III. KİRACININ KİRA BEDELİNDEN İNDİRİM TALEBİ
2. Seçimlik Hak Olarak Kira Bedelinin İndirilmesi Talebi (TBK m 305/f.1, m 307)
Genericamente representar significa “substituir, agir no lugar de ou em nome de alguém ou de alguma coisa; evocar simbolicamente alguém ou alguma coisa; personificar” (COTTA, 1998, p. 1101). Representar é, então, um modo de apresentar, de fazer presente o que está ausente tornar visível o que de outra maneira estaria oculto. O representar só pode, portanto, ser efetivado na esfera da publicidade6. (BOBBIO, 2002).
Representar significa tornar visível e tornar presente um ser invisível mediante um ser publicamente presente. A dialética do conceito repousa no fato de que o invisível é pressuposto como ausente e ao mesmo tempo torna-se presente. (SCHMITT, 1965, p. 329 apud BOBBIO, 2002, p. 101).
Quanto à representação, pode ser entendida como o processo de escolha por parte de alguém ou grupo, de determinada pessoa ou grupo, com a delegação de decidir e agir em seu nome. No processo representativo há duas dimensões: o representado e o representante (ANDRADA, 2012). Baseados nas discussões de Pitkin (2006) e Urbinati (2006), que serão tratadas posteriormente, acrescenta-se, ainda, o conteúdo da representação, o lugar em que a representação ocorre e a relação entre representante e representado.
A representação é um mecanismo político particular para a realização de uma relação de controle entre governados e governantes, potencializando o controle sobre o poder político por parte de um grupo que não pode exercê-lo pessoalmente. Na prática, a representação divide-se em: a) significados que se referem a uma dimensão da ação, relacionando-se à participação do representante; b) significados que se referem a uma dimensão de reprodução de interesses e prioridades, relacionando-se à representação propriamente dita (COTTA, 1998).
No que diz respeito à função e ao papel da representação política, identificam-se três modelos interpretativos alternativos: a) a representação como relação de delegação – o
6 Considerando o seu conceito sobre publicidade se tornar público, o autor questiona o fato de Habermas jamais
ter distinguido com precisão, “no curso de toda a análise histórica”, os dois significados de público: a) aquele que se refere ao âmbito estatal, à res publica; b) aquele que se refere ao manifesto, oposto ao secreto. (BOBBIO, 2002, p. 102).
52 representante é concebido como um executor privado de iniciativa e de autonomia, das instituições que os representandos lhe distribuem; seu papel aproxima-se muito ao de um embaixador; b) a representação como relação de confiança – o representante ocupa uma posição de autonomia e supõe que a única orientação para sua ação seja o interesse dos representados como foi por ele percebido; 3) a representação como espelho ou representatividade sociológica ou, nas palavras de Pitkin (2006) e Urbinati (2006), representação cidadã – centrado mais sobre o efeito de conjunto do que sobre o papel de cada representante. Ele concebe o organismo representativo como um microcosmo público que fielmente reproduz as características do corpo social que merecem ser espelhadas no corpo político (COTTA, 1998).
O núcleo fundamental da representação está na responsabilidade periódica a que estão sujeitos os atores políticos, no sentido de serem chamados para responder, para prestar contas das próprias ações junto àqueles que têm o poder da designação.
A representação política está inserida na complexa rede institucional de um sistema político, o qual tem duas faces: por um lado,
trata-se, de uma parte, das condições da representação; por outro, do grau de incidência que a representação tem sobre as outras instituições políticas. Dada a natureza dos processos institucionais da representação, devem ter-se como favoráveis todas aquelas condições que jogam no sentido de um alto grau de publicidade nos negócios públicos e de compreensibilidade dos mesmos para os cidadãos [...]. A representação está na verdade estreitamente ligada a um processo de duplo sentido de comunicação das mensagens políticas. É, portanto, dependente de todos os canais de informação recíproca e sensível a todas as perturbações que aconteçam neste campo. A representação pressupõe, por conseguinte, um complexo de direitos políticos (liberdade de imprensa, de associação, de propaganda, etc.) que permitem a formação e a manifestação da vontade política dos representantes. Mais alto ainda estão certos fatores culturais. A presença junto do público de uma cultura democrática "participante" e não passiva e nas classes políticas de uma cultura democrática e flexível em vez de autoritária e dogmática, facilita indubitavelmente o funcionamento da representação. (COTTA, 1998, p. 1104-1105).
O debate sobre a representação política em contextos democráticos envolve, sobretudo, os “poderes do representante” e “o conteúdo da representação”. “Como uma fórmula cômoda, costuma-se dizer que o problema da representação pode ter soluções diversas conforme as respostas que, uma vez acertado que A deve representar B, damos à pergunta: Como o representa? e Que coisa representa?” (BOBBIO, 2002, p. 58).
O termo participação se acomoda também a diferentes interpretações, já que se pode participar, ou tomar parte em alguma coisa, de modo bem diferente, desde a condição de simples expectador mais ou menos marginal à de protagonista de destaque. No bojo da variabilidade participativa, identificam-se os conceitos de “participação comunitária” (CUNILL-GRAU, 1998; TEIXEIRA, 2000), “participação social” (CUNILL-GRAU, 1998;
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O conceito de participação comunitária é trabalhado por Cunill-Grau (1998) e Teixeira (2000), que a entendem como o conjunto de práticas desenvolvidas por sujeitos no âmbito de associações comunitárias, com o objetivo de promover a melhoria de vida de sua comunidade por meio da provisão de serviços públicos. Segundo os autores, balanços críticos dessa forma de participação enunciam diversos problemas e limites, como a possibilidade de cooptação das entidades ou do estabelecimento de relações tradicionais clientelistas. Para os autores, a noção de participação comunitária aponta para as relações da Sociedade com o Estado em um caráter restrito e assistencial.
Outro termo presente no vocabulário sociopolítico é o de participação social que também é discutido por esses autores, que destacam a dimensão organizativa e mobilizatória da Sociedade como aspecto que essa noção privilegia. A participação social é caracterizada, por Cunill-Grau (1998), como a participação dos sujeitos em organizações da Sociedade, voltada para a defesa de interesses sociais – as organizações da sociedade civil organizada ou organizações do terceiro setor. Teixeira (2002) amplia tal noção e define a participação social a partir de sua inscrição nos diversos processos de organização e mobilização societários.
É também Teixeira (2002) quem procura delinear a noção de participação popular, entendida como a ação desenvolvida pelos movimentos (grande parte reivindicativos), visando ao atendimento a demandas ou realização de protestos. Para a autora, dois elementos podem ser destacados na cunhagem do conceito de participação popular: a marcação de um posicionamento antiestado e a sua circunscrição aos segmentos sociais historicamente explorados.
Quanto à “participação cidadã”, ela se refere às práticas produzidas pela Sociedade no âmbito de espaços de tomada de decisão referentes a interesses comuns. Pode ser definida “como possibilidade de intervir nas decisões relativas às escolhas de políticas públicas, independentemente do caráter convencional ou não convencional”, podendo ter seu curso nos espaços públicos e nas instâncias de interlocução entre o poder público e a Sociedade. (SANTOS, 1998, p. 115). Neste último caso está articulada à ideia de participação política.
A participação política é geralmente usada para designar uma variada série de atividades: o ato do voto, a militância num partido político, a participação em manifestações, a contribuição para uma certa agremiação política, a discussão de acontecimentos políticos, a participação num comício ou numa reunião de seção, o apoio a um determinado candidato no decorrer da campanha eleitoral, a pressão exercida sobre um dirigente político, a difusão de informações políticas e por aí além (SANI, 1998).
54 Existem pelo menos três formas de participação política: a) a participação como presença – o participante não se posiciona em relação aos assuntos tratados; b) a participação como ativação – o participante desenvolve, dentro ou fora de uma organização política, uma série de atividades que lhe foram confiadas por delegação permanente, de que é incumbido de vez em quando, ou que ele mesmo pode promover; c) a participação estrita – o participante contribui diretamente, com base em suas escolhas vinculadas a interesses comuns, de decisões políticas (SANI, 1998). Esta última – participação estrita – somente pode se efetivar por meio da vinculação à representação.
Considerando-se que participação envolve fazer parte, tomar parte ou ter parte, Bordenave (1985) explica que a participação pode ser passiva: quando o indivíduo somente faz parte; ou ativa: quando ele toma ou tem parte nela.
Bulhões faz parte de nosso grupo, mas raramente toma parte das reuniões. Fazemos parte da população do Brasil, mas não tomamos parte nas decisões importantes. Edgar faz parte de nossa empresa, mas não tem parte alguma no negócio. Estas frases indicam que é possível fazer parte sem tomar parte e que a segunda expressão representa um nível mais intenso de participação. Eis a diferença entre a participação passiva e a participação ativa, a distância entre o cidadão inerte e o cidadão engajado. (BORDENAVE, 1985, p. 22).
Pitkin (2006) e Urbinati (2006) investigam as condições que tornam a representação democrática um modo de participação política que possa ativar uma variedade de formas de controle e supervisão dos cidadãos, e defendem a tese de que a democracia representativa é uma forma de governo original, que não é idêntica à democracia eleitoral. Para tanto, propõe que a representação política seja um processo circular, suscetível ao atrito, entre as instituições estatais e as práticas sociais.
Uma teoria da democracia representativa envolve uma revisão da concepção moderna de soberania popular que conteste o monopólio da vontade na definição e na prática da liberdade política. Ela marca o fim da política do sim ou não e o início da política como uma arena de opiniões contestáveis e decisões sujeitas à revisão a qualquer tempo. Isso amplifica o significado da própria presença política, porque faz da vocalização sua manifestação mais ativa e consoante e do juízo acerca das leis e políticas justas e injustas seu conteúdo. Pode-se dizer que a representação política provoca a disseminação da presença do soberano e sua transformação em uma tarefa contínua e regulada de contestação e reconstrução da legitimidade. (URBINATI, 2006, p. 153).
Tomando por base que a democracia representativa não se limita à democracia eleitoral, Urbinati (2006) pergunta o que torna a representação democrática. E responde: a representatividade da representação.
Pode-se dizer que a representação política provoca a disseminação da presença do soberano e sua transformação em uma tarefa contínua e regulada de contestação e
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reconstrução da legitimidade. Portanto, embora a autorização eleitoral seja essencial para se determinar os limites e a responsabilidade do poder político, ela não nos diz muito a respeito da verdadeira natureza da política representativa em uma sociedade democrática. As eleições “engendram” a representação, mas não “engendram” os representantes. No mínimo, elas produzem um governo responsável e limitado, mas não um governo representativo. (URBINATI, 2006, p. 193).
Os sentidos e as práticas de representação e participação têm conformado processos de “pluralização da representação” (URBINATI; WARREN, 2008), traduzido por, pelo menos, dois tipos de representação de base não eleitoral: a) a autorrepresentação, orientada pela reivindicação social de sujeitos individuais ou coletivos sem qualquer autorização de outrem, seja este pessoa, grupo, categoria, classe; e b) a representação cidadã, atestada pela participação ativa de sujeitos coletivos que, em espaços de discussão, consulta e deliberação, agem, via representação, em prol da inclusão dos demais cidadãos.
A representação cidadã conforma, então, intercâmbios virtuosos entre representação política e participação política, o que significa “agir no interesse dos representados, de uma maneira responsiva a eles” (PITKIN, 2006 apud AZEVEDO, 2012, p. 86).
O círculo virtuoso entre representação política e participação política conforma, em alguma medida, um continuum, tal como pensado por Bobbio (2002).
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