• Sonuç bulunamadı

Ġcra Müdürüne Bir Çekin Teslimi

Antes mesmo de o racialismo se consolidar como ideologia política e como forma de justificação do seu irmão siamês, que é o colonialismo, ele já havia sido desenvolvido enquanto tal no próprio coração da Europa, tendo sua origem no século XVIII e sua difusão no século XIX. Duas versões do pensamento racial são apontadas por Hannah Arendt (1989) como fontes desta ideologia: aquela que buscava separar grupos humanos e aquela que buscava juntar estes grupos para depois destruir outros grupos humanos.

A separação por meio da “raça” surge com o conde de Boulainvillers, membro da aristocracia francesa que, no começo do século XVIII, “[...] propôs que seus companheiros de nobreza negassem ter origem comum com o povo francês, quebrassem a unidade da nação e alegassem uma distinção peculiar e eterna” (Arendt, 1989, p.192). Em resumo, a proposta criava duas nações diferentes dentro da França, uma composta pela nobreza que descendia dos conquistadores que se impuseram pela força, subjugando os plebeus que, sendo parte da outra nação, devia-lhes apenas a obediência em troca da liberdade que lhes era garantida por esta nobreza. No sentido moderno do pensamento racial, era como se os nobres fossem conquistadores e os plebeus nativos, habitantes originais daquela terra que fora organizada e depois governada pelos que a conquistaram. Nessa perspectiva, havia uma nobreza supranacional que compunha uma aristocracia de origem germânica com filiações desconectadas do povo. O que acabou se tornando uma estratégia de aproximação entre os nobres que foram para o exílio após a revolução francesa e a aristocracia européia ainda preservada em outros países, cuja nobreza também faziam parte desta estirpe “internacional”. Um dos exilados mais notáveis deste pensamento racialista foi o Conde Gobineau, principal vetor das teorias raciais nas colônias ultramar, que se utilizaram desta primeira versão do racialismo como principal justificativa para os imperialismos português, inglês e francês, bem como a dominação destes sobre os chamados “povos nativos”.

Na segunda versão do pensamento racial, os alemães, após a derrota do velho exército prussiano para as forças de Napoleão, buscaram na ideologia racial um caminho diferente daquele traçado pelos franceses. Ao invés de usá-las para justificar diferenças entre grupos separados dentro do país, “[...] o pensamento racial dos alemães resultou do esforço de unir o povo contra o domínio estrangeiro. Seus autores não procuravam aliados além das fronteiras: buscaram despertar no povo a consciência de uma origem comum” (Arendt, 1989, p.195). Ao fazerem isso se apropriam da noção de raça para construir um tipo de denominador comum entre os alemães e ao mesmo tempo justificar a hostilidade contra aqueles que não faziam parte da sua “raça”. Embora gestado na Alemanha oitocentista, os reflexos desta mentalidade chegam ao século XX no formato do pensamento nazista que, seguindo a mesma lógica de união interna, formula o nacionalismo alemão baseado na superioridade ariana e declara todos os judeus como uma ameaça a esta integração, colocando-os na condição de “raça” inferior que deveria ser exterminada. Em ambas as versões, seja para conquistar ou para destruir, a noção de raça assume a função de princípio organizador de diferenças que ajudam a distinguir grupos humanos. Na definição de Appiah (1997, p.33), a doutrina baseada na raça, é a visão de que “[...] existem características hereditárias, possuídas por membros de nossa espécie, que nos permitem dividi-los num pequeno conjunto de raças, de tal modo que todos os membros dessas raças compartilham entre si certos traços e tendências que eles não têm em comum com membros de nenhuma outra raça. Esses traços e tendências característicos de uma raça constituem, segundo a visão racialista, uma espécie de essência racial”. Com base neste essencialismo, diversas identidades coletivas se formaram a fim de preservar tal essência. Assim, com finalidade diversa da origem do racialismo – de conquistar ou destruir – o racialismo negro se desenvolve para preservar a essência de ser negro, enquanto grupo possuidor de traços e tendências diferentes de todos os demais grupos, cuja origem repousa na idéia de África como berço de todos os negros do mundo. Trata-se do que hoje denominamos de diáspora negra, que significa o fenômeno de saída do povo negro de seu lugar de origem rumo ao Novo Mundo. Um dos principais defensores desta idéia é o afro-americano William Edward Burghardt Du Bois, ou simplesmente, W.E.B. DuBois, que no final do século XIX desenvolve a noção de

“pan-africanismo”21, como um conceito que ajuda a compreender o papel da diáspora no contexto das lutas antirracistas no mundo.

No texto “A conservação das raças”, de 1897, DuBois rejeita as acepções de raça como um dado científico (isto é, biológico) e procura enxergar esta questão do ponto de vista sócio-histórico, tomando a raça como um produto deste e não daquele. Assim, para o autor, “[...] A história do mundo é a história, não de indivíduos, mas de grupos, não de nações, mas de raças, e quem ignora ou tenta substituir a idéia de raça na história humana ignora e substitui o pensamento central de toda a história”, dito isso, ele complementa: “O que é, então, uma raça? É uma vasta família de seres humanos, em geral, de sangue e língua comuns, sempre de uma história comum, tradições e impulsos, que são ambos de forma voluntária e involuntariamente, lutando juntos para a realização de certos ideais de vida, mais ou menos vividamente concebidos” (DuBois, 1897, p.6, grifos meus). Com estas afirmações, DuBois delineia as bases de uma origem comum para as raças, uma base sanguínea, linguística e, sobretudo histórica que será o denominador comum entre todos os negros do mundo que compõem esta raça.

Tendo uma origem comum, os negros poderiam levar a cabo a “conservação” da sua raça a partir de uma luta por seus ideais. Neste sentido, DuBois (1897, p.9) conclama que “[...] As vanguarda do povo negro, as 8.000.000 de pessoas de sangue negro nos Estados Unidos da América, devem em breve vir a perceber que se eles estão a tomar o seu lugar à frente do Pan-Negrismo, então seu destino não é a absorção pelos norte-americanos brancos”. A negação de ser absorvido pela cultura branca reflete uma linha pensamento próxima a primeira versão do racialismo europeu, de separar a nação dentro da nação, isto é, o mundo dos negros dentro do mundo dos brancos e, ainda, um compromisso com uma herança histórica fora das fronteiras estadunidenses. Com a história e o sangue negro herdado de uma “pátria africana”, que, forçada pelo colonialismo, exportou seus filhos para o Novo Mundo, seria um dever dos negros preservarem sua força física, seus dons intelectuais e seus ideais espirituais. Para tanto, DuBois defendia que era preciso criar organizações negras: “[...] faculdades negras, jornais negros, empresas negras,

21

Segundo Appiah (1997, p.53, grifos meus), “Alexander Crummel e Edward Wilmot Blyden deram início à articulação intelectual de uma ideologia pan-africanista; mas foi W.E.B. DuBois que lançou as bases intelectuais

e práticas do movimento pan-africano”. Com efeito, me fixarei nas idéias de DuBois sobre o pan-africanismo

justamente pelo fato de ele lançar estas bases, que serão apropriadas na luta antirracista nos EUA e noutras partes do mundo. Para detalhes sobre as origens do pan-africanismo, ver Appiah (1997), capítulos 1 e 2.

escolas de literatura e arte negra, e uma câmara de compensação intelectual, para todos estes produtos da mente negra, que podemos chamar de uma Academia Negra. Não só tudo isso é necessário para o avanço positivo, como é absolutamente imperativo para a defesa negativa” (DuBois, 1897, p.11).

A proposta de DuBois, de preservar a raça negra como base de luta dos ideais negros, tem duas consequências importantes para o anti-racismo no século XX. A primeira delas é a invenção da África como pátria de todos os negros22. Isto é, ligar todos os negros do mundo ao continente africano criando uma base comum de uma suposta origem histórica e sanguínea, já que em termos linguísticos, considerando os diferentes colonialismos (anglófono, francófono e lusófono), isso seria impossível de se realizar. Assim, diante da pluralidade linguística dos povos africanos e das diferentes regiões ocupadas pela diáspora negra, a história seria o grande elo entre estes povos, bem como a cultura levada com eles para o Novo Mundo. Outras versões como a Negrítude (desenvolvida no mundo francófono) e o Atlântico Negro (novamente desenvolvida no mundo anglófono), buscaram retomar esta origem comum com a interpretação da cultura negra e da sua recepção no campo da literatura e da música nos países da diáspora23.

A segunda consequência do Pan-africanismo de DuBois está na racialização da resistência negra com a “conservação” da raça enquanto principio de organização da luta contra a assimilação cultural e pela busca do ideal comum dos negros. Nesta visão, em parte alimentada pelo próprio regime de segregação racial dos EUA, têm-se a raça negra como uma nação dentro da nação norte-americana, cuja existência deveria ser organizada como um mundo paralelo ao mundo dos brancos. Uma versão radical desta conservação da raça surge com o movimento

22

Apesar de ter sido uma empresa bem sucedida no século XX, esta idéia é radicalmente combatida pelo filósofo africano Kwame Appiah, que problematiza a existência desta ligação feita por DuBois. Para Appiah (1997, p.68), “[...] seja o que for que os afro-americanos e os africanos tenham em comum, desde os achantis até os zulus, não se trata de uma única civilização”. Na verdade, a invenção da África, ainda segundo Appiah (1997, p.75), trata-se de um desejo de DuBois de “[...] desesperadamente encontrar na África e em meio aos africanos um lar, um lugar do qual pudesse sentir, como nunca sentira nos Estados Unidos, que fazia parte”.

23

O movimento Negrítude ganha notoriedade a partir do trabalho de intelectuais negros como Aimé Césaire da Martinica e criador do termo “negritude”, Léon Damas da Guiana Francesa e Léopold Sédar Senghor do Senegal. Tratava-se de um movimento literário que visava resgatar a personalidade negra e ao mesmo tempo denunciar a dominação cultural imposta pelo colonialismo. Já o Atlântico Negro, formulado pelo sociólogo britânico Paul Gilroy (2001), não se caracteriza por um movimento em si, mas de uma reinterpretação da diáspora negra como contracultura da modernidade, com suas narrativas que formam este espaço transnacional da identidade negra. No próximo item deste capítulo retomo este último para analisar os efeitos da diáspora na atualidade. Para mais detalhes sobre o movimento negritude ver Munanga (1986).

Black Power24 e, mais recentemente, sob um discurso menos radical, com as políticas de reconhecimento vinculadas à idéia de multiculturalismo.

Nos próximos itens pretendo explorar estas duas consequências do Pan- africanismo nos dias atuais, argumentando que o núcleo destas idéias – plantadas no século XIX e desenvolvidas durante o século XX, principalmente nos EUA – ainda se mantém vivo e tem sido a base da luta anti-racista no mundo.

3.3 Do Atlântico Negro ao multiculturalismo e depois: consequências da