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liberdade e autonomia. “[...] uma das primordiais tarefas da pedagogia crítica radical libertadora [...] é trabalhar a legitimidade do sonho ético-político da superação da realidade injusta” (FREIRE, 2000, p.43).

2.1. Prática Social - Uso de Crack em Espaço Público

Neste capítulo, trago a reflexão sobre a prática social da pesquisa. Parte-se da compreensão do educar-se como uma construção em relações intersubjetivas do indivíduo, tendo-se como objeto de estudo os processos educativos que se dão na prática social do uso do crack em espaço público.

Os indivíduos que fazem uso de crack são estereotipados e criminalizados na nossa sociedade e essa prática social, quando realizada em espaços públicos, se mistura com a convivência e diversas experiências, além do uso da substância, como moradia, relações afetivas, de amizade, de tensão, de repressão. No cotidiano dessas pessoas, a vida acontece sem delimitação do que é público e privado e a discussão da casa e da rua é necessária para embasar esse debate.

DaMatta (1991, p.17) faz a discussão social sobre a casa e a rua, para um melhor entendimento da sociedade brasileira globalizada22, neste caso ocidental, em que ambas se

relacionam mutuamente, através de “categorias sociológicas” que estão além do espaço físico, e são também de ordem moral, de “[...] esferas de ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas”.

Este mesmo autor, através dos estudos históricos sobre a casa, desde a sociedade feudal, a compara com um grande palco, como um local privilegiado das famílias com atores/as que representam papéis de controladores. Ao longo do tempo, o conceito de casa passou a ser o de lugar de estabelecer hierarquias, regras, da individualidade, da intimidade,

22“[…] entidade que se faz e refaz por meio de um sistema complexo de relações sociais, elos que se impõem

aos seus membros, indicando – tal como acontece numa peça de teatro ou num cerimonial – tudo aquilo que é estritamente necessário e tudo o que é indispensável ou superficial para que se possa criar e sustentar o evento que se deseja construir [...]” (DaMATTA, 1991, p. 15).

de expor opiniões, de “supercidadãos”, ou seja, do ser. Já a rua, comparada com a casa, foi dada a conotação negativa, sendo o lugar do anonimato, da perversão, de todos ao mesmo tempo de ninguém, do proibido, do profano, da solidão, de rupturas, do perigo, da subversão, do coletivo, da faltade paz, do desumano, do desrespeito, da desordem, problema do governo, de “subcidadãos”, do não ser (DaMATTA, 1991).

Dussel (1977) através do pensamento latinoamericano, define o ser como totalidade de sentido, opressor, controlador e dominador do oprimido, cultural e sinônimo de liberdade, já o não ser como exterioridade, oprimido, controlado e dominado pelo opressor, nada, sem- sentido, pobre, bárbaro, analfabeto, incultural e sem liberdade. A reflexão desse autor tem afinidade com DaMatta (1991) sobre o ser e não ser.

Enquanto outro incondicionado, exterior, o outro como outro consiste num não-ser. Além do horizonte do ser, o outro é o bárbaro (que não é homem para Aristóteles), ou a mulher na sociedade machista (que é castrada para Freud), ou o órfão que nada é e deve aprender tudo (como o Emílio de Rousseau). Visto que não é, enquanto alteridade da totalidade, pode-se também dizer que é nada (DUSSEL, 1977, p.51).

Na reflexão sobre a libertação da América Latina e consequentemente da nossa sociedade que está dividida entre o ser e o não ser, o autor propõe que essa ação seja realizada com o oprimido, através de sua consciência crítica e da práxis (DUSSEL, 1977, p.182):

[...] Pensar tudo à luz da palavra interpelante do povo, do pobre, da mulher castrada, da criança e da juventude culturalmente dominada, do ancião descartado por uma sociedade de consumo, com responsabilidade infinita e diante do Infinito, isto é filosofia da libertação. A filosofia da libertação deveria ser a expressão máxima da consciência crítica possível.

Na construção da sociedade brasileira, a casa é considerada o lugar da harmonia, do amor e a rua, da desarmonia, das disputas, de desafeto. Neste sentido, ambas são distintas, não possibilitando a comparação, “[…] a não ser quando recriamos no espaço público o mesmo ambiente caseiro e familiar [...]” (DaMATTA, 1991, p.23).

Segundo Ferreira (2001), principalmente para as pessoas que vivem em situação de rua, nela se busca, na tentativa de satisfazer o imaginário, o prazer, a liberdade, os encontros, a procura pelo que falta em casa. Já a casa, como coloca a autora, é o espaço de aconchego, do certo, da intimidade, da construção dos valores e da moral, é onde habita a família.

A rua foi instituída, culturalmente pela sociedade, como o espaço dos excluídos e de ausências de direitos. “Assim, na rua são depositadas as perdas causadas pelas exclusões sucessivas e, no seu oco, a ausência ou precariedade dos dispositivos de proteção à vida, construídas pela cultura ao longo do tempo: a lei, a garantia de direitos e deveres, a ciência, a saúde, lazer, trabalho, arte... [...]” (FERREIRA, 2001, p.34).

A delimitação do que é rua e casa, construída historicamente, consequentemente o público e privado, foram considerados opostos, mesmo assim, não podemos analisá-las estáticas e sim ao contrário, pois a relação entre ambas é dinâmica, complexa e complementar. Nesse sentido, o autor destaca que existem pessoas, categoria social ou grupos que transformam alguns espaços da rua em espaços fechados e passam a viver neles, como em uma casa (DaMATTA, 1991).

Sobre a definição de espaço, as cidades brasileiras são organizadas espacialmente e moralmente de maneira hierarquizada, “entre centro e periferia, dentro e fora” (DaMATTA, 1991, p.36), tendo as periferias olhares negativos desta sociedade, lugar da contradição, do conflito, da pobreza, ficando escondidas. Fazendo uma analogia com a discussão sobre a filosofia da libertação, tem-se a América Latina como um dos países da periferia (não ser) e Estados Unidos da América e Europa como países do centro (ser). “[...] identidade do poder e da dominação, o centro, sobre as colônias de outras culturas, sobre os escravos de outras raças. O centro é; a periferia não é” (DUSSEL, 1977, p.12).

Para DaMatta (1991) além de centro e periferia, também há os espaços transitórios, que são locais criados por grupos específicos, com suas identidades sociais, para realizarem determinadas práticas. Permite assim, reportamos ao uso de crack em espaços públicos, conhecidos, como já citados, de Cracolândias, esta prática vem aumentado no Brasil, desde final da década de oitenta. Sendo, em sua maioria, ruas, terrenos, imóveis desocupados, praças e “localidades de residência ou trabalho da classe média (e não mais restritas às bocas de fumo, localizadas em comunidades empobrecidas)”. Estes também são denominados como “cenas abertas”, por alguns pesquisadores e na literatura antropológica e sociológica, devido à complexidade do contexto da população usuária de crack, assim como suas diferenças regionais e locais (BASTOS; BERTONI, 2014, p.18).

Estes espaços, além dos estigmas criados ao longo do tempo, foram criminalizados pela prática ilegal dessa droga, justificando algumas ações truculentas da polícia, em meio a diversas outras relações existentes. Frúgoli Junior e Cavalcanti (2013) trabalharam o conceito

de territorialidade itinerante nestes espaços. Devido à mobilidade e vulnerabilidade desses/as usuários/as, estes autores colocam o seguinte:

Partimos também da ideia de que tais territorialidades, embora proscritas, estigmatizadas e alvo de uma série de práticas disciplinares, não constituem propriamente um mundo isolado, mas envolvem uma série de relações, interações e conexões, nas quais os usuários de crack têm um papel proeminente, mas articulado a uma série de outros sujeitos, cujos arranjos dialogam com cada contexto particular e são marcados por variações situacionais. […] Trata-se também de compreender dinâmicas que produzem tanto “territorialidade” quanto “itinerância” [...] (FRÚGOLI JUNIOR; CAVALCANTI, 2013, p.4).

A criminalização do uso de crack não é o fator determinante da higienização do governo nesses espaços, está mais relacionado à especulação imobiliária, mercado, grandes eventos internacionais, como Copa do Mundo e Olimpíadas. Segundo Frúgoli Junior e Cavalcanti (2013, p.6) “[...] o Estado realiza investimentos em infraestrutura aliados a grandes esforços de ‘recuperação’ de regiões consideradas degradadas, perigosas ou fora de seu alcance, com o objetivo último de tornar essas regiões permeáveis, ou atraentes para as forças do mercado”.