I. BÖLÜM
2.2. Konya Đttihat ve Terakki Okulu
2.2.7. Mütareke Dönemi’nde Konya Đttihat ve Terakki Okulu
2.2.7.4. Anadolu Đntibah Okulu’nun Kapanışı
Na medida em que se dinamizava a economia de Goiás no início do século XX, com o escoamento da produção agropecuária para os mercados do sudeste via estrada de ferro, grupos econômicos beneficiados pela modernização no sul do estado passam a fazer oposição política àqueles que comandavam Goiás na capital Vila Boa. De acordo com Sandes (2002, p. 25), nesse contexto de vislumbramento de um novo cenário para a economia goiana é a Revolução de 1930 que impulsiona a formação de um novo sentido regional. Esse impulso acaba por se traduzir na concepção e na materialização de uma cidade: Goiânia.
Pedro Ludovico Teixeira, médico que passa a governar Goiás após a Revolução de 1930 como representante dos grupos oligárquicos do sul e sudeste de Goiás, apoiado por Getúlio Vargas, protagoniza o projeto de tomada do controle político por meio de uma transformação simbólica sintetizada por Goiânia. Ludovico revitaliza antigas vontades anteriormente manifestadas de transferência da capital de Goiás de Vila Boa para outra cidade, ideias de mudança que podem ser verificadas desde o império32. A nova capital, pensada e viabilizada pelo novo líder, significava o desejo dinamizador de inserir Goiás no mercado nacional, ampliando o processo de acumulação capitalista no estado já iniciado desde a chegada das vias férreas (CHAUL, 1988, p. 26).
Criar, pensar, possibilitar Goiânia e transferir a capital de Vila Boa para esse novo lugar demandou um processo de construção de uma imagem de cidade que se equaciona a uma imagem de estado agora inserido em um projeto de nação. Para se analisar tal processo
31 A ideia de símbolo é aqui compreendida como um tipo de signo, semioticamente. Tratamos o termo como um conceito-chave da teoria do simbólico, uma vez que o objeto ausente é representado à consciência por intermédio
de uma “imagem” ou símbolo, isto é, algo pertencente à categoria de signo (FALCON, 2002, p. 91).
32 Sobre as tentativas de mudança da capital, Chaul (1988, p. 66-67) mostra que pelos idos de 1754 o governador Conde dos Arcos mostra ao soberano português as dificuldades climáticas de Vila Boa, sugerindo a mudança da capital para Meia-Ponte (atual Pirenópolis). Em 1830, Miguel Lino de Morais propõe a mudança para Água Quente. Couto Magalhães, Rodolfo Gustavo da Paixão, e, ainda, posteriormente, diversos legisladores, contaram com a possibilidade do abandono de Vila Boa como capital.
leva-se em consideração a posição de Chaul (1988), que estabelece na história da historiografia de Goiás a relação prioritária entre a modernidade no estado e as imagens produzidas sobre Goiânia, isto é, suas representações de cidade “moderna”. Diante do marco que representa essa aproximação, buscamos demonstrar como a Goiânia que se quis moderna e modernista, intimamente vinculada ao plano getulista de nacionalismo, monumento de uma nova oligarquia local, se estrutura do ponto de vista simbólico sob diversos alicerces.
Nesse contexto, interessa observar a produção da transformação da imagem do estado a partir da construção da imagem de Goiânia como cidade “moderna”, voltada para o novo, para o futuro, o progresso e a modernidade e, portanto, foco de migrações e motivadora de uma necessária reelaboração identitária para Goiás, uma identidade urbana, moderna. Isso se dá a partir dos discursos empreendidos sobre a nova capital dentro do contexto varguista de ocupação e modernização do interior do Brasil pós-1930.
Necessário considerar fundamentalmente que a construção da imagem de modernidade de Goiás a partir da existência de Goiânia é resultado de um processo de arranjo identitário complexo que começa com a criação da imagem de decadência da região, desde a queda da produção aurífera em fins do século XVIII. Chaul (1997, p. 58) se baseia em Castoriadis para explicar esse processo, mostrando como “todo simbolismo se edifica sobre as ruínas dos edifícios simbólicos precedentes”. Desse modo, revela que os discursos de construção de uma imagem de decadência e atraso para Goiás, elaborados a partir de uma interpretação da condição de isolamento da região após o esgotamento da extração do ouro no século XIX pelos viajantes e governantes, é retomado no discurso político do grupo do sudoeste goiano que quer opor-se ao grupo ligado ao contexto vilaboense.
Tais argumentos, segundo o autor, serviram para justificar a necessidade do novo que, por sua vez, era o mote do ideal político de Pedro Ludovico, selando a chegada dos grupos oligárquicos do sul ao poder, substituindo o sistema dos coronéis a princípio dos anos 1930. Esse momento seria o do alcance da representação da modernidade, por meio de uma recuperação de imagens/conceitos de decadência e atraso, como forma de justificar o „velho Goiás‟ pelo movimento de 1930 (CHAUL, 1997, p. 30). Assim, a representação da modernidade em Goiás, absorvida pelos arautos de 1930 indicava,
a tentativa de rompimento com o passado e a construção de uma utopia, na qual, por intermédio de Goiânia, vislumbrava-se um futuro grandioso para o estado de Goiás. Esse imaginário salvacionista, que marcou o projeto brasileiro de modernidade, por intermédio de Goiânia, apresentava-se a Goiás como redenção de um tempo que estava mergulhado em décadas de miséria e penúria. Nesse sentido, a nação e a
região se encontravam unidas em um mesmo fim: a busca da modernidade através do ideal de progresso. (CHAUL, 1997, p. 21)
Nessa medida, Goiânia e o Estado Novo estão imbricados por fazerem parte de um mesmo projeto. Pedro Ludovico enfrentava forte oposição local para realizar a transferência da capital para Goiânia e o apoio de Getúlio Vargas, em 1937, é definitivo para a efetiva mudança da capital administrativa de Goiás. Como aliado principal de Getúlio Vargas na região, o regime autoritário possibilita que Ludovico faça tudo de acordo com seus interesses. Por isso Goiânia, ainda em construção, pode se tornar capital em 1937.
Tanto Goiânia precisou do Estado Novo quanto este se apoiou em seu projeto de construção. Sabe-se que, depois de efetivado, uma das propostas do regime que começa em 1930 era começar a chamada „marcha para o oeste‟, e Goiânia era fundamental para impulsionar o intento. Chaul (1988, p. 156) explica que a “marcha para o oeste” era a proposta política do governo Vargas em termos de povoamento, proposta que se aliava à necessidade de concretizar a “frente pioneira”33
em Goiás, já que havia condições para atender à política econômica do Estado Novo na região e tratava-se de uma oportunidade de abrir novas frentes rumo a Amazônia. Nesse sentido, Goiânia pode ser considerada
um fruto do Estado Novo, uma vez que sua realização dependeu basicamente do regime instalado em 1930 e que culminou na ordem imposta por Vargas em 1937. Para o Estado Novo, o inverso também é verdadeiro. Goiânia era a representação
maior do “nacionalismo”, do “bandeirantismo”, da “sagacidade” do brasileiro, tão
decantados pelos ideólogos do Estado Novo. (CHAUL, 1988, p. 58)
Como se vê, Goiânia se adéqua com perfeição aos ideais estadonovistas de progresso e desenvolvimento. Sua construção é parte fundamental da estratégia nacional de ocupação do sertão brasileiro, intento de fazer o país crescer para o oeste, irradiando mudanças a partir do centro. Se sertão é, entre outras possibilidades conceituais, a significação do extremo (o ermo geográfico, o ignoto simbólico, a prova existencial), a seguir se perceberá que cidades como Goiânia são armas contra o sertão. Luiz Sérgio Duarte da Silva (2006, p. 171) explica que sertão significa, também,
[...] região mental à margem da civilização, reino da natureza e do perigo, o sertão é, sobretudo, interior, e, então, ambiguamente, significa também o cerne da nacionalidade. Reserva da especificidade nacional, o significante sertão tem seus significados dependentes de uma ontologia substancialista e de uma epistemologia
33O conceito de “frente pioneira”, desenvolvido por José de Souza Martins (2009, p. 39) nas suas investigações sobre a fronteira, aponta para os aspectos sociais, econômicos e políticos, assim como os atores, atividades e atitudes presentes na ocupação das “frentes de expansão” que se abriram no Brasil ao longo do século passado.
historicista. Seu referente, o ser nacional, é representado como pura contradição: a fronteira como centro.34
Sob essa perspectiva, a nova capital de Goiás é projeção simbólica de invenção da nação. Goiás, um estado que demorara tanto para se engajar no projeto da nacionalidade, assim o faz ao encampar um grande investimento contra o sertão, pois à Goiânia se segue Brasília, e com esta se efetiva a modernização econômica, política e das esferas de valor no coração do Brasil. Projetos que se ligam aos termos de adequação da implementação de um projeto de modernidade na periferia do Brasil, justamente o que representava o sertão, lugar imaginado de encontro da identidade brasileira.
Nesse caminho de interpretação, procura-se explicitar aqui o complexo arranjo identitário no qual se insere nosso objeto de estudo, a experiência moderna nas artes plásticas em Goiás. Interessa-nos refletir sobre imagens diagnosticadas (principalmente aquelas identificadas pela historiografia) no sentido de explicitar, posteriormente, uma “poética visual”35
modernista que tem seu lócus na cidade de Goiânia. Nesse sentido, tudo que ilumine noções representacionais sobre Goiânia e, sobretudo, revele seu contexto simbólico fundador, é, neste trabalho, sublinhado36.
34
Vale destacar que orbita sobre o conceito de sertão a ideia de fronteira, que será trabalhada no próximo tópico deste capítulo e que é de suma importante para a compreensão de nossa perspectiva.
35 Toma-se aqui a ideia de poética nos termos de Luigi Pareyson (2001, p. 11-12) como programa de arte, declarado em um manifesto, em uma retórica ou, inclusive, implícito na própria atividade artística; ela traduz, em termos normativos, operativos, um determinado gosto, que, por sua vez, é toda a espiritualidade de uma pessoa ou de uma época projetada no campo da arte. De modo que a poética diz respeito ao fazer da obra, que pode ser lida e interpretada pelo exercício de sua análise e crítica, tratando-se, portanto, de uma forma de experiência estética. Todavia, é um determinado gosto convertido e programa de arte. Fazer dela sustentáculo e norma dentro da própria atividade é trabalho do artista, de modo que à atividade artística é indispensável uma poética.
36O papel da historiografia no trabalho de análise recente (contemporânea) do “discurso da decadência” é ele próprio agente definidor de uma identidade regional, assim como explica Sandes (2002, p. 31), cujas considerações são muito importantes para a construção de nosso ponto de vista, de modo que esse discurso da
decadência foi revisto com os olhos fixos no que havia de moderno em Goiânia: “O interesse pelos estudos
urbanos acompanha o desejo de modernidade que se coloca como ponto de chegada da reviravolta de uma região
outrora conhecida como matuta e tradicional. O debate sobre o “ser goiano” x ou a “goianidade”, carrega
consigo o desejo de afirmação de uma identidade capaz de reorganizar a experiência histórica e a memória da
região”. Assim, o presente trabalho não deixa de seguir esse sentido historiográfico, se colocando em uma