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Duyular, Ortak Duyu ve Hayal Gücü

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1. Duyular, Ortak Duyu ve Hayal Gücü

Usamos o termo simbólica católica para expressar o pluralismo de posicionamentos católicos existentes em solo brasileiro.

A simbólica católica não pode ser compreendido como sistema simbólico católico das pretensas-ortodoxias. Pois, o sistema simbólico é

(...) aquele formado pelo conjunto de códigos onde há relação direta entre significante e significado, ou seja, entre plano de expressão e plano de conteúdo. Esta relação é única, fechada e convencionada socialmente. Ou seja, cada elemento não é aberto a significações; a cada um corresponde um único significado imutável. E como o significado é convencionado, sua leitura é possível apensa para quem detém o conhecimento do código. O exemplo mais clássico é os das cores do semáforo (OLIVEIRA, 1998, p. 52).

Conforme postulado ao longo da tese, a relação simbólica constituída na construção dos poemas difere (assonante ou secularmente) da perspectiva simbólica pensada pelas pretensas-ortodoxias. Deste modo, usamos o termo simbólica católica como aquela que abarca os sistemas simbólicos católicos134. A simbólica é constituída por símbolos abertos e fechados. Isto é, os abertos se referem a dimensão mítica (que permeia todos os relatos e discursos das diversidades católicas); já os fechados nos leva a pensar nos códigos simbólicos usados pelas particularidades da diversidade135.

Ora, o termo catolicismo abarca uma diversidade de manifestações digna da estrutura da cultura brasileira em sua polifonia.

Não há um catolicismo oficial e outro (ou outros) oficioso. Este tipo posicionamento poderia até ser viável por uma perspectiva jurídica, quando do tempo em que a Igreja e o Estado estavam unidos. Já não é o caso de agora. Por isto esta contraposição (oficial versus oficioso) não remete ao que se observa em campo nas pesquisas sociais. Conforme asseveramos, mesmo dentro dos átrios sagrados não há uma linearidade na forma de pensar um catolicismo. A unidade do corpo místico de Cristo é mantida na vida clerical à custa de uma espiritualidade baseada na paciência para com o outro ou mediante os votos de obediência – o mesmo não acontece, por exemplo, com os evangélicos que agem distintamente dos clérigos católicos onde, para os evangélicos, qualquer contenda é motivo válido para gerar um grupo independente e acéfalo.

A religiosidade popular do Cordel é símile direta (por ser a mesma) da religiosidade popular do catolicismo popular. Este, por sua vez, é fruto do catolicismo português (provindo do tempo da colonização) que já manifestava um dualismo

134 O catolicismo popular consistiria em um sistema simbólico, e de fato ele é. No entanto, comparando com as

pretensas-ortodoxias, o catolicismo popular (que não se restringiu à vida campesina, colonial e imperial) possui mais flexibilidade. Também mostramos que há dentro do cordel duas vertentes simbólicas que possuem peculiaridades (assonantes e seculares) e que, por sua vez, são manifestações da religiosidade do catolicismo popular. Estas vertentes apontam para um cordel não fechado, mas que se permite inovar. Justamente por esta inovação é que optamos, no título da tese, pelo uso do termo simbólica católica.. Porque observamos que o cordel está mais para a abertura (de uma simbólica, ou mais próxima dela). Também por esta via, o uso do termo simbólica católica quer distinguir a produção popular do sistema católico (próprio das pretensas-ortodoxias).

135 É evidente também que o símbolo, como lei geral, abstrata, para se manifestar precisa de réplicas,

ocorrências singulares. Desse modo, cada palavra escrita ou falada é uma através da qual a lei se manifesta. Confiramos com Pierce: “Um símbolo não pode indicar uma coisa particular; ele denota uma espécie (um tipo de coisa). E não apensa isso. Ele mesmo é uma espécie e naco uma coisa única. Você pode escrever a palavra estrela, mas isto não faz de você o criador da palavra – e o que você a apague, ela não foi destruída. As palavras vivem nas mentes daqueles que a usam. Mesmo que eles estejam todos dormindo, elas vivem nas suas memórias. As palavras são tipos gerais e não individuais (SANTAELLA, 1993, p. 68)”.

entre as práticas oficiais (dos clérigos) e tradicionais (agremiada pelo tempo com a conexão e manutenção das antigas tradições pagãs).

Roger Bastide foi um dos primeiros a chamar a atenção para a existência, no Brasil, de um “catolicismo doméstico” dos chefes de família e das parentelas, diferente do “catolicismo mais romano, mais universalista das ordens religiosas e principalmente dos Jesuítas”. O catolicismo do primeiro tipo tinha um elemento transmissor o núcleo familiar: a hierarquia eclesiástica constituía o elemento transmissor do segundo tipo – hierarquia que, quando representada pelas ordens religiosa, conseguiu sempre preservar sua independência com relação à autoridade dos grandes proprietários rurais. Estes por sua vez, tinham sob suas ordens vigários que lhe obedeciam com docilidade, enquanto as diversas ordens religiosas, ao contrário, representavam a oposição contra o seu poder quase ilimitado (QUEIROZ, 1983, p. 84).

Nas sendas expostas por Maria Isaura P. de Queiroz podemos pleitear afirmar, com base na gênese do catolicismo popular (gestado pelo núcleo familiar), que este é de fato independente do clero. Isto porque se constituiu inicialmente e assim se manteve por impulso familiar, por obra laica.

Este catolicismo tem uma constituição simbólica própria (muito distinta dos claustros das ordens religiosas e do paço episcopal) que gira sobre as perspectivas de um sistema cosmológico no qual se preocupam com a questão do castigo divino, o mal de Deus, a promessa e o milagre conforme assevera Zaluar (1980, p. 161).

Dando ênfase nas sanções de auto-sustentação do sistema (o seu, da sua cultura e não o da autoridade petrina). Esta ênfase está assentada em dinâmica espiritual, em piedade e devoção para com os santos (e não para com a autoridade religiosa). “O infortúnio presente de alguém [por exemplo] era sempre remetido a uma falta contra os santos no passado (ZALUAR, 1980, p. 166)”.

Enquanto a fé das pretensas-ortodoxias sempre manteve incólume como base a queda original e o pecado como artífice da construção do seu edifício teórico, o catolicismo popular, por sua vez, não lida com este patrimônio basilar da fé que deseja ser oficial. “[no catolicismo popular] em tal sistema não existe a preocupação com o pecado, mas sim em honrar o santo, ou que erro é a quebra de promessa feita aos santos (ZALUAR, 1980, p. 168)”.

Ora, a religiosidade popular (na qual o Cordel se insere) é autônoma e independente em relação às pretensas-ortodoxias e isto desde o período da colonização (seu nascedouro).

Por isso, no processo de investigação da cultura religiosa popular, é necessário não se reportar diretamente a autoridade das pretensas-otodoxias. Estas, assim como o catolicismo popular, estão em pé de igualdade. Uma não depende primeira e essencialmente da outra para constituir o seu corpus de sentidos.

Os citados movimentos de simbólica católica bebem da percepção mítica. O catolicismo popular, especificamente, está alicerçado em narrativas sagradas (presentes na Bíblia, nos costumes cristãos e na devoção – sobretudo nesta última). Estas narrativas de tempos em tempos são ressignificadas. Neste processo, a contribuição vem de todos os lados (inclusive de outras fontes e tradições religiosas que não a cristã, como o espiritismo, as manifestações caboclas, etc.).

A diferença entre a produção de sentidos dos clérigos em relação ao popular é que aqueles constroem a sua interpretação ao longo do tempo, assumindo (discretamente) elementos da vivência popular em conexão com o patrimônio pensado pelos seus doutos (Tradição). Depois criam uma ideia de ortodoxia. No entanto, esta ortodoxia é linear aparentemente, uma vez que revisa muitos de seus posicionamentos com o passar do tempo.

Já a produção da fé popular bebe por primeiro (assim como os clérigos) das narrativas sagradas, porém em seu processar idéias e conceitos são mais abertos que os clérigos. Não se preocupam em longo prazo de manterem idéias que fujam de sua vivência – não há uma fidelidade e obediência a uma memória passada, somente porque alguém do passado disse que deveria ser de um jeito e não de outro. Se há renitência em relação a alguma idéia ou posicionamento (costume, normas, etc) é devido ao processo de acomodação destas. Porém, se a idéia com o passar do tempo começar a ser revista e aceita, a verdade se altera – não havendo traumas dogmáticos da mesma forma como há nos meios clericais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Interpretar é fixar o sentido de algo e observar o seu alcance dentro de um determinado contexto simbólico. Conforme salientado ao longo da pesquisa, existem posicionamentos interpretativos que fogem a esta perspectiva. Percebemos a existência dos seguintes reducionismos (conforme exposto na introdução): o uso inadequado dos termos povo/popular; a classificação do cordel religioso (que se restringe a falar da temática dos poemas) e, por fim, a imposição da ideia de que a produção do cordel em sua dinâmica religiosa é ortodoxa, conservadora e tradicionalista.

Erguemos a hipótese de que os referidos reducionismos acontecem devido à miopia intelectual, isto é, devido à ausência de proximidade e de familiaridade com os pressupostos teóricos e investigativos do campo de estudos da religião.

Desta feita, relacionando os reducionismos com a hipótese, afirmamos mediante as análises construídas:

A simplória inferência ao tratar a produção do cordel como provinda do meio popular precisa de tratamento adequado e rigoroso. Isto porque o simples uso do termo povo/popular não aponta para o tipo de público ao qual o poema foi produzido. Povo/popular são termos abrangentes e precisam de especificação. Esta ausência de percepção prejudica o entendimento das vísceras do cordel já em sua introdução. Portanto, para tratar com honestidade intelectual o cordel, é necessário apontar para que público o texto em questão foi produzido. Também é necessário evitar, destarte, impetrar críticas destoadas da vivência e dos sentidos do respectivo público – fugindo, assim, de seu campo simbólico.

Quanto o segundo reducionismo que trata da classificação do cordel, salientamos a miopia intelectual uma vez que a mesma acontece de modo externo, isto é, restringem a classificação às temáticas dos poemas (vida dos santos, poemas sobre a Virgem Maria, sobre o padre Cícero etc). Apercebemo-nos, no tangente à sua classificação, por exemplo, que o cordel religioso pode até ser dividido em tipos, como os expressos pelos folhetos de santidade – conforme levantado por Liêdo

Maranhão de Souza (1976). Todavia, esta classificação não dá conta do fenômeno que corre por dentro da produção do cordel. Mesmo assim, a classificação de Liêdo Souza ainda tem a sua relevância por, justamente, procurar estabelecer um recorte sobre a forma de organizar e pensar os folhetos religiosos – por temática – indo, portanto, além dos ciclos temáticos mais amplos, conforme delineado na exposição de Menezes (2009) quando, ao se referir aos ciclos temáticos do cordel, cita tais como: “maravilhoso, fantástico, heróico, demônio logrado, amor... (p. 01)”. O certo é, conforme vemos avultarem-se nas linhas de Menezes (2009), os estudos do cordel sempre se permitiram infinitas classificações – e estas não pouco confusas e problemáticas. No entanto, estas classificações remetem a uma perspectiva externa – onde se perfila assuntos temáticos. Isto é, medem a produção por seus aspectos evidentes. Por exemplo, a temática romance pode ser de cavalaria, de amor, de safadeza... Assim como classificar os folhetos religiosos em de milagres, de padre Cícero, da Virgem Maria, etc, também é medir pelo evidente.

Com o desenvolvimento de nossa pesquisa, foi propiciado pensar o cordel religioso (marcada pelo signo do catolicismo popular) por dentro. Não ficamos estagnados em “tipos” – que seriam assuntos temáticos, mas em observar o procedimento de produção interna dos poemas – e neste sentido fomos contra o reducionismo da classificação. Deste modo, extraímos a percepção de que, além de sua classificação externa para melhor compreender e interpretar o cordel de simbólica católica, o pesquisador precisa lidar com as categorias da classificação interna (a assonância e a secularização). Restringir-se a classificação externa é condenar o cordel religioso à superficialidade136. Também nos posicionamos

contrários a idéia de que o cordel religioso restringe-se aos poemas com características piedosas (conforme assevera a classificação externa). Postulamos, tendo em vista a dinâmica polifônica da religiosidade popular, que qualquer tema que trate de assuntos religiosos, independente da piedade, deve ser classificado como religioso.

Da percepção dos movimentos assonantes e seculares, extraímos a crítica ao reducionismo que afirma contundentemente ser o cordel religioso marcado por uma ortodoxia católica. Esta afirmação é falaciosa, visto que nem o clero (ao longo de todo o percurso histórico), nem muito menos os pesquisadores na área do fenômeno

136

Satisfazendo, assim, o segundo objetivo específico da tese, que consiste em comparar as divergências e as convergências entre o patrimônio simbólico do catolicismo popular e o das pretensas-ortodoxias.

religioso reconhecem tal prerrogativa. A miopia intelectual da afirmação se manifesta no mais completo desconhecimento das teorias e postulados investigativos produzidos no Brasil. Não é porque o poema se diz católico e mantém uma construção discursiva de piedade, que isso faria dele um católico ortodoxo. Daí a contribuição da classificação de poemas em assonantes, isto é, os poemas assonantes têm traços do sistema simbólico do catolicismo popular, mas este não é o sistema simbólico vivenciado pelo clero. Tanto o poeta popular quanto o clero comungam de elementos que têm a sua origem no que chamamos de simbólica católica. Todavia, estes elementos são significados e ressiginificados com sentidos distintos. Há uma comunhão, mas não uma linearidade interpretativa linear.

Em outras palavras, atentamos que os poemas dentro da simbólica religiosa, uma vez que não são – conforme exposto – ortodoxos, comungam com os sinais da fé do Cristianismo, porém processando-os de maneira toda peculiar (em estado de polifonia). Nesta peculiaridade, devido ao influxo do tempo (século XX) os poemas se manifestaram em proximidade com os enredos das pretensas-ortodoxias, ou mais críticos e libertos das mesmas. Neste sentido, a afirmação falaciosa acerca da ortodoxia sufoca a percepção das peculiaridades presentes no texto do cordel religioso.

Ora, uma vez sabendo que o cordel não é ortodoxo, mas assonante, é preciso também recordar que, com a impetração das novidades provindas do tempo (discurso protestante, novo discurso clerical promovido pela renovação da Igreja no Brasil e pela presença da secularização), há poemas que se constroem de maneira secular. Por secular entendemos que o poeta se mantém na perspectiva da simbólica católica, porém especula tanto o seu patrimônio simbólico, quanto o apresentado pelos clérigos, refazendo a sua constituição de sentidos137. E estes

sentidos se dão por impacto das novidades temporais na reflexão do poeta em meio ao seu público.

Também apontamos para o reducionismo interpretativo que afirma ser o cordel uma produção conservadora e tradicionalista (postulado por Koshiyama). Ora, há de se ter um cuidado redobrado na leitura dos textos de cordel, porque a manutenção do antigo e a aceitação ou assimilação do novo se entrecruzam

137 Um dos objetivos específicos da tese consiste em confrontar o problema da tese (reducionismos

interpretativos) com as teorias e investigações acerca da dinâmica religiosa no Brasil. A discussão sobre a ausência da ortodoxia permitiu realizar tal intento.

constantemente. Portanto, a afirmação não procede visto que em dados momentos há a presença da manutenção e, logo em seguida, se avulta posicionamentos de críticas às autoridades, de rupturas com o sistema sócio-político-religioso.

Em suma, o cordel é polifônico em sua lógica interna. Os próprios textos analisados por Koshiyama derrubam sua tese, uma vez que ela selecionou somente as estrofes que permitiam constatar a presença do conservadorismo e do tradicionalismo, deixando de lado aquelas que destoavam disto. Em resumo, este posicionamento interpretativo plasma o cordel em estado de subserviência – negando-lhe o seu status criador e inovador138.

As linhas desta pesquisa transcorreram no sentido de propiciar uma revisão no tangente a elementos teóricos e metodológicos acerca do modo de processar a análise dos textos de cordel de matriz religiosa139. Observamos que é preciso certos cuidados neste quesito, como:

- certificar-se do auditório para o qual o texto foi produzido, evitando imprimir, destarte, nas análises, observações que destoam dessa lógica manifesta no texto, lembrando que o poeta popular, quando produz o seu roteiro, o faz pensando em seu público. É importante esta certificação, pois a mesma conferirá ao pesquisador elementos necessários para compor o cenário do qual se investigará. Evitando, desta forma, que o pesquisador levante pareceres desconexos com o que foi produzido e pensado pelo poeta.

- Tomar cuidado para não fazer com que o uso de um método ou técnica investigativa seja visado com fins político-ideológicos. Forçar e anular posicionamentos do poeta é, via de regra, um homicídio à vida da cultura popular – um atentado à memória. O método e as técnicas devem servir de ferramentas para ajuda a clarear e interpretar o texto sem, todavia, fazê-lo sofrer imposição valorativa por parte da ideologia do pesquisador – no sentido que desvirtue o propósito para o qual o poema foi feito.

138 Com esta análise satisfizemos a proposta de investigar as formações ideológicas presentes no cordel. 139

Toda a construção da tese foi permeada pelo rastreamento dos cânones que organizam a vida simbólica do cordel religioso. Deste modo, satisfizemos o último objetivo específico da tese.

- O pesquisador deve conhecer a teologia do auditório do cordel em questão. No entanto, ao dizer “teologia”, não queremos restringir àquela devotada aos ditames eclesiásticos. Por onde a compreensão140 e a interpretação dos textos devem evitar ficar confinados. Dizemos teologia, por esta via, numa perspectiva plural - no sentido do patrimônio simbólico que a questão religiosa traz consigo (no tangente às sensibilidades de pensar a religiosidade, seja ela de qual viés for - católica, protestante, espírita...). Contudo, este conhecimento (o teológico plural) deve estar aliado à produção histórica (sobretudo) das ciências humanas e sociais para evitar, assim, que aconteça o reducionismo teológico em expressões etnocêntricas. Evitando, assim, produzir uma hermenêutica que gere uma supervalorização das “verdades” eclesiásticas (tendendo, assim, a desqualificar a dimensão de liberdade do texto de cordel).

É de suma importância, dentro da perspectiva da simbólica, mapear a temática teológica do cordel. E isto só é possível pelo conhecimento do repertório teológico do pesquisador. Uma vez aproximando-se dessa temática, o pesquisador deverá usar da flexibilidade para não cair na tentação de restringir o apresentado aos cânones da aparente teologia manifesta, sabendo que o cordel lida com códigos mais amplos do que os de uma pretensa-ortodoxia. Neste caminho é preciso alargar os sentidos e recorrer às pesquisas desenvolvidas pelas humanidades e ciências sociais no período do cordel em questão. Pensamos ser de grande valia este recorte temporal, uma vez que propicia o descortinamento da verossimilhança do problema. É justo recordar que qualquer interpretação, querendo ou não, sempre leva consigo uma carga de subjetividade do pesquisador. Todavia, isto não pode ser sinal de que este deva proceder irresponsavelmente imprimindo seu querer ou sua visão de mundo no poema – forçando-o, destarte, a dizer algo que não está em suas linhas. Conforme aconselha Mikhail Bakhtin (2006, p. 381):

A primeira tarefa é compreender uma obra da mesma maneira como a compreendeu o próprio autor sem sair dos limites da compreensão

140 “A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para o

diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra. Só na compreensão de uma língua estrangeira é que procura encontrar para cada palavra uma palavra equivalente na própria língua. É por isto que não tem sentido dizer que a significação pertence a uma palavra enquanto tal. Na verdade, a significação pertence a uma palavra enquanto traço de união entre os interlocutores, isto é, ela só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva. A significação não está na alma do interlocutor. Ela é o efeito da intereação do locutor e do receptor produzido através do material de um determinado complexo sonoro (BAKKHTIN, 2002, p. 132)”.

dele. A solução dessa tarefa é muito difícil e costuma exigir a mobilização de um imenso material.

E para se assegurar de que a compreensão é a mesma que a do autor, o pesquisador deverá lidar com a dimensão temporal e cultural da produção – atentando para os seus variados e possíveis sentidos. Afinal, “a interpretação autêntica em literatura e nos estudos literários sempre é histórica e personalizada (BAKHTIN, 2006, p. 402)”.

Algumas sugestões para a realização da pesquisa:

Ao ler o Poema, estando imbuído da temática teológica que envolve o roteiro (exemplo: bem e mal, verdade, vida pós-morte, liberdade...), o pesquisador deve atentar para a ideia de que possa existir mais de uma temática circulando no texto. Neste caso deverá observar se as estrofes dão conta de analisar as manifestas, isto é, se não é irrisória a quantidade para iniciar e desenvolver uma discussão. Caso contrário, optará por aquela que fornecer estrofes em abundância. De nada adianta querer tratar de todo o aceno teológico caso o roteiro não forneça conteúdo para isto.

É necessário que o pesquisador leia atentamente o roteiro do poema sobre a questão e na sequência procure levantar uma vasta coletânea acerca do assunto em livros e artigos disposto na área da teologia e das ciências da religião. Procedendo