• Sonuç bulunamadı

2. KURAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR

2.6. Ġlgili AraĢtırmalar

2.6.2. YurtdıĢında YapılmıĢ Olan AraĢtırmalar

Estabelecido que o amor não é um sentimento, mas um ato, um mandamento e uma ferida; ato em prol do próximo; mandamento para que se siga o exemplo do samaritano; ferida, pois o Logos fere a todos com a salutar ferida para que, pelo amor, a humanidade chegue a Deus, precisamos descrever como acontece esse amor a Deus e ao próximo. Por certo que não é uma paixão avassaladora que introduz o homem na desmesura () do desejo, mas um amor que tudo ordena a partir do seu princípio. Outrora, Platão atribuiu a genealogia de Eros a Penia (Pobreza) e a Poros (Recurso), não a Afrodite (Beleza). No entanto, há uma relação entre o amor cristão e o eros platônico, pois ambos relacionam-se com o conhecimento de si.

Veja-se, a princípio, a ironia de Sócrates com Alcebíades ao lhe reprovar o apego à beleza extraordinária derivada das formas físicas, pois assim fazendo apega-se a si mesmo, mas não ao que é real (PLATON, 1949, 218e). Isso deriva do falso conhecimento que Alcebíades tem de si mesmo e de Sócrates, pois, como disse Nietzsche, séculos depois: “do

Amor só nascem as visões mais profundas” (HADOT, 2002, p. 130). A compreensão verdadeira do amor não passa pela mera paixão carnal. Nesse sentido, tem razão Lévinas ao dizer que necessário se faz descobrir o amor sem concupiscência (LÉVINAS, 2010, p. 130). Mas, para que isso seja possível, precisa-se ultrapassar a noção grega do amor como separação e privação, pois enquanto assim se pensar, o amante sempre buscará no amado o que lhe falta e não o que ele pode oferecer. O amante sempre se prenderá ao amado como a uma presa, esquecendo-se, no entanto, da oblatividade e do transbordamento que o amor deve praticar, exatamente na entrega de si ao outro. Por isso, o amor precisa ser ordenado para que possa realizar a busca do Logos e o amor a cada pessoa ordenadamente (HADOT, 2002, p. 129). Não obstante, já na antiguidade, Celso acusa o amor mútuo entre os cristãos () como “nascido de um perigo comum e mais forte que todo juramento” (ORÍGENES, 2004, I, 1). Se o amor comporta um perigo, vejamos como o pensamento cristão enquadrou-o dentro da dinâmica da filosofia cristã.

O primeiro e mais evidente ordenamento do amor estrutura-se mediante o amor a Deus; em segundo lugar, o amor ao próximo como a si mesmo; em terceiro, a falsa compreensão do amor à prata, aos prazeres, ao corruptível e ao erro. Orígenes já deixa manifesto que a terceira constitui uma falsa compreensão, pois o amor verdadeiro não se apega a nada que seja puramente material ou corruptível. Esses são os três estágios fundamentais, porém demasiado genéricos ainda. Enquanto fonte de tudo o que há de elevado no amor, o Logos compreende todas as virtudes: a justiça, a paz e a verdade, porque não amamos as virtudes propriamente. Amamo-las enquanto participam do Logos, ou seja, o Logos personifica todas as virtudes (ORÍGENES, 1991, I, 6, 13). Porém, como a participação no Logos não acontece equitativamente, pois depende do grau em que cada ser humano abre- se a tal participação, igualmente a participação no amor tem graus diferenciados. Há um grau de participação em que se reconhecem os seres com o afeto e a dignidade reais; em seguida, há os seres que, em virtude de seus progressos, equivalem às concubinas; em terceiro, encontram-se as donzelas e o grau mais distante de participação equivale às ovelhas indistintas dentro dos rebanhos (ORÍGENES, 1991, II, 4, 6). A grande diferença própria da participação no Logos encontra-se de fato no modo de participação, pois há um conhecimento comum a muitas escolas filosóficas em que só os iniciados chegam ao conhecimento e participação do Logos. Ao passo que a participação compreendida na dinâmica do Logos acontece mediante a verdade que ele revela. Enquanto busca o progresso no conhecimento, a humanidade procura em Deus a plenitude da ciência (ORÍGENES, 1991, II, 4, 37). Mas só se alcança a ciência divina mediante o conhecimento de si, ele (1991, II, 5, 1-2) afirma:

De um dos sete que a fama celebra entre os gregos como mestres em sabedoria, transmitiu-se, entre outras, esta admirável sentença: Intera-te de ti

mesmo, ou: Conhece-te a ti mesmo. Sem dúvida, Salomão, que já em nosso prólogo

mostramos que havia precedido a todos eles em tempo, em sabedoria e em conhecimento das coisas, disse o mesmo falando à alma como a uma mulher e com certo tom ameaçador: Se não te conheces a ti mesma, oh bela entre as mulheres; se não reconheces que as causas de tua beleza estão no fato de haver sido criada à imagem de Deus, pelo qual há em ti tanto esplendor natural; e se não sabes, oh bela, que eras desde o princípio, por mais que agora já avantaje-se às demais mulheres e entre elas sejas a única, quem eras, pois eu não quero que tua beleza pareça boa por comparação com as menos belas, senão que haja em ti correspondência contigo mesma e te ponhas ao nível de tua própria dignidade; se fazes tudo isso, eu te ordeno que saias e caminhes sobre as últimas filas dos rebanhos, e que não apascentes já ovelhas nem cordeiros, mas cabritos, ou seja, aqueles que por sua depravação e sua lascívia estarão à esquerda do rei que preside no juízo.

O Alexandrino abre a dinâmica do conhecimento de si como princípio do reconhecimento da verdadeira sabedoria. Enquanto os gregos falam do conhecimento de si, Salomão propôs o conhecimento, porém tendo uma maior consciência de causa. Sua precedência temporal, sapiencial e gnóstica garante-lhe a autoridade no que fala. O conhecimento de si constitui a raiz da verdadeira beleza. Porém, essa beleza nada tem de físico, mas sim do reconhecimento da imagem divina impressa em cada pessoa. Não se reconhece a beleza por comparação ou pelos atributos físicos, mas em virtude dos traços divinos impressos em cada ser. Além disso, faz-se notar que a beleza atribuída ao conhecimento de si depende de dois fatores: a correspondência consigo mesmo e o reconhecimento da própria dignidade. Não há beleza, senão quando se sabe quem se é. Há uma necessidade intrínseca no reconhecimento de si que é, justamente, a correspondência consigo mesmo, pois quando não se sabe quem se é, torna-se impossível agradar a Deus. A coerência interna constitui o primeiro critério para a verdadeira beleza do conhecimento de si. O segundo critério encontra-se no reconhecimento da própria dignidade, decorrente da imagem divina impressa em cada pessoa. Sem a coerência e o reconhecimento da própria dignidade não existe beleza estável e verdadeira. Na ausência dessas, o ser humano é reprovado e relegado às últimas filas entre os caminhos dos que buscam o divino.

Não obstante, o conhecimento de si, além da correspondência consigo e do reconhecimento da dignidade, nada tem de estático. Há uma dupla dinâmica interna que propicia o crescimento no conhecimento de si. A primeira vertente decorre do conhecimento da alma e de que maneira se comporta, ou seja, essa é a dinâmica do empenho na vivência das virtudes, tanto em pensamento quanto em obra. O ser humano deve buscar o conhecimento de si através da prática das virtudes em pensamento e obras. A segunda vertente decorre do

cultivo de si mesmo, tanto através de obras úteis e sábias quanto de exemplos e atos meritórios. Eis os dois caminhos que possibilitam o crescimento no conhecimento de si (ORÍGENES, 1991, II, 5, 7-8).

Para que se comprove se há um crescimento real no conhecimento de si, Orígenes apresenta dois aspectos que devem ser examinados: a avidez pela glória que se traduz na busca do reconhecimento de si ou o desprezo absoluto de toda glória, pois, quando o ser humano conhece-se a si mesmo, sabe os limites do que recebe, saberá também discernir se o que recebe o deixa indiferente ou se goza tudo o que recebe como um bem (ORÍGENES, 1991, II, 5, 12-13). Pois se está completamente desapegado de tudo o que recebe, crítica ou elogio, então é sinal de que reconhece a própria dignidade, independentemente do reconhecimento alheio. Ao contrário, se está apegado demais a tudo o que recebe e com tudo o que se aflige, sabe-se que ainda não tem conhecimento da própria dignidade, pois depende de reconhecimento alheio. Essas e outras comparações podem ser estabelecidas para que se veja o grau de conhecimento e de coerência interna consigo mesmo.

Orígenes vai mais além: para os que não se conhecem a si mesmos, resta somente o caminho da deserção, pois todos os que têm a possibilidade do encontro com o Logos na sua câmara nupcial e com ele não se afeiçoam, afastam-se do conhecimento de si e, por isso não merecem mais serem contados entre os seguidores do Logos. O próprio Logos os rechaça às últimas fileiras do rebanho, pois tornaram-se indiferentes a todas as ações, vivem de modo vulgar e não discernem o que devem fazer e o que evitar, o que mudar e o que conservar em suas atitudes. Orígenes (1991, II, 5, 16) assevera:

O que ensina nossa passagem à alma, sob a figura da mulher, para que possa conhecer-se a si mesma, e diz: se não te conheces a ti mesma, isto é, se não guias teus sentimentos com ajuda das diversas indicações acima mencionadas e se não és capaz de discernir cada coisa: o que deves fazer e o que deves evitar, o que te falta e o que te sobra, o que deves emendar e o que deves conservar; ao contrário, se queres agir indiferentemente entre as outras almas da vulgar vida dos homens (entre as que aqui chama mulheres e entre as quais tu és bela por haver recebido já os beijos do Logos de Deus e haver visto os segredos de sua câmara do tesouro); se, repito, não te conheces a ti mesma e, ao contrário, queres agir indiferentemente como o vulgo comum, sai e segue o caminho dos rebanhos, vale dizer: tu estarás entre o resto do rebanho se, depois de todo o que te foi confiado, sois incapaz de agir fora da grei e de separar-te do trato gregário, por não conhecer-te a ti mesma.

O desconhecimento de si, por falta de correspondência interna ou de coerência, e o desconhecimento da própria dignidade conduzem irremediavelmente à exclusão do rebanho. Quem não se conhece caminha entre o vulgo, vive a vida gregária dos rebanhos. Mesmo depois de experimentar os beijos do Logos, reconduz-se às vias da incapacidade de agir fora

dos costumes da grei, de apartar-se do rebanho, de sair da vulgaridade. Eis o resultado do desconhecimento de si a que chega o ser humano que não busca o próprio conhecimento. Tal ser humano arrola-se na vulgaridade de agir como rebanho e vivendo, age indiferentemente diante de tudo. O conhecimento de si constitui um aspecto do conhecimento, mas é urgente buscar o conhecimento de Deus e das criaturas. “Por conseguinte, o dever primordial da ciência é conhecer a Trindade; em segundo lugar, não obstante, conhecer o que criou, segundo o que dizia aquele (Salomão): pois o mesmo me deu a verdadeira ciência de quanto existe, da

substância do mundo, das propriedades dos elementos, do princípio, do fim e do meio dos tempos, etc.” (ORÍGENES, 1991, II, 5, 20) A teoria do conhecimento origeniana comporta

três estágios: a ciência divina, os mistérios do mundo e o conhecimento de si, sabendo que a ausência do conhecimento de si compromete toda busca de conhecimento do mundo e de Deus. Aliás, quem não busca o conhecimento de si, além de permanecer excluído do conhecimento dos mistérios do mundo e da ciência divina, é conduzido ao estágio da vulgaridade, aos últimos lugares no rebanho, pois não saberá discernir os caminhos do conhecimento, da ação, da interrogação de si mesmo e da condução da própria vida (ORÍGENES, 1991, II, 5, 31).

O caminho do conhecimento de si, por outro lado, faculta as maiores venturas. Todos os que o buscam sinceramente logram êxito e reconhecimento de si, até o ponto de ser ornado de virtudes e “ser transportado pelo amor da perfeição da terra ao céu” (ORÍGENES, 1991, II, 8, 7). O derradeiro fruto do conhecimento de si só se experimenta na comunhão celeste através da ação do amor que para lá transporta tantos quantos buscam sinceramente esse conhecimento. Finalmente, o conhecimento de si introduz o ser humano na intimidade do Logos. Tendo-o atado entre os seios, como a fragrância do campo e a suavidade do Logos, tal indivíduo trará em seu coração todo afeto e todo amor porque já foi atingido e transportado pelo Logos ao interior dos seus mistérios (ORÍGENES, 1991, II, 10, 11).

O conhecimento de si, os mistérios do mundo e a ciência da Trindade constituem a condição prévia para que o amor não seja desordenado. Feita essa longa exposição, cumpre-se doravante apresentar o sentido e o modo como o amor ordena a existência de todo aquele que por ele se deixa conduzir. Tal amor difere completamente de toda desmesura (), pois, antes de tudo, é o amor que ordena os afetos dirigidos a Deus, ao próximo, a si e aos inimigos. O Alexandrino inicia sua exposição sobre a ordinata caritatis no comentário à súplica do ser humano ao Logos: “ordena em mim o amor ()” (Cântico dos Cânticos (1953) 2, 4), ao que se segue uma das mais belas páginas do Alexandrino (1991, III, 7, 2-5):

Enquanto ao que disse: Ordena em mim o amor, significa o seguinte: sem dúvida, todos os homens amam algo, e não há um só que, chegada à idade de amar, não ame algo, como já demos a entender suficientemente no prólogo desta obra. Mas o amor que nos ocupa, porém, em alguns procede conforme a uma ordem e ajustado a uma regra, enquanto que na maioria procede contra a ordem. Agora bem, se disse que o amor procede em um contra a ordem quando, ou bem ama o que não deve, ou bem ama o que deve, mas mais ou menos que o justo. Por isso se diz que neste, o amor é desordenado; ao contrário, naqueles – e creio que são muito poucos

– que caminham pela senda da vida sem desviar-se nem à direita nem à esquerda, e

unicamente nestes, o amor está ordenado e mantém sua regra. Agora bem, a ordem e a medida deste amor são, por exemplo: em amar a Deus, não há limite nem medida, senão esta única: que lhe dê tudo quanto tens; efetivamente, em Cristo Jesus há que amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças: por isso neste amor não há medida nenhuma. Porém, no amor ao próximo há certa medida:

Amarás – diz – a teu próximo como a ti mesmo. Por isso, se no amor a Deus fazes

menos do que podes e do que dão de si suas forças, ou se entre ti e teu próximo não manténs a igualdade, senão que fazes alguma distinção, então o amor não está ordenado em ti, pois nem sequer guarda sua própria ordem.

Consideremos atentamente o que foi dito. A ordem do amor, ou melhor, a ordinata

caritatis não resulta de algo extraordinário. Ao contrário, o amor resulta de uma tendência

natural em todos os seres humanos. Amamos, independentemente do objeto, mas amamos. Ainda que seja algo indigno de amor, mas os seres humanos sempre amam. Há, no entanto, aqueles em que o amor é ordenado e noutros, desordenado. Nesse, há apego excessivo ao que é inadequado como objeto de amor. No amor ordenado há uma condução da vida sem desvios nem desmesuras, pois tudo se encontra devidamente ordenado. A ordem do amor tem sua origem em Deus. Enquanto “objeto” mais excelente do amor, é ele quem ordena o amor. E não há medida no amor a Deus. É o amor perfeito, completo, com todo o coração, alma e forças, isto é, com a certeza interior da decisão, com toda a inteligência e com todos os objetos ordenados a Deus. Eis a desmesura suportável no amor: amar a Deus sem medida. O aspecto subsequente do amor encontra-se, precisamente, no amor ao próximo. Porém, este amor já não tem a desmesura do anterior. A medida do amor ao próximo equivale à medida do amor a si mesmo, por isso o conhecimento de si torna-se fundamental na dinâmica do amor. De fato, sem a correspondência consigo mesmo e sem o reconhecimento da própria dignidade não se alcança uma relação equitativa com o próximo. A equidade garante a justiça no amor ao próximo. Se ela está presente, não haverá sobrevalorização ou desprezo. Ao contrário, sem equidade, o amor ao próximo facilmente degenera-se em um altruísmo exagerado ou em menosprezo pelos outros. A equidade é a medida da justiça para com o próximo. Quando o amor a Deus não é vivido com todas as forças e o amor ao próximo não respeita a lei da equidade, não se alcança a ordinata caritatis.

O amor a Deus não comporta medida. No entanto, o amor ao próximo exige o amor a si mesmo, pois quem não se ama, vale dizer, quem não se conhece, também não reconhece

nem ama o próximo. A medida para esse amor encontra-se na equidade ou igualdade. Ademais, ninguém vive sozinho. Orígenes recorre ao Apóstolo para afirmar a saída do egoísmo a dois ou do altruísmo, pois todos somos membros uns dos outros. Não basta o amor ao próximo, enquanto imediatamente próximo, o que seria um egoísmo a dois. Porém, não deve polarizar a relação com o próximo por um pólo exclusivo exterior, o que caracterizaria um altruísmo exagerado. Mede-se a relação com o próximo pela equidade ou igualdade. Além disso, nenhuma relação reduz-se à dualidade, porque todos somos membros uns dos outros, ou seja, todos os seres humanos vivem em sociedade e igualdade de condições. Finalmente, há duas últimas condições do amor ao próximo: a semelhança que une todos os membros da família humana e o conhecimento que deve ser contíguo à ordem, ou seja, o amor ao próximo liga-se intimamente ao conhecimento que dele alcançamos (ORÍGENES, 1991, III, 7, 6-8).

O amor ao próximo comporta também certas distinções. Embora sejamos todos membros uns dos outros e tenhamos uma mesma substância que nos faz ser, no entanto, os que ensinam o caminho divino e transmitem uma regra de vida merecem maior reconhecimento. Aqueles que ensinam e pregam a sabedoria, levam uma vida santa, inocente, pura e caminham de modo irreprovável em suas ações. Além de agir conforme as obras da justiça, merecem maior reconhecimento e amor que aqueles que agem injustamente (ORÍGENES, 1991, III, 7, 9 e 12). Orígenes recorre aqui à noção do mérito decorrente das ações louváveis, pois todos os seres humanos delas são capazes. Só não as praticam aqueles que têm um amor desordenado e apego à vida vulgar. Além do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo, ele considera também o amor aos inimigos. Entre os inimigos, há os que merecem maior ou menor respeito, conforme a decência de sua conduta.

Eu creio que também aqui há uma ordem do amor. Por exemplo: eu tenho um inimigo que ademais, se porta bem, é honesto e sóbrio e cumpre os mandamentos de Deus em sua maior parte, ainda, como homem, perde em algo; e temos outro que também é inimigo nosso, certamente, mas ademais é inimigo de toda sua alma e de toda sua vida, pronto para o crime, rápido em difamar, e que a nada considera digno de veneração e respeito: não te parece também, que entre ambos inimigos o amor tem que fazer certa distinção? (ORÍGENES, 1991, III, 7, 9 e 12)

Nosso autor faz questão de reconhecer os méritos e a retidão de caráter de quem quer que seja. Mesmo um inimigo, se age corretamente, merece reconhecimento por sua decência e retidão. Ao passo que os injustos e desmedidos não o merecem. Com isso, Orígenes inaugura uma ética do amor que prima por três características: desmedida do amor a Deus, equidade e mérito do amor ao próximo, mérito e reconhecimento das virtudes dos inimigos. Essas características, no entanto, somente tornam-se viáveis se o ser humano conhece-se

verdadeiramente. O desconhecimento de si inviabiliza o reconhecimento do outro e dos seus méritos. Somente quem se conhece torna-se capaz de reconhecer a Deus, ao próximo e aos inimigos, tratando-os segundo seus méritos.

Antes de concluir o sétimo capítulo, todo ele dedicado à ordinata caritatis, Orígenes inclui o amor às mulheres dentro da ordem da caridade. Refere-se às mulheres citando a mãe, as irmãs, as esposas e cada mulher em particular. Para tanto, usa uma das mais belas e expressivas imagens do amor: os homens devem amar as mulheres à medida do amor do Logos pela Igreja. À mãe, ele dedica o amor “com a máxima honra”. Às irmãs, deve-se amar com respeito. À esposa, dedica-se um privativo e díspar de todos os outros, pois ele retoma a imagem do amor de Cristo pela Igreja. A esposa merece toda a atenção do esposo, pois