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PARA BORCUNUN BANKA HAVALESĠ YOLUYLA ÖDENMESĠ

B) Faiz Ödeme Yükümlülüğü

II. PARA BORCUNUN BANKA HAVALESĠ YOLUYLA ÖDENMESĠ

Conforme apresentei no capítulo um, meu objetivo nesta pesquisa consiste em compreender o processo de transnacionalização do movimento negro brasileiro

e as suas consequências para a luta antirracista no Brasil. Para isso, me proponho a

analisar como os processos de contenção transnacional discutidos neste capítulo se desenvolvem na luta anti-racista brasileira. Utilizo a metáfora do Atlântico Negro para denominar os conteúdos (idéias e práticas) que o movimento negro brasileiro tem importado de outros contextos de luta para o contexto nacional; e a metáfora do

Encontro das Águas para delimitar as especificidades da luta antirracista no Brasil.

Olhar a contenção transnacional nestes termos implica em reconhecê-la como um tipo de transnacionalismo negro, cujo referente principal é o contexto de lutas norte- americano, tendo o movimento negro brasileiro como um ator transnacional, parte de seus militantes como “cosmopolitas enraizados” e o governo brasileiro como principal legitimador destes conteúdos.

Assim, para compreender os limites e possibilidades deste transnacionalismo negro, a análise das narrativas me permitiu acessar os frames racialistas de ação coletiva do movimento negro brasileiro, bem como os frames não-racialistas de resistência à ação coletiva do movimento negro a partir de uma gama variada de

dados que formaram o corpus da pesquisa. Os textos narrativos foram extraídos de múltiplas fontes, tais como depoimentos, entrevista, artigos de jornal, autobiografias, discursos proferidos e documentos oficiais9. Após a leitura flutuante destas fontes, foi selecionado um conjunto de textos que formaram o corpus da pesquisa:

• 67 (sessenta e sete) discursos proferidos por militantes, intelectuais e políticos registrados em notas taquigráficas do Congresso Nacional, do Senado Federal e do Superior Tribunal Federal sobre os debates em torno dos aspectos positivos e negativos da Políticas de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial realizados entre 2007 e 2010;

• 46 (quarenta e seis) artigos de opinião publicados entre 2002 e 2006 nos principais jornais em circulação no país, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo e Correio Brasiliense. Todos os artigos foram republicados no livro “Divisões Perigosas: políticas raciais no

Brasil contemporâneo”, organizado por Peter Fry, Yvonne Maggie, Marcos

Chor Maio, Simone Monteiro e Ricardo Ventura Santos;

• 38 (trinta e oito) depoimentos concedidos entre 2003 e 2007 por militantes do movimento negro brasileiro ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV-RJ) para compor o acervo do Programa de História Oral desta instituição. Todos estes depoimentos foram transcritos e publicados no livro “Histórias do Movimento no Brasil: depoimentos ao CPDOC”, organizado por Verena Alberti e Amilcar Araujo Pereira;

• 03 (três) pronunciamentos da Presidência da República feitos pelos dois últimos presidentes da república entre 1995 e 2010 sobre as políticas de ação afirmativas e as condicionantes para sua implementação no Brasil;

• 01 (uma) entrevista em profundidade concedida em 2010 pelo Coordenador da Área de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), atualizando as posições expressas nos depoimentos, discursos e artigos selecionados. No que diz respeito a análise realizada e a ligação dela com a discussão apresentada na tese, procurei distribui-las ao longo dos capítulos, abordando em cada um deles as etapas da pesquisa. Assim, considerando os níveis narrativos que formam o texto (vide Quadro 2.1), bem como a necessidade de contextualiza-los, o

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capítulo três aborda os mecanismos geradores da narrativa, ou seja, as macro-

estruturas que condicionam ou influenciam as fábulas e estórias que são contadas pelo e sobre o movimento negro. Trata-se da história do racismo no Brasil e no

mundo e como o conceito de “raça” se desenvolveu ao longo do século XIX e XX, produzindo formas específicas de contenção transnacional e doméstica que são difundidos por mecanismos relacionais e não-relacionais.

No capítulo quatro eu abordo os níveis da fábula e das estórias, ou seja, as

micro-estruturas que se desenvolvem no diagnóstico, prognóstico e motivação do

movimento negro brasileiro e nas ações de mobilização de recursos, de acesso as oportunidades políticas e nas táticas de protesto que são guiadas pelo framing global formado durante dos processos de difusão e adaptação local. Este último, é abordado no capítulo cinco, que apresenta os limites do transnacionalismo negro a partir da disputa de frames que ocorre quando este framing global (identidade racial) se choca com o framing doméstico (identidade nacional). Para construir este frame, utilizo os mecanismos geradores da formação étnica no Brasil e a sua ênfase na mestiçagem que associada a identidade nacional e se reproduz nas narrativas de diversos atores que se colocam contra o racialismo. Esta disputa de frames é compreendida a partir dos níveis macro e micro que compõem as narrativas contrárias à contenção transnacional.

Ao desenvolver estes capítulos, estou ciente de estar (re)produzindo um

texto. Ou seja, materializando uma versão particular do que seja o transnacionalismo

negro e das suas implicações para a promoção da igualdade racial no Brasil. Portanto, os resultados apresentados guardam esta particularidade que é inerente a investigação qualitativa, qual seja, a dificuldade de extrapolar o contexto específico desta análise. Assim, compartilho das observações de Brown (2006), que define as pessoas como homo narrans e homo fabulans, ou seja, como contadores e intérpretes de narrativas que, uma vez dispostos a pensar de uma forma narrativa, a realidade que constroem é sempre uma realidade narrativa

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DAS HISTORIAS LOCAIS AOS DESENHOS GLOBAIS Notas Sobre a Construção, Difusão e Apropriação de Frames

Ao final da sua análise sobre a atuação do movimento negro brasileiro nos últimos cem anos, Andrews (1991, p.41) sugere que “se a raça surgirá como um foco de renovadas lutas nos anos noventa, é algo a conferir; mas pode-se duvidar de que se tenha atingido ‘o fim da história’ no que se refere ao protesto político negro”. Sem qualquer pretensão de prever o futuro, Andrews acaba tocando o elemento central que nortearia os desdobramentos do movimento negro brasileiro nas décadas de 1980 e 1990: o distanciamento da noção de classe social seguido de uma aproximação da noção de raça. Nesta linha, busca-se a construção da raça

negra brasileira a partir do consenso entre uma parcela significativa da militância de

que todos os mestiços compõem a categoria “negro”. Quem não é branco, então é um não-branco, ou seja, um negro que deve ser contabilizado nas estatísticas, ampliando o mapa da exclusão racial no país.

Foi com esta plataforma de luta que o movimento negro brasileiro conseguiu avançar de forma acelerada nos anos que seguiram após a proposição de Andrews. A busca pela racialização, como estratégia de afirmação da raça negra, reflete um tipo de demanda que extrapola as fronteiras nacionais, pois articulam questões sociais que envolvem elementos históricos na construção, reconstrução e desconstrução de identidades coletivas (Hall, 1999a). Trata-se de uma busca deliberada por uma ancestralidade africana que simbolicamente os conecta ao espaço de relações transnacionais construído pela diáspora negra e que já abordei na introdução desta tese como sendo o espaço do Atlântico Negro (cf. Gilroy, 2001). Será a partir deste espaço que intensas trocas ideológicas e materiais entre os negros espalhados pelo mundo serão efetuadas.

Para os negros brasileiros interessa saber quais são os caminhos mais eficazes para se melhorar as condições de vida da população negra no país. O que leva a uma aproximação entre a experiência vivida por eles aqui no Brasil e a experiência de outros grupos negros espalhados pelo mundo. É neste contexto que

a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos aparece como “paradigma” de luta antirracista no mundo. Suas políticas de ação afirmativa são o carro chefe das propostas que se colocam como uma possibilidade para o Brasil desde os anos 1980, quando as primeiras delas começam a se delinear no abito da militância negra (Nascimento & Nascimento, 2000). A questão mais importante em todo este processo não está em simplesmente trazer o “paradigma” racial americano para o Brasil e aplicá-lo cirurgicamente na resolução das desigualdades raciais, mas em incorporá-lo a forma com que o negro brasileiro se vê. O que significa adotar uma nova identidade racial, cuja orientação não admite zonas intermediárias (mestiços) e exige que todos os brasileiros assumam um posicionamento racial.

Feitas estas observações iniciais, meu objetivo neste capítulo é analisar como o processo de racialização em curso hoje no país se relaciona com formas de organização da luta anti-racista desenvolvidas fora do contexto brasileiro. Meu ponto de partida é que o pensamento racial brasileiro nas últimas décadas foi se alinhando ao que denomino aqui de frame racialista. Uma matriz de pensamento adotada pelo movimento negro brasileiro que se alimenta tanto do Atlântico Negro, quanto do multiculturalismo, se apropriando dos seus conteúdos (idéias e práticas) para redefinir sua organização e formas de ação. Esta apropriação, por sua vez, acontece no âmbito dos processos de contenção transnacional em que a militância brasileira se relaciona direta e/ou indiretamente com tais conteúdos, tomando-os como parâmetro para a introdução de uma nova lógica racial no país.

O capítulo está organizado da seguinte forma: na primeira parte abordo questões teóricas relativas à idéia de raça e como ela se desenvolve no debate brasileiro. Em seguida abordo as origens do pensamento racialista e a sua vinculação com a diáspora negra para a formação da identidade afro-descendente. Ao discutir como esta identidade conecta a experiência brasileira a de outros povos ligados ao Atlântico Negro, podemos avaliar seu nível de suscetibilidade aos discursos que circulam fora do país, principalmente aqueles de origem americana, visto por muitos como referência na luta dos negros por direitos.