• Sonuç bulunamadı

Nefis-Beden İlişkisi ve Nefsin Ölümsüzlüğü

A LC é fruto manifesto da religiosidade popular do catolicismo. Sendo assim, comungam ipso facto, das prerrogativas deste. No entanto, há pesquisadores do cordel que não se deram conta desta realidade, como é o caso de Brandão (1990) – já apresentado no frontispício; Koshiyama (1972) – que agora trataremos de maneira

proeminente, e tantos outros. Ao pintarem a produção religiosa do cordel como alienante, desprovida de senso crítico, etc., nada mais fazem do que amordaçar o que as linhas desta tão nobre arte sempre manifestaram.

A questão que fica é: em que erraram - uma vez que os estudos sobre a religião no Brasil a muito são realizados128? O que faltou a estes pesquisadores que imprimiram sentidos díspares sobre o fenômeno religioso daqueles investigados pela história, antropologia e teologia?

Assim como demonstramos ao analisar a categoria popular – especificada em auditório com a contribuição de Perelman (2004) – ao tratar da miopia do jornalista Raimundo Carrero, afirmamos o mesmo: os estudiosos do cordel que afirmam o que por ora discutimos, pecam por miopia no modo de aproximar-se do fenômeno religioso. As categorias marxistas usadas em estreito não permitem que estes vasculhem com propriedade imparcial o que corre nas linhas do poema. Usam de formas metodológicas (que não passam de ideologias psudo-científicas) para abordar a questão. Imprimindo, destarte, a mesmice do repertório vulgar marxista a questões complexas – onde toda a afirmação (por mais distinta que seja) lhe parece iguais. É um reducionismo cego.

As pesquisas desta linha mostram desconhecimento da dinâmica multidisciplinar que comporta a vida das ciências da religião129. Pronunciam-se sobre um fenômeno que desconhecem. Uma fala leiga em meio ao arrebol dos intentos acadêmicos.

Indo à prova. Durante a nossa pesquisa perguntávamos constantemente sobre os motivos que permitiram os estudiosos do cordel levantar a premissa de que a produção é conservadora.

Das pesquisas sobre a religiosidade do Cordel, a mais antiga foi feita por Alice Mitika Koshiyama intitulada Análise de Conteúdo da literatura de Cordel: presença dos valores religiosos, datada de 1972, e que se refere aos primeiros estudos desenvolvidos por comunicólogos sobre o assunto. E nesta está o veredicto que vem acompanhando a classificação do cordel religioso enquanto conservador,

128 Para percebermos o atraso destes pesquisadores, sobretudo do campo da Comunicação, a REB desde a década

de 60 já trabalhava textos tratando acerca da dimensão não-ortodoxa do catolicismo.

129 “(...) a Ciência da Religião, como qualquer outra disciplina, não opera em um vácuo, mas está intimamente

inter-relacionada tanto a outras esferas da vida acadêmica quanto a setores sociais fora da universidade (USARSKI, 2004, p. 132)”.

tradicionalista130 – constituindo outro reducionismo. Afirma Koshiyama: “A conclusão

a que se chegaram foi a de que a literatura de cordel, em todas as regiões observadas apresentaram um conteúdo conservador, tradicionalista (1972, p. 5)”.

Conforme assinalado, provem o teor acima de uma comunicóloga - e aqui está o problema. É uma comunicóloga que desconhece a dimensão dos estudos religiosos. Toda a sua escrita é permeada de observações pejorativas em relação à produção religiosa do cordel. Não atendem com propriedade o fenômeno religioso; a descrição e análise são anuviadas pela ausência de conhecimento. Neste sentido a classificação e compreensão do cordel se deram de modo generalista. Fugindo, destarte, de uma análise adequada e sensata.

Na página 20, por exemplo, Koshiyama (1972), diz em caráter conclusivo: “As autoridades terrenas são legitimadas, desde o padre intermediário direto (...). Desafiar as autoridades legitimadas significa desafiar os preceitos divinos”. No entanto, as linhas de um poema (sem autoria) que ela usou a contradizem:

Dizem que os padres não gostam Do padre de Juazeiro

É porque o padre Cícero Não aprecia dinheiro E isso faz desgostar Outro padre interesseiro. Porque diz o Pe. Cícero Eu planto milho e feijão No ano que haja inverno Colho safra de algodão Não preciso de tirar

Um vintém de meu irmão (p. 50).

130 “Surge a pergunta: o que é o conservadorismo? (...) Perpassando o tempo, o conservadorismo é, antes de tudo,

fonte de iúmeros questionamentos, afinal até os que são considerados progressistas se tornam conservadores quando os seu ideais são contemplados. Deste modo, baseado em Mannheim este estilo de pensamento é considerado um modo de vida, ou seja, ele é conservador e não existe motivos para isto (In: CARVALHO, 2005, p. 04). Já para Bourdieu olhamos a compreensão do que é conservadorismo como habitus: uma repetição freqüente de um costume (....) O que deve ficar bem claro é que existe diferenças entre tradicionalismo e conservadorismo. Tradicionalismo, em suma, expressa que o indivíduo segue uma tradição. Tal tradição é o modelo que sê-lhe apresenta com o ideal de religião, ou de sociedade, de política e também econômica sendo portanto, algo universal. (...) O conservadorismo (...) é adverso às inovações sócio-políticas, apresentando-se favorável à conservação da situação paradigmal, opondo-se as reformas radicais. (...) lida “com os ‘novos tempos’ buscando conforto na história e no passado”. Neste sentido, vale salientar, o conservadorismo se apresenta como uma possibilidade de restituição dos bons costumes que existiam, isto é, a ordem natural do mundo (MEIRA, 2010, p. 2-3)”. Ora, há muita diferença entre esta esposição acerca das respectivas definições e as práticas de produção do enredo do cordel. O conservadorismo é presente, no entanto, ele não é absoluto. È desmensurada, como veremos, a afirmação generalizada do conservadorismo e tradicionalismo do Cordel.

Como se percebe o poeta popular, apesar de valorar o padre Cícero, se posiciona contra o clero – contemplado como aproveitador da vida popular. Ora, os padres eram autoridades legitimadas e, mesmo assim, o poeta anônimo figurado na pesquisa, os contrapõe moralmente.

Apontamos a miopia e sabemos a sua origem, a de que esta se desenvolve sob o crivo da teoria marxista – conforme sinaliza Koshiyama ao completar o que outrora transcrevemos: “Desafiar as autoridades legitimadas significa desafiar os preceitos divinos. O comunismo, como doutrina política de oposição aos poderes constituídos, é veementemente condenado pelos folhetos de cordel, que acentuam a oposição divina ao comportamento divergente (1972, p. 21)”. Este é o chão e o horizonte da pesquisadora, assim como também é o seu precipício, uma vez que não permite que o texto fale por si. Falamos em precipício visto que, uma vez apresentando generalidades como verdades de fato, passamos a desconfiar com mais pertinácia das intenções do pesquisador que, em vez, de pesquisar, passa a doutrinar. Toda a conclusão do trabalho de Koshiyama é repleto de idéias que petrificam a compreensão da produção da LC como algo devotado à submissão à sociedade elitista. E isto constatamos quando acusa: “Nos folhetos de cordel encontramos a visão de mundo aceita pelo nordestino semi-letrado, consumidor e produtor dessa mercadoria. Todas as contradições sociais, políticas e econômicas são aplicadas com uma ótica religiosa, católica e ortodoxa (1972, p. 21)”. Atendo-nos ao trajeto das linhas da pesquisadora percebemos o quão embriagado pelo marxismo está a sua análise, a ponto de anular questões, então, gritantes no referido período. Indo por partes:

1. A pesquisadora trata os nordestinos como semi-letrados. Ora, isto é fato. O problema é que na época o peso de exclusão e preconceito dado ao analfabeto e semi-letrado como pessoas carentes de consciência (e esta tinha que ser a dialética do proletário versus burguês)- era uma ideia comum à elite pensante do marxismo. Já tratamos desta questão em particular no Capítulo I e sabemos que ela comporta miopia intelectual.

2. Trata-os como consumidores e produtores dessa mercadoria (termos usuais no campo da publicidade). Ora, o cordel não deixa de ser produto de consumo e criação, entretanto, o uso destes termos não soa à toa. Eles estão

impregnados das parcialidades marxistas que resume a vida social na dinâmica econômica.

3. Por fim, os termos anteriores (semi-letrado, consumidor e produtor) nos leva a contemplar a plataforma do termo conclusivo que é o ser católico, de onde se desenvolve, segundo a autora, toda a visão de mundo do sertanejo. Onde a religião justifica o sistema contratual e de calamidades sociais – conforme assevera no parágrafo seguinte:

A ótica religiosa do mundo justifica a sociedade existente. O homem está comprometido com as forças superiores divinas por um sistema contratual. As desgraças pessoais ou calamidades sociais são decorrentes da desobediência do homem a preceitos superiores (...) Portanto, os poderes divinos presentes na literatura de cordel representam uma forma de disciplinamento do comportamento do homem nordestino, concorrendo para fazê-lo aceitar o estado de coisas existentes em todas as dimensões da comunidade (KOSHIYAMA, 1972, p. 21).

É claro que existem muitos textos com esta dinâmica - conservadora. Porém, a literatura de cordel em sua marca religiosa não se restringe a esta visão de mundo. O que a pesquisadora faz é conferir e petrificar o cordel religioso nos valores do conservadorismo e tradicionalismo – e esta absolutização é uma falácia. Eis aqui mais uma generalização reducionista. E não é preciso fazer muito esforço para saber o que está por traz do pensar de Koshiyama acerca do nordestino que é a religião, por sua vez, plasmada como o ópio do povo. É claro que não podemos, visto a análise dos textos de cordel, dizer que as categorias de análise marxista não se aplicam a eles. Aplicam-se, mas não linearmente, não integralmente como verdade máxima, como método infalível.

Postulamos, também, a existência da miopia de Koshiyama no tratamento ao cordel religioso uma vez que ela mostra desconhecer a dinâmica da fé católica de sua época – marcada pelas novidades do Concílio Vaticano II – visto a datação da sua pesquisa publicada em 1972. Ora, é hilário o desconhecimento da autora sobre o cenário religioso de então.

Desta feita, a produção de Koshiyama situa-se dentro de um processo de fetiche metodológico e teórico no qual anula até mesmo o que é evidente. Uma vez que o conteúdo, estando diante da face da pesquisadora, passou despercebido ou foi anulado por interesses ideológico-metodológicos. Na contramão do recurso

metodológico de Koshiyama está a pesquisa de Manoel Matusalém Sousa que assim se posiciona:

A política se experimenta profética; a ciência também, a propaganda profeticamente tenta dinamizar um comportamento social; a arte quer nortear o sentido. Nas camadas sociais menos favorecidas, econômica e culturalmente, a religiosidade popular e o misticismo do povo são proféticos (1982, p. 16).

Avançando na pesquisa do cordel nesta perspectiva, Matusalém Sousa (1982) dinamiza outros olhares, nada conservadores ou piegas em relação à disposição da produção do cordel. Alguns recortes demonstrarão a abrangência desta leitura, feita, todavia, sob a linguagem e recorte da Teologia da Libertação:

No campo da religião, os folhetos e os violeiros são porta-vozes do povo que se apega aos protetores, guardiães, como PE. Cícero, Antônio Conselheiro e outros, até mesmo ao poeta popular (p. 18). (...) Tanto o cordelista como o profeta experimentam a fidelidade de deus e a infidelidade dos homens ao interpretarem a história (p. 20). (...)

Os poetas do Cordel, como profetas, aparecem quando Deus quer comunicar sua palavra (p. 56).

(...) Como o pensamento teológico, Cordel avança na reflexão e interpreta a situação presente numa profecia retrospectiva, onde aparece a marca da culpabilidade do homem contemporâneo (p. 59). (...) O teísmo do Cordel não é alienado. Esta veracidade é o que nos aparece como constante tematização. O poeta além de apresentar, em rimas, o conteúdo da sua fé, não se acomoda quando é questionado sobre o que escreve (p. 65)

Lendo estes posicionamentos ficamos perguntando: cadê o conservadorismo?