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2. BÖLÜM: YIĞILMA EKONOMİLERİ VE TÜRKİYE’DE İMALAT SANAYİNDE

2.5. TÜRKİYE’DE İLLERE GÖRE İMALAT SANAYİNDE YIĞILMALAR

2.5.2. Gini Katsayısı Sonuçları

“Um lance de dados” é a recriação feita por Haroldo de Campos a partir de “Un coup de dés”, de Stéphane Mallarmé. Trata-se da fundação do mito moderno, tentativa de elaboração de uma cosmogonia antropocêntrica, que não ressalta o poder criador de algum deus, mas que coloca o homem – e seu contínuo pulsar pensante – no centro do processo de construção da realidade. Gênesis e Apocalipse fundem-se e repetem-se a cada pensamento humano.

Tal caráter cíclico da existência50 é delineado ao longo do poema pela ondulação das palavras no espaço branco da página, que mimetiza tanto o movimento das ondas do mar como a flutuação das nuvens no céu. Tais cenários, aliás, emanam uma sensação muito acentuada de instabilidade (condição inerente a eles), que na página fica clara pela total falta de linearidade das frases e pela mudança brusca de tipos impressos.

Este ciclo gerador tem como qualidade básica o movimento: as palavras são dispostas em queda, partindo do canto esquerdo alto da folha em direção à extremidade direita baixa. Tal obliqüidade adiciona dinâmica e complexidade à visualização do perceptor, educado à horizontalidade da escrita ocidental.

RC salienta que há, na alternância horizontal (frase linear) x vertical (queda) uma emanação das polaridades kinésis x stásis. Para ele, a arquitetura sintática do poema é a saída de Mallarmé para expressar a grande quantidade de paradoxos que permeia sua epistemologia (masculino x feminino, kinésis x stásis, alto x baixo, etc.) e a própria existência humana. A perturbação causada pela ausência de uma saída para tais oposições criaria uma vibração ou flutuação, estampadas pela disposição gráfica das palavras.

A variação do tamanho das letras gera alguns campos gravitacionais em determinadas páginas, em que termos menores flutuam como que “ao redor” dos maiores. Há, ao todo, sete

49 Termo de James Joyce incorporado pelos poetas concretos brasileiros. Refere-se à condição multipolar da palavra poética, emanação verbal, vocal e visual.

50 RC sugere – mas não desenvolve – uma proximidade com a “Doutrina do Eterno Retorno”, de Nietzsche. Outra associação possível é com o “ciclo eterno de eventos”, teoria dos estóicos gregos. O aprofundamento de tais relações extrapola, porém, o intuito da presente pesquisa.

diferentes tipografias empregadas: muito maior que as outras, a frase-núcleo do poema51 destaca-se. “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”: “Um lance de dados” na P152, “jamais” na P2, “jamais abolirá” na P5 e “o acaso” na P9. Se comparadas as localizações de cada sintagma na página, notar-se-á que eles estão em queda, que é o movimento típico do lance de dados.

A segunda maior tipografia é exclusiva das P8 e P9: “Se” – “fosse” / “o número” – “seria”, e é relevante enquanto ligação semântico-sintática de “O acaso” com outros termos. A terceira, em caixa-alta, constitui um importante esqueleto estrutural para a obra: “mesmo quando lançado em circunstâncias eternas / do fundo de um naufrágio” (P2) – “seja” (P3) – “o mestre” (P4) – “existiria / começaria e cessaria / cifrar-se-ia / iluminaria” (P9) – “nada / terá tido lugar / senão o lugar” (P10) – “exceto / talvez / uma constelação” (P11). Para RC (p. 72), tal padrão

corta o poema de uma extremidade a outra, e descreve uma modificação do movimento ondulatório da frase título como se segue: meio [da página] – topo [da página] – meio – base [da página] – topo – meio, e seu final, semanticamente senão gramaticalmente, rejunta-se a seu início.

Tais termos delineiam, portanto, uma onda-refluxo da frase título. Claramente subordinadas a eles, há ainda outras duas tipografias em caixa baixa: uma, nas P3, P4, P5, P10 e P11, em caracteres romanos. Outra, entre as P6 e P9, em caracteres itálicos. RC afirma que tal mudança justifica uma divisão tripartite na obra, que constaria de três ciclos: o da Natureza, o da Arte e o Final, que marcaria a convergência dos dois anteriores. Se tal rigidez de classificação não parece relevante para essa análise, fica ressaltado o contraste que diferencia, de algum modo (ao qual se voltará em outro momento), as quatro páginas com letras itálicas.

Os outros dois tipos gráficos existentes são um fenômeno isolado de uma página: na P6, a primeira e última figuras são “como se” em caixa alta (mas de dimensão menor que o terceiro nível explicitado) e itálico, que parece adquirir função similar a um parênteses, a isolar o que está no meio; já na P9, há o menor dos padrões de impressão do poema, ramificações quase ilegíveis, como que mimetizando um sussurro.

51 Não há diferença no uso de tipografias do poema de Mallarmé para o seu correlato de Haroldo de Campos.

52 Doravante, todas as referências às páginas (consideradas como sendo toda a folha, e não metade dela) seguirão esse modelo: P mais o seu número, por motivos de clareza.

Apesar das palavras estarem escritas nessas tipografias de modo “embaralhado” ao longo de “Um lance de dados”, há a tendência de agrupá-las através do princípio gestáltico da semelhança, aquele de maior pregnância ao perceptor. Assim, a apreensão de tipos iguais causará, primeiramente, continuidade visual entre essas figuras-palavras, seguida de uma concatenação sintática.

Na impossibilidade de tal “rima visual”, a organização perceptiva dá-se pelo princípio da proximidade: é aí que o espaço em branco atua como um grande pano de fundo sintático, mimetizando as operações mentais em busca da estruturação do discurso53: Mallarmé espacializa a sintaxe, e faz do silêncio (branco da página) um agente selecionador de relações entre idéias (palavras). Ao fruidor, caberá articular os sintagmas mais próximos para gerar sentido.

Por causa disso, o branco da página passa a ser figura em alguns momentos, dominando a gestalt do leitor. Depois, volta a ser fundo durante a leitura. “Um lance de dados” configura-se, assim, em uma grande figura reversível, em que figura (palavras / estrelas / idéias / espumas) e fundo (branco / céu / silêncio / mar) alternam-se de maneira instável para o perceptor.

Esse mini-ciclo (figura-fundo) reforça o grande ciclo (vida-morte) que é o próprio poema: o Mestre, primeiro ser na Terra, morre, mas deixa como legado seu filho, que sob certa perspectiva sempre esteve contido nele. Para RC, o caráter rotatório é expresso em toda a obra pela presença latente do futuro no que se apresenta no momento da fruição: “o atual implica o potencial” (p. 34), em uma continuidade espiral, cíclica e infinita.

Assim, a vida carrega a latência da morte; o céu, o germe do mar; o masculino, a semente do feminino, e vice-versa. O poema, então, termina na menor das estâncias dos ciclos: o pulsar pensante, instantes efêmeros, contínuos, compassados de atividade mental que se confundem com a linguagem e o próprio Ser: é a fundação ontológica via pensamento, realidade via signo. Ou o acaso via um lance de dados.