III. BÖLÜM
3.3. KARŞILAŞMALAR: KÜLTÜRLERARASI İLETİŞİM
3.3.2. Kültürlerarası İletişim: Farklılığın Diyalojik İnşası
Em 18 de abril de 1938, Vargas editou o decreto-lei nº 383 (Figura 4). Este proibiu os estrangeiros de exercerem atividades de natureza política e de interferirem nos negócios públicos do país (art. 1). Também foi proibida qualquer organização de caráter político, mesmo que fosse para representar os interesses do país de origem (art. 2). No entanto, permitiram-se associações de caráter cultural, beneficente e assistencialista, sem auxílio estrangeiro e com reuniões autorizadas (art. 3). As escolas também estavam proibidas de receber recursos do estrangeiro (art. 4).202 A correspondência da Embaixada Alemã no Rio de Janeiro, após este decreto, com o AA aparentava tranqüilidade, pois, como já descrito, esperava-se, em função das detenções de partidários da NSDAP, que ocorresse uma ação do governo brasileiro contra o partido nazista.
Figura 4 - Decreto-lei nº 383
Fonte: LEX, Coletânea de Legislação e Jurisprudência. São Paulo: Lex, 1985. 202
Conforme Seitenfus (2003, p. 115), houve ações distintas entre as dirigidas para a comunidade de ascendência alemã e italiana.
Neste momento histórico, Ritter enviou, em 21 de abril, um telegrama e um relatório. No telegrama, afirmou que este decreto-lei foi contra todas as organizações estrangeiras, mas principalmente para atingir as ações da NSDAP. No entanto, ao final do mesmo, informou que estas ações não foram contra a Alemanha, mas sim contra a organização partidária. Concluiu que a lei foi uma ação seguindo a influência dos EUA.203 No relatório, Ritter reafirmou as informações do telegrama e acrescentou que provavelmente este decreto tenha sido assinado em função de várias posições contrárias à Alemanha, cita os interesses norte- americanos, também mencionados no telegrama, a posição da igreja católica e de organizações judaicas. Afirmou que as organizações do partido iriam se reorganizar para se enquadrarem na lei, mesmo depois do duro golpe. Esta reorganização seria debatida pelo representante do partido no Brasil com seu superior hierárquico, Bohle.204 Seitenfus (2003, p. 112), ao analisar o mesmo telegrama, não comentou a parte final, onde Ritter assegurou que as ações não eram contra a Alemanha. Novamente, este autor utilizou-se de parte do documento para fazer uma análise diplomática de Ritter.
Uma provável hipótese para a aparente tranqüilidade, neste momento, seria o pensamento de que a lei seria aplicada como já estava acontecendo nos estados sulinos. Neste sentido, talvez os estados com mais Reichsdeutsche e partidários da NSDAP não fossem atingidos. Outra tese possível é que o discurso de Ritter teve de endurecer em função da interferência direta do representante do partido, von Cossel.
Dentro do AA foi escrito um relatório sobre a situação brasileira, tendo por base o telegrama de 21 de abril, citado anteriormente. Este documento abordou quatro questões: escola, língua, organização e economia. Sobre as questões referentes à escola e à língua, o autor observou que o embaixador Ritter já havia solicitado que se adaptassem às exigências brasileiras. Sobre a proibição do partido, descreveu sucintamente e informou que Ritter protestou junto aos ministros brasileiros. As relações econômicas eram vistas com muita expectativa, principalmente após o contrato de compra das armas Krupp, assunto abordado no
203
Telegrama de 21 de abril de 1938, nº 47, arquivado dentro do Politische Abteilung IX, na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–
104939 do PAAA.
204
Relatório B5 de 21 de abril de 1938, arquivado dentro do Politische Abteilung IX na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–
decorrer deste capítulo.205 Este documento demonstra que o complicador era a proibição do partido e o elo de aproximação diplomática era a compra das armas.
Em 24 de abril de 1938, num telegrama, Ritter informou que Osvaldo Aranha havia mencionado que o partido nazista seria proibido em todo o continente.206 Este telegrama foi enviado a 16 departamentos dentro do AA. 207 Este fato demonstra a preocupação que esta notícia causou, pois, neste momento, o AA poderia enfrentar complicações em outros países. Pommerin (1977, p. 41) relata que, desde a nomeação de Bohle para integrar o Auswärtiges Amt, em 30 de janeiro de 1938, houve uma campanha na imprensa latino-americana contra o AO e o Deutschtum. Sendo assim, o clima para a continuidade do partido nazista, desde janeiro de 1938, estava sendo questionado, além de haver o medo de que ações similares a executada pelo governo brasileiro poderiam ser enfrentadas em outros países.
Ritter enviou um relatório, em 28 de abril de 1938, explicando a situação vivenciada. Mais uma vez reafirmou que a lei de 18 de abril proibiu todas as organizações partidárias estrangeiras no Brasil, demonstrando claramente que não se tratava de uma posição criada contra a Alemanha. Em nenhum momento, questionou as ações ocorridas contra os descendentes de imigrantes alemães, apenas descreveu a necessidade brasileira de criar uma cultura única. Para ele, um dos problemas era o fato de que as células partidárias, em alguns casos, não diferenciaram entre cidadãos alemães e descendentes de imigrantes. Observou que o fascio, partido italiano, teve ações executadas e dirigidas aos e pelos cidadãos italianos, separando bem os descendentes de imigrantes italianos, fato que possibilitou menos visibilidade nas ações efetuadas por este partido. Para Ritter, desde 1937, estava ocorrendo uma ofensiva dos EUA no sentido de anular a influência alemã no Brasil, para isto, foram feitas ações pontuais na imprensa. Um exemplo é a reportagem intitulada “Infiltração Nazista”, de 3 de setembro de 1937, publicada primeiramente no London Times e depois em jornais brasileiros. Com a criação do Estado Novo, para o diplomata alemão os temores dos estadunidenses aumentaram, e por isto estava havendo uma campanha com o intuito de tentar democratizar o Brasil e barrar a influência dos países com regimes autoritários. Como Vargas desejava ficar no poder, entendia-se que era necessário ceder a algumas exigências da política 205
Documentos intitulados Aufzeichnung (Registro), datados de 23 de abril de 1938 e assinados por Pistor, arquivados dentro do Politische Abteilung IX na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–104939 do PAAA.
206
Conforme Pommerin (1977, p. 74) em junho de 1939 já havia sido proibido o NSDAP na Argentina e na Guatemala (decreto de 26 de maio de 1939).
207
Telegrama de 24 de abril de 1938, nº 50, arquivado no Büro des Chefs der Auslandsorganisation, com o código de arquivamento: R–27196 do PAAA. Seitenfus (2003, p. 112 e 113) citou um documento de 23 de abril de 1938; no entanto, não foi encontrado o documento citado por este autor.
externa dos EUA. Sob influência dos EUA, também surgiram ações contra a NSDAP e o Deutschtum, principalmente nos três estados sulinos, que acabaram transformando-se no decreto de 18 de abril. O tema da influência dos EUA foi abordado em cinco páginas. Ao concluir o texto, Ritter afirmou que talvez nem sempre a política externa brasileira seguisse os desejos de Washington e que ainda poderia haver mudanças.208 A impressão que este relatório proporciona é que, para o Embaixador Alemão no Rio de Janeiro, Vargas estava desencadeando estas ações não por vontade própria, mas sim para agradar os sob os Estados Unidos e assim se manter no poder.
O contexto da política interna brasileira e suas conseqüências para a atuação de Ritter exigiram que a Embaixada Alemã no Rio de Janeiro elaborasse relatórios com mais freqüência. Neste momento, a situação tornava-se mais crítica, tanto que em 28 de abril de 1938, Ritter, num relatório de 14 páginas209 ao AA, afirmou que uma das conseqüências da proibição do partido nazista já estava ocorrendo, isto é, os numerosos pedidos de repatriamento.210 Também assegurou que estava se intensificando a solidariedade sul- americana, e, caso fosse tomada qualquer medida contra o Brasil, os países vizinhos iriam apoiá-lo. Considerou que havia apenas uma saída para a questão, seguir as leis brasileiras, pois Aranha havia garantido que o país não tinha nada contra as idéias nacional-socialistas, mas não poderiam admitir uma organização partidária no país. Tanto que, conforme Ritter, Aranha havia admitido que se criassem cônsules honorários para fazer o trabalho de divulgação dos ideais nacional-socialistas. O decreto de 18 de abril possibilitava a reorganização do partido em entidades culturais. No entanto, Ritter fez duas avaliações da situação: primeira, que esta decisão estaria sob influência externa e que neste caso em 6 meses haveria mudanças rápidas nas relações entre ambos os países; segunda, no Brasil estava sendo concebido outro método de governo não conhecido na Europa, pois o país estava negociando com países de regimes políticos diversos. Ritter afirmou que o Brasil desejava negociar com a Alemanha e com os EUA, e se a Alemanha achasse que esta atitude política do Brasil era 208
Relatório B5 (continuação) Pol IX 666 e 667, a carta de apresentação deste relatório é de 26 de abril, mas o relatório traz a data de 28 de abril de 1938, arquivado dentro do Politische Abteilung IX, na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–
104939 do PAAA.
209
O relatório estava dividido em texto principal (4 páginas), relato da conferência com o ministro da justiça (3 páginas) e relato da conferência com ministro do exterior (7 páginas).
210
Ao analisar a documentação sobre Rückwanderung (repatriação) confirma-se a informação de Ritter pois a partir de 1938 iniciou-se o arquivamento dos pedidos de retorno à Alemanha. O volume de documentação é considerável, tanto que existem 15 pastas que compreendem os anos de 1938 a 1943. Do período anterior não existe nenhuma pasta, fato que no mínimo confirma a inexistência de pedidos ou inexpressiva que foram arquivados em pastas com uma temática geral, às quais não se teve acesso. Documentação existente dentro das pastas denominadas Rückwanderung, com o código de arquivamento: a partir de R-67371 do PAAA.
impossível, então, a negociação entre ambos deveria ser evitada. Por outro lado, observou que uma política de tensão contra o Brasil não surtiria efeito, pois o mesmo não seria possível fazer nos demais países sul-americanos. Também advertiu que se, por acaso, a Alemanha optasse por tomar as mesmas medidas adotadas pelo Brasil contra cidadãos brasileiros residentes naquele país, poderia haver o corte das relações comerciais, e isto não seria conveniente para a Alemanha. Considerou que o contexto brasileiro precisava ser discutido e que as possibilidades estavam sendo analisadas entre o embaixador e o representante do partido no Brasil, além de acreditar que um embaixador que vivencia este conflito precisa saber escutar. Na Alemanha restariam duas atitudes a serem tomadas: que a imprensa alemã fizesse uma campanha mais ofensiva contra o Brasil e que o Embaixador Brasileiro em Berlim fosse tratado com frieza. Neste mesmo documento, reafirmou que o partido seria proibido em todo o continente, questionando quando isto poderia ter sido acertado entre as nações americanas.211 Percebe-se também que Ritter não estava conseguindo exercer plenamente suas funções de diplomata alemão no Brasil, isto é, defender os cidadãos alemães. Tanto que tentou sugerir ao AA que tomasse atitudes para reforçar sua posição.
Uma nova audiência entre Vargas e Ritter ocorreu em 4 de maio. De acordo com o embaixador alemão, discutiu-se a proibição da NSDAP. Ritter não aceitou a proibição do mesmo, mas Vargas reafirmou a necessidade desta lei, e que a mesma apenas proibia as atividades do partido. Ao final da conversa, Ritter afirmou a Vargas que não seria possível nenhum acordo sobre a execução desta lei, se ela continuasse com a redação atual. Ao concluir a correspondência informando sobre a audiência, Ritter afirmou que tanto Vargas quanto seus ministros (do Exterior e do Interior) tinham um entendimento único sobre a necessidade da proibição das atividades do parido nazista.212 Já, conforme os registros de Vargas, a audiência foi cordial e foi um momento em que manteve firme seu ponto de vista (VARGAS, 1995, p. 125).
Todas as leis decretadas no Brasil que, de alguma forma atingiriam os cidadãos alemães ou as relações diplomáticas, foram enviadas ao AA, tanto cópias em português quanto a sua devida versão para o alemão. Para a organização deste material, pelos diplomatas
211
Relatório B5 (continuação) Pol IX 667, enviado em 28 de abril de 1938, arquivado dentro do Politische Abteilung IX, na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–104939 do PAAA.
212
Relatório B5 (continuação) Pol IX 761, enviado em 11 de maio de 1938, arquivado tanto dentro do Politische Abteilung IX, na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–104939 do PAAA, quanto dentro do Handelspolitische Abteilung IX, na pasta Handelsbeziehungen zu Deutschland (1936-1939), com o código de arquivamento: R-115207 do PAAA.
alemães da época, foi criada uma pasta específica sobre legislação brasileira dos anos de 1937 e 1938.213 Neste contexto, o Decreto-Lei 406 de 4/5/1938, que dispõe sobre a entrada de estrangeiros no território nacional, teve pouca repercussão dentro do AA.214
Ritter tentou de várias formas e em diversos momentos argumentar em favor da permissão do partido nazista. Dentre elas foi encaminhar uma carta em 10 de maio para Osvaldo Aranha. Nela expressou que o partido era a própria Alemanha, tanto que com a proibição do partido no Brasil se estava proibindo uma organização estatal da nação alemã. Também afirmou que este era um motivo para o esfriamento das relações entre os dois países. Esta carta tem 5 folhas, sendo que 3 de argumentação com o intuito de tentar impedir a proibição da NSDAP. Pelo fato de esta carta ser citada na historiografia, não me deterei em analisá-la detalhadamente. No entanto, é importante informar ao leitor que este foi o primeiro documento em que consta o termo Reichsdeutsche Kolonien in Brasilien (colônias215 de cidadãos alemães no Brasil), nota-se que Ritter estava se referindo ao grupo de imigrados, pois ele usa o termo Reichsdeutsche, conseqüentemente não estava se referindo às tradicionais áreas dos descendentes de imigrantes do sul do Brasil.216 Isto porque quando ele utilizou o termo “colônia alemã” estava se referindo aos recém imigrados, que na sua maioria, na década de 1930, localizavam-se em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Paraná, conforme a documentação pesquisada. Não estava se referindo às áreas dos descendentes de imigrantes, regiões normalmente definidas por parte da historiografia como sendo áreas de minorias étnicas, e que fariam parte da idéia da Grande Alemanha.
A resposta ao ofício de Ritter, de 10 de maio, foi enviada por Osvaldo Aranha em 17 de maio. O ministro brasileiro reafirmou a necessidade do decreto-lei nº 383 e do desejo “de continuar mantendo as melhores relações de amizade”, além de “renovar a Vossa Excelência
213
Temática Auswanderung (emigração) – Brasil, pasta Gesetzgebung (legislação) de 1937 a 1938, com o código de arquivamento: R-67120 do PAAA.
214
Este decreto, em síntese, reservou ao Governo Federal o direito de proibir a entrada de deficientes, indigentes, menores de 18 anos e maiores de 60, e pessoas de conduta duvidosa (art. 1), além de limitar a entrada de "indivíduos de determinadas raças ou origens, ouvido o Conselho de Imigração e Colonização" (art. 2). Isto é, pretendia-se determinar os indivíduos que eram considerados indesejáveis por causa da sua condição. Também previa medidas para barrar grupos raciais, sem deixar explícito qual ou quais os grupos seriam indesejáveis. Neste mesmo Decreto foi criado o Conselho de Imigração e Colonização (Cap. XV, art. 73 a 81), e também proibiu-se a formação de colônias homogêneas (art. 39). Também previu em que casos seriam expulsos os estrangeiros do território brasileiro (art. 61).
215
O termo colônia em português ou alemão pode ter sentidos bem diversos. Pois pode tanto definir um grupo de imigrantes que se estabeleceu em terras estranhas ou um estado/território posto sob a autoridade de outro, protetorado.
216
Versão em alemão da carta enviada por Ritter a Osvaldo Aranha em 10 de maio de 1938, arquivado dentro do Politische Abteilung IX, na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–104939 do PAAA.
[Ritter] os protestos da minha mais alta consideração”. Ritter enviou para o AA tanto a versão em português como a em alemão deste documento. Além de perguntar o que deveria responder a Osvaldo Aranha.217
Dentro do AA, na pasta do AO, existem cartas sem data e sem assinatura. Em função dos minuciosos detalhes existentes nas correspondências arquivadas sobre esse período, surge a hipótese de que estes documentos foram produzidos de forma secreta e através da espionagem, sendo telegrafados do Brasil para a Alemanha.218 Por não ser possível identificar datas e remetentes, esta documentação não foi analisada.
O cenário, até início de maio de 1938, temos Ritter que estava intervindo em questões que lhe diziam respeito no desempenho de suas funções como diplomata. Isto é, intervinha junto ao governo brasileiro em prol dos interesses dos cidadãos alemães com residência no Brasil. Não foi encontrado nenhum documento que demonstrasse que a Campanha de Nacionalização, efetivada nas comunidades de descendentes de imigrantes, fosse um entrave incontornável nas relações diplomáticas entre Alemanha e Brasil. Uma das questões da Campanha de Nacionalização que efetivamente atingia os Reichsdeutsche era a questão da educação, pois para a Alemanha era fundamental que seus cidadãos preservassem o seu idioma. Os questionamentos de Ritter sobre as escolas aconteciam, especificamente, quando envolviam educandos com cidadania alemã. Este fato se confirma, pois, em abril, havia sido definido que as escolas alemãs no Brasil deveriam seguir as normas brasileiras.
Realizada esta análise, é importante ter o cuidado ao afirmar que a Campanha de Nacionalização foi um dos fatos desencadeadores dos conflitos diplomáticos entre Alemanha e Brasil durante o ano de 1938, discurso muito comum na historiografia brasileira. Isto porque esta afirmação não é de todo verdadeira, pois as divergências diplomáticas foram causadas pelas ações que atingiram a liberdade dos cidadãos alemães (Reichsdeutsche). No entanto, percebe-se, pela correspondência de Ritter com seus superiores hierárquicos, que havia um desconforto em relação às ações nacionalistas de Vargas, tanto que o embaixador alemão tentou junto ao AA, em janeiro de 1938, que a imprensa alemã noticiasse a Campanha de Nacionalização, com o intuito de ter o argumento de que a opinião pública daquele país não estava satisfeita com o fim do Deutschtum no Brasil. Contudo, na documentação pesquisada 217
Cópia do ofício de 17 de maio de 1938, tendo como numeração brasileira NP/58/500.1, que foi enviada no relatório B5 (continuação) Pol IX 822, de 19 de maio de 1938, arquivada dentro do Politische Abteilung IX, na pasta Brasilien - Politische Beziehungen Brasilien zu Deutschland (6.1936 a 5.1938, Band 1), com o código de arquivamento: R–104939 do PAAA.
218
Por exemplo: nº 53, s/d, arquivado no Büro des Chefs der Auslandsorganisation, com o código de arquivamento: R–27196 do PAAA.
não se encontra resposta a esse pedido, provavelmente porque essa idéia não foi executada. Conseqüentemente Ritter silencia sobre as ações efetuadas aos descendentes de imigrantes alemães. René Gertz (1996) e Harms-Baltzer (1970) argumentam que a presença de descendentes de imigrantes alemães constituiu antes um problema do que uma solução no aprofundamento das relações entre Brasil e Alemanha de 1933 a 1942. Entretanto, salienta-se que, referente às preocupações diplomáticas alemãs sobre a Campanha de Nacionalização, estes indivíduos não constituíram nem sequer um problema ou uma solução, pois Ritter tinha consciência de que ele não poderia intervir junto ao governo de Vargas nas ações efetuadas em relação aos cidadãos brasileiros com ascendência alemã. Ou seja, nesse período, a Campanha de Nacionalização foi mais uma discussão restrita à embaixada e ao AA, não extravasando esse espaço e sem repercussão fora dele, como na imprensa alemã.