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A. MADDİ UNSURLAR

4. Fiil

As teorias6 que buscam explicar a utilização do sistema formal de Justiça tendem a apontar que fatores socioeconômicos, especificamente nível de escolaridade e ren- da, são os principais preditores da utilização do sistema de Justiça formal —ou seja, quanto maior a renda e a escolaridade de uma pessoa, maior a probabilidade de que ela utilize as instituições formais de Justiça na gestão de eventuais conflitos. Essas teorias apontam, além dos fatores socioeconômicos, o acesso à informação (o reconhecimento de que determinado problema caracteriza-se como um proble- ma jurídico, passível de resolução pela Justiça formal); a oportunidade (a vontade e disponibilidade de iniciar uma ação judicial para solucionar o problema) e o conhe- cimento acerca das instituições formais de Justiça, sua localização e a confiança que se tem nelas.

Existem levantamentos de âmbito nacional que procuram explicar as caracte- rísticas determinantes do acesso à justiça, e nesses estudos nos interessa entender quais as características que explicam o recurso às instituições formais de Justiça, particularmente o Judiciário. Os três principais estudos são a PNAD (pesquisa por amostragem domiciliar, do IBGE), via Suplemento de Vitimização e Justiça;7 o Índi- ce de Confiança na Justiça (FGV)8 e o Sistema de Indicadores de Percepção Social sobre Justiça, do IPEA.9

Esses três estudos demonstram a existência de forte correlação entre carac- terísticas socioeconômicas e acesso à Justiça, com o IPEA indicando que cerca de metade da demanda pelo Judiciário pode ser explicada por fatores socioeconômi- cos (renda e escolaridade).

Para o desenvolvimento do nosso instrumento de pesquisa, nos baseamos, portanto, nas características socioeconômicas dos consumidores, mas buscamos ampliar os potenciais fatores explicativos, de acordo com o levantamento teórico sobre processamento de disputas de contencioso civil. Há diversas pesquisas que abordaram a temática das experiências que os indivíduos têm com os eventos de Justiça Cível, e o acesso e utilização de organizações ou instituições da Justiça. Nosso interesse nesse levantamento foi, sobretudo, perceber os fatores explicativos

6 Ver, por exemplo, (i) SADEK, Maria Tereza. Acesso à Justiça: visão da sociedade. Justitia, 2009, v. 1, p. 271-280. (ii) CArLIN, Jerome; HOWArD, Jan. Legal representation and class justice. UCLA Law review, jan. 1965, n. 12, p. 381-437. (iii) CAPPELLETTI, Mauro; GArTH, Bryant.

Acesso à Justiça. Porto Alegre: Fabris, 1988.

7  Ver PNAD, 2009. In: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/vitimizacao_ acesso_justica_2009/default.shtm>.

8  Para mais informações, ver FGV, 2011-2012: <http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/ handle/10438/6618>.

9  Para mais informações, ver IPEA, 2010: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/ PDFs/SIPS/110531_sips_justica.pdf>.

determinantes (ou drivers) na busca pelas instituições formais de Justiça —ou seja, como se explica o recurso ao Judiciário ou a judicialização de conflitos na área cível. Foram dois os trabalhos de referência. O primeiro deles foi um mapeamento sobre as principais pesquisas e teorias sociológicas na explicação do acesso à Justiça (Sandefur, 200810) e o segundo, uma survey sobre a utilização das instituições de Justiça para a solução de conflitos no âmbito cível (Genn, Paterson, 200111).

De acordo com revisão feita por Sandefur (2008), há três principais conjuntos de fatores que explicariam as diferenças na forma de gerenciamento dos conflitos passíveis de solução via Justiça na área cível.

A opção por recorrer à Justiça (ou não recorrer) para resolver um conflito nessa área dependeria, em primeiro lugar, do acesso a recursos materiais e simbólicos, ou seja, das diferenças na distribuição de recursos —como dinheiro, informações, e as conexões sociais úteis— e dos custos estimados em optar por cursos específicos de ação —dinheiro em jogo em uma disputa, honorários advocatícios ou relacionamen- tos que podem ser interrompidos pelo conflito aberto. Assim, no desenho do nosso instrumento de pesquisa, inserimos questões para possibilitar a classificação dos in- divíduos em termos de recursos materiais (p. ex., renda, classe econômica e escolari- dade) e simbólicos (p. ex., conhecimento e proximidade com operadores do Direito). O segundo conjunto de fatores envolveria orientações subjetivas, tais como crenças sobre a legitimidade ou eficácia da lei, crenças sobre o que constitui um tratamento justo ou sobre o que se tem direito ou é provável conseguir se perseguir algum curso de ação específico —no caso, ingressar no Judiciário. Assim, inserimos um conjunto de questões sobre conhecimento e confiança em instituições de Jus- tiça (Judiciário, Defensoria etc.) e instituições administrativas passíveis de geren- ciarem o tipo de conflito que nos interessa nesta pesquisa (Procon, ANEEL etc.). Ainda de acordo com Sandefur, nesse mesmo conjunto, é preciso considerar que diferenças nas experiências de Justiça civil podem criar diferenças nas orientações subjetivas, afetando as crenças das pessoas, e também podem refletir o impacto dessas orientações sobre o comportamento. Assim, buscamos mapear a experiên- cia prévia dos entrevistados com essas instituições (já utilizaram, quantas vezes, em quais situações etc.).

O terceiro conjunto de fatores trata da institucionalização diferencial de algu- mas temáticas passíveis de disputa, ou seja, alguns tipos de problemas e interesses têm sido institucionalizados como compreendidos pela lei e juridicamente acioná- veis, enquanto outros, não; e outros ainda estão parcial ou precariamente institucio- nalizados, sendo ainda objetos de luta ativa. Nesse caso específico, teríamos tipos de conflitos para os quais parece haver entendimento consolidado na Justiça, por exemplo. Para isso, orientamos a coleta a partir dos tipos de conflito de consumo mais comuns no rio de Janeiro quando se trata do setor elétrico (esse mapeamento

10  SANDEFUr, rebecca L..Access to civil justice and race, class, and gender inequality. Annual review of Sociology. Ago 2008; 34: 339-358.

11 GENN, Hazel G.; PATTErSON, Alan. Paths to Justice Scotland: what people in Scotland think and do about going to Law. Hart Publishing, 2001.

foi feito com base em dados fornecidos pela Light e validados a partir de pesquisas jurisprudenciais realizadas pelo grupo). Listamos uma série de nove tipos de confli- tos, a partir da análise de recorrências de processos.

1. Teve variação na tensão da energia, ou seja, houve alternância de luz forte com luz fraca?

2. Teve algum eletrodoméstico danificado por problemas no fornecimento de energia?

3. recebeu conta de luz da qual discordou do valor, por achar que houve cobrança excessiva?

4. recebeu cobrança de luz com débito de pessoas que residiam antes do(a) sr.(a) nesse imóvel?

5. A Light negativou o nome do responsável pela conta de luz do domicílio, ou seja, mandou o nome ao SPC ou Serasa?

6. recebeu algum comunicado ou aviso de débito ou conta atrasada da Light?

7. recebeu algum comunicado ou aviso de corte de energia da Light? 8. Teve dificuldade para colocar a conta de luz em seu nome ou no nome de

alguém do domicílio, ou seja, abrir um novo contrato?

9. Teve dificuldade para tirar a conta de luz do seu nome ou do nome de alguém do domicílio, ou seja, encerrar o contrato?

Para cada entrevistado que afirmou ter vivenciado um tipo de conflito nos 12 meses anteriores à entrevista, perguntamos uma série de questões sobre a admi- nistração desse conflito específico, ou seja, se fez alguma coisa ou procurou alguém para solucionar o problema e, se afirmativo, quem foi procurado e o desfecho do conflito.

Outro trabalho que serviu de referencial para a construção do instrumento de pesquisa foi o de Genn e Paterson (2001). Os autores conduziram uma survey na Es- cócia para determinar (i) a incidência de problemas passíveis de solução via Justiça cível; (ii) a resposta do público frente à vivência desses problemas (se procuraram alguém, a quem procuraram, se e por que foram ou não às instituições formais de Justiça); (iii) padrão de resposta frente aos tipos de conflitos vivenciados; (iv) tipo de auxílio prestado pela instituição buscada (informação, assistência etc.); e (v) resultados alcançados. Com base nesses cinco tópicos, é possível estabelecer a trajetória dos conflitos. Inspiramo-nos nesse modelo de mapeamento de trajetória para entender qual o desfecho para cada um dos problemas vivenciados pelos con- sumidores da Light.