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O reexame necessário, também denominado duplo juízo obrigatório, está previsto no art. 475 do Código de Processo Civil em vigor. Muito se discute sobre a sua natureza jurídica, alguns pugnando pelo seu caráter recursal, contudo a maioria esmagadora da doutrina se posiciona no sentido de que tal instituto, na verdade, corresponde a uma condição de eficácia da sentença proferida nas hipóteses elencadas no citado dispositivo legal.

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Para melhor compreender o reexame necessário cabe transcrever o seu regramento legal:

Art. 475. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: I -proferida contra a União, o Estado, o Distrito Federal, o Município, e as respectivas autarquias e fundações de direito público; II -que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à execução de dívida ativa da Fazenda Pública (art. 585, VI). § 1o Nos casos previstos neste artigo, o juiz ordenará a remessa dos autos ao tribunal, haja ou não apelação; não o fazendo, deverá o presidente do tribunal avocá-los. § 2o Não se aplica o disposto neste artigo sempre que a condenação, ou o direito controvertido, for de valor certo não excedente a 60 (sessenta) salários mínimos, bem como no caso de procedência dos embargos do devedor na execução de dívida ativa do mesmo valor.

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§ Também não se aplica o disposto neste artigo quando a sentença estiver fundada em jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula deste Tribunal ou do tribunal superior competente.

Assim, segundo o entendimento predominante, o reexame necessário seria a condição imprescindível para que a sentença proferida de acordo com as

situações ventiladas na norma possa transitar em julgado. Caso contrário, isto é, na hipótese de não submissão da sentença à confirmação pelo tribunal, tal decisão jamais poderia passar para a etapa de cumprimento de sentença, tendo em vista a inexistência de formação da coisa julgada material.

Independentemente do entendimento que se adote, certo é que o reexame necessário proporciona a reapreciação pelo tribunal de uma decisão proferida pelo juízo de primeira instância, e que, como é cediço, o procedimento aplicável a este instituto é o mesmo do recurso de apelação.

Não é por outra razão que a jurisprudência, nos termos da Súmula 253 do STJ, entende pela plena aplicabilidade do art. 557 do CPC a este instituto,

autorizando o relator a negar seguimento ao recurso caso este se mostre

manifestamente inadmissível ou contrário a entendimento predominante de tribunais superiores.

Diante desta breve exposição conceitual, cabe questionar se a Teoria da Causa Madura é aplicável ao Reexame Necessário.

Primeiramente, analisando a hipótese descrita no inciso I do art. 475, deve ser esclarecido se a norma abarca as sentenças terminativas, uma vez que o dispositivo parece conduzir à interpretação segundo a qual somente as sentenças de mérito proferidas contras as pessoas jurídicas citadas na norma estariam sujeitas ao duplo grau obrigatório.

Boa parte da doutrina segue o entendimento de que tal inciso não comportaria as sentenças terminativas, mas tão somente as que houverem apreciado o mérito. Neste sentido, leciona Leonardo José Carneiro da Cunha ao afirmar que "na hipótese de a Fazenda Pública figurar como autora da demanda, não haveria, segundo mesmo entendimento, sentença proferida contra o ente público, eis que somente se profere sentença contra o réu,. 46

Em contraposição a este entendimento, Cândido Rangel Dinamarco sustenta a submissão de qualquer sentença proferida contra as pessoas mencionadas no dispositivo, inclusive as terminativas, alegando não ter sido feita qualquer diferenciação pelo legislador. Assim, então, leciona o consagrado processualista:

O inc. II refere-s aos processos não executivos e que a União, Estado ou Município sejam partes, como autor ou réu (é claro que, como opoente, nomeada à autoria, litisdenunciada ou chamada ao processo, ela se enquadrará numa dessas posições); nesses processos, basta que haja uma sentença desfavorável a uma dessas pessoas jurídicas de direito público, para que incida o inc. II e seja obrigatório o duplo grau de jurisdição, a saber: a) se ela for ré, uma sentença que julgue procedente a ação; b) se for autora, toda sentença que julgue improcedente ou extinga o processo sem exame de mérito.47

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CUNHA, Leonardo José Carneiro da. A Fazenda P�blica em Juízo. 8. ed. São Paulo: Dialética, 2010, p. 204. 47 DINAMARCO, Cândido Rangel. Fundamentos do Processo Civil Moderno. Tomo I,

3. ed. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 213. Deve-se adaptar a lição do Professor Dinamarco ao CPC vigente. A citação do autor ao inciso II deve ser lida como sendo, após a reforma promovida pela Lei n 10.352/2001, o inciso I do art. 475.

Ressalte-se que a discussão doutrinária exposta é de grande relevância para se poder aferir a aplicação da Teoria da Causa Madura ao reexame necessário, uma vez que, conforme já discorrido, esta somente pode ser aplicada, a rigor, a recursos que tenham impugnado sentenças terminativas.

Parece que o melhor entendimento é aquele adotado por Cândido Rangel Dinamarco, uma vez que, de fato, o dispositivo não fez qualquer distinção, e, conforme regra básica de hermenêutica, onde o legislador não diferenciou, não caberia ao intérprete tal atribuição.

Neste diapasão, diante da possibilidade de o art. 475, I, do CPC prever hipóteses de sentenças terminativas proferidas contra a Fazenda Pública, não há como se negar a plena aplicabilidade da Teoria da Causa Madura ao reexame necessário. Ora, os procedimentos são bastante similares, as funções da apelação e do Reexame Necessário em muito se aproximam, de modo a possibilitar a aplicação analógica da Teoria da Causa Madura ao duplo juízo obrigatório.

4.5 Teoria da Causa Madura em Embargos Infringentes

Os Embargos Infringentes representam o recurso adequado para se obter um novo pronunciamento do tribunal quando este, por decisão não unânime, reforma sentença de mérito de primeira instância ou julga procedente a ação rescisória. Esta é a exegese do art. 530 do Código de Processo Civil.

Analisando perfunctoriamente o dispositivo legal, já se poderia excluir, prima

facie, a aplicação de Teoria da Causa Madura ao aludido recurso, uma vez que em

ambas as hipóteses delineadas pela norma (reforma de sentença de mérito e julgamento procedente da ação rescisória) já teria havido a apreciação do mérito e, por isso, não atenderiam ao primeiro requisito para a aplicação da Teoria da Causa Madura, a saber, a necessidade de recurso contra sentenças terminativas.

Ocorre que, em determinadas situações, pode ser interposta apelação contra uma sentença que tenha apreciado o mérito e o tribunal, por maioria, a reforma, extinguindo o processo sem julgamento do mérito, em função da ausência de uma das

condições da ação, em aplicação do art. 267, §3°, do CPC. Nesta hipótese, seria viável a Teoria da Causa Madura, em ordem a possibilitar que os novos julgadores dos embargos infringentes possam afastar a alegação de carência de ação e examinar o mérito no sentido da manutenção da decisão proferida em primeira instância.

Não se pode conferir ao art. 515, §3°, do CPC a interpretação literal segundo a qual somente seria viável a aplicação da Teoria da Causa Madura quando interpostos recursos contra sentenças

Certo é que, em inúmeras situações previstas na lei processual civil, o legislador se referiu somente a determinada decisão judicial, porém não excluiu a aplicação de tais dispositivos a decisões judiciais de distinta natureza. É o caso, por exemplo, dos Embargos de Declaração com objetivo de sanar obscuridade ou contradição, que, segundo a interpretação literal do art. 535, I, do CPC, não caberiam contra decisões interlocutórias, o que, como é cediço, não é uma interpretação refletida na praxe forense.

terminativas, estando, pois, excluídos os acórdãos que julguem extintos determinados processos, como no exemplo trazido à baila.

É claro que para a aplicação da Teoria da Causa Madura fundamental é a presença de seus requisitos autorizadores, em especial a desnecessidade de maior instrução processual estando a causa em imediata condições de julgamento.

Em abono a este entendimento, leciona Cândido Rangel Dinamarco:

Pense-se também no caso de apelação julgada com a pronúncia de uma carência de ação, havendo um voto vencido que afastava essa preliminar: nos embargos infringentes opostos pelo vencido, é de toda legitimidade o julgamento do mérito pela turma julgadora, desde que presentes os requisitos postos no § 3° do art. 515.48

Frise-se, mais um

a vez, que a intenção do legislador foi de aprimorar a prestaçã

o jurisdicional, evitando-se que atos que causem a delonga e a