• Sonuç bulunamadı

1.3.1. FIKIH USULÜNDE TE’VİL

1.3.1.2. Cumhur Usulcülere Göre

A análise da construção passiva mostrou que ela está associada a um significado de eventualidade direcionada. Apenas verbos que designam eventualidades, ou seja, eventos de ação ou causação, eventos processuais e estados de experiência, podem se integrar com a construção. Além disso, as eventualidades designadas pelos verbos

118 Os verbos incoativos (cf. CANÇADO e AMARAL, 2010), em sua maioria, também não se associam à

construção passiva, como é o caso de *a criança foi adoecida pelo médico. Esses verbos também são estritamente causativos, na definição de Cançado e Amaral, o que estaria de acordo com nossa análise. Entretanto, há alguns casos de compatibilização, como em o vinho foi amadurecido em tonéis de carvalho

pelo produtor. Nesses casos, a conceptualização associada à descrição de evento vai além da simples

mudança de estado comumente associada a esses verbos, como evidenciado por a banana amadureceu. Em um levantamento rápido, notou-se que apenas verbos incoativos que apresentam um participante inanimado parecem poder se associar à construção passiva. Em hipótese, a não animacidade do participante que muda de estado permitiria uma conceptualização em que se atribui controle ao participante causador, um sentido compatível com o significado da construção. Entretanto, essa classe não foi incluída na análise desta pesquisa porque não foi possível investigar mais detidamente sua representação semântica. Ainda, suspeitamos que o predicado CAUSE, presente opcionalmente na representação semântica dada por Cançado e Amaral para explicar o fato de que esses verbos podem ser “causativizados” e aparecer em uma construção transitiva, talvez não seja um aspecto do sentido do verbo em si, mas sim da construção transitiva em que ocorrem.

precisam estar associadas a uma conceptualização unidirecional, que parte do participante X para o participante Y119. Assim, vamos utilizar a descrição EVENTUALIDADE DIRECIONADA para representar o significado da construção passiva. Esse significado emerge da análise das classes de verbos estudadas, como mostra a tabela abaixo, confirmando a hipótese de integração verbo/construção:

Tabela 4 – Sentido que emerge das classes de verbos compatíveis com a construção passiva.

Classe de verbos Exemplos Sentido que emerge da classe

Sentido que emerge de todas as classes Agentivos de afetação X corta Y. Agentivos benefactivos X ajuda Y. Agentivos de criação X constrói Y. Agentivos de mudança de lugar X arquiva Y. Agentivos de locatum X algema Y. X direciona ação para Y. Causativo/ agentivos (ou verbos causativos de mudança de estado) X quebra Y. X assusta Y. X direciona uma mudança de estado para Y.

De obtenção X consegue Y. X direciona

interesse em obter Y.

De experiência X admira Y. X direciona emoção para Y.

X direciona

eventualidade para Y.

O polo sintático da construção passiva se caracteriza pela forma Sujeito ser+Vpp (SPpor), em que o sintagma preposicionado encabeçado pela preposição por é opcional.

119

Em alguns casos, essa direção da eventualidade não é muito clara. Por exemplo, o sentido de direção não é tão claro para o verbo receber, mas ainda é possível dizer que, em X recebe Y, há intenção de X em receber Y, e, portanto, direcionamento dessa eventualidade designada por receber de X para Y. Já para o verbo herdar, essa relação é ainda mais obscura. Apesar desse ponto fraco, assumimos que esses verbos, quando se integram à construção passiva, assimilam a conceptualização que caracteriza seu significado; e lembramos que a pesquisa aqui apresentada refere-se a uma hipótese de trabalho, checada para algumas

O polo semântico da construção passiva é caracterizado não só pelo significado EVENTUALIDADE DIRECIONADA, mas também pela função de desfocalização do papel participante responsável por iniciar essa eventualidade, ou seja, o participante que corresponde a X na representação semântica do verbo. A função de desfocalização é atendida através do sombreamento do papel participante associado a X na representação semântica do verbo, e, sendo assim, será representada na construção passiva com a notação “F: sombrear X”. O sombreamento permite que esse papel participante seja codificado sintaticamente em uma posição menos proeminente, o que corresponde ao SPpor opcional que caracteriza o polo sintático da construção. Vamos

assumir, de forma mais geral, que a relação entre o significado do verbo, integrado em PRED, e a construção passiva é uma relação estendida de instância. Sendo o significado da construção dado em termos da noção de eventualidade, pode se dizer que o significado do verbo especifica o tipo de eventualidade da construção, podendo especificar uma ação/causação, um processo ou uma experiência em relação ao significado do verbo. Assim, essa relação pode ser descrita como uma instância, em termos mais gerais, pois uma ação/causação, um processo ou uma experiência podem ser instâncias da noção semântica de eventualidade; ou pode ser descrita especificamente pelo o que o verbo designa: ação/causação, processo ou experiência. Preferimos utilizar apenas o termo instância para descrever essa relação. A construção passiva é então representada por:

Figura 7 – A construção passiva do PB

Sem EVENTUALIDADE {Alvo, Fonte} DIRECIONADA

F: sombrear X

R: instância PRED { }

Para que um verbo instancie a construção passiva, segundo o Princípio da Coerência Semântica, é preciso haver compatibilidade entre o significado do verbo e o significado da construção. Nossa análise mostrou que os verbos compatíveis com o significado da construção passiva são verbos que designam uma eventualidade direcionada de X para Y. Segundo o mesmo princípio, os papéis participantes do verbo devem se fundir, por compatibilidade semântica, com os papéis argumentais da construção. Por exemplo, o verbo quebrar, cujo significado designa uma ação/causação direcionada do participante “quebrador” para o participante “quebrado”, é compatível com o significado da construção passiva e integra-se em PRED. O papel participante de “quebrado” funde-se, por compatibilidade semântica, com o papel argumental de “alvo”, enquanto que o papel participante de “quebrador” funde-se com o papel argumental de “fonte”. Pelo Princípio da Correspondência, todo papel participante do verbo deve ser expresso por um papel argumental da construção, mas a função da construção passiva, dada em F, pode cancelar esse princípio, pois, ao sombreá-lo, permite omitir o papel participante de “quebrador” da codificação sintática. Por outro lado, esse mesmo papel participante pode ser codificado sintaticamente, mas apenas em uma posição sintática menos proeminente. A integração do verbo quebrar com a construção passiva é representada por:

Figura 8 – Construção passiva + verbo quebrar

É preciso realçar que a construção passiva, tal qual definida neste trabalho,

Sem EVENTUALIDADE {Alvo, Fonte} DIRECIONADA

F: sombrear X

R: instância QUEBRAR {quebrado, qquueebbrraaddoorr}

correspondente, como é o caso da instância presente em ela foi incompreendida pelos pais (exemplo de PERINI, 2010). Mesmo não havendo a forma verbal *incompreender em PB, o que põe em xeque o estatuto da forma de particípio presente na construção passiva (é uma forma “verbal” ou não?), o importante é que a forma de particípio seja compatível com o significado geral da construção. Havendo compatibilidade, pode haver instanciação. É importante lembrar que a relação entre a construção e o verbo/particípio é de natureza conceitual, ou seja, a construção passiva não é definida como uma “alternância de diátese”120; mas como uma unidade linguística independente, que se relaciona semanticamente a outras unidades linguísticas, como o verbo ou particípio e os outros itens lexicais que a instanciam.

Por fim, observamos que construção passiva é a construção que possui o significado mais geral e esquemático das três construções analisadas, sendo a mais produtiva das três. Isso fica claro na própria representação semântica atribuída à construção, que não envolve nenhuma caracterização semântico-lexical em termos de predicados primitivos, mas apenas uma descrição semântica de natureza construcional/gramatical. A construção passiva ocupa, portanto, o extremo mais gramatical do contínuo de construções analisadas nesta tese.