• Sonuç bulunamadı

O processo de vitaliciamento dos magistrados é das tarefas mais importantes e de maior responsabilidade da Corregedoria, a par de ser uma preocupação dos que administram qualquer Tribunal. No TRF/4ª Região há um setor específico na Corregedoria que cuida desse tema. A sistemática tradicionalmente utilizada resumia-se à análise das sentenças proferidas pelos vitaliciandos e por eles encaminhadas mensalmente à Corregedoria. Buscava-se, ainda, informações junto aos juízes que atuavam na Subseção Judiciária, bem assim, de membros do Ministério Público Federal e da Subseção da OAB. Passados dezoito meses, era constituída uma comissão, presidida pelo Corregedor e composta por mais dois Desembargadores, que analisava os processos de vitaliciamento e elaboravam um relatório conclusivo, que, posteriormente, era submetido à consideração dos membros do Tribunal, que homologava ou não. A história, que no TRF/4ª Região até a gestão 2003/2005 é de apenas treze anos, não registra nenhum precedente de magistrado submetido ao processo de vitaliciamento que tenha sido rejeitado. O estágio probatório praticamente restringia-se à análise do conhecimento técnico do vitaliciando, esquecendo-se que a erudição nem sempre é fator de confiabilidade.

Por esse motivo, esse procedimento mereceu críticas, porquanto muito limitado, restrito à análise de sentenças, esquecendo outras facetas do juiz, de evidente importância, tais como relacionamento do vitaliciando com os colegas, servidores, operadores do direito e comunidade em que atua; formação profissional, com ênfase à interdisciplinaridade; o papel como juiz-administrador; a vocação; a ética; a noção de responsabilidade institucional; e o espírito de serviço. Os novos magistrados, que superaram a barreira quase intransponível do concurso, às vezes esquecem-se de portar-se com humildade, com respeito, com caráter, com moderação, com ética e agir com bom senso e dignidade. Nalini afirma:

O ponto fulcral da verdadeira Reforma do Judiciário é inocular cada juiz de uma conduta ética irrepreensível. É isso o que exige dele a ainda vigente Lei Orgânica da Magistratura (LC 35/79, art. 35, VIII). É somente isso o que espera dele

a nacionalidade sedenta de justiça. O povo não precisa de erudição, mas de solução para problemas reais. Não quer tratados doutrinários nas decisões em que a sofisticação atua como óbice à compreensão. [...] E o primordial para o juiz é ser ético. É ser confiável. É ser alguém digno de confiança e de credibilidade. Merecedor do respeito da comunidade143.

Preocupada com essa questão, é que a Corregedoria do TRF/4ª Região, na gestão 2003/2005, iniciou um estudo na linha de alargar o âmbito da avaliação do vitaliciando, que redundou no estabelecimento de uma nova metodologia de acompanhamento do estágio probatório do magistrado federal em processo de vitaliciamento. Foi estabelecido o regramento específico, inserido no Provimento nº 2/05, onde se previu a orientação, o acompanhamento e a avaliação, com seus critérios, para o vitaliciamento. Criou-se a figura do juiz formador, com as atribuições de: (i) acompanhar a atuação do juiz vitaliciando durante o período de estágio probatório; (ii) orientar a atuação do juiz vitaliciando no que diz respeito à conduta profissional e atuação junto às partes, procuradores, servidores, público em geral e outros magistrados; (iii) avaliar a atuação do juiz vitaliciando, elaborando relatórios periódicos a serem encaminhados ao Corregedor-Geral, bem como o relatório contendo a avaliação final (art. 95). O juiz formador é designado pelo Corregedor-Geral, dentre magistrados experientes, e da designação é dada ciência ao vitaliciando (art. 96). Previu-se também os critérios de avaliação do desempenho do juiz em estágio probatório, tendo como foco suas aptidões, inclusive idoneidade moral e adaptação ao cargo e às funções (art. 97), a participação em atividades de aperfeiçoamento profissional promovidas ou sugeridas pelo Tribunal (art. 99, parágrado único). Estabeleceu-se (i) a obrigatoriedade da Corregedoria, em convênio com a Escola da Magistratura, de promover um ou mais encontros ou cursos com os vitaliciandos, propiciando-lhes trocas de experiências e projetando a orientação a ser seguida no exercício da magistratura (art. 102); (ii) a possibilidade do Corregedor-Geral determinar que o juiz vitaliciando seja submetido a avaliação psicológica ou psiquiátrica por junta especializada (art. 101); e (iii) relatórios periódicos do Juiz Auxiliar da Corregedoria, do Juiz Formador e do próprio Juiz Vitaliciando (art. 99).

Previu-se, por fim, a possibilidade de a Corregedoria-Geral editar regulamento disciplinando as rotinas a serem aplicadas durante o processo de vitaliciamento (art. 104), o que terminou por ser feito pela gestão que se seguiu, com a edição da Instrução Normativa nº 40. Nesse normativo, foi previsto que ao Juiz Formador compete: I - acompanhar a atuação do

143 NALINI, José Renato. A vocação transformadora de uma escola de juízes. Revista da Escola Nacional da Magistratura. Ano II – nº 4 – Brasília: Escola Nacional da Magistratura, 2007, p.32.

magistrado durante o processo de vitaliciamento; II – orientar a atuação do vitaliciando quanto à conduta profissional e ao relacionamento com outros magistrados, partes, procuradores, servidores, público em geral e imprensa; III – colaborar na avaliação do vitaliciando, mediante a elaboração de relatórios periódicos e do relatório da avaliação final, a serem encaminhados ao Corregedor-Geral; IV – facilitar a comunicação e contato com o vitaliciando, reunindo-se com este, ao menos, duas vezes por trimestre (art. 7º). Já o Juiz vitaliciando deve (i) participar ativamente do processo de vitaliciamento, solicitando orientações e acompanhamento, direta e imediatamente, ao Juiz Formador e, sempre que considerar necessário, à Corregedoria-Geral; (ii) encaminhar os relatórios semestrais e fornecer informações e esclarecimentos, sempre que solicitados pela Corregedoria-Geral ou pelo Juiz Formador (art. 9º). Previu-se, ainda, em colaboração com a Escola da Magistratura, que a Corregedoria promova encontros ou cursos dirigidos aos vitaliciandos, propiciando troca de experiências e orientações (art. 12) e encontros periódicos dos Juízes Formadores com a mesma finalidade (art. 13). De fundamental importância, para a avaliação do desempenho do magistrado em estágio probatório, são os relatórios encaminhados pelo Juiz Formador, porquanto, a par de informar sobre a atividade profissional e a aptidão para o cargo e às funções, pode conter informações sobre a conduta social do Juiz vitaliciando. Isso, aliás, foi enfatizado na Resolução nº 427, de 07 de abril de 2005, do Conselho da Justiça Federal, editada por sugestão do Forum dos Corregedores Gerais da Justiça Federal144. Nela expressamente está prevista solicitação de informações sobre a conduta funcional e social do Juiz vitaliciando à OAB, ao Ministério Público, a magistrados e a outros órgãos ou entidades que o Corregedor-Geral entender necessários, preservado o caráter sigiloso da informação (art. 8º).

A nova sistemática de vitaliciamento foi implementada no âmbito do TRF/4ª Região relativamente aos Juízes Federais Substitutos aprovados nos XI e XII Concursos Públicos e cujas posses ocorreram em 17.12.2004 e em 08.05.2006, respectivamente.

144 Órgão composto dos cinco Corregedores-Gerais da Justiça Federal, presidido pelo Ministro Coordenador da Justiça Federal.

4 ANÁLISE CRÍTICA –PESQUISA DE OPINIÃO

Passados mais de dois anos do final da gestão 2003/2005 da Corregedoria-Geral do TRF/4ª Região, foi feita uma pesquisa de opinião com juízes e diretores de Secretaria acerca da validade e eficácia de três iniciativas implementadas e que pareceram mais significativas: (i) da nova sistemática de vitaliciamento; (ii) dos critérios de correição; e (iii) da troca de experiências. Essa enquete ocorreu em dezembro de 2007 e consistiu em algumas perguntas formuladas e respondidas por e-mail. O resultado vai reproduzido.