Para desenvolver o presente capítulo, daremos ênfase à pesquisa de Domingos Giroletti (1988), Industrialização em Juiz de Fora: 1850 a 1930. Mesmo que alguns pontos de seu trabalho já tenham sido revistos pela historiografia, como é o caso de Mônica Ribeiro de Oliveira (1991), Anderson Pires (2004) e Deivy Ferreira Carneiro (2004), sua obra continua sendo fundamental para a compreensão das relações econômicas e sociais da cidade de Juiz de Fora e seu desenvolvimento ao longo do tempo. Ressaltamos, ainda, que essa obra, por sua importância, ainda é utilizada nas pesquisas acadêmicas atuais.
Segundo Giroletti (1988), O desenvolvimento da cafeicultura na Zona da Mata também está vinculado às trilhas do Caminho Novo, pois foi por meio da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira que o café chegou a Minas Gerais no século XIX. Inicialmente, os cafezais surgiram no sul de Minas para, mais tarde, atingir o sudeste do estado.
Na Zona da Mata, a produção do café não só será responsável pelo desenvolvimento econômico da região, como também pelo crescimento de sua ocupação. Três fatores serão responsáveis pela ampliação das exportações mineiras nesse período: o enorme contingente de escravos na região, mão-de- obra para o trabalho nas plantações; terras virgens e de fácil aquisição; e o mercado exportador, no qual o café alcançava preços altos: "[...] de 3$000 por arroba em 1818 passava a 6$200 em 1821” (Ibid., p. 29).
O autor afirma que se produziam, na Zona da Mata, 99% do café exportado de Minas Gerais. Os municípios responsáveis pela maior parte dessa produção eram Sapucaia, Juiz de Fora, Mar de Espanha e Porto Novo do Cunha. No mesmo período em que esses municípios destacavam-se, entre
1847 e 1848, outras cidades como Muriaé, Ubá e Leopoldina estavam no início do processo de produção. Em decorrência do desenvolvimento da produção cafeeira, desenvolveu-se, na região, uma rede de transporte e comunicação. A abertura da Estrada União e Indústria transformou todo o processo de comercialização e transporte na região, uma vez que possibilitou o trânsito de carruagens, que interligavam, por ramais, Pomba, Mar de Espanha, Ubá, Rio Novo e Rio do Peixe.
Desse modo, o caminho para o desenvolvimento de Juiz de Fora estava inaugurado. O café, bem como outros produtos da Zona da Mata, era transportado pela Cia. União e Indústria, de propriedade de Mariano Procópio Ferreira Lage. Essa Companhia garantiu o escoamento dos produtos e o abastecimento regular na região, favorecendo os fazendeiros, que puderam ampliar seus negócios a partir de então (GIROLETTI, 1988). A cidade cresceu economicamente, e esse fator refletiu-se em sua urbanização, crescimento populacional, melhoramentos urbanos e ampliação de um mercado interno. Entre 1870 e 1877, Juiz de Fora possuía diversos estabelecimentos comerciais, como hotéis, farmácias, mascates de joias, relojoeiros, açougues, barbearias, alfaiatarias, uma casa bancária, entre outros. Nos anos citados, a rede de comércio e negócios aumentou em cerca de 50%13.
Sobre a construção da Cia. União e Indústria na Vila de Santo Antônio do Paraibuna, o autor pondera que essa escolha se deu por fatores econômicos favoráveis à implantação da Cia. Os terrenos da região eram mais baratos, fator que possibilitou a compra de uma extensa faixa territorial na qual seria construída, posteriormente, a Colônia Dom Pedro II. Ainda segundo o autor, o conjunto de imigrantes alemães que vieram para trabalhar na Estrada era composto por especialistas, entre “mecânicos, ferreiros e alguns técnicos em construção e pontes”. Nesse sentido, a importância do trabalhador imigrante alemão, para o autor, foi determinante para o desenvolvimento da cidade (Ibid., p. 57).
13 Ver Tabela 11, presente no livro de Giroletti: RELAÇÃO DOS ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS – Juiz de Fora, 1870/1877. In: GIROLETTI, Domingos. Industrialização em Juiz de Fora: 1850 a 1930. Juiz de Fora. Editora da UFJF, 1988. p. 50.
Entendendo que aos imigrantes alemães cabia o êxito dos primeiros sinais de industrialização da cidade, o autor prossegue sua análise, destacando as qualidades do imigrante para o trabalho, citando as famílias alemãs e suas iniciativas econômicas na cidade. Nesse ponto de sua obra, é possível encontrar as origens familiares de um dos nossos entrevistados: a família Scoralick. Felipe H. Georg (ex-colono) é citado junto a Pedro Scoralick, José e Miguel Mauler, citados como empreendedores no ramo da construção civil; Jacob Kneip (antigo trabalhador da Cia. União e Indústria) e seu irmão Francisco Salzer, que também se dedicaram à construção civil, com a diferença de construírem na cidade diversos edifícios com recursos próprios. A família Surerus teria alcançado destaque na construção de casas, no comércio de artigos para construção civil e na manutenção de carroças. Martin Kasher, antes ferreiro, abriu uma oficina mecânica.
Vale ressaltar que, embora o trabalho desse autor seja imprescindível para a compreensão do processo de industrialização em Juiz de Fora, pesquisas mais recentes relativizam a participação dos alemães no processo de industrialização de Juiz de Fora. Entre elas, citamos o estudo realizado por Mônica Ribeiro de Oliveira (1991), intitulado Entre o rural e o urbano: a trajetória dos imigrantes alemães e italianos em Juiz de Fora (1854-1920). Em sua pesquisa, a autora rompe com as abordagens tradicionais que reduziam a análise sobre a imigração alemã para Juiz de Fora, ressaltando o papel do imigrante alemão como propulsor na industrialização da cidade. A autora percebe o papel desses indivíduos no desenvolvimento do comércio e das atividades artesanais na cidade; realiza, no entanto, uma análise mais densa no que se refere à participação do imigrante no processo de industrialização, como sendo eles os únicos responsáveis pelo desenvolvimento do setor na cidade. Amplia a reflexão sobre esse processo, apontando outros fatores determinantes para a industrialização de Juiz de Fora. Enfatiza, ainda, que, com o fim da Colônia Dom Pedro II14, os imigrantes deram os primeiros passos
14 A Colônia Dom Pedro II foi criada pela Cia. União e Indústria para instalar os imigrantes alemães que chegaram à Juiz de Fora, em 1858. Eram “[...].180 prazos, dos quais 130 foram ocupados por aqueles que dedicar-se-iam à agricultura, enquanto o restante, por aqueles que iriam trabalhar na construção da rodovia”. ARANTES, Luiz Antônio Valle. Caminhos incertos, conflitos religiosos e empreendimentos dos alemães na cidade. In: BORGES, Célia Maia (Org.).
em busca da autonomia e da integração à vida econômica e produtiva da cidade, a partir de um pequeno capital gerado, ainda, no interior da Colônia, mais especificamente nas pequenas oficinas artesanais e familiares.
Assim como Oliveira (1991), Deivy Ferreira Carneiro (2004), em Conflitos, crimes e resistência: uma análise dos alemães e teuto- descendentes através de processos criminais (Juiz de Fora 1858/1921), relativiza as obras produzidas em Juiz de Fora em meados do século XX. Seguindo a tradição, esses trabalhos ressaltam a importância dos imigrantes, seus feitos e seu empenho para o trabalho árduo15.
A contribuição de Carneiro (2004) para a revisão do mito do imigrante empreendedor16 está no fato de verificar, por meio de processos crimes, que a grande maioria dos imigrantes que chegaram à cidade, em 1858, era composta por pobres camponeses, que, diferentemente, daqueles que chegaram em 1856, técnicos e artífices, já contratados pela Cia. União e Indústria, vinham empobrecidos e também atrelados à assinatura de um contrato de trabalho, que lhes impunha, já na chegada, uma grande dívida.
Sobre a participação dos imigrantes alemães no desenvolvimento econômico de Juiz de Fora, ressaltamos que, entre os anos de 1858 e 1912, 43,07% dos estabelecimentos comerciais instalados na cidade pertenciam aos alemães, a saber: Cervejaria José Weiss, Cervejaria Germânia, Cervejaria Dois Leões, Curtume Krambech, Fábrica de Cerveja Poço-Rico, Grades Sanitárias Schmitz, Fábrica de malha Antônio Meurer, Máquinas de Fundição Kascher e Irmão, Doces Christiano Horn, Malharia Waltemberg, Malharia Stumpf, Malharia
Solidariedade e conflito: história de vida e trajetórias familiares de grupos em Juiz de Fora:
Editora da UFJF, 2000. p. 94.
15 As críticas foram endereçadas, sobretudo, a memorialistas como Paulino de Oliveira e Albino Esteves, autores, respectivamente, de A história de Juiz de Fora (1966) e Almanaque de Juiz de Fora (2008). Outros pesquisadores, como Wilson Lima Bastos e Luiz José Stheling, apesar de avançarem na abordagem de alguns elementos, continuariam produzindo uma história enaltecedora dos alemães e do seu espírito empreendedor, segundo Carneiro (2004). 16 Conforme Arantes (2000), as primeiras indústrias estabelecidas na cidade são iniciativas dos mesmos imigrantes que fundaram a Igreja Luterana. Tal fato pode ser um indício da criação do mito que cercava as ações desses homens. São importantes referências sobre o empreendedorismo dos alemães: WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1985; WILHENS, Emílio. A aculturação dos alemães no Brasil: estudo antropológico dos imigrantes alemães e seus descendentes no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Nacional, [s. d.].
Surerus, Malharia Sedam e Elsam, entre outros (OLIVEIRA, 1991). Percebe-se que as pequenas manufaturas artesanais cresceram, desenvolveram-se e tornaram-se indústrias de pequeno porte. Embora essas empresas sejam reconhecidas como de importância para o desenvolvimento industrial da cidade, não se pode reduzir a elas o fomento da industrialização da cidade, sendo necessário observar a importância de outros empreendimentos no mesmo período.
Como já observado anteriormente, as bases do desenvolvimento de Juiz de Fora estão localizadas em meados do século XIX, a partir do desenvolvimento dos transportes, quando uma nova dinâmica movimenta o processo de urbanização e industrialização, que levará a cidade a ser reconhecida como importante polo de negócios e investimentos dentro da Zona da Mata.
Paralelamente ao crescimento populacional17, o setor de serviços ampliou-se. São construídos cemitérios, matadouros, feiras livres, estabelecimentos de ensino que, em 1878, já eram seis. Em 1883, é inaugurado o serviço de telefones; em 1884, os telégrafos; em 1885, a cidade podia contar com o serviço de água nos domicílios; em 1887, inauguram-se o Banco Territorial e Mercantil de Minas Gerais e a Sociedade Promotora da Imigração; em 1889, é criada a Companhia Mineira de Eletricidade e, no mesmo ano, fundou-se o Banco de Crédito Real de Minas Gerais (PIRES, 2004).
É importante salientar que a industrialização de Juiz de Fora não ficou restrita ao mercado local ou mesmo à região da Zona da Mata, mas, por sua localização geográfica próxima ao Rio de Janeiro e devido à construção da Estrada União e Indústria, a rede de negócios na cidade expandiu-se para outras regiões do país (Ibid.).
17 A população de Juiz de Fora, em 1885, era de 27.722 habitantes. Em 1990, esse número cresce para 74.136 habitantes. Ver: ESTEVES, Albino. Álbum do município de Juiz de Fora. 3. ed. Juiz de Fora: FUNALFA, 2008.