Mallewigt, Decker e Eckhar (2012) argumentam que a performance de uma aliança não é afetada apenas pelo número de cláusulas incluídas nos contratos, mas também pelo conteúdo contratual que especifica as funções que devem servir o contrato. Ainda, ao refletir as expectativas futuras dos parceiros de uma aliança e a história entre estes, os contratos tendem a ser desenvolvidos com o tempo.
A completude e complexidade contratual estão relacionadas ao grau de detalhe do contrato. Sabendo que a completude contratual é dificilmente atingida, pode-se também diferenciar os contratos entre aqueles elaborados de maneira mais ou menos rígida, ou não considerar tão fortemente a completude, mas examinar o conteúdo contratual (MALLEWIGT; DECKER; ECKHARD, 2012).
Em se tratando de formas híbridas, Williamson (1991) destaca que estas são suportadas por contratos neoclássicos, em função deste tipo de contratos facilitarem a continuidade e promoverem uma eficiente adaptação entre as partes, sendo estes contratos mediados por um mecanismo para adaptação, e as partes mantêm sua autonomia.
De forma a corroborar, Cannon, Achrol e Gundlach (2000) destacam que os contratos neoclássicos habilitam as partes a responder às contingências não previstas, ao permitir que ajustes sejam feitos no decorrer da relação, garantindo a continuidade desta. Desta
maneira, diversos estudos abordam a composição contratual de formas híbridas, conforme revisão apresentada neste item.
Em se tratando de joint ventures internacionais, Luo (2002) destaca que os contratos cobrem termos de formação do arranjo, operações e gestão, cooperação entre parceiros, cláusulas de resolução de conflitos e término da relação. Glaister, Husan e Buckley (2003) enfatizam as estratégias de saída do negócio.
Tsamenyi, Qureshi e Yazdifar (2013) destacam que no estudo desenvolvido pelos autores, o primeiro contrato da joint venture tinha um prazo inicial de cinco anos e era composto por acordos de compartilhamento da produção e provisões sobre a participação acionária, havendo nos contratos flexibilidade para renegociação, sendo estes considerados incompletos em termos de especificidade e adaptação às contingências.
Os autores destacam ainda que, a partir do acordo de compartilhamento da produção eram definidas as facilitações da produção entre as empresas, a gestão da produção diária, a divisão de responsabilidade de investimentos e manutenção da planta de produção, pagamento de taxas entre as empresas, enquanto no acordo de participação acionária constava também a possibilidade de compras futuras de ações.
Cannon, Achrol e Gundlach (2000) pesquisam a extensão em que os acordos contratuais formalmente incorporam as expectativas e obrigações das partes numa relação de troca. Os autores utilizam o termo vínculos jurídicos (legal bonds) para se referir à extensão que acordos contratuais obrigatórios e detalhados são utilizados para especificar os papéis e obrigações das partes.
Os autores argumentam que, na extensão em que os contratos são caracterizados como detalhados e de caráter compulsório, os mesmos caracterizam-se por menor complexidade e, portanto, mais limitados nas propriedades de adaptação. Contratos muito detalhados também tendem a possuir menos cláusulas de salvaguardas gerais, que são mais eficazes em impedir comportamentos de interesses próprios sob circunstâncias de ambiguidade.
Poppo e Zenger (2002) destacam que quanto mais complexos os contratos, maiores são as especificações das obrigações e processos para resolução de disputas. Conforme os
autores, os contratos complexos devem detalhar as funções e responsabilidades que devem ser desempenhadas, especificar os procedimentos para monitoramento e penalidades para inconformidades, além de determinar os resultados a serem entregues por cada uma das partes.
Contratos customizados especificam contingências, processos adaptativos e controles, que tendem a mitigar o comportamento oportunista e, assim, suportar a governança relacional. Entretanto, contratos customizados não garantem a intenção de mutualidade, bilateralidade e continuidade quando os conflitos surgem. A governança relacional complementa os limites adaptativos dos contratos, favorecendo a continuidade da relação e dando confiança às partes com resultados mutuamente aceitos (POPPO; ZENGER, 2002).
Em se tratando dos riscos originados da incerteza, Canon, Achrol e Gundlach (2000) destacam que problemas de adaptação em função de contingências não previstas demandam contratos que contenham cláusulas e procedimentos que facilitem a negociação.
Contratos explícitos se referem a acordos formais que especificam e detalham as cláusulas de controle, de incentivo, de preço, de flexibilidade, e de finalização do contrato (BARTHÉLEMY; QUELIN, 2006).
Por não ser possível considerar todas as contingências, os riscos relacionais tendem a gerar contratos com cláusulas que apresentem regras e processos de resolução de desacordos (HAGEDOORN; HESEN, 2007).
Mouzas e Blois (2013) identificaram 17 tipos de cláusulas contratuais que vão além de especificação de volumes e preços de transações individuais. Segundo os autores, as cláusulas contratuais se referem a termos de pagamento, direitos de término, subcontratação, cláusulas de salvaguarda, renegociação, direitos de propriedade, produto/serviços a serem aplicados, requerimentos de notificação, responsabilidades, foro, fluxo de informação, eventos de causa maior, exclusividade, duração do acordo, arbitragem e mediação.
Estudos também apontam que a duração dos contratos é utilizada para medir a extensão em que as partes do contrato estão dispostas a se comprometerem previamente com os
termos futuros da relação, ao invés de recorrerem a negociações repetidas. Ainda, argumenta-se que quando investimentos específicos são mais importantes, as partes tenderão a utilizar termos de negociação futura, especificando contratos de longa duração (JOSKOW, 1988). De forma a corroborar, Weber, Mayer e Marcher (2011) destacam que a expectativa de maior duração da relação pode ocorrer contratualmente por meio de cláusulas de extensibilidade.
Reuer e Arino (2007) associam as provisões de confidencialidade, restrições sobre informações de propriedade, provisões de término, cláusulas de arbitragem e provisões para processo como sendo provisões associadas à função de enforcement dos contratos. Em se tratando de provisões de coordenação, os mesmos identificam aquelas referentes aos direitos de divulgação de informações relevantes, notificações de saída do acordo e direitos de procedimentos de auditoria.
Ryall e Sampson (2003) consideram três dimensões contratuais denominadas complexidade contratual, que se refere ao grau em que os recursos requeridos, os resultados esperados e divisão dos direitos de propriedade são especificados completamente; mecanismos de monitoramento, que são mais relevantes em contextos nos quais a completude contratual não é possível; e penalidades pelo não cumprimento da performance contratada.
Hagedoorn e Hesen (2007) observaram que, dependendo do tipo de parceria, cláusulas de adaptação, medidas de danos, provisões para garantia, mecanismos de resolução de conflitos, distribuição de direitos de propriedade e revisão de cláusulas, são incluídos nos contratos em diferentes extensões.
Por outro lado, Williamson (1991) argumenta que os contratos neoclássicos não são indefinidamente elásticos. Estruturas de governança menos contratuais devem ser mais úteis na presença de incerteza e acordos anteriores e expectativas tendem a não prover orientação sobre comportamento apropriado e as partes estão interessadas em construir e aumentar a confiança e normas cooperativas (MACAULAY, 1963; GRANOVETTER, 1985; UZZI, 1997; MALHOTRA, MURNIGHAN, 2002). No Quadro 1 são apresentados os principais termos de composição contratual observados na revisão da literatura.
Quadro 1 – Principais termos contratuais formais conforme literatura revisada
Conteúdo contratual formal Autores
Termos de formação do arranjo, operações e gestão, cooperação entre parceiros; cláusulas indicativas para a resolução de conflitos;
término da relação Luo, 2002
Duração do contrato; acordos de compartilhamento de produção;
provisões sobre participação acionária; termos para renegociação Tsamenyi; Qureshi; Yazdifar, 2013 Expectativas e obrigações das partes; cláusulas e procedimentos
para facilitação de negociação Achrol; Gundlach, 2000
Especificação de obrigações; processos de resolução de disputas; detalhamento das funções e responsabilidades a serem desempenhadas; procedimento de monitoramento; penalidades
para inconformidade; determinação de resultados a serem entregues; processos adaptativos e controle
Poppo; Zenger, 2002 Cláusulas de controle; cláusulas de incentivo; cláusulas de preço,
cláusulas de flexibilidade, cláusulas de finalização do contrato Barthélemy; Quelin, 2006 Cláusulas que apresentem regras e processos de resolução de
desacordos, cláusulas de adaptação, medidas de danos, garantia, mecanismos de resolução de conflitos, distribuição de direitos de
propriedade e revisão de cláusulas
Hagedoorn; Hesen, 2007 Especificação de volumes; preços de transações individuais;
termos de pagamento, direitos de término, cláusulas de subcontratação, de renegociação, direitos de propriedade, produto/serviços a serem aplicados no trabalho, requerimentos de notificação, responsabilidades, foro, fluxo de informação, eventos de causa maior, exclusividade, duração do acordo, arbitragem e
mediação
Mouzas; Blois, 2013
Duração contratual; termos de negociação futura Joskow, 1988
Cláusulas de extensibilidade Mayer; Marcher, 2011
Provisões de confidencialidade, restrições sobre informações de propriedade, provisões de término, cláusulas de arbitragem e provisões para execução processual, provisões de coordenação,
como direitos de divulgação de informações relevantes, notificações de saída do acordo, direitos de procedimentos de
auditoria
Reuer; Arino, 2007 Cláusulas sobre recursos requeridos e resultados esperados;
divisão dos direitos de propriedade; mecanismos de monitoramento; penalidades de não cumprimento da performance
contratada
Ryall; Sampson, 2003 Cláusulas relativas aos investimentos; plano do projeto; duração
da relação; objetivos e resultados da relação; promessa de sigilo; propriedade do produto e tecnologia; gestão dos projetos; propriedade do método; ajustes e término da relação; direitos de
patente; alocação de riscos; resolução de conflitos; acordos de licença
De Jong; Woolthuis, 2009 Fonte: Elaborado pela autora, a partir dos autores mencionados.
Desta maneira, argumenta-se que o controle formal, exercido por meio dos contratos formais, pode ser utilizado de forma conjunta ou alternativa aos contratos relacionais. No próximo item serão discutidas as funções contratuais, seguido da revisão a respeito.