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D. ULUSLARARASI ADALET MAHKEMESİ’NİN KONUYLA İLGİLİ KARARLAR

3. DOĞU TİMOR KARARI

A percepção de que Juiz de Fora era uma “ilha de conspiração”, conforme escreveu Carlos Fico (2014), em seu livro O Golpe de 1964: momentos decisivos, tem por base o fato de que a cidade se tornou, nesse contexto, palco de encontros de políticos como Magalhães Pinto, o Marechal Odílio Denis e o General Olympio Mourão Filho, que atuava na 4ª Divisão de Infantaria do Exército, de onde foram organizadas ações para deposição de João Goulart, em 31 de março de 1964.

O General Olympio Mourão Filho não estava sozinho nessa empreitada e, entre os que o apoiavam, com maior proximidade, estava o General Luís Carlos Guedes, comandante do IV Regimento Divisionário, cuja sede se localizava em Belo Horizonte. Assim, os primeiros movimentos das tropas militares, na cidade, tiveram início ainda na madrugada do dia 31 de março de 1964. O plano do General consistia em entrar no Estado da Guanabara e seguir até o Ministério da Guerra, tomando-o, assim, com suas tropas e com o apoio que esperava obter de outras forças militares (FERREIRA; GOMES, 2014).

Vale lembrar que Juiz de Fora foi palco para as articulações políticas que determinaram a implantação da ditadura militar no país. Foi possível ver o movimento das tropas e dos tanques, organizados em fileiras, nas entradas e saídas da cidade29. A Figura 2, a seguir, mostra essa movimentação dos militares:

29 Ver Figura 2.

Figura 2: “A Marcha dos Tanques: movimentos que precipitaram o Golpe de 1964”.

Fonte: Jornal Extra, 30 março de 201430.

Ainda que o Golpe Militar fosse comandado pelos vários setores do Exército nas grandes cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, os movimentos que o antecederam tornaram-se decisivos no momento em que o próprio governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, “apresentou-se como um líder civil do movimento para depor Goulart” (FERREIRA; GOMES, 2014, p. 335). Todos esses fatores culminaram com a precipitação do Golpe Militar de 1964, que, em Juiz de Fora, causou estranhamento e medo, pois a maioria das reuniões e estratégias eram realizadas em sigilo, e, mesmo que houvesse especulações que levassem a sociedade brasileira a considerar o Golpe Militar uma realidade, o acontecimento, para a maioria dos moradores de Juiz de Fora, foi inesperado.

Dessa forma, é presumível que esse evento tenha ficado marcado na memória da cidade de diferentes maneiras. E, neste ponto da pesquisa, utilizaremos como fonte o Caderno Especial lançado pelo jornal local Tribuna de Minas, lançado, em 2014, para marcar os 50 anos do Golpe Militar. Esse

30 Matéria do jornal Extra

“Marcha dos tanques: movimentos que precipitaram o Golpe de 1964”. Disponível em: <http://extra.globo.com/noticias/brasil/marcha-dos-tanques-movimentos- que-precipitaram-golpe-de-1964>. Acesso em: 30 mar. 2014.

encarte especial é composto por entrevistas de pessoas que estavam, naquele momento, e, de alguma forma, ligadas àquele movimento. Tais depoimentos tiveram como objetivo contar essa história por meio das impressões causadas na cidade pelos movimentos iniciais do Golpe Militar, liderados em Juiz de Fora pelo General Olympio Mourão Filho, e pelo então governador de Minas, José de Magalhães Pinto.

Portanto, o Caderno Especial será utilizado, neste ponto do estudo, para que possamos perceber como a sociedade, de um modo geral, percebia as articulações militares ocorridas na cidade, nos dias que antecediam a partida das tropas, bem como o momento em que o Golpe de 1964 foi anunciado à imprensa. Nesse sentido, o grupo de entrevistados pelo jornal relata a sua percepção a respeito desse acontecimento de acordo com o papel que exerciam no momento em que ocorreu. Assim, são relembrados momentos como os dos movimentos das tropas31, a ação inesperada do exército, bem como as consequências dos exercícios militares no cotidiano da sociedade local, que ficou ilhada, pois, no dia 31 de março de 1964, ninguém podia sair ou entrar na cidade32.

Importa enfatizar que, do conjunto de entrevistas, foram priorizados os depoimentos de alguns representantes da sociedade juiz-forana, entre eles, políticos, um artista, jornalistas e uma cidadã, cuja importância está relacionada ao seu endereço, visto que era vizinha do General Mourão. Sendo assim, optou-se pelas entrevistas de Tarcísio Delgado, ex-prefeito de Juiz de Fora, com mandatos entre os anos de 1983-1988, 1997-2000 e 2001-2004, ex- deputado estadual entre os anos de 1971-1974 e ex-deputado federal nos períodos 1974-1978 e 1979-1982, e aluno do curso de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora entre os anos de 1991 a 1994, sendo eleito presidente do Diretório Acadêmico (DA) do curso em 1964; do então jovem ator de teatro da cidade, José Luiz Ribeiro, atual diretor do Grupo de Teatro Divulgação; de uma cidadã comum, Selma Nicodemos, que, em 1964, era vizinha do General;

31 Ver Figura 2: tanques enfileirados na estrada principal que dava acesso à cidade. A foto ilustra a matéria do jornal Extra, intitulada “Marcha dos tanques: movimentos que precipitaram o Golpe de 1964”.

32 As entrevistas que compõem o Caderno Especial do jornal Tribuna de Minas

– 50 Anos do Golpe Militar – podem ser encontradas no site You Tube. Disponível em:

de dois representantes da imprensa local, Wilson Cid e Jorge Couri, vinculados, naquele contexto, aos Diários Associados, e do ex-sindicalista e também ex-deputado federal, Clodesmith Riani, que chegou a manter uma aproximação pessoal com João Goulart.

A primeira entrevista, publicada em 11 de março de 2014, intitulada “Encontros Sigilosos”, traz o depoimento da vizinha do General Mourão, Sra. Selma Nicodemos. Segundo a depoente, os encontros se davam na residência do General, localizada à rua Barão de Cataguases. A Srª. Selma ressalta que a trama foi realizada com grande sigilo para acabar com a “bagunça” que estava ocorrendo no Rio de Janeiro. A entrevistada relata que os encontros de Mourão, Magalhães Pinto e mais “um terceiro” – não especificado – tinha como objetivo eliminar a “ameaça comunista33”.

Na reportagem publicada em 17 de março de 2014, o fotógrafo Jorge Couri registrou, em foto, o momento do anúncio oficial de que um destacamento militar partiria de Juiz de Fora para depor o Presidente João Goulart. O fotógrafo, que trabalhava nos jornais locais, Diário Mercantil e Diário da Tarde, relata que foi convocado para ir à 4ª Região e, ao questionar o motivo, foi informado, na própria redação do jornal, ser esse desconhecido, mas que ele deveria estar presente34 no local.

33 Entrevista de Selma Nicodemos. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=gxT723XhxgA>.Acesso em: 15 dez. 2014. 34 Entrevista de Jorge Couri. Disponível em:

Figura 3: Reportagem sobre a ditadura militar - Diário Mercantil. Fonte: Faculdade de Comunicação-FACOM/UFJF35.

O jornalista Wilson Cid, que trabalhava nos mesmos jornais que Couri, e ainda na Rádio Sociedade, também havia sido intimado, junto com o colega Paulo Emerich, que, em 1964, trabalhava na Rádio PRB-3. O General Mourão Filho estava, assim, convocando toda a imprensa da cidade para anunciar, oficialmente, o Golpe de 196436.

35Matéria “Ditadura Militar em Juiz de Fora: da revolução à realidade”. Blog Comunicação, Cidade, Memória e Cultura/FACOM/UFJF. Disponível em:

<https://pesquisafacomufjf.wordpress.com/2013/06/14/ditadura-militar-em-juiz-de-fora-da- revolucao-a-realidade>. Acesso em: 14 jun. 2013.

36 Entrevista de Wilson Cid. Disponível em:

Wilson Cid, cuja entrevista foi publicada em 17 de março de 2014, sob o título “A Imprensa em Juiz de Fora”, afirma: no momento em que houve a convocação da imprensa, não foi dada nenhuma informação sobre a censura que os meios de comunicação passariam a sofrer. Ao contrário do esperado, e no mesmo dia, foi formada uma comissão permanente de imprensa que estaria vinculada à 4ª Região com a missão de noticiar o andamento das ações militares ali desenvolvidas. Vale ressaltar que o General desejava comunicar à cidade apenas o que fosse oficial e que representasse o comando do Exército.

Cid (2014), em entrevista presente na Internet, esclarece que o grupo de comunicação de maior alcance em Juiz de Fora, os Diários Associados, era favorável ao Golpe. Podemos aferir, diante da entrevista do jornalista, que os responsáveis pelos Diários Associados não sabiam o que estava por vir, visto que, posteriormente, os jornais começaram a ser censurados, sendo obrigados a reformular os textos originais ou substituí-los por amenidades, ou mesmo, no momento da diagramação, a colocarem uma “Ave Maria” ou uma receita de “Bolinho de bacalhau” no lugar da matéria censurada. Segundo o jornalista, a imprensa era duplamente censurada: sofria com os ataques da polícia e da própria imprensa local, que tinha seus interesses no Golpe de Estado.

Dando continuidade às informações a respeito do Golpe, em 21 de março de 2014, é publicada a entrevista do teatrólogo José Luiz Ribeiro, no caderno Censura às Artes. Em seu depoimento, o artista e diretor do Teatro Grupo Divulgação, criado em 1966, revela a censura sofrida pelos estudantes universitários. Ribeiro considera que, inicialmente, os textos eram censurados por pessoas pouco qualificadas, segundo ele, os censores não passavam de delegados de polícia. No entanto, o entrevistado observa que, em 1971, com a chegada de censores mais qualificados à cidade, o Grupo Divulgação é obrigado a reformular o conteúdo de seus textos, transmitindo mensagens que denunciassem, de forma indireta, a censura sofrida37.

37 Entrevista de José Luiz Ribeiro. Disponível em:

Tarcísio Delgado e Clodesmith Riani têm suas entrevistas publicadas no dia 24 de abril de 2014, sob o título “A política juiz-forana na década de 60”. O ex-prefeito Tarcísio Delgado declara ter apoiado o Golpe inicialmente, argumentando que era contra a política de João Goulart, mas que, ao perceber suas consequências, tratou de filiar-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido contrário ao Regime Militar pelo qual foi, inclusive, candidato a prefeito de Juiz de Fora na década de 1970. Em sua entrevista, Tarcísio enfatiza que, mesmo com sua adesão ao partido que representava a esquerda no período, não foi possível, naquele momento, mudar o quadro político na cidade, pois ele perdeu as eleições para o candidato Francisco de Mello Reis, filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido que apoiava os militares.

Clodesmith Riani, devido à sua participação na política sindical, vinculada ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), também foi uma das vítimas que sofreram com a repressão política empreendida na cidade. Foi preso e espancado na 4ª Região Militar do Exército, sediada em Juiz de Fora e, durante um interrogatório, foi forçado a assinar um documento afirmando que Leonel Brizola era comunista. Riani (2014) relata que foi obrigado a pedir perdão ao Coronel encarregado de sua interrogação, mas enfatizou, naquele mesmo momento, que ele não era Brizola, mas sim João Goulart, e que não considerava os dois políticos comunistas. Diante de suas revelações, o entrevistado descreve os chutes nos tornozelos e os vários socos que recebeu nos rins38. Ainda se lembra de que, no mesmo local onde ele estava detido para interrogatório, encontravam-se vários outros presos políticos, colocados no pátio, enquanto ele permanecia separado dos demais.

Nas entrevistas para o jornal Tribuna de Minas, há relatos sobre as prisões ocorridas em Juiz de Fora. Nos depoimentos de Cid (2014) e de Riani (2914), fica evidente a prisão de outras pessoas e a perseguição a outros políticos locais, que, no entanto, não são citados nominalmente. Mas, é fato que as prisões políticas, em Juiz de Fora, ocorreram em momentos diferentes da instalação do Regime Militar no Brasil.

38 Entrevistas de Tarcísio Delgado e Clodesmith Riani. Disponível em:

Sobre esse tema, destaca-se a dissertação de Mestrado de Flávia Maria Franchini Ribeiro (2007), intitulada A subida do monte purgatório: estudo da experiência dos presos políticos da Penitenciária Regional de Linhares (1969- 1972), na UFJF. A pesquisa faz referência ao período em que alguns presos políticos pela ditadura militar estiveram detidos na Penitenciária Regional José Edson Cavalieri, conhecida, localmente, como Penitenciária de Linhares.

A autora pondera que, embora nem toda a sociedade local tivesse conhecimento da presença de presos políticos detidos na Penitenciária de Linhares, em 1969, o presídio chegou a receber entre 104 e 105 detentos aproximadamente. E, se no ano anterior, 1968, foram contabilizados de 18 a 19, encarcerados, em 1970, a penitenciária detinha 47 presos políticos, e, em 1972, esse número cai para 32 presos. Embora o presídio não tivesse sido construído com a finalidade de alojar presos políticos, foi ali que muitos ficaram depois de passarem por um duro processo de interrogatório e tortura. A autora conclui que, após ser inaugurado, em 1966, como sistema prisional comum de Juiz de Fora, o presídio também foi utilizado pelos militares.

Ribeiro (2007) constata, todavia, por meio dos depoimentos dos presos políticos Carmela Pezzuti e Maurício Paiva, que não havia tortura no local. O presídio, segundo os depoentes, era uma espécie de cárcere transitório, onde muitos presos aguardavam o andamento de seus processos após um longo período de torturas físicas e psicológicas. Segundo a autora, o local era descrito pelos entrevistados como: “purgatório”, “limbo”, “férias” e até mesmo como “colégio interno”. Esses termos são indícios de que, no Presídio de Linhares, os presos políticos não sofriam tortura, estando ali apenas para aguardar o veredito final de seus julgamentos.

3.1.2 Efervescência Cultural: as manifestações culturais dos anos 1960