135 2.3.1.1.2.2 Vergi Rekabeti Teoriler
T. C Uludağ Üniversitesi, ĠĠBF 19 Türkiye Maliye Sempozyumu, Türkiye‘de Vergi Kayıp ve
2.3.1.1.3. Elektronik Ticaret
Entendemos que a memória de cada indivíduo opera “com grande liberdade escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente mas porque se relacionam através de índices comuns” (BOSI, 2003, p. 31). Ressaltamos essa afirmação de Bosi, porque a mesma vai ao encontro da proposta deste trabalho, que busca ressaltar as articulações entre o individual e o coletivo. É nesse sentido que adotamos a história oral como perspectiva metodológica, por a considerarmos valiosa ao registro do cotidiano e por ela ter se mostrado apropriada ao cumprimento dos objetivos propostos nesta investigação, que recaíram sobre a compreensão dos sentidos e das marcas que a experiência de múltiplas (re)provações escolares imprimiram à vida dos sujeitos. Dada essa nossa intenção de aprofundar as repercussões do fracasso em trajetórias, pareceu-nos pertinente, ainda, o desenvolvimento de um estudo em moldes longitudinais.
A combinação da história oral e do estudo longitudinal caracteriza a opção metodológica de nosso estudo. Com ela acreditamos conhecer e apresentar as visões que os
entrevistados nesta pesquisa possuem sobre acontecimentos históricos, complexos e marcantes, que são construídos em bases comuns, resultado de um processo de negociação em que ocorre a conciliação entre memória individual e coletiva, característica própria da alteridade (SCHMIDT, 2006; AUGÉ, 1997). Lembramos que essa concepção se refere à constituição do indivíduo na interação dele com os outros. Ao coletar as trajetórias de vida, com ênfase no processo escolar, aproximamo-nos exatamente desse ponto: adentramos nas relações que os entrevistados estabelecem, em suas falas, com os outros e com o contexto social.
Dessa forma, os indivíduos com os quais nossos sujeitos se relacionaram ao longo da vida foram considerados por nós figuras relevantes a serem incorporadas nesta pesquisa, uma vez que trazem visões diferentes e complementares sobre um mesmo episódio, local e situação. Ademais, consideramos que as interpretações e os significados dados a certos acontecimentos são pessoais, sendo assim, os relatos colhidos em cada entrevista são uma elaboração dentre as muitas possíveis e contêm elementos extremamente ricos da singularidade.
As histórias narradas adquirem, portanto, contornos próprios, subjetivos. Cabe mencionarmos que esses aspectos foram identificados de diversas formas nas entrevistas. Alguns dos nossos informantes buscaram “estabelecer coerência” em suas falas (POLLAK, 1989), o que nos revelou a construção da história de vida como uma organização pessoal dos acontecimentos que balizaram uma existência. Entendemos que essa disposição do relato resultou, em muitos casos, de episódios solidificados e representações estereotipadas e influenciadas por uma ideologia dominante, mas é necessário considerarmos e nos conscientizar de que tanto os depoentes quanto a pesquisadora sofrem o peso dos estereótipos, das ideologias, das classes sociais. Ponderamos que esse é um dos limites da história oral que levamos em conta nesta pesquisa, assim como o tempo despendido para a realização da investigação, que requer calma e disposição para ouvir e para ser transformado pelas convivências estabelecidas nos momentos das entrevistas (BOSI, 2003).
No entanto, entendemos que, assim como os depoimentos orais, os documentos oficiais podem apresentar essas características desviantes, preconceituosas e estereotipadas, influenciadas pelo ideário dominante, uma vez que, como nos explica Ecléa Bosi (2003, p.
22), “uma das faces da memória pública [e tudo o que ela traz consigo] tende a permear as consciências individuais”. 13
Assim sendo, nesta investigação, buscamos entender os entrevistados situados em um contexto histórico e social e em sua maneira de ser, em seu modo de contar os acontecimentos, em sua lógica afetiva comumente ignorada pelo ouvinte. Aferimos que, do mesmo modo que a metodologia proposta em história oral, este estudo não buscou a verdade, buscou uma verdade; e procura indicar que a fonte oral congrega como elemento precioso a subjetividade do depoente.
Destacamos que as individualidades dos sujeitos se ressaltaram no decorrer das entrevistas, na medida em que nossos entrevistados transformavam episódios, configurando- os ao seu modo e estabelecendo descontinuidades temporais. Essas modificações, especialmente as digressões e os silêncios, não foram censuradas, como sugerem os estudiosos da história oral (BOSI, 2003; POLLAK, 1989), mas interpretadas, uma vez que essas alterações podem nos indicar, por exemplo: a aspiração de que um evento abordado tivesse ocorrido daquela forma; um significado que o sujeito atribuiu a determinado acontecimento; a interferência de forte carga emocional no relato, levando o depoente a silenciar certos eventos.
Em um primeiro momento, pelo fato de buscarmos relatos de pessoas que possuem histórias de reprovações sucessivas no início da escolarização, pareceu-nos que lidaríamos inevitavelmente com o silêncio. Porém, diferentemente daquilo que supúnhamos, essas vivências conturbadas não levaram necessariamente ao esquecimento dos episódios: indicavam-nos, por vezes, a busca por alguém que tivesse vontade e disposição para escutar o que se tinha a dizer.
Nos casos em que o silêncio se fez presente, o interpretamos como uma característica do discurso autêntico. Além disso, quando detectamos hesitações nas respostas não as invalidamos, pelo contrário, essas marcas foram encaradas como momentos nos quais os entrevistados estabeleciam sentidos para si. Acreditamos que essas observações são pertinentes, ainda mais pelo propósito desta investigação ser o de construir histórias de vida e de escolarização de pessoas que tiveram suas primeiras experiências nas séries iniciais do ensino fundamental há mais de vinte anos. Além disso, esse enfoque especificamente na trajetória dos indivíduos com vivências de fracasso escolar poderia contribuir para que nos
13 Vale lembrarmos que parcela considerável dos limites atribuídos a história oral também podem ser
encontrados nas demais fontes, como: cartas, fotografias, obras de arte, documentos, legislação etc. Cada fonte possui funções específicas e características autônomas que apenas uma ou outra, ou um conjunto de fontes podem preencher (PORTELLI, 1997).
deparássemos com o silêncio por parte dos entrevistados, isto porque, a escola é instituição complexa e multifacetada, que produz marcas, impactos, lembranças interpretadas como positivas e negativas e que podem influenciar os rumos da vida daqueles que passam por ela. Identificamos que sua presença foi estruturante nas vivências de nossos entrevistados, mas, em alguns casos, foi realmente quase apagada dos relatos. Nessas ocasiões foi preciso que estivéssemos atentos também para escutar esses silêncios, realizando um trabalho em que a paciência mostrou-se um elemento fundamental. 14
Portanto, ao trabalharmos com a história oral tornou-se possível adentrarmos em aspectos sutis de forma que nenhuma outra metodologia conseguiria acessar (THOMPSON, 1992). Valendo-nos dela pudemos dar cada vez mais destaque e nos aprofundar nas singularidades que integram as reconstruções do passado, o que nos permitiu conhecer os desdobramentos e as versões criadas pelas memórias pessoais, que são também permeadas pelas memórias familiares, grupais e sociais.
No face-a-face com o pesquisador, o pesquisado elabora o relato e a representação de sua existência; ele unifica, ordena e hierarquiza as diversas situações às quais pertence. Constrói uma imagem de si mesmo que integra as representações que os outros fazem dele. Ele se produz, assim, como ator social e, poderíamos acrescentar, propõe ao mesmo tempo uma imagem da sociedade em que vive. (AUGÉ, 1997, p. 148)
Desse modo, o interesse em empregarmos a história oral situou-se nessa possibilidade de recolhermos vasta quantia de informações fatuais, contando com a tendência que essa perspectiva metodológica possui de contribuir para que se sobressaia uma visão de mundo e de si e um significado próprio dado pelos entrevistados aos processos experienciados e à escolarização.
Posto isso, partimos para as questões relacionadas à realização da pesquisa propriamente dita: a busca e a coleta das histórias de vida de pessoas que passaram por inúmeras (re)provações nos anos inicias do ensino fundamental e que vivenciaram um mesmo contexto escolar, porém foram marcadas por ele de diferentes formas e por diferentes razões. Segundo Alberti (1990, p. 13) “[...] qualquer tema, desde que seja contemporâneo isto é, desde que ainda vivam aqueles que têm algo a dizer sobre ele – é passível de ser investigado através da história oral”. Mas quais são os entrevistados em potencial para esta pesquisa? Como foram escolhidos? Como foram contatados?