Alguns fenômenos sociolinguísticos podem ser explicados pela procedência geográfica do falante e o seu bairro de residência. Isso pode ser visto comumente nos estudos sobre comunidades do mundo hispânico que, durante os últimos 50 anos têm registrado fortes movimentos migratórios do campo às cidades. Embora esse seja um traço aparentemente irrelevante, a sociolinguística prova o contrário quando revela que a configuração de muitas falas urbanas contaram com a contribuição de falas rurais bem diversas (BORTONI, 1989).
No que se refere ao bairro, além de ser um fator ligado ao nível sócio-econômico dos indivíduos, também está relacionado com a sua procedência geográfica, pois é muito comum que a concentração de pessoas de uma mesma origem se concentre nas mesmas zonas de uma cidade: há bairros tradicionais que concentram pessoas da própria cidade, como também há os receptores de imigrantes. Isso se reflete na língua, pois no caso de imigrantes hispânicos, ao falar de procedência se faz automaticamente alusão a determinadas dimensões geográficas que, por sua vez, trazem consigo marcas linguísticas que lhe são peculiares.
Ao longo da história torna-se possível constatar deslocamentos que viabilizam a convivência de diferentes raças e etnias dentro de uma mesma comunidade. Embora pareça confuso diferenciar os conceitos de raça e etnia, o primeiro faz alusão a uma questão genética, perceptível pela cor da pele que, por sua vez, pode ter implicações linguísticas, sociais e culturais. Diferentemente, ao falarmos em etnia, estamos fazendo menção a um grupo humano que compartilha traços e valores culturais comuns e que apresenta características linguísticas que permitem sua identificação interna e externa. Assim, com intuito exemplificativo, podemos falar de raça quando tratamos da comunidade negra nos Estados Unidos e de etnia quando pensamos na população hispânica inserida neste mesmo país. Neste caso, vemos que os hispânicos comungam de uma mesma língua e crenças religiosas, além de outros valores culturais, mas podem pertencer a raças diferentes.
Na prática, essa diferença torna-se confusa se pensarmos no fato de que tende-se a associar a raça a um fator puramente biológico e a etnia a um fator de cunho social. Porém a raça também é resultado de uma elaboração social que acaba se confundindo com a etnia. Para exemplificar melhor, podemos citar o caso dos casamentos mistos, entre brancos e negros, nos Estados Unidos, que classificam o filho desta união, por mais branca que seja a sua pele, como pertencente à raça negra. Em contrapartida, no Brasil, dois irmãos podem ser classificados como pertencentes a raças diferentes se nascem com cores de pele diferentes. Logo, são classificados em uma categoria intermediária de mestiço (pardo) que envolve três tipos principais: mulato (mestiço de branco e negro); mameluco ou caboclo (mestiço de branco e índio) e cafuzo (mestiço de índio e negro) (KOTTAK, 1996, p. 81-89).
Em relação a este tema, faz-se necessário destacar alguns trabalhos de sociolinguistas que rejeitaram os pensamentos racistas e as crenças populares sobre a incapacidade de membros pertencentes a determinadas raças para aprender ou manejar a
língua de forma adequada e socialmente aceita (BAUGH, 1988). Para melhor exemplificar a relação entre língua e raça, destacamos os estudos realizados com dois grupos distintos: o da comunidade negra no Caribe hispânico em relação com o espanhol e o dos negros dos Estados Unidos em relação com o inglês. Para os dois casos, vale ressaltar que as diferenças linguísticas entre pessoas de diferentes raças dentro de uma mesma comunidade são reflexos da distância existente entre uns grupos e outros, assim como o grau de integração e convivência social em cada lugar.
Como bem se sabe, a presença negra no Caribe hispânico se deve à imigração forçada pela escravidão com o fim de conseguir mão de obra para o cultivo da cana de açúcar. No que se refere à atualidade sociolinguística da região em questão, a afirmação de López Morales ressalta:
El caso del Caribe hispánico donde, en igualdad de condiciones sociales, no se encuentran diferencias lingüísticas entre blancos y negros es una prueba palpable, entre otras muchas, de que la raza per se no condiciona al hablante al uso de determinada variedad. Tienen que estar presentes otros factores que son los verdaderamente determinantes: diferencia de nivel sociocultural, inmigrantes recientes, condiciones de substratum o diversa procedencia de las variedades manejadas (LÓPEZ MORALES, 2004, p. 136)34.
A fala da população negra nos Estados Unidos tem sido tema bastante recorrente nos estudos da língua inglesa falada, inclusive em trabalhos de Labov (1972). O inglês dos negros, conhecido como inglês negro vernacular ou inglês vernáculo afro- americano é uma variedade que caracteriza uma população significativa da raça negra nos Estados Unidos e que revela traços diferenciadores do inglês normativo. Essa variedade está associada principalmente aos grupos mais isolados da população negra, por razões de escolaridade, residência e profissão, bem como aos status mais humildes, considerando que nem todos os falantes do inglês afro-americano são negros e, embora sejam maioria, nem todos fazem uso desta variedade (RICKFORD, 1999).
No mundo hispânico convivem etnias diferentes quando há população de cultura indígena incorporada recentemente nas comunidades urbanas que decidem juntar-se à vida das grandes cidades.
Ao mudarmos de continente, podemos constatar o mesmo fato nas comunidades espanholas quando encontramos nos núcleos urbanos a convivência étnica de ciganos e
34 O caso do caribe hispânico onde, em igualdade de consições sociais, não se encontram diferenças linguísticas entre brancos e negros é uma prova palpável, entre outras muitas, de que a raça per se não condiciona o falante ao uso de determinada variedade. Têm que estar presentes outros fatores que são os verdadeiramente determinantes: diferença de nível sociocultural, novos imigrantes, condições de substratum ou diversa procedência das variedade manuseadas (LÓPEZ MORALES, 2004, p. 136).
não ciganos. Os ciganos formam um povo disseminado por todo o mundo, caracterizado por não pertencer a um território, que têm conservado durante séculos a sua estrutura social e seus próprios modos de expressão (MAIA, 1992; COURTHIADE, 1989). Geralmente eles se desenvolvem na língua do seu entorno, da sociedade na qual vivem e incorporam, em maior ou menor medida, elementos léxicos, fraseológicos e textuais recebidos da sua própria tradição.
A fala cigana da Espanha, conhecida como caló, desapareceu da prática cotidiana, restando apenas algumas vozes e gírias que salpicam o espanhol falado por ciganos. A variedade de suas falas depende da região na qual se instalaram e, consequentemente absorveram-na.
Considerando a relação entre classe social, nível de escolaridade e moradia, observaremos nesta tese se há conexão entre essas três variáveis no tocante a escolha da variação da língua utilizada pelos diferentes grupos que constituem cada uma destas variáveis. Ou seja, tentaremos revelar se pessoas de classe social e nível de escolaridade altos e consequente moradia de alto padrão usam formas da língua mais conservadoras, formais ou padrão do que aqueles falantes pertencentes a classe social e nível de instrução mais baixos, bem como moradia mais modesta.
Em relação ao nosso trabalho, destacaremos no próximo capítulo um estudo mais específico sobre os pronomes de segunda pessoa do singular da língua espanhola, a fim de entender o funcionamento da variedade linguística que ocorre com o objeto de estudo desta tese, ou seja, constatar a recorrência e os contextos em que o pronome vos aparece na fala da comunidade de Santa Cruz de La Sierra.
3 O PRONOME DE TRATAMENTO DE SEGUNDA PESSOA DO SINGULAR NA LÍNGUA ESPANHOLA
Espanha e América compartilham características de um espanhol que podemos nomeá-lo de español geral35, porém também apresentam uma vasta diversidade linguística que se explica pelo simples fato da vastidão do território ocupado pelos falantes desta língua.
Não é raro ouvirmos comentários proferidos pelos não iniciantes da língua, a respeito da diferença entre o espanhol da Espanha e do da América, tratando a variedade existente entre eles, muitas vezes, como línguas diferentes. Não obstante, faz-se necessário considerar que, apesar de o espanhol ser falado por vários países distribuídos em uma geografia que cruza oceanos e que se mescla com diferentes línguas primitivas correspondentes às diferentes regiões com as quais se encontraram, trata-se de uma língua única, com muitas marcas comuns.
O espanhol traz consigo um sistema alfabético único, uma estrutura morfossintática sem muitas variações, além de um léxico comum compartilhado entre os países hispânicos, permitindo a comunicação entre os falantes desta língua que, apesar das variações que lhe são peculiares, não comprometem a comunicação entre seus falantes.
Embora as variedades se encontrem nos âmbitos morfossintático (como o caso do voseo na América), fonético-fonológico e lexical, é válido ressaltar que a maior diversidade se encontra neste último. Porém, nesta pesquisa, o destaque será dado a um traço morfossintático, mais especificamente, o uso do vos na comunidade linguística de Santa Cruz de la Sierra.
Os hispânicos se empenham em transmitir a impressão de que são muito diferentes uns dos outros, mais do que na realidade o são. Isso pode dar lugar a duas posições extremas: a que defende a total igualdade da língua, talvez por querer demonstrar que não há hierarquização em relação ao melhor modelo (como de fato não há), e a segunda, que preza defender a pseudo-teoria de que todos os países hispânicos são muito diferentes. O ideal é compreender que até mesmo dentro dos dois blocos, Espanha e América, há variações linguísticas observáveis, mas que não chegam a comprometer a interação entre seus falantes.
35 O espanhol geral equivale à língua normativa que aproxima os falantes de uma mesma língua pela coincidência das regras que o regem.
Logo, embora reconhecendo a considerável unidade existente na língua espanhola, faz-se mister destacar a variação nos níveis da língua que revela as diferenças no falar, que, apesar de não alcançar todo um reino, nação, estado ou cidade, demonstram a heterogeneidade presente nesta língua.
No momento de buscar um protótipo da língua a ser utilizada no ensino do espanhol, podemos recorrer a dois parâmetros principais: o geográfico e o social. O primeiro nos leva a olhar a determinados lugares, enquanto que o segundo nos conduz a grupos sociolinguísticos concretos.
No ensino, costuma-se dirigir três possibilidades prototípicas: o modelo do espanhol de um só lugar; o modelo do espanhol de cada zona específica e o modelo dos usos pan-hispânicos. Alguns professores dão preferência ao modelo castelhano por acreditar que é o que ainda tem maior prestígio e por oferecer a vantagem de concordar com a norma acadêmica (mito já abolido, tendo em vista a participação efetiva da Associação de Academias de Língua Espanhola na definição das normas deste idioma). Também há aqueles que trabalham com um modelo concreto do espanhol americano.
Bello (1940), que tinha se posicionado pela autoridade castelhana para preservar a unidade da língua, chegou a afirmar:
No se crea que recomendando la conservación del castellano sea mi ánimo tachar de vicioso y espurio todo lo que es peculiar de los americanos (BELLO, 1940, p. 12)36.
Desde tal perspectiva, existe a possibilidade de tomar como modelo o espanhol da Espanha, o da região mais próxima ou aquele que se tem mais afinidade e relação.
O uso da língua culta neutraliza a fragmentação porque os usos cultos de muitas áreas hispânicas são provenientes do “protótipo castelhano”, inclusive com suas particularidades, ou seja, usar a língua culta significa aproximar-se à norma.
O modelo geral do espanhol se vê favorecido pelo alto grau de homogeneidade em todos os níveis linguísticos, mas isso não significa que se defenda a ideia de perder o que há de particular em cada região.
A língua espanhola é idioma oficial em vinte países, além da Comunidade de Porto Rico. Essa extensão territorial que envolve esta língua talvez seja o principal motivo da não coincidência linguística entre as fronteiras políticas dos países hispânicos. Quando se fala em não coincidência, não se está afirmando que as línguas
36 Não ache que recomendando a conservação do castelhano seja minha vontade tachar de vicioso e incorreto tudo o que é peculiar aos americanos (BELLO, 1940, p.12).
faladas nesses países diferem umas das outras, porém que apresentam variações que refletem a complexa história das nações americanas e da forte influência indígena que cada uma aportou no contato com o espanhol nos últimos 500 anos.
Também é importante lembrar que ainda hoje, encontram-se regiões da América hispânica onde se fala pouco ou nada do espanhol quando a língua oficial é este idioma. Este é o caso do Paraguai que tem o espanhol como língua oficial, mas tem mais habitantes falantes do guarani que do próprio espanhol. Também se encontram resquícios de regiões hispânicas onde o espanhol ainda não é a língua oficial. Para uma grande proporção de falantes hispânicos, o bilinguismo é a regra e não a exceção e suas consequências linguísticas devem aparecer em qualquer explicação geral do espanhol da América.