Conforme já argumentei, a globalização trouxe implicações também para a ação coletiva, ampliando a estrutura de oportunidades, a disponibilidade de recursos e a circulação de frames entre os países. Neste contexto, de crescente internacionalização, a ação dos movimentos sociais começa a ser influenciada pelos processos de contenção transnacional que funcionam a partir de três grupos de processos que, segundo Tarrow (2006), nos ajudam a compreender sua dinâmica: (1) o primeiro deles é o grupo formado por processos de caráter mais “doméstico”, que são o framing global e a internalização; (2) o segundo grupo, de caráter mais “internacional”, é formado pelos processos de formação de coalizão e
externalização; e (3) o terceiro grupo, responsável por conectar os dois primeiros, é
formado pelos processos de difusão e de ampliação da escala.
O processo de framing global é um dos mais importantes da contenção transnacional, pois estabelece os laços cognitivos que permitem a colaboração entre ativistas e movimentos sociais em diferentes países. Consiste na mobilização de símbolos globais para formação de frames de ação coletiva locais. Um processo que liga simbolicamente pessoas, grupos e organizações à causas que estão relativamente distantes delas. Os mecanismos utilizados neste processo são a ponte de frames e a transformação de frames (vide item 2.2.3), o primeiro conecta atores que sejam ideologicamente congruentes e o segundo promove um tipo de conversão ideológica. Ao consolidar estes dois mecanismos, tem-se a formação do frame global. Porém, Tarrow (2006) chama atenção para o fato que a transformação de
frame é muito mais difícil de ocorrer do que a ponte de frames. Para o autor, os
ativistas podem até se conectar por conta das afinidades, mas isso não significa que mudarão suas convicções a partir deste contato.
No caso da a internalização, ela ocorre logo após a formação do framing global e consiste na migração de pressões e conflitos internacionais para dentro do contexto político doméstica e envolve uma triangulação de pessoas, governo e instituições internacionais que respondem à estas pressões e conflitos. Ela ocorre a
partir da pressão externa, por meio de incentivos ou sanções, para que o país adote políticas internacionais, a partir dos cidadãos (o que inclui os ativistas) que pressionam, por meio de protestos, a adoção das políticas que estejam alinhadas ao seu frame global, o que leva os governos a implementar ou rejeitar tais políticas fazendo concessões ou repressões aos ativistas.
O processo de difusão, conforme discutido, consiste na transferência de conteúdos de um lugar para o outro. Os mecanismos utilizados neste caso são de caráter relacional (difusão relacional) e não-relacional (difusão não-relacional e mediada), que operam como processos intermediários que antecedem e facilitam o
framing global e a internalização. Trata-se de um caminho que segue o fluxo do
global para o local. Na ampliação da escala ocorre um processo inverso ao da difusão. Ou seja, consiste num processo de propagação em que os conteúdos domésticos alcançam o domínio internacional operando em contextos de ação ampliados. Os mecanismos utilizados neste caso são a coordenação, que envolve um planejamento conjunto da ação coletiva e a criação de instâncias de colaboração transnacional e a teorização destas ações, que “[...] permite a generalização e abstração de uma idéia de causalidade do núcleo de uma determinada realidade em um quadro geral que pode ser aplicado a outras realidades” (Tarrow, 2006, p.122).
O processo de formação da coalizão se encarrega de organizar os conteúdos gerados num contexto particular para que eles sejam difundidos para contextos mais amplos. Como observa Tarrow (2006, p.164), “todos os movimentos sociais são feitos de coalizões, mas nem todas as coalizões produzem movimentos sociais”. Para que formem movimentos sociais as coalizões precisam de framing (que estabelece os laços cognitivos), confiança (que define o grau de compromisso), negociação (que media as diferenças) e incentivos (que representam as vantagens da coalizão). Quando estes elementos se alinham fora das fronteiras domésticas, tem-se uma extensa gama de conteúdos que estão aptos para a serem difundidos como um conjunto de estratégias, táticas e frames válidos para diferentes contextos de luta que compartilhem de uma questão comum.
Por fim, a externalização é uma projeção vertical de conteúdos domésticos que entram no processo de difusão. Esta projeção ocorre quando uma questão doméstica vem à tona por meio da ação coletiva e se depara com três situações, que ajudam na externalização: (1) a repressão, o que conduz a uma estratégia de extensão de frames que expande seu próprio frames, adicionando outras
informações que o faça ser melhor representado; (2) a não-resposta ou indiferença, o que conduz a uma estratégia de ponte de frames que visa acessar contextos mais amplos que lhe respondam de acordo com as expectativas; e (3) a facilitação, que conduz a uma transformação de frames possibilitando uma ação direta.
Estes seis processos se relacionam conforme a Figura 2.1 e se desenvolvem a partir de dois fluxos: (1) do local para o global, quando determinado conteúdo se forma no contexto doméstico, se espalha horizontalmente formando coalizões, em seguida é externalizado para outros contextos a fim de obter o apoio ou uma resposta de acordo com as suas expectativas. O que o transporta até o contexto global é o processo de ampliação da escala, que permite maior alcance das questões outrora tratadas apenas localmente; (2) do global para o local, quando determinado conteúdo se estabelece internacionalmente e se espalha por diversos lugares formando framing globais, seguido de pressões que levam governos locais a internalizarem este conteúdo. O que o transporta até o contexto local é o processo de difusão, que permite o alinhamento entre estes dois níveis de contenção.
Figura 2.1 Processos de contenção transnacional Fonte: Adaptado de Tarrow (2006, p.33)
Internalização Framing Global Formação de Coalisão Externalização Doméstico Doméstico Internacional Internacional Lugar do Ativismo Escopo da Questão Ampliação de Escala Difusão
Embora o ativismo transnacional proporcione algumas vantagens, a inserção de movimentos locais neste nível de contenção não ocorre sem problemas. Principalmente nos processos de difusão, framing global e internalização, pois envolvem outros dois processos essenciais que, segundo Roggeband (2007), podem ser bastante difíceis de serem desenvolvidos, que são a recepção e a
recontextualização. O primeiro refere-se a forma com que os movimento sociais
percebem e interpretam um conteúdo (idéias e práticas) desenvolvido em outro contexto. Eles podem apreciar este conteúdo e optar por aplicá-lo em seu próprio contexto a partir de um exemplo estrangeiro. O segundo caso enfatiza como os atores lidam com as diferenças entre o contexto original do conteúdo difundido e o seu próprio contexto. Ao recontextualizar estes conteúdos, os movimentos sociais o fazem de maneira criativa e pragmática, pois devem considerar as restrições e
oportunidades para a adoção daquele conteúdo (Roggeband, 2007).
Ambos os processos envolvem complexa negociação dentro e fora do movimento. Por sua vez, esta negociação envolve dois mecanismos que são importantes para o sucesso destes processos: (1) a mobilização, que busca, dentro do movimento social, a simpatia e o entusiasmo dos ativistas para a recepção dos conteúdos externos; e (2) a certificação, que busca legitimar os conteúdos recebidos, fora do movimento social, por autoridades governamentais e não- governamentais que possam apoiar a recepção e facilitar a recontextualização destes conteúdos. A Organização das Nações Unidas (ONU) e os governos locais podem ser vistos como potenciais certificadores. Contudo, Tarrow (2006, p.62) alerta para o fato de que a certificação, ou seja, esta negociação com atores externos, é mais difícil do que a recepção pelo movimento, pois “ativistas que importam símbolos estrangeiros podem colocar as autoridades fora do jogo, caso em que o movimento ganha uma vantagem temporária, mas os estados e as elites são rápidos para atacar a legitimidade dos desafiadores em nome da defesa de valores nacionais”. A relação destes mecanismos com os processos de difusão e mediação ocorrem de acordo com a Figura 2.2.
Figura 2.2 O impacto doméstico do ativismo transnacional Fonte: Adaptado de Tarrow (2006, p.187)
A Figura 2.2 recupera nossa discussão anterior e aborda especificamente os conteúdos que se movem do global para o local, ou seja, quando são formados fora do contexto doméstico e chegam até ele por meio do processo de difusão que, ao ser recebido passa por um processo de mobilização (criando pontes que promovam o framing global) dentro do movimento social e depois pela recontextualizado com a
certificação (triangulação com outros atores para gerar a internalização) das
autoridades facilitadoras. Ambos os processos caracterizam o último e mais difícil elemento do modelo de impacto doméstico da difusão transnacional, que é a
adaptação local. É o mais difícil porque, durante a internalização há o envolvimento
de atores fora do movimento social, que nem sempre estão de acordo com o framing global e defendem interesses de grupos locais contrários à mudança social.
Para entender estes mecanismos, que seguem desde a produção de um conteúdo (idéias e práticas) fora do contexto doméstico, passando pela difusão deste conteúdo, até a sua adaptação local, deve-se considerar que são processos
dinâmicos. Ou seja, a própria lógica processual que envolve o ativismo e a
contenção transnacional nos coloca o desafio de compreender estes fenômenos a partir da própria fluidez que os caracteriza. Significa dizer que precisamos de um instrumento de pesquisa capaz de captar o fenômeno em movimento, na sequência
dos processos e no sentido que eles geram para todos os sujeitos envolvidos nele.
Com efeito, o próximo item trata do método de análise de narrativas como recurso metodológico para lidar com esta dinâmica.
Afinal, como ressaltam Nygren e Blom (2001), as narrativas são usadas nas ciências sociais fundamentalmente para descrever e ajudar a entender a complexidade de processos nos quais as pessoas interagem. As próprias narrativas, em si, podem ser entendidas como um processo constitutivo através do qual os
Ação Coletiva Não-Local Difusão e Mediação Mobilização e Certificação Adaptação Local
sujeitos organizam a concepção de si e do mundo envolta deles (Hopkinson, 2003). Portanto, quando adotamos a abordagem narrativa como método, somos levados ao reconhecimento do quanto a pesquisa também é um processo contínuo de criação, sustentação e modificação de múltiplas “versões da realidade” (Chia, 1996).