ÜÇÜNCÜ BÖLÜM 3. GELENEKSEL HALK BİLGİSİ
3.4. Oyunlar ve Oyuncaklar
3.4.1. Yetişkinlere Mahsus Oyunlar
Como vimos, vai-se paulatinamente construindo uma nova figura feminina nas relações da chamada família burguesa, ancorada na valorização do espaço doméstico e na maternidade. A missão da mulher era garantir a solidez do ambiente familiar, através da educação dos filhos e da dedicação ao marido, o que a desobrigava de qualquer trabalho remunerado. Seu estatuto de base moral da sociedade, reforçado no imaginário social, se
9 Vianna, Antônio da Fonseca. Considerações higiênicas e médico-legais sobre o casamento relativamente à mulher. Tese, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1842, p.17.
traduzia em seu dever de se dedicar a constituir uma descendência saudável. Seu tempo era totalmente preenchido pelas absorventes tarefas domésticas.
Com a ascensão do capitalismo assiste-se ao crescimento urbano, e a industrialização do país amplia as possibilidades educacionais para homens e mulheres. Contudo, perduram ainda padrões bastante assimétricos entre os papéis masculinos e femininos, e o trabalho remunerado da mulher, ainda que cada vez mais comum, é cercado de preconceitos, ou tido como subsidiário ao trabalho do homem.
A educação passa a ter um papel preponderante na vida na cidade, tanto para homens como para mulheres. Isso porque o trabalho, considerado sinônimo de degradação na sociedade escravocrata (quem trabalhavam eram os escravos, denunciando sua desqualificação), passa a ser vinculado à idéia de ordem e progresso republicano, e a educação torna-se um requisito imprescindível para a construção da cidadania dos jovens. No que concerne à mulher, sua educação passa a ser justificada para além de qualquer anseio pessoal, sendo atrelada a sua função social de educadora dos filhos. A ênfase de sua instrução recai sobre a formação moral e a constituição do caráter dos filhos.
Nos centros urbanos, algumas ocupações vão sendo gradativamente preenchidas por mulheres, sobretudo o magistério, a enfermagem e a assistência social. Alguns historiadores (LOURO, 1997; BASSANEZI, 1997) atribuem esse movimento ao crescente processo de industrialização e urbanização, que ampliava a possibilidade de trabalho para homens, deixando vagas algumas ocupações.
Ainda assim, o trabalho remunerado para a mulher é considerado como algo transitório, uma ocupação que deveria ser abandonada quando esta fosse convocada para sua verdadeira missão, a de esposa e mãe. Além disso, podemos observar que as profissões que a mulher tem representam, de certa forma, uma extensão de seu destino natural de ser mãe, por requererem, para seu exercício, características tidas como tipicamente femininas: paciência,
afetividade e capacidade de doação para cuidar de alunos, doentes e desfavorecidos. A ocupação feminina se configura mais como um sacerdócio do que com uma profissão.
Se as atividades profissionais das mulheres representam um risco para as funções sociais para elas estabelecidas, a feminização de algumas ocupações mimetiza algumas de suas características, tais como o cuidado, a indulgência ou a afetividade. Vemos que as ocupações oferecidas às mulheres, de início, carregam a dupla inscrição do modelo religioso e do modelo materno.
Até aqui estamos falando de uma relação com o trabalho remunerado específica de um modelo de família: branca, burguesa, hierárquica. Um modelo totalmente voltado para promover valores das classes dominantes, concernentes à raça e aos papéis de cada sexo. Resta saber o que ocorre com as mulheres pobres.
O já mencionado processo de modernização e urbanização provoca enorme êxodo de trabalhadores, até então residentes nas fazendas, para os centros urbanos. Para esse segmento da população, morar na cidade acarretou a perda da roça como fonte de subsistência, e o concomitante aumento de gastos com a própria sobrevivência. Gastos como luz, água, impostos, gás, aluguel, passam a fazer parte do orçamento doméstico. Sabemos que tal aumento de gastos não foi, e não tem sido, acompanhado pelos salários.
Pesquisas históricas demonstram que, com a industrialização do país, mulheres e crianças somavam mais da metade do trabalho nas indústrias, além de ser alta a incidência de mulheres pobres que buscavam ocupação como empregadas domésticas (FONSECA, 1997; RAGO, 1997; GIULANI,1997).
Além disso, o modelo de família conjugal difundido pelas elites acaba por reforçar a estigmatização de famílias pobres, vistas como mais desorganizadas por não corresponderem ao modelo “normal”. A norma oficial, como vimos, definia o papel da mulher pautado na vida doméstica, enquanto aos homens cabia assegurar o sustento financeiro da família através de
sua atuação no espaço público. Isso, longe de retratar a realidade, revelava-se como um modelo calcado nos valores da elite, pois as mulheres pobres, nas cidades, sempre trabalharam fora de casa, e, muitas vezes, sua remuneração era o que garantia o sustento principal da casa, fato cada vez mais freqüente até os dias atuais.
As mulheres negras, mesmo após a abolição da escravatura, encontravam - e ainda hoje encontram - possibilidade de trabalho apenas nos setores mais desqualificados, recebendo salários baixíssimos. Às negras e mulatas, apesar da incipiente formação de um mercado livre de trabalho, restaram as ocupações de empregadas domésticas, cozinheiras, vendedoras de rua ou prostitutas.
Soma-se a esse quadro o fato de que o discurso oficial estabelecia que a virgindade da mulher era a garantia de sua honra e de sua pureza, condições imprescindíveis da “mãe cívica”. Em contrapartida, as relações sexuais dos homens com várias mulheres eram não apenas permitidas, como muitas vezes incentivadas. Como, então, os rapazes da elite poderiam saciar sua natural necessidade de satisfação sexual, senão com mulheres pobres, fora de seu “meio”? Uma situação que denuncia o quanto a valorização da pureza feminina servia, também, como um mecanismo que reforçava a desigualdade social.
É interessante notar como a lei contra o adultério, que punia apenas as mulheres, era justificada como uma realidade científica. Para Lombroso, um dos fundadores da Escola Positivista Italiana do Direito Penal, e cujo pensamento evolucionista influenciava significativamente as concepções criminalistas no final do século XIX e início do século XX, a mulher era menos inteligente que o homem. Algumas de suas concepções sobre a mulher soam chocantes aos nossos ouvidos hoje, mas eram estas que pautavam tanto comportamentos como leis e intervenções médicas. Por exemplo, no seu entender: “O amor da mulher pelo homem não é um sentimento de origem sexual, mas uma forma destes devotamentos que se
desenvolvem entre um ser inferior e um ser superior” 10. (LOMBROSO, CESARE, 1896 apud RAGO, MARGARETH, 1997, p. 592).
Sendo assim, para Lombroso, a mulher dotada de qualquer traço de genialidade é uma aberração, um ser que padece de uma confusão de caracteres sexuais secundários, algo como um “homem disfarçado”. Dentre as inúmeras razões que Lombroso invocava para advogar que o adultério é passível de punição apenas às mulheres, duas se salientam para o caso em questão. A primeira era que, estatisticamente, a incidência de casos de psicopatia feminina era muitíssimo mais baixa que entre homens; e a segunda, que a aptidão feminina para a abstinência sexual era uma condição que o homem não possuía. Dessa maneira, então, justificava que as leis contra o adultério deveriam se restringir às mulheres, uma vez que, como sua natureza não as predispunha para tais transgressões, sua ocorrência significava algo que deveria ser severamente punido.
Tal concepção reforçava o quanto o trabalho da mulher representava uma ameaça à sua honra. Além disso, a mulher ausente do lar tornaria os laços familiares mais frágeis, e acarretaria sérios danos para a raça, pois as crianças iriam crescer sem a constante vigilância da mãe. Paralelamente, nas fábricas eram delegadas às mulheres pobres as tarefas menos especializadas e de remuneração inferior. Seu trabalho obedecia à gramática do trabalho escravo: tais como eles, eram consideradas privadas de qualquer capacidade para desenvolver habilidades mais especializadas, e seu destino fatalmente seria a degeneração moral, sobretudo se, de alguma maneira, tentassem se insurgir. Vejamos um depoimento de uma trabalhadora, citado pela historiadora Margareth Rago (1997, p.584), em seu artigo Trabalho
Feminino e Sexualidade:
Mestre Cláudio fechava as moças no seu escritório para forçá-las à prática sexual. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. Chegava a aplicar punições de
dez a quinze dias pelas menores faltas, para forçar as moças a ceder a seus intentos. As moças que faziam parte do sindicato eram vistas como meretrizes, ou pior que isso: eram repugnantes.
Destituídas do amparo de qualquer legislação trabalhista, estas operárias encontram na imprensa socialista e anarquista, sobretudo no início do século XX, um canal de expressão para denúncias. A emancipação da mulher, para esses grupos, não possuía uma especificidade em si, mas sim vinha atrelada à idéia de uma revolução social mais ampla, uma revolução que se pautava na construção da igualdade como um todo. A emancipação feminina se relacionava, e seria uma conseqüência inevitável, da eliminação da desigualdade social. Patrícia Galvão (1933), em seu romance Parque Industrial, expressa esta concepção:
Tenho que te dar uma noticiazinha má. Como você me ensinou, para o materialista tudo está certo. Acabam de me despedir da fábrica, sem uma explicação, sem um motivo. Porque me recusei a ir ao quarto com o chefe. Como sinto, companheira, mais do que nunca a luta de classes! Quando o gerente me pôs na rua senti todo o alcance da minha definitiva proletarização, tantas vezes adiada (GALVÃO, P, p. 123).