Alguns conceitos importantes utilizados pela ANT, como simetria, translação, rizoma e de dispositivo, têm origem em outros autores (TONELLI, 2011). A simetria generalizada foi um princípio apropriado e ampliado de Bloor (2009), que parte do princípio de que os pontos de vistas conflitantes em uma controvérsia científica ou tecnológica devem ser explicados nos mesmos termos (CALLON, 1986). A translação foi um conceito extraído da filosofia da ciência de Michel Serres (TONELLI, 2011), que a considera como “uma operação generalizada, e não
meramente linguística”9
(CZARNIAWSKA, 2009, p. 424, tradução nossa), que pode envolver deslocamento. Consequentemente, o que está envolvido no processo de translação, sejam coisas, pessoas ou conhecimento, possui identidade incerta (CZARNIAWSKA, 2009). A noção de rizoma elaborada por Deleuze e Guattari (2000) também foi uma influência para a ANT, principalmente o princípio da multiplicidade que se aproxima do conceito de rede da ANT. Uma
multiplicidade para Deleuze e Guattari (2000, p. 15) “não tem nem sujeito nem objeto, mas
somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza
(as leis de combinação crescem então com a multiplicidade)”. A noção de dispositivo de poder ou
poder de Michel Foucault se aproxima da ANT em relação ao processo de translação (TURETA, 2011). O poder tratado pela ANT é tido como um conjunto de efeito e não como um conjunto de causas, fato que aproxima a teoria a Michel Foucault (LAW, 1992).
O social é um importante conceito redefinido pela ANT, que foi explicado por Latour (2005) no livro “Reassembling the social: an introduction to Actor-Network-Theory”, que em 2012, foi traduzido para o português com o título de “Reagregando o social: uma introdução à Teoria Ator-Rede” (LATOUR, 2012). O referido autor discute a possibilidade da ANT de utilizar
o conceito “social” não somente para coisas homogêneas, mas também para um rastro, trilha ou caminho de associações entre elementos heterogêneos (LATOUR, 2012). O termo social para essa teoria,
não designa um domínio da realidade ou um item especial; é antes o nome de um movimento, um deslocamento, uma transformação, uma translação, um registro. É uma associação entre entidades de modo algum reconhecíveis como sociais no sentido corriqueiro, exceto durante o curto instante em que se confundem (LATOUR, 2012, p. 99).
Nesse entendimento, Latour (2012, p. 100) conclui que o termo social, para a ANT, “é um
nome de um tipo de associação momentânea caracterizada pelo modo como se aglutina assumindo novas formas”. Assim, a associação é o segundo novo significado para o termo social.
O artigo “Some elements of a sociology of translation domestication of the scallops and the fishermen of St Brieux Bay”, de Michel Callon (1986) descreve uma abordagem para estudar o poder. Esse trabalho utiliza a perspectiva das causas para o declínio na população de vieiras em St. Brieuc Bay para apresentar importantes declarações sobre a ANT.
A ANT possui preocupação com o mecanismo de poder, sugerindo que as pessoas deveriam ser analisadas da mesma forma, independente de serem ricas ou pobres (LAW, 1992). Porém, o autor não nega o fato dos ricos serem poderosos. Ainda, para ele o poder tratado pela ANT é como um conjunto de efeito (escondido ou deturpado). Law (1992) relata que os efeitos de poder são criados de um modo relacional e distribuído. Acerca disso, a ANT possibilita a compreensão de ciência e tecnologia nessas relações de poder descrita (CALLON, 1986).
Em seu estudo, Callon (1986) tentou apresentar um esboço da ANT a partir dos princípios básicos de agnosticismo, simetria generalizada e livre associação. O agnosticismo é o primeiro princípio básico da ANT que prega a “imparcialidade entre os atores envolvidos na
controvérsia”10
(CALLON, 1986, p. 1, tradução nossa), sem privilégios e censuras na interpretação de um entendimento. Isso também requer que o pesquisador fixe a identidade dos atores envolvidos se a sua identidade ainda estiver sendo negociada (CALLON, 1986).
O segundo princípio básico é o da simetria generalizada, que possui “o compromisso de
explicar pontos de vista conflitantes nos mesmos termos”11
(CALLON, 1986, p. 1, tradução nossa), tendo esse conceito um importante papel na explicação da ciência e da tecnologia. Essa
10Tradução do autor para: “impartiality between actors engaged in controversy”.
controvérsia possui como ingredientes uma mistura de elementos oriundos da sociedade e da natureza.
O pesquisador, para descrever essa controvérsia deve utilizar um único e adequado repertório. Mas, esse princípio exige que uma regra seja respeitada, a de não mudar os registros quando se passa do aspecto técnico para o social do problema em estudo (CALLON, 1986). Para esse autor,
O objetivo não é somente para explicar os pontos de vista e argumentos conflitantes em uma controvérsia científica ou tecnológica, nos mesmos termos. Sabemos que os ingredientes de controvérsias são uma mistura de considerações relativas tanto à sociedade e a natureza. Por esta razão, exige que o observador possa utilizar um único repertório quando eles são descritos. O vocabulário escolhido para estas descrições e explicações pode ser deixado a critério do observador. [...] Mas, dado o princípio da simetria generalizada, a regra que devemos respeitar não é mudar registrados quando passamos do técnico para os aspectos sociais do problema em estudo (CALLON, 1986, p. 4, tradução nossa)12.
A simetria generalizada foi um termo derivado do conceito puro de simetria de David Bloor (2009). Esse autor foi o responsável pela criação do Programa Forte de Sociologia do Conhecimento (PFSC) que influenciou a ANT (TONELLI, 2011). Acredita-se que o fato que distingue a ANT de outras correntes seja a influência do conceito de simetria do PFSC (TONELLI, 2011; TONELLI, 2012). Ainda, Latour e Woolgar (1997, p. 23) argumentam que a
noção de simetria é “que nos dá coragem para analisar detalhadamente a produção do verdadeiro,
sem que nos percamos nas pequenas variantes, nos aspectos sociológicos dos pesquisadores que com eles acabam enganando-se”. Esse conceito representa a base moral do trabalho desenvolvido por Latour e Woolgar (1997).
Na visão do PFSC, a sociologia do conhecimento deveria aderir aos princípios da causalidade (preocupação com as condições que acarretem as crenças ou os estados de conhecimento), da imparcialidade (adotar postura imparcial no que diz respeito à verdade e falsidade, racionalidade ou irracionalidade, sucesso ou fracasso), da simetria (adotar postura simétrica ao explicar o mesmo tipo de causa) e da reflexividade (adotar padrões de explicação
12Tradução do autor para: “The goal is not only to explain conflicting viewpoints and arguments in a scientific or technological controversy in the same terms. We know that the ingredients of controversies are a mixture of considerations concerning both Society and Nature. For this reason we require the observer to use a single repertoire when they are described. The vocabulary chosen for these descriptions and explanations can be left to the discretion
of the observer. […] But given the principle of generalized symmetry, the rule which we must respect is not to
que seja aplicável à sociologia) (BLOOR, 2009). Esses quatros princípios definem o PFSC (BLOOR, 2009). Destaca-se que dois princípios do PFSC, a imparcialidade e a simetria, influenciaram epistemologicamente a ANT (TONELLI, 2011; 2012).
No PFSC, todas as explicações acerca do desenvolvimento científico devem ser simétricas (LATOUR; WOOLGAR, 1997). Embora esses autores afirmem que o trabalho de David Bloor exigia praticamente o abandono de toda filosofia da ciência, ou as explicações econômicas, sociais, psicológicas, ainda relatam que essas explicações só poderiam ser utilizadas “para explicar o porquê um cientista enganou-se, e então elas não teriam valor”, ou poderiam ser empregadas simetricamente, de modo a explicar o “por que esse cientista errou e por que aquele
acertou” (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p. 23).
A simetria generalizada utilizada por Latour e Woolgar (1997) representa a base moral do estudo etnográfico “A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos” de autoria de Latour e Woolgar (1997), realizado em um laboratório. Marques (2006) relata que o trabalho desses autores avança os limites ontológicos do conceito de simetria. A noção de simetria para eles não implica apenas o tratamento igualitário aos vencedores e vencidos da história das ciências, mas também tratar no mesmo plano ontológico, ou seja, tratar igual e nos mesmos termos, a natureza e a sociedade (LATOUR; WOOLGAR, 1997; TONELLI, 2011; 2012). Ressalta-se que o
“trabalho de campo [...] é, por conseguinte, duas vezes simétrico: aplica-se ao verdadeiro e ao
falso, esforça-se por reelaborar a construção da natureza e da sociedade” (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p. 24). Para esses autores, a natureza e a sociedade devem ser tratadas igualmente e nos mesmos termos de que são trados os vencedores e os vencidos da história das ciências. O conceito de simetria generalizada permite a ANT considerar o mundo humano e não humano de forma equivalente, nas mesmas bases (DOMÈNECHE; TIRADO, 1998 apud MARQUES, 2006).
Para Callon (1986), a simetria generalizada é um princípio que visa explicar não somente os pontos de vistas conflituosos e os argumentos controversos da ciência e da tecnologia. Esses argumentos contraditórios estão relacionados à sociedade e a natureza. Nesse contexto, o pesquisador deve ao descrever um fenômeno social utilizar um único repertório, quer dizer, usar o mesmo vocabulário (CALLON, 1986). Ainda sobre esse princípio, Tonelli (2011; 2012) conclui que simetria possibilita entender que o mundo, a realidade e que todos os atores atuantes são produtos das interações e das associações.
O terceiro princípio básico da ANT é o da livre associação, que diz que o pesquisador deve abandonar a priori todas as distinções entre eventos naturais e sociais (CALLON, 1986). Isso demanda a rejeição da hipótese da existência de um limite, que separa os eventos naturais e sociais (CALLON, 1986). Destaca-se que o pesquisador deve considerar que o repertório das categorias, as entidades que são mobilizadas e as relações entre eles, todos são tópicos para discussão dos atores (CALLON, 1986). Ao invés de impor uma grade de análise entre eles, o pesquisador segue os atores visando identificar a maneira pela qual eles definem e associam a diferentes elementos por meio dos quais eles constroem e explicam seu mundo, seja o mundo natural ou social (CALLON, 1986). No entanto, o autor afirma que é necessário acompanhar todas as variações que afetam as alianças que os atores (pesquisadores) viram forçados a estabelecer, sem prendê-los em papéis fixos.
Segundo Callon (1986), esses três princípios possibilitam que a sociedade e os atores humanos e não humanos sejam questionados ao mesmo tempo e também permite explicar como as identidades são definidas pelos atores, suas margens de condução mútuas e o leque de oportunidades que estão disponíveis aos atores.