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Iniciemos nossa discussão com a diferença entre a epistemologia clássica, como a de Hegel, e a epistemologia genética de Jean Piaget.



31 Interdependência significa a relação que possibilita correspondência entre as estruturas.

A epistemologia hegeliana busca a teoria do conhecimento, ou seja, busca explicar a novidade, apoiando-se na estética discursiva e atribuindo uma lógica à essência dos fenômenos e sistemas. Já a epistemologia genética busca a teoria do conhecimento, atribuindo uma lógica ao processo construtivo das ideias. Na epistemologia genética, as estruturas do conhecimento possuem matriz lógica.

Isso nos leva a entender que a dialética de Hegel e a dialética de Piaget se distanciam, pois a primeira entende a ideia e o real como contraditórios. Dessa forma, não há como a ideia ser realidade e a realidade ser ideia. Para esta dialética, o movimento do espírito só acontece nesta contradição, não se podendo imaginar o pensamento desligado do real, pois a oposição ideia/real não é uma oposição de mútua exclusão, de duas realidades distintas.

Já na dialética piagetiana, a ideia reside na equilibração, como afirmei anteriormente, por meio da interdependência entre estrutura e criação da novidade, que ocorre pelo movimento do equilíbrio em ação.

O conceito de totalidade e movimento central na dialética perpassa em Piaget por sua opção estrutural. Assim, para ele, a relação sujeito/objeto representa a díade dialética, ou seja, dois polos dentro de uma mesma totalidade.

Para Piaget, as situações dialéticas são interdependências criando novas interdependências e é a equilibração que coloca em relação as estruturas. Como assinala Macedo (apud VASCONCELOS, 2007, p. 94), “no modelo regulador, as interdependências assimilação-acomodação, afirmação-negação, equilíbrio-desequilíbrio são centrais. No modelo dialético a negação e a contradição também são conceitos centrais”.

Penso ser importante caracterizar com mais profundidade quais são os aspectos funcionais da interdependência. São eles32:

1º) O enriquecimento mútuo e mais ou menos simultâneo dos sistemas. 2º) A conservação do sistema total, por causa das variações dos subsistemas.

3º) A coordenação entre sistemas que não variam, que se formam uns a partir dos outros e que conservam o todo dentro de seus desvios (afastamentos) ou dos afastamentos (desvios) do observador.

4º) As interdependências multitransformacionais são as ações do sujeito que modificam as relações entre os elementos (elementos de um sistema dentro das estruturas) com a intenção de tomada de consciência, a princípio, de usar o que vier depois.



32 Interdependência é aspecto funcional da dialética porque ela é assimilação/acomodação, afirmação/negação.

Estas palavras indicam “contraposição de ideias”, mas que estão unidas e formam uma nova ideia (sistema para Piaget).

5º) A distinção que acontece entre as ações exploradas do sujeito e a coordenação de relações não-visíveis. Quer dizer, a distinção entre a ação do sujeito e a conservação e o desvio dos elementos do todo.

6º) A alternância na construção de sistemas que geram um ao outro, alternando a construção dos sistemas em movimento espiral.

7º) Os fatores do subsistema que entram em ação quando um subsistema domina e o outro está em stand by.

8º) A distinção das pseudo-dependências das dependências reais. A pseudo-dependência é “melhor” que a dependência real, pois a primeira constrói um conjunto de interdependências possíveis que são atualizadas, ao passo que a segunda constrói um conjunto de interdependências possíveis que não são atualizadas. A primeira é aberta, a segunda é fechada.

Podemos entender a dialética piagetiana, também, por meio:

a) das negações. A dialética constitui as negações, que têm um papel igual ao das afirmações, porque a negação é uma ideia construída, um produto e um instrumento da dialética. Para Piaget, a construção genética possibilita uma simetria entre as afirmações e as negações. A construção das negações é o produto de uma dialética elementar (nível pré- operatório) antes de se tornar o instrumento de uma dialética superior (nível lógico formal). Assim, a dialética construtivista das negações não é predeterminada, mas se dá no processo33de nível elementar da ação pré-operatória até o nível lógico-formal. A negação para de se construir como elemento em formação depois do nível lógico-formal.

b) das contradições. Para Piaget, a contradição indica a dialética implicada entre as ações ou operações do sujeito. Penso ser importante diferenciar as ações e operações do sujeito do enunciado, ou seja, daquilo que ele afirma. As ações e operações são aquilo que o sujeito faz, o que é menos amplo do que o que o sujeito diz ser capaz de fazer. O enunciado é aquilo que o sujeito diz fazer e, portanto, é mais amplo do que o que o sujeito faz. Com isso, o enunciado contém contradições mais amplas e menos numerosas, mas com mais possíveis, porque uma grande quantidade de contradições comporta uma regulação interna menos precisa e mais aberta às representações e às linguagens. A impossibilidade na ordem da ação diminui na ordem dos enunciados. O impossível no fazer é mais latente 

33 O grifo na palavra processo indica o que venho dizendo desde o começo do capítulo, a respeito da dialética:

que o impossível no enunciado (na palavra), pois a palavra está manifesta. Isto se dá por causa da semiótica, que distancia o falar da realidade. Como a negação, as contradições são construídas desde o nível mais elementar até o nível superior do pensamento.

c) da identidade dos contrários. O aspecto dialético funcional da identidade dos contrários é que cada operação implica outra operação, ou seja, cada ação pode construir outra ação, pode construir uma não-ação e pode construir uma reação. Assim, como as negações e as contradições, a identidade dos contrários é construída desde o nível pré-operatório até o nível lógico formal do pensamento.

É importante também que se discuta a noção de desequilíbrio para Piaget, pois é um dos mais importantes aspectos funcionais da dialética.

O equilíbrio cognitivo só é possível se existir desequilíbrio cognitivo provocado pelo encontro do sujeito com o mundo das ideias e/ou físico. O desequilíbrio cognitivo promove o movimento funcional e estrutural das ideias pelo conflito entre sujeito e objeto, que promove a tensão necessária para movimentar a estrutura. Isso se dá pela insuficiência de acomodação, ou seja, pela não confirmação de hipóteses causada pelas experiências vividas ou pela defasagem temporária (tempo necessário para se acomodar) da acomodação.

O desequilíbrio também pode ser suscitado pelo conflito entre os subsistemas e sua falta de coordenação e, além disso, representa a insuficiente coordenação dos subsistemas com suas totalidades.

O jogo de desequilíbrio/contradições está presente em todo o desenvolvimento da inteligência. Assim, posso afirmar que o desequilíbrio e a contradição são palavras similares para a constituição da funcionalidade dialética.

Outro aspecto funcional da dialética, importante para ser discutido é a noção de superação para Piaget. A superação é a síntese que resulta das combinações novas de implicações e que não se desassocia do processo de modificação das estruturas em novas totalidades. A superação é o aspecto funcional e construtivo emergente do conhecimento, ou seja, ela anuncia o avanço do conhecimento.

Penso ser importante também discutir, rapidamente, a noção de relativização para Piaget, porque ela também é constituinte do aspecto funcional da dialética. A relativização é a inter-relação inerente ao processo dialético, pois ela é o jogo das relações das interdependências.

Na estrutura, a retroação e a proação (ação anterior e ação posterior) funcionam em cadeia. Um exemplo disso é que o sujeito não pode anteceder o tempo sem ter a noção de conservação de tempo desenvolvida.

Na dialética, a abstração reflexionante ou o reflexionamento, a reflexão e o pensamento reflexivo, conceitos que discutirei mais profundamente adiante, promovem a inter-relação entre o pensamento anteriormente abstraído e o pensamento que o sujeito construirá. Devemos nos lembrar de que este movimento não é em cadeia ou em somatória, mas em movimento espiral do desenvolvimento.

Sendo assim, o possível e o necessário são parte de um paralelismo em espiral que compõe os processos funcional e dialético da exploração e construção do real. Ou seja, novos possíveis geram novas necessidades que possibilitam novos possíveis e assim por diante.

As interdependências dialéticas compõem a circularidade que está vestida de totalidade, negação, contradição e contrários em todo o funcionamento cognitivo. Circularidade não é a volta para o mesmo lugar, é uma circularidade dialética parecida com o movimento yin-yang, em que o círculo não se fecha, estando aberto aos possíveis. O círculo só se fecharia do ponto de vista estrutural, mas está aberto às significações diferentes porque os conteúdos vão se enriquecendo e abrindo um novo círculo e novas formas.

Acredito, portanto, que a novidade não é a repetição ou o radical novo, ela é construída em espiral. Assim, o devir do conhecimento se faz com a integração do ultrapassado e a abertura de novos possíveis.

Para Piaget, a dialética não se resume somente a tese, antítese e síntese. Para ele, já existe dialética quando dois sistemas distintos e separados, não necessariamente opostos, fundam-se em uma totalidade nova, cujas propriedades os ultrapassam. Ou seja, a dialética piagetiana é genética, não especulativa, descontínua e alternante.

Arriscando-me a um pequeno resumo, entre momentos de equilíbrio e equilibração, a dialética comporta autodeterminação, totalidade, negação, contradição, contrários, superação e síntese. Por isso, o caráter essencial da dialética piagetiana está assentado nas interdependências discutidas anteriormente, sendo elas fundantes para a abstração reflexionante.