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KÜRESELLEŞEN ÇAĞDA ÇOCUK EDEBİYATI: ÇEVİRİNİN ÖNEMİ

no final do ano eu fiz um Check up e graças a Deus deu tudo normal, (...) e eu não tenho nada... Ainda falei para o médico, Deus sabe o que faz né eu não posso morrer já, então Deus sabe o que faz mesmo né por que se eu tivesse todos esses problemas (como os dos irmãos dela) é obvio que eu não ia achar que ia poder criá-lo então como eu acho que ele vai ser sempre dependente então Deus está me dando bastante saúde pra que eu possa cuidar....

(Mãe de Gi.).

Neste sentido, ao referirem sobre o assunto “morte”, fica clara a necessidade de permanência e repetição. Na fala da Mãe de F., quando questionada sobre o que ela espera de sua filha e ela aponta uma expectativa sobre sua própria permanência, demonstra a negação de um “fim absoluto” de sua filha e, por conseguinte, de si mesma. O mesmo verifica-se na fala da Mãe de P.K., em que verbaliza os mesmos valores que a Mãe de T.S.; no entanto, evidencia-se que sua maior preocupação para o futuro reside na afirmação de aspectos pontuais do cotidiano, do vivido momentâneo.

Essas considerações não aparecem apenas nas falas que levam em conta a convivência com os filhos, mas acabam por se refletir em outros aspectos da vida cotidiana, pois como afirma Maffesoli (2001) a relação com os valores, a vida familiar, a relação, com a morte, o sexo, atitude para com o trabalho, a habitação e o vestuário, tudo aquilo que concerne ao viver ou aos modos de vida é extraordinariamente invariante.

Ah, eu não sou de sair de casa, então minha convivência maior é com os meus filhos, pra não dizer pra você assim, eu vivo de momentos, e o momento que eu tive sábado foi muito feliz; no sábado eu fui em uma festa junina, com os meus filhos; eu me diverti eles se divertiram muito juntos e o meu marido também; aí depois a gente levou os meninos em casa, e o meu marido me levou pra dançar; então foi um momento feliz; então eu falo que eu vivo de momentos. (Mãe de B. e Z.).

Entendido desta forma observa-se no cotidiano a insistência na fragmentação do tempo com maior ênfase nos aspectos banais da vida. Justamente pela riqueza de imprevistos e

potencialidades, a vida cotidiana permite a aceitação do fato social em sua concretude, incoerência e ambigüidade.

É a partir de tal idéia difusa que podemos compreender o relativismo que permite assumir, quase integrar o mal, a coerção, a necessidade, a alienação na estruturação individual, assim é a relação com o tempo que pode permitir compreender que a alienação, mesmo sendo inteiramente real, não é absolutamente mortífera. Numa perspectiva linearista da história convém “se livrar” da imperfeição. (MAFFESOLI, 2001, p. 42).

Para Maffesoli (2001), essa perduração é aquela mesma que questiona e constitui seguramente uma particularidade notável na análise da socialidade. De diversas maneiras observou-se essa perduração; é o que Levi Strauss chama de “núcleo de identidade” ou o que Aristóteles nomeava o “principio de estabilidade” (MAFFESOLI, 2001, p.43).

A continuidade, o tempo cíclico, que culmina na ambivalência de vida e morte possibilita a resistência à imposição factual, garantindo certa segurança para estruturação individual e social das mães na relação direta com o Autismo de seus filhos. Ao reconhecer na descrição da prática de todos os dias, muitas vezes minuciosa de seu viver, de suas histórias, permite-se compreender que cada uma delas, à sua maneira, aplica um valor de “força”, “aventura” e “inédito” à experiência de ser mãe de uma criança com alguma forma de diferença e seu trágico existencial.

Desta forma, a aceitação do destino está ancorada profundamente na consciência da morte, do limite e na transposição mesma desta consciência de forma fantástica. Maffesoli insiste no tema da morte e do trágico como fundamentais para o entendimento das formas do dado social, que são as categorias do cotidiano:

O trágico do limite permanece uma pluralidade de sentimentos e de situações que leva em consideração, ao mesmo tempo, a rudeza e a doçura desse todo ordenado que é vida social. Neste todo, o tédio, a morosidade, a repetição e a exaltação, a intensidade, tudo isso encontra um lugar relativo, tudo isso se contrabalança, se curto-circuita, se neutraliza, é essa neutralização que constitui a própria condição da perduração do social. (MAFFESOLI, 2001, p.130).

Assim, considera que a estreita relação com o trágico e a morte marca profundamente os rituais da vida cotidiana – práticas amorosas, hábitos culinários, relações de amizade, vizinhança, formas de vestir, de morar etc – que, em última instância, nada mais são do que formas de gerir o medo da morte, de viverem as pequenas mortes de todos os dias. Em conseqüência, o que conta é o presente, o instante fugaz.

Há um “deixar ser”, uma inanidade predominando sobre as tentativas de agir sobre os acontecimentos. Mas é importante ressaltar que a recusa de um fim exterior, o reconhecimento da incoerência social, ao concentrar a vida em si mesma, transforma-a na potência que, como já foi visto, garante a permanência da socialidade. Neste sentido é que se nota, sobretudo nas conversas mais livres e mesmo nas entrevistas, como as mães narram interminavelmente, os feitos e desfeitos de seus filhos, atos e acontecimentos fundamentalmente cotidianos, contínuos e atemporais. Pode entender-se, assim, que a resistência destas mães em afirmar a permanência do trágico em sua vivência é garantia de sua sobrevivência social.

Seguindo os pressupostos da Sócio-Antropologia do Cotidiano, deve-se salientar as formas pelas quais estas mulheres manifestam, constróem e representam – como atores sociais que são – suas vivências e existências, no que se refere às máscaras sociais ou ao que Maffesoli (2001) chama de duplo jogo. Trata-se de uma maneira de enfrentar uma realidade marcada pela ausência de referência social – no fato de ter um filho com alguma forma de distúrbio, como o Autismo Infantil – em uma sociedade regida e dinamizada em torno de uma idealização de homem idealizado sob a égide de eficiência.

Para Maffesoli, a máscara, a duplicidade são elementos de suma importância no processo de ritualização do cotidiano, compreendendo que, se de um lado visualiza-se asserções e ações lógicas, há de se notar uma multiplicidade de ações não lógicas nas falas e ações dos atores sociais.

Considerando que a máscara e a duplicidade são elementos importantes no processo de ritualização do cotidiano, este autor mostra como estas constituem meios de proteção contra as formas de absolutização, na medida em que propiciam não um comportamento contestatório, mas a contornação dos valores que se mostram incômodos. A máscara é vista não como um elemento secundário sobreposto ao indivíduo, mas como parte integrante de sua estruturação:

Frente à angustia da morte, cujo paradigma é a alteridade, frente à angústia da alienação, cuja manifestação usual é a coerção social em todas as suas formas, a máscara, o jogo duplo, oferecem um refúgio bastante seguro, permitindo existir, ser – no sentido mais forte do termo – fazendo como todo mundo. (MAFFESOLI, 2001, p.168).

Neste sentido, é possível localizar nas falas das mães os diversos valores por elas apropriados para manifestar – muitas vezes com um apelo fantástico do real – a forma que encontram para encarar a situação adversa e diferenciada em que vivem, sobretudo na diferenciação do papel de “mãe” em relação a ser “mãe de criança especial”.

Um caso bastante interessante é o da Mãe de G., que não é a sua mãe biológica. Em sua narrativa ela traz as dificuldades impostas pelos valores – tanto familiares como os de sua comunidade – de assumir um marido em segundo matrimônio com duas crianças frutos deste mesmo casamento; dificuldades estas potencializadas pelo fato de uma destas crianças ser com um “problema mental grave”. Em sua narrativa vê-se que, ao assumir esses papéis, ela se afirma como mulher, mãe e esposa de forma mais marcante e grandiosa do que em uma situação “comum”:

[Sobre casar-se com um homem com um filho Autista]: