para aquele que dispõe do conhecimento dado e para aquele que não dispõe desse conhecimento; Entretanto, não se pode concluir, a partir disso, que esses diversos personagens tenham o mesmo discurso: a língua se apresenta, assim, como a base comum dos processos discursivos diferenciados, que estão compreendidos nela na medida em que, como mostramos mais acima, os processos ideológicos simulam os processos científicos (PÊCHEUX, 1988, p. 91).
Diante do exposto, compreendemos que a língua constitui a condição de possibilidade do discurso, enquanto os processos discursivos constituem a fonte de produção dos seus efeitos de sentido. A língua também se constitui o lugar material em que estes se realizam. E é a partir do trabalho teórico de Pêcheux e de outros postulantes da AD que ela passa a ser vista não apenas como conjunto de convenções formais das quais o sujeito se apropria para significar(-se), mas como condição de possibilidade de constituição de um discurso. A língua para a AD representa uma materialidade ao mesmo tempo linguística e histórica. Tal concepção resultará em uma radical mudança na maneira de pensar o sujeito enquanto instância “produtora de sentido”.
Desta forma, o sujeito não é um dado ou uma evidência, mas o resultado de um processo, tal como Althusser já havia afirmado. Refletindo sobre isso, apontando para a
materialidade da língua enquanto base e da história enquanto motor do processo de constituição do sujeito, Pêcheux traz à tona o apagamento do sujeito enquanto um efeito no próprio ato de sua formulação, o que possibilita que o indivíduo, investido da forma-sujeito, acredite ser a fonte primordial dos sentidos. De modo que, ao realizar tal desvelamento, Pêcheux abre caminho para que se possa derrubar essa premissa transcendentalista do sentido (vinculada a um neo-platonismo que acredita num “mundo real” e num “mundo das ideias”, sendo o sentido da ordem desse último, e tendo a língua um papel de mediação termo a termo entre os dois), permitindo que se investigue não apenas a materialidade dos sentidos, mas também a sua materialização (que se opera no âmbito discursivo). Pêcheux (1988, p. 160), ao dizer que:
[...] [é] a ideologia que fornece as evidências pelas quais ‘todo mundo sabe’ o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado ‘queiram dizer o que realmente dizem’ e que mascaram, assim, sob a ‘transparência da linguagem’, aquilo que chamaremos de
o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados.
Torna evidente que a própria ideologia possui uma materialidade específica que (distinta da materialidade linguística mas que, a partir do momento em que a língua e a história se cruzam e o sujeito daí emerge) torna-se identificável, não na superfície linguística, mas na superfície discursiva. Em outras palavras, a ideologia tem o papel de produzir evidências de que os sentidos desde sempre estão lá. De modo que ela vai naturalizar constructos ideológicos discursivos como verdades absolutas e socialmente legitimadas. E é justamente essa materialidade que nos permitirá identificar as afiliações do sujeito do discurso, permitindo desta forma a identificação das posições-sujeito ocupadas em uma determinada formação discursiva:
[...] Chamaremos, então, formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o que pode e o que deve ser dito (PÊCHEUX, 1988, p. 160), (grifo nosso).
Estas formações representam elementos constitutivos da AD e portanto presentes na interdiscursividade, tema que trataremos a seguir.