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ĠFA GERÇEKLEġMEMESĠNE RAĞMEN TEMERRÜDÜN SONA

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II. ĠFA GERÇEKLEġMEMESĠNE RAĞMEN TEMERRÜDÜN SONA

Para Hall (1999), a noção de diáspora negra traduz um tipo de solidariedade que transcende as fronteiras nacionais, transgride os limites políticos impostos pelos Estados nacionais e acaba por aproximar todos os negros espalhados pelo mundo durante o período colonial. Assim, a perspectiva diaspórica opera a partir de uma dinâmica que subverte os modelos culturais tradicionais orientados pelo conceito de “nação”. Há uma desterritorialização da cultura africana que se traduz hoje, conforme já discuti no capítulo introdutório, na metáfora do Atlântico Negro.

Pensar a cultura negra como algo que transcende as fronteiras nacionais significa recuperar a experiência de desenraizamento que o povo africano sofreu durante o período colonial. Em termos analíticos, significa “[...] assumir o Atlântico como uma unidade de análise única e complexa em suas discussões do mundo moderno e utilizá-la para produzir uma perspectiva explicitamente transnacional e intercultural” (Gilroy, 2001, p.57). Explicitamente o Atlântico Negro busca romper com o pensamento nacionalista – que enraíza as identidades culturais aos seus contextos territoriais – e explora os diálogos resultantes da experiência africana nos diversos espaços para onde os negros foram levados durante a diáspora. Esta forma de dispersão forçada pelo colonialismo produziu no povo negro uma dupla

consciência que os conecta simultaneamente ao seu local de vivência e as suas

origens africanas. Sendo esta, a principal ponte entre as diversas comunidades negras espalhadas pelo mundo. O que resulta em denominações identitárias como a de sujeito afro-americano, afro-caribenho ou afro-brasileiro.

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O movimento Black Power, criado no final dos anos 1960 e inicio dos anos 1970 sob a liderança de Robert F. Williams e Malcom X, defendia o orgulho racial, bem como a criação de organizações culturais e políticos negros que promovessem os interesses coletivos e a autonomia dos negros dentro da sociedade americana. Para mais detalhes sobre o movimento Black Power ver Joseph (2009).

Esta dinâmica de trocas culturais e da formação de uma dupla consciência nada mais é do que uma releitura dos movimentos que o antecederam, tais como o Pan-africanismo e a Négritude. Ao conectarem as diversas experiências de grupos afro-descendentes espalhados pelo Atlântico Negro, estas correntes de pensamento serviram como um fio condutor que ajudou a difundir propostas de organização das lutas antirracistas entre estes grupos, teorias sobre raça e racismo e políticas públicas destinadas a promover melhores condições de vida para as populações negras localizadas em diversos países. No campo político, estas dispersões populacionais geradas a partir do fenômeno da diáspora (não apenas a negra, mas de todas as outras etnias espalhadas pelo mundo por meio dos movimentos migratórios) se deparam com um dilema25 típico da diversidade cultural: a escolha entre a assimilação ou a diferenciação cultural.

No primeiro caso, a tese assimilacionista visa integrar as diferentes culturas fazendo desaparecer suas especificidades com o abandono parcial ou total de traços distintivos da língua, dos costumes e dos hábitos sociais. A suposição básica do assimilacionismo é que ao integrar as diferentes culturas haveria o fim dos conflitos étnico-sociais à medida em que todos compartilhassem de uma única

cultura comum (Hartmann & Gerteis, 2005). O principal problema desta tese reside

no fato de haver resistência por parte das minorias em se diluírem na cultura dominante, pois se trata de um processo que tende a eliminar identidades coletivas que são fruto da história destes povos e que não se desfazem facilmente.

Uma alternativa ao assimilacionismo é a tese da diferenciação, que tem sido pensada a partir da abordagem multiculturalista. Neste caso, há um reconhecimento das diferenças culturais e uma aceitação da especificidade cultural e social das minorias étnicas acreditando que indivíduos e grupos podem participar de uma sociedade sem perderem a sua especificidade, mantendo os elementos distintivos das suas culturas (língua, religião, hábitos e costumes). Além disso, o multiculturalismo admite a possibilidade de as minorias lutarem pelo reconhecimento de suas identidades culturais por meio da participação nos processos políticos, com

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Recentemente a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que a “multikulti-ansatz absolut gescheitert” (abordagem multicultural falhou completamente), referindo-se a incapacidade da Alemanha em conviver com a diversidade cultural naquele país. Embora vista com ressalvas no contexto europeu (cf. Semprini, 1999), o multiculturalismo tem sido uma alternativa viável em países como os EUA (cf. Kymlicka, 1998), visto como o criador desta “abordagem” ao buscar soluções para inclusão das minorias na sociedade americana.

vistas a afirmar sua diferença e obter direitos que eliminem obstáculos relacionados ao racismo e a discriminação (Taylor, 1994).

O multiculturalismo refere-se também às estratégias e políticas adotadas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade geradas pelas sociedades multiculturais (Hall, 2000). Neste sentido, o Estado assume um papel importante na construção do modelo multiculturalista, pois cabe a ele o estabelecimento de leis e normas que reconheçam o direito das minorias. O início deste modelo ocorre nos EUA quando, em resposta ao movimento pelos direitos civis as décadas de 1960 e 70, o governo elabora um conjunto de políticas que buscou incluir tais grupos e reconhecer seu direito à diferença (Kymlicka, 1997). As demandas dos grupos minoritários giraram em torno da educação, da inclusão no mercado de trabalho e da afirmação das identidades (Semprini, 1999). Entre as principais ações do governo americano está criação da Affirmative Action (Ação Afirmativa) pelo presidente John F. Kennedy em 1961 e ampliada pelo presidente Lyndon Johnson em 1964 (Walters, 1997).

A Affirmative Action (AA) nos EUA foi uma solução que se desenvolveu no contexto mais amplo de uma política de diversidade não-assimilacionista, ou seja diferencialista/multiculturalista, que, por sua vez, se desenvolveu a partir da própria história das relações raciais naquele país marcado pela Jim Crow26. De acordo com Morris (1984), a Jim Crow foi um sistema de dominação tripartite desenhado para controlar os negros politicamente (impedindo o voto e a participação na vida política), economicamente (explorando a força de trabalho sem garantias legais e impedindo o empreendedorismo negro) e socialmente (limitando os espaços públicos de convivência entre os brancos e as chamadas “colored people”). A reação dos negros contra esta situação acarretou no movimento dos direitos civis iniciado e desenvolvido durante todo o século XX, tendo seu ápice nos anos 1960, com a assinatura do Civil Rights Act em 1964, revogando a Jim Crow (Morris, 1984).

Na retrospectiva histórica feita por Morris (1999), o movimento dos direitos civis teve seu início no século XX, com os primeiros boicotes no sul do país entre

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As leis Jim Crow foram práticas sistemáticas de promover a segregação dos afro-americanos impedindo-os de frequentar espaços que eram destinados ao brancos, tais como escolas, habitação e mercado de trabalho. O que resultou na exclusão e imobilização de toda população negra nos Estados Unidos durante o período 1865- 1950. O efeito mais negativo destas práticas aparece na educação das crianças negras no sul do país, cujas condições de ensino eram precárias devido a falta de suprimentos, prédios escolares mal construídos e professores mal treinados. Isso deixou milhões de crianças negras em grande desvantagem com relação as crianças brancas. Para detalhes ver Morris (1984), Cap.1 e 2.

1900 e 1906, seguido da fundação da National Association for the Advanced of

Colored People (NAACP), em 1909-1910, primeira organização negra de caráter

nacional contra a Jim Crow. Tendo W.E.B. DuBois como um dos seus fundadores, a NAACP atacou a base legal da segregação, assumindo a defesa de casos de segregação racial junto a Suprema Corte Americana (Weaver, 1960). Na década de 1920 emergiram outros dois movimentos importantes. O primeiro foi o movimento de massa denominado de “Garveyism” liderado pelo Jamaicano Marcus Garvey27, que defendia a idéia de que todos os negros deveriam retornar à África. Embora muito criticado por outros líderes negros28, o garveyism teve o apoio de uma grande parcela de afro-americanos que viam na sua mensagem um tipo de refúgio espiritual (Burkett, 1978). O segundo grande movimento dos anos 20 foi o chamado “Harlem

Renaissance”, que, por meio da literatura, defendia a criação de um “Novo Negro”,

fruto de uma rica herança cultural africana, cuja identificação o prepararia para luta pela liberdade negra (Delgado-Tall, 2001). Ainda neste período, negros do Norte do país organizaram campanhas do tipo “não compre onde você não pode trabalhar”, como forma de boicotar empresas de proprietários brancos (Morris, 1999).

O grande impulso do protesto negro nos EUA ocorre com a emergência do chamado “Modern Civil Rights Movements”, que na década de 1940 organiza seu primeiro grande protesto com a March on Washington Movement (MOWM) sob a liderança de Philip Randolph, orientado pelo princípio da ação direta não-violenta, cujo objetivo era o de promover protestos pacíficos, que passariam a ser uma marca das ações realizadas nos anos seguintes29. Este tipo de protesto foi a base do boicote de Montgomery, em 1955, em que a comunidade negra deixou de usar os transportes públicos e outros serviços da cidade, forçando a Suprema Corte declarar como inconstitucional a segregação racial no Estado do Alabama.

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Marcus Garvey e sua organização, a Universal Negro Improvement Association (UNIA), representaram um dos maiores movimentos de massa na história da Afro-Americana. Proclamando um tipo de nacionalismo negro aliado a mensagem “Back to Africa”, Garvey e a UNIA estavam presentes em trinta e oito estados no início dos anos 1920. Tendo suas bases em áreas urbanas maiores, como Nova York, Chicago e Los Angeles, a mensagem de Garvey chegou em pequenas cidades em todo o país também. Mais tarde, outras organizações negras, como a NACCP e os grupos de negros islâmicos, acusaram Garvey de ser uma fraude e de pregar uma ortodoxia que prejudicava a luta antirracista na América. Sua influência foi sentida também no Canadá, Caribe e África. Para mais detalhes sobre o garveism ver Graves (1962); Sater (1996) e Chapman (2004).

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Um dos principais oponentes de Marcus Garvey era o ativista W.E.B DuBois que discordava das propostas elaboradas por Garvey. Para detalhes sobre estas divergências, ver Rogers (1955) e Rudwick (1959).

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A ação direta não-violenta foi inspirada nas idéias do indiano Mahatma Gandhi que era defensor do

Satyagraha, princípio da não-agressão como uma forma não-violenta de protesto. Para detalhes sobre a

A organização do boicote se deu por meio da Montgomery Improvement

Association (MIA), liderada pelo Pastor Martin Luther King Jr., cuja base eram as Black Churches e sua enorme capacidade de mobilização da comunidade negra.

Outro protesto nesta linha foi o chamado Sit-in Movement conduzido por estudantes contra a segregação em lanchonetes e locais públicos (cf. Morris, 1981). Neste protesto os estudantes ocupavam de maneira pacífica espaços públicos segregados e lá permaneciam imóveis sem reagir aos ataques e agressões dos jovens brancos. A partir deste protesto formou-se a Student Nonviolent Coordination Committee (SNCC), que ajudou a organizar jovens estudantes nas comunidades negras para resistir de forma pacífica ao regime de segregação racial no Sul do país. Além destas organizações, também estavam articuladas ao movimento dos direitos civis a

Southern Christian Leadership Conference (SCLC), o Congress of Racial Equality

(CORE) e a NAACP. Neste contexto a SNCC foi a principal organização que articulou a participação de estudantes brancos para apoiar os movimento dos direitos civis na década de 1960 (Morris, 1999).

O sucesso dos movimento dos direitos civis neste período, com a revogação da Jim Crow e a criação de políticas de ação afirmativa direcionadas a população negra, se deu por dois motivos, segundo Morris (1984; 1999): o primeiro foi o conjunto de oportunidades políticas do período, com (1) o poder do voto dos negros do Norte dos EUA passaram a ser um instrumento de pressão para criação de uma agenda negra nas eleições; (2) o contexto da Guerra Fria em que os países da África estavam sob ameaça de se emanciparem como regimes socialistas e o racismo norte-americano contava de forma negativa na persuasão destes países a se tornarem democracias capitalistas; (3) as modernas tecnologias de comunicação e informação que ajudaram a expor as condições do racismo para o povo americano e para o mundo, principalmente por meio da televisão; e (4) a migração maciça de negros para o Norte e para o Sul do país, fortalecendo as comunidades negras que apoiavam o movimento dos direitos civis.

O segundo motivo do sucesso do movimento dos direitos civis foi a capacidade de mobilização e a criatividade organizacional das formas de protesto e de articulação junto as comunidades negras30. Como destaca Morris (1999), os

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Morris (2000) destaca que embora tenhamos hoje uma noção clara do sucesso do movimento dos direitos civis, bem como das características que este tipo de ação coletiva pode assumir, muitos analistas se surpreenderam na época que o movimento eclodiu. Isso se deu porque havia duas crenças compartilhadas pela teoria de movimentos sociais antes da luta por direitos civis: (1) os sociólogos viam os negros rurais do sul como

boicotes econômicos, as ocupações pacíficas, as grandes marchas, a apropriação do repertório da não-violência inspirado em Ghandi, o apoio das Black Churches e a articulação de ativistas em torno das grandes organizações negras (NACCP, SNCC, SCLC e CORE), aliados ao uso de músicas de liberdade e do carisma de líderes como Martin Luther King Jr. foram determinantes para o sucesso do movimento.

Para Morris (1999, p.527) a grande lição do movimento dos direitos civis norte-americano para outras tipos de contenção foi que “um movimento de massa com bases sociais que é suficientemente organizado, sustentado e perturbador é capaz de gerar uma mudança social fundamental”. Esta lição, e todas as condicionantes por detrás dela, é o principal elemento de difusão da luta antirracista norte-americana, levando-a para fora dos EUA, dando-lhe visibilidade e credibilidade para ser adotada em outros contextos de luta, entre os quais o Brasil.

3.4 Do multiculturalismo ao modelo brasileiro de classificação racial e seus